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CONCLUSÃO

No documento UNIVERSIDADE DE LISBOA (páginas 55-65)

transferência dessas informações. Hoje em dia, basta um usuário criar um canal no YouTube que esse conteúdo automaticamente ficará disponível para todo o mundo. É de se esperar naturalmente que a língua falada tenha algum papel na hora da escolha dos conteúdos assistidos e que conteúdos gerados no Brasil cheguem em Portugal com uma rapidez grande. O contrário também é verdadeiro. E isso é válido no intercâmbio de informações entre todos países falantes da língua portuguesa.

Apesar de não ter sido uma pergunta específica presente no guião das entrevistas, alguns entrevistados ao verem que o autor do trabalho estudava em Portugal, comentaram sobre o fato de um pequeno percetual do número de visualizações de seus canais virem desse país. A maioria dessas falas foram ditas antes de as entrevistas começarem a ser registradas ou depois delas serem encerradas. Por esse motivo não estão em nenhuma transcrição. Esse fato pode ser melhor investigado e certamente é mais uma questão relevante para análises na área de comunicação em ciências.

Nesse sentido, optamos por estudar os canais de divulgação de ciências mantidos por brasileiros na plataforma do YouTube. Para restringir o escopo do estudo, ainda fizemos mais uma delimitação. Estudar apenas a comunicação em ciências feitas por criadores independentes, ou seja, que não eram instituições como meios de comunicação, universidades e institutos de pesquisa.

Com a metodologia aplicada, descobrimos 83 canais de divulgação de ciências mantidos de maneira independentes por criadores de conteúdo. É importante ressaltar que, nessa análise, pode existir uma pequena taxa de canais que possam ser compreendidos como não pertencentes a área especifica de comunicação de ciências. Para essa análise, utilizei algo que é bastante utilizado nas ciências. A análise por pares. Entretanto, o único par que fez a análise do conteúdo desses 83 canais foi o próprio autor dessa dissertação. Dada a imensa quantidade de trabalho, pode ser que haja discordância com relação à classificação de pouquíssimos canais. Para uma análise mais precisa, recomendar-se-ia que a mesma metodolgia de validação pelos pares fosse aplicada, entretanto com a participação de uma pequena comissão para tal.

Outro ponto importante é que depois que essa listagem foi feita, o autor passou a conhecer outros canais de divulgação de ciências. Ironicamente, alguns deles foram conhecidos pela apresentação do próprio algoritmo de recomendação da plataforma.

Como o autor do presente trabalho também possui um canal no YouTube, pediu aos seus inscritos que fizessem uma listagem de canais de divulgação de ciências que conheciam na plataforma. Dessa listagem, surgiram os 83 canais. Como o canal do autor é historicamente relacionado com a Física, certamente houve um enviesamento para que muitos canais de

divulgação de Física e Astronomia aparecessem na pesquisa. Para um mapeamento mais abrangente, recomendar-se-ia aplicar a mesma metodologia, que se mostrou eficiente, fosse aplicada em vários outros canais para que houvesse uma espécie de mapeamento cruzado.

Além disso, caso a metodologia de pedir aos usuários que listassem canais de divulgação de ciências fossem aplicadas em canais de Economia, por exemplo, é de se esperar que surgissem ali canais que fugiram a essa primeira busca. Dessa maneira, pode-se dizer que essa metodologia de análise foi eficaz comparada a outras já utilizadas, entretanto certamente deixou de fora muitos canais.

Os 83 canais somados contam com quase 5 mil milhões de visualizações em seus vídeos, ou seja, tiveram um alcance grande desde sua criação. Os canais apresentaram diferentes históricos de evolução na plataforma, alguns criados há pouco tempo e que cresceram muito rapidamente, enquanto outros tiveram crescimento mais estável. Entre as descobertas, está o fato que os canais de ciência se encontram num ambiente híbrido entre a criação de conteúdo gerado por usuários e a rentabilização, mostrando que o estudo de Arthurs, Drakopoulou &

Gandini (2018) também se aplica aos canais de ciência. A rentabilização paga aos canais com a veiculação de anúncios desempenha um papel importante nos canais de grande alcance, uma vez que muitos deles utilizam a plataforma como meio de sustento financeiro próprio e alguns chegam a manter pequenas equipes para produção. Já para os canais de menor alcance, a rentabilização desempenha papel pequeno ou quase nulo na definição das pautas científicas.

Além disso, todos os canais foram criados e são mantidos por pessoas que têm alguma relação com a ciência. No grupo de entrevistados, a maioria tinha formação na área científica com diferentes graus de especialização, passando por licenciados, especialistas e mestres.

Dentre aqueles que não eram formados na área, um possui uma equipe de pessoas foramadas e que dão consultoria na elaboração das pautas enquanto o outro traduz e dobra os vídeos que são feitos em língua inglesa por uma equipe de profissionais da área.

Apesar dos canais terem sido criados em diferentes épocas e terem diferentes alcances, parece haver uma unanimidade. Todos enxergam a importância da divulgação das ciências para sociedade e foi um dos motivos que os fizeram criar seus canais para divulgar ciências na plataforma. O presente trabalho também ajuda a corroborar o estudo de Entradas (2015) que mostra que existe uma demanda crescente por conteúdos de cunho científico por parte da sociedade.

Deve-se frisar que os motivos pelos quais os criadores de conteúdo fizeram seus canais estão de acordo com aqueles levantados na literatura da área de comunicação em ciências. Nem todos os criadores falaram com as mesmas palavras, mas eram sempre relacionando à

importância com a democracia. Da importância na preservação das espécies e meio-abiente.

Também salientaram aspectos da importância na área da saúde no contexto da pandemia no qual estamos inseridos atualmente.

Outro aspecto que foi salientado é que, apesar do YouTube ter feito esses canais terem um crescimento muito grande em alguns casos, ele também foi enxergado como um dos responsáveis pela propagação de informações falsas com relação aos mais variados campos do conhecimento. Alguns canais têm o foco quase que exclusivo de combater e desmentir essas informações falsas. Nesse sentido, é de se pensar que a plataforma tem suas responsabilidades na propagação dessas desinformações. Afinal de contas, o mesmo algoritmo que usa inteligência artificial para fazer canais com informação fidedigna cheguem em muitas pessoas, aparentemente é usado para que informações falsas se propaguem na rede. Essa visão de divulgadores de ciência que produzem conteúdos para a plataforma são de valor muito importante, pois alguns deles enxergam tal situação melhor do que alguém que não tenha muito contato com essa plataforma de vídeos. Mais estudos nessa área também são importantes, para que se meçam esses efeitos e para que atitudes possam ser tomadas tanto pela empresa quanto pelos órgãos reguladores da informação.

Não obstante, o caso de sucesso de muitos canais em comunicar ciência de ponta de maneira correta e que seja entendida por um amplo público é de importância fundamental para a sociedade atualmente. Ter pessoas altamente capacitadas e com habilidades de comunicação por meio audiovisual é fundamental num país onde uma parte considerável da população dificilmente conseguiria acessar alguns tipos de informação de maneira escrita.

Além disso, quando falamos em comunicação de ciências, devemos ter o cuidado de entender que as diferentes ciências podem interessar ou até importar mais que outras variando de um indivíduo para outro. Algumas pessoas podem se interessar mais por compreender mais as ciências da área de Astrofísica, enquanto outras podem se interessar por ter mais conhecimentos sobre Cobras e Serpentes. Não é de se esperar que todas as pessoas tenham a necessidade de terem os mesmos conhecimentos sobre todos os assuntos e o YouTube pode ajudar nessa personalização. Obviamente que uma visão ampla e geral sobre os diferentes campos da ciência também é importante e para isso existem muitos canais na plataforma que o fazem de maneira bastante interessante.

O YouTube apresenta a potencialidade de existirem múltiplos canais sobre um mesmo assunto e que utilizem níveis de linguagens e objetivos diferentes. Podem existir canais sobre Economia, por exemplo, com uma linguagem extremamente acessível a fim de difundir os conhecimentos na área, ao passo que também podem existir canais com uma linguagem para a

divulgação da mesma ciência mas voltada apenas à um público de pessoas que sejam cientistas da área.

Com isso, o YouTube aparenta ser uma ferramenta que apresenta muitas potencialidades para a divulgação de ciências. Apesar da plataforma também propagar informações falsas, muitos canais de ciência cresceram nela e hoje conseguem atingir muitas pessoas por isso. É de se pensar que um aumento do número de canais de divulgação científica vá contribuir para um aumento da literacia científica daqueles que acessam esses canais. Para isso, é necessário entender a complexidade de manter um canal na plataforma, seja do ponto de vista técnico como financeiro. Entender tal dificuldade pode fazer com que sejam criadas entidades que deem um pequeno apoio financeiro inicial para canais que desejem fazer isso.

Além disso, outro ponto levantado por dois entrevistados mostrou que pode existir uma certa resistência por aqueles que estão dentro da academia e que fazem esse tipo de trabalho. É importante salientar que um dos criadores era professor e o outro estudante de instituições públicas no Brasil e mesmo assim sentiram um certo receio por parte dos pares. Investigar, compreender e resolver tal problema é também importante, pois num meio onde é escasso esse diálogo da academia com a sociedade, não se podem perder divulgador por questão de qualquer preconceito ou resistência que possa existir.

Por fim, temos que pensar não apenas no YouTube. Não apenas nos criadores independentes de conteúdo. Temos que analisar também como as instituições públicas no Brasil se apropriam dessa e de outras ferramentas das redes sociais para comunicar ciência. Aqui está um ponto onde pode e deve existir uma cooperação mútua no sentido de aprimorar esse trabalho. Como salientado, a extensão universitária no Brasil é definida como uma das bases do tripé das Instituições de Ensino Superior no Brasil e o YouTube e outras redes apresentam essa possibilidade de aumentar o diálogo da academia com a sociedade civil.

Os paradigmas de comunicação aos poucos estão sofrendo mudanças. Hoje temos múltiplas fontes de compartilhamento e de produção de conteúdo e nenhuma delas pode deixar de ser estudada para sua melhor compreensão. Além do estudo acadêmico, o estudo da técnica de produção e divulgação deve ser compreendida a fim de utilizar todas as potencialidade dessas ferramentas no sentido de aumentar a literacia científica dos cidadãos.

O presente estudo tem como limitação a metodologia aplicada. A entrevista semiestruturada é um excelente modelo de pesquisa para captar impressões de um grupo de pessoas sobre um determinado tema. Entretanto, ela não é boa para captar informações que podem estar difusas na rede. Atualmente vivemos a era de um grande fluxo de informações. O próprio YouTube é um exmeplo disso. Cada um dos vídeos desses canais de divulgação de

ciências pode chegar a conter milhares de comentários e respostas a esses comentários. Além disso, cada um desses canais possui centenas de vídeos com uma série de informações sobre ciências em cada um dos vídeos. Por esse motivo, é importante que a área de comunicação esteja em contato direto com a ciência de dados. Com as ferramentas computacionais e matemáticas elaboradas por estudiosos das ciências de dados, é possível categorizar, analisar, fazer estudos correlacionais e treinar redes de inteligência artificial para que façam análises que seres humanos jamais conseguiriam fazer com a quantidade de informações presentes.

O autor do presente trabalho compreende as limitações de um estudo qualitativo, que apesar de importante, pode deixar de capturar uma série de fatores importantes. Por esse motivo, o autor do presente trabalho está, no momento, fazendo cursos para aprender a utilizar as ferramentas de ciências de dados que são de grande importância para futuras análises de redes sociais em perspectivas quantitativas.

Como o autor do presente trabalho também possui um canal na plataforma, ele já tinha noção da existência dessa comunidade de divulgadores de ciência, entretanto é importante sistematizar esse conhecimento e levar esse tipo de discussões para dentro da academia. Aliás, um exemplo anedótico e curioso sobre o assunto é que para conseguir chegar em Portugal e acabar por escrever essa dissertação, o autor do presente trabalho pesquisou muito no YouTube sobre “Como estudar em Portugal?”, “Mestrado em Portugal”, “Como fazer Mestrado em Portugal”, “O que é o SEF?”, “O que é título de residência em Portugal”. E mais interessante que a pesquisa, é que existem muitas respostas de brasileiros que já percorreram esse caminho e ensinam como fazê-lo. Aliás, o autor do presente trabalho possui um questionamento. O fluxo imigratório de brasileiros para Portugal se manteve constante durante muito tempo20. Entre 2006 e 2010 houve um crescimento incomum. Curiosamente, 2005 foi o ano da criação do YouTube. Seria apenas uma coincidência ou haverá alguma correlação? Assim como análises mais profundas são necessárias para acompanhar a literacia científica em função dos canais de comunicação de ciências do YouTube, para responder a esse último questionamento também são necessárias ferramentas mais complexas da área da ciência de dados. A análise das redes sociais, em especial o YouTube, é importante em muitos campos. Não apenas na comunicação de ciências.

20 Fluxo imigratório de brasileiros em Portugal. Dados disponíveis no Gráfico 1. Disponível em:

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ANEXOS

ANEXO I

E-mail recebido pela curadoria da fundação Lemman.

Bom dia professor Felipe, Tudo bem?

Seguem 10 dados* que podem ajudá-lo em sua apresentação:

1. O YouTube Edu é um Projeto do YouTube em parceria com a Fundação Lemann;

2. Começou em Novembro de 2013 com 26 canais. Atualmente, o Projeto YouTube Edu agrega mais de 440 canais;

3. Esses canais NÃO representam o total de canais de educação que

existente no YouTube. Os dados se referem exclusivamente ao Projeto;

4. Os canais do Projeto totalizam, juntos, mais de 57 milhões de inscritos e mais de 5 bilhões de visualizações;

5. Para participar do Projeto é necessário o canal estar no escopo (ser educativo** voltado para estudantes de ensino Fundamental II e Ensino Médio), ter se inscrito e ter sido aprovado pela Curadoria. **Conteúdos educativos não se resumem a videoaulas;

6. Os canais cobrem majoritariamente (em ordem decrescente): Ensino Médio (cerca de 50%), Ensino Médio e Fundamental e Ensino Fundamental;

7. As disciplinas mais abordadas nos canais são [há canais com mais de uma ou diversas (ordem decrescente)]: Exatas, Humanas, Línguas e Biológicas;

[Esta é uma realidade que mudou, pois no início do Projeto a maioria dos canais era de Exatas e Biológicas];

8. Os canais estão localizados nas regiões (em ordem decrescente): Sudeste (cerca de 50%), Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte;

9. Cerca de 70% dos canais do Projeto atuam com as áreas indicadas (Matemática, Ciências, Física, Química e Biologia). Lembrando que isso não quer dizer que não há canais que atuam também com Humanas e Linguagens (caso de canais com múltiplas disciplinas);

10. Dentro do escopo apontado acima, os canais se encontram principalmente voltados para o Ensino Médio (65%), seguido por ambos níveis de ensino (EF II e EM) e depois por aqueles que atuam somente com Ensino

Fundamental (7%).

*Com dados de Março e Agosto de 2019.

Esperamos que os dados contribuam e que sua apresentação seja um sucesso!

Estamos à disposição Atenciosamente, Equipe YTEDU

Resposta 1 – Enviada por Felipe Menegotto Olá,

Vocês me enviaram alguns dados anteriormente sobre o tamanho do projeto

YouTubeEDU. Irei escrever um trabalho para uma disciplina e gostaria de saber se esses dados são públicos e caso sejam, onde posso encontrá-los. Irei fazer um trabalho acadêmico escrito para uma disciplina e por esse motivo gostaria de colocar a fonte dessas informações. Caso não haja escrito em nenhum documento que possa ser encontrado de forma independente por qualquer outra pessoa, venho pedir autorização para anexar o e-mail anterior em meu trabalho, caso

a fundação não veja problemas quanto a isso.

Atenciosamente,

Felipe Menegotto

Resposta 2 – Enviada pela curadoria

Autorizamos o uso dos dados citados no email, enviado em 28/11/19, no seu trabalho acadêmico. Lembramos, que os mesmos foram coletados em março e agosto de 2019.

Desejamos boas festas e um excelente 2020!

Abraços,

Equipe YTEDU

APÊNDICES

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