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UNIVERSIDADE DE LISBOA

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE CIÊNCIAS INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO

O YouTube como ferramenta de democratização da divulgação das Ciências

Felipe Nunes Menegotto

MESTRADO EM CULTURA CIENTÍFICA E DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS

Dissertação orientada pela Drª. Cecília Galvão

2021

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RESUMO

O YouTube é uma das maiores plataformas de criação de conteúdo colaborativo do mundo. Atualmente essa plataforma conta com uma base de 2 mil milhões de usuários mensais.

Isso corresponde dizer que, aproximadamente, uma a cada quatro pessoas no mundo utilizam a ferramenta, se considerarmos que cada pessoa esteja associada a um único usuário. Dentro desse contexto, o YouTube passa a ter uma importância grande em relação aos meios de comunicação social tradicionais. Assim, tem-se na plataforma uma alternativa a ser considerada como método de divulgação das ciências. Por esse motivo, faz-se necessário o estudo de como esse conteúdo científico é divulgado.

O presente trabalho tem por objetivo mostrar um quadro geral da divulgação científica no YouTube no Brasil por parte de divulgadores de ciência independentes, principalmente no que diz respeito ao alcance do público e à possibilidade dessa ferramenta servir para a democratização do conhecimento científico. Para isso foi feito um levantamento dos canais de divulgação de ciências brasileiros mantidos por indivíduos ou grupos independentes de instituições de pesquisa ou de grandes grupos midiáticos tradicionais no país. O levantamento apontou 83 canais dos quais 8 foram selecionados para aplicação de entrevistas semiestruturadas para ajudar a compreender alguns aspectos importantes com relação à comunicação de ciências na plataforma.

Os principais resultados são a descoberta de uma comunidade de muitos produtores independentes de conteúdo sobre ciências que se comunicam com milhares ou milhões de pessoas através do YouTube, ajudando a democratizar o conhecimento científico. Além disso, descobrimos o histórico de oito canais na plataforma para mostrar os diferentes caminhos percorridos para comunicar ciências para grandes públicos.

Palavras-chave: YouTube, Divulgação Científica, Redes Sociais

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ABSTRACT

YouTube is one of the largest collaborative content creation platforms in the world.

Currently, this platform has a base of 2 billion monthly users. This means that approximately one in four people in the world uses the tool, if we consider each user to be associated with a unique person. Within this context, YouTube has a great importance in relation to traditional media. Thus, the platform represents an alternative for the dissemination of the sciences that should be taken under consideration. For that reason, it is necessary to study how this scientific content is disseminated.

The objective of this dissertation is to present a general picture of scientific dissemination on YouTube in Brazil by independent science disseminators and, more specifically, to explore the reach of the public and the possibility of this tool being used for the democratization of scientific knowledge. In order to do this, we conducted a survey of the channels for the dissemination of Brazilian sciences maintained by individuals or groups independent of research institutions or large traditional media groups in the country. The survey pointed out 83 channels, of which 8 were selected for the application of semi-structured interviews to help understand some important aspects regarding science communication on the platform.

The main results are the discovery of a community of many independent science content producers who communicate with thousands or millions of people through YouTube, helping to democratize scientific knowledge. In addition, we discovered the history of eight channels on the platform to show the different paths taken to communicate science to large audiences.

Key-words: YouTube, Scientific Dissemination, Social Media

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 6

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 8

2.1 O YOUTUBE ... 8

2.2 A CIÊNCIA E O YOUTUBE ... 9

2.3 O PRODUTOR INDEPENDENTE DE CONTEÚDO DE DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS NA PLATAFORMA DO YOUTUBE ...11

2.4 O YOUTUBE, A EDUCAÇÃO E A DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS NO BRASIL. O CASO DA COMUNIDADE DO YouTubeEDU ...13

2.5 O USO DO YOUTUBE COMO FERRAMENTA PARA EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS ...14

2.6 O PERFIL DO USÁRIO DA INTERNET NO BRASIL ...15

2.7 RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E SOCIEDADE ...17

2.8 A ACADEMIA, A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E O YOUTUBE ...20

3. DELINEAMENTO DA PESQUISA ... 24

3.1 QUESTIONAMENTOS A SEREM RESPONDIDOS ...24

3.2 METODOLOGIA APLICADA ... 25

3.2.1 RELAÇÃO DE CANAIS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO YOUTUBE ...25

3.2.2 ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA ...26

3.2.3 CODIFICAÇÃO ...27

4. RESULTADOS OBTIDOS... 29

4.1 LISTAGEM DE CANAIS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA ...29

4.2 SELEÇÃO DOS ENTREVISTADOS ...33

4.3 ANÁLISE DAS ENTREVISTAS ...34

4.3.1 Quem são os criadores de conteúdo na plataforma? ...34

4.3.2 O que levou cada um a criar um canal de divulgação de ciências no YouTube? ....35

4.3.3 Evolução dos canais de divulgação de ciências no YouTube e qual a relação com seu alcance atual? ...37

4.3.4 Qual o papel da monetização paga via AdSense na definição das pautas científicas? ...41

4.3.5 Existem evidências do aumento da literacia científica por causa do canal? ...43

4.3.6 Qual a linguagem utilizada pelos canais? ...45

(5)

4.3.7 Preconceito/resistência com relação à divulgação de ciências no YouTube?...47

4.3.8 Qual a visão dos entrevistados sobre a importância da divulgação das ciências? ..49

4.3.9 Os divulgadores tiveram oportunidades profissionais relacionadas aos seus canais do YouTube? ...51

4.3.10 O YouTube é responsável pela propagação de teorias da conspiração e desinformação segundo os divulgadores de ciência da plataforma? ...52

5. CONCLUSÃO ... 55

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 61

ANEXOS ... 63

APÊNDICES ... 65

APÊNDICE I ...65

APÊNDICE II ...74

APÊNDICE III ...80

APÊNCIDE IV ...87

APÊNDICE V ...92

APÊNDICE VI ...99

APÊNDICE VII ...103

APÊNDICE VIII ...108

APÊNDICE IX ...117

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1. INTRODUÇÃO

O que aconteceria se eu caísse num buraco negro? Para o que serve o branco do olho?

Como se formam os arco-íris? Por que o céu é azul? Essas são quatro perguntas muito interessantes, em especial a última, uma vez que é muito comum observarmos crianças fazendo-as aos adultos. A curiosidade é algo que move a humanidade e não é algo restrito à infância. A curiosidade por diversos temas científicos e não-científicos é observada em todas as faixas etárias. A questão é, como saber a resposta para essas e outras inquietações quando surgem?

Antes do surgimento da Internet era muito mais dispendioso conseguir a resposta para essas questões simples que já são muito bem resolvidas e explicadas. Necessitava-se o gasto de muito tempo indo a uma biblioteca ou indo consultar um especialista, na preferência de ouvir alguém falando sobre a questão em dúvida.

Com a fase inicial da Internet, havia muita informação na forma de textos. A resposta a essas perguntas já estava na Internet em formato escrito há bastante tempo, entretanto há de se considerar que há uma dificuldade inata na comunicação científica na forma de textos, uma vez que as capacidades interpretativas da linguagem escrita são um entrave na comunicação entre as pessoas, principalmente em países subdesenvolvidos. Por exemplo, os dados do PISA 2018 indicam que ainda hoje no Brasil, cerca de 50% dos jovens brasileiros não atingiram o mínimo de proficiência em leitura que todos os jovens devem adquirir até o final do ensino médio.1

Ou seja, se dependêssemos apenas dos materiais escritos, uma parte considerável da população brasileira teria muitas dificuldades em interpretar a mensagem codificada no formato escrito. O surgimento da Internet facilitou o acesso ao conteúdo, mas ainda assim haveria um grande entrave para a ampla divulgação do conhecimento científico: a linguagem escrita.

Nesse contexto, evidencia-se o fato de que a comunicação verbal, na forma de áudio e/ou vídeo, facilita o acesso à informação pela maioria da população. Nesse contexto, uma ferramenta que permita a ampla divulgação audiovisual facilita a democratização do acesso a todo tipo de informação, inclusive a científica. Ainda mais se existir uma ferramenta que deixe o conteúdo ser criado de forma descentralizada e tenha isso como modelo de operação. Essa ferramenta existe e se chama YouTube. No presente trabalho, tentei compreender como o

1 Pisa 2018 revela baixo desempenho escolar em leitura, matemática e ciências no Brasil. Disponível em:

http://portal.inep.gov.br/artigo/-/asset_publisher/B4AQV9zFY7Bv/content/pisa-2018-revela-baixo-desempenho- escolar-em-leitura-matematica-e-ciencias-no-brasil/21206

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YouTube pode potencializar a democratização da divulgação científica, atingindo os mais variados públicos.

Evidenciar a relevância que esses canais da plataforma têm, seja através dos números ou dos relatos obtidos são importantes para que a pesquisa acadêmica passe a analisar com mais ênfase os discursos científicos presentes nas mídias sociais, pois essas passam a dividir espaços com os meios de comunicação social tradicionais.

No capítulo 2 será dada a fundamentação teórica sobre os aspectos abordados ao longo do trabalho. Deve-se ter em conta que as mídias sociais são algo bastante recente ao serem comparadas aos meios tradicionais de comunicação. Ou seja, o número de publicações sobre mídias sociais não é tão extenso quanto o de publicações sobre os media tradicionais. Além disso, por ser tão recente, análises específicas sobre a comunicação de ciências nessas plataformas ainda é uma área que pode ser bastante explorada. Por esse motivo, a quantidade de referências bibliográficas para a fundamentação teórica no presente trabalho não é tão elevada.

No capítulo 3 será dado o delineamento da pesquisa, onde serão apresentados os questionamentos a serem respondidos pelo presente trabalho.

No capítulo 4 serão apresentados os resultados das entrevistas semiestruturadas com a comparação das respostas dos entrevistados para cada um dos questionamentos levantados no capítulo 3.

No capítulo 5 são apresentadas as conclusões gerais sobre o presente trabalho, tal como as perspectivas para essa área de estudo.

Os apêndices I ao IX possuem todas entrevistas transcritas na sua integralidade. Optou- se por essa estratégia para manter a lisura da análise dos dados do presente trabalho, pois dessa maneira os dados brutos ficam disponíveis para qualquer pesquisador que queira contestar ou se aprofundar em qualquer um dos pontos do presente trabalho.

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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 O YOUTUBE

Os meios de comunicação social tradicionais passam a dividir espaço e atenção do público com novos meios de circulação de conteúdo (Bernadazzi, Braga & Da Costa, 2017, p.

148). Deve-se conhecer o alcance dessas plataformas para que se possa ter noção da importância dela nas discussões acerca da cultura midiática e das relações entre Cultura, Ciência e Sociedade. Segundo informações do próprio YouTube2 a média mensal de usuários logados no site é de 2 mil milhões. Isso corresponde a dizer, aproximadamente, que uma em cada quatro pessoas no mundo usa o YouTube, caso se considere que, em média, uma pessoa terá apenas um usuário associado.

Esses novos meios têm um alcance muito grande e fazem a distribuição de uma grande quantidade e variedade de conteúdos em larga escala, mas dão ao produtor de conteúdo quase total liberdade à criação do conteúdo.

Nesse contexto, os usuários de diferentes áreas que vão desde tecnologia, jornalistas, artistas e educadores formam um dos maiores exemplos de cultura participativa do mundo (Burgess & Green, 2009, p. 9).

O conteúdo do YouTube é distribuído de algumas maneiras, entre elas, são citadas algumas formas que estavam em vigor no ano de 2020:

• A ferramenta de pesquisa da plataforma.

• A página inicial da plataforma, onde aparecem os vídeos dos canais no qual o usuário é inscrito.

• A página “em alta”, no qual aparecem os vídeos mais bem classificados numa determinada região.

• A reprodução automática de vídeos após finalizar de assistir um vídeo qualquer.

• A barra lateral ao lado dos vídeos assistidos, onde são recomendados outros vídeos relacionados ao que se está assistindo.

É importante salientar que não é o escopo desse trabalho dissecar a distribuição do conteúdo. Apenas cabe salientar que essas são algumas formas de distribuição e que elas têm interferência de Inteligência Artificial no processo de recomendação de conteúdo (Covington

& Adams, 2016, p. 191).

2 Estatísticas do YouTube em 2019: https://www.youtube.com/intl/en-GB/about/press/

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Apesar do conteúdo ter uma distribuição pouco compreendida do ponto de vista dos produtores de conteúdo, uma vez que não sabem quais são exatamente esses algoritmos, alguns aprendem a interpretá-lo e a criar conteúdo que são amplamente divulgados pelo YouTube.

Além disso, salienta-se que, apesar dos algoritmos serem obscuros aos olhos de muitos produtores, ainda assim a ferramenta como um todo é mais democrática do que qualquer distribuidora de audiovisual que já existiu.

A maioria das pessoas jamais tem capacidade de chegar perto do meio de distribuição de conteúdo de larga escala convencional como a Televisão e o Rádio. No YouTube, por outro lado, há a oportunidade de um conteúdo gravado ser amplamente divulgado e, para isso, basta ter uma conta na plataforma, enviar um vídeo e ele ser bem interpretado pelas ferramentas de Inteligência Artificial para que atinja um grande público.

2.2 A CIÊNCIA E O YOUTUBE

Segundo artigo publicado recentemente por Welbourne & Grant (2016), ainda há poucos estudos na área de comunicação científica no YouTube. Uma das perguntas que podem surgir então diz respeito aos fatores que influenciam na disseminação do conteúdo científico no YouTube.

A resposta a essa pergunta depende de fatores baseados no conteúdo e fatores que vão para além do conteúdo, como divulgação em outras redes sociais. Apesar disso, os fatores relacionados apenas ao conteúdo demonstram ter influência principal no alcance de grandes audiências (Welbourne & Grant, 2016, p. 707).

Os autores também salientam que a popularidade dos conteúdos do YouTube não está relacionada com a quantidade de vídeos num canal, mas sim pelo número de visualizações, retenção e envolvimento do público.

Através de um estudo estatístico que Welbourne & Grant (2016) fizeram, foi calculado que eram necessários 390 vídeos para responder às questões que se propunham. Para evitar enviesamento estatístico de canais com grande número de inscritos, foram selecionados primeiramente os 1000 canais com maior número de inscritos nas categorias Ciência &

Tecnologia e Educação através do SocialBlade3. Foi feita uma escolha aleatória de um grupo de 50 canais e de onde foram selecionados vídeos também de maneira aleatória e revista para

3 SocialBlade é uma ferramenta que permite acessar estatísticas de todos os produtores de conteúdo de diferentes redes sociais. Disponível em: https://socialblade.com/

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inclusão no estudo. Do total, resultaram 39 canais analisados no estudo dos autores. Cabe salientar que esse estudo se limitou à língua inglesa.

O estudo separou os canais em dois grupos. Os vídeos criados por profissionais (entidades corporativas que usam o YouTube para expandir sua marca) e aqueles criados por usuários. Foi descoberto que há uma diferença nas métricas de envolvimento e popularidade dos vídeos quando comparados esses dois grupos de diferentes criadores.

Segundo os autores, alguns resultados encontrados foram:

• Os conteúdos gerados por usuários têm um comunicador fixo com maior frequência que os gerados profissionalmente.

• Canais que têm um comunicador fixo têm mais visualizações do que canais sem um comunicador fixo. Esse resultado se mostrou válido tanto para canais profissionais quanto canais de utilizadores da plataforma, mostrando mais importância quando são canais mantidos por usuários.

• Não foi encontrada uma correlação entre número de visualizações e duração dos vídeos.

• Na área científica, o número de canais profissionais é maior que os canais criados por usuários, apesar da popularidade dos canais criados por usuários ser maior.

• Os vídeos que entregavam informações num ritmo mais intenso eram mais vistos do que vídeos que entregavam informações num ritmo menos intenso, tanto para o caso de canais profissionais quanto para canais de usuários.

Os autores ressaltam que os usuários criadores de conteúdo de divulgação de ciências não necessitam ter medo de perder audiência para os criadores profissionais de conteúdo.

Esse resultado é explicado por Borgatti & Cross (como citado por Welbourne & Grant, 2016, p. 715) que explicam que na Web 2.0 os consumidores de informação consideram como fontes confiáveis aqueles que possuem as seguintes características:

• Expertise do comunicador

• Experiência

• Imparcialidade

• Afinidade

• Fato de ser considerado um criador de conteúdo idôneo nas redes sociais Com o estudo citado anteriormente, podemos ter uma primeira evidência que dê suporte aos estudos à divulgação de ciências no YouTube.

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2.3 O PRODUTOR INDEPENDENTE DE CONTEÚDO DE DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS NA PLATAFORMA DO YOUTUBE

Não há necessidade dos produtores de conteúdo para o YouTube terem nenhum tipo de formação na área audiovisual (Bernadazzi et al., 2017).

Uma das categorias presentes atualmente é a de Profissionais-Amadores, na definição do jornalista e teórico Charles Leadbeater (2004). Esses seriam pessoas amadoras que produzem conteúdo audiovisual com algum critério profissional de qualidade técnica. Segundo o autor, estes são os principais agentes da cultura participativa (como citado por Meili, 2011).

Nesse contexto, o YouTube tem alguns incentivos a canais que desejem começar a migrar de um espectro mais amador para mais profissional. Todos os anos existe um evento chamado YouTube NextUp, no qual alguns canais selecionados via concurso são agraciados com incentivos financeiros para a compra de equipamentos que ajudem a profissionalizarem a qualidade técnica. No ano de 2019, o YouTube NextUp foi direcionado aos canais de conhecimento criativo, ou seja, canais que estejam ligados à educação com um formato criativo como base. Entre os ganhadores, podemos citar quatro canais que exemplificam bem o conceito de Charles Leadbeater. São eles: A matemaníaca, Mais Ciências, Universo Narrado e Professor Krauss.

É importante salientar que podem ser percebidas muitas diferenças na qualidade audiovisual de diversos canais que foram migrando do amadorismo para o profissionalismo ao longo dos anos. Um exemplo bastante interessante disso é o do canal Ciência Todo o Dia. Esse canal atualmente conta com mais de um milhão de inscritos e é voltado à divulgação científica.

O primeiro vídeo do canal é do ano de 2013. O que se pode perceber, mesmo sem muito conhecimento técnico por parte do observador, é que há uma melhoria muito grande na qualidade audiovisual no intervalo de tempo de 2013 a 2019.

Esse fenômeno pode ser visto em uma grande parte dos canais voltados ao ensino e à divulgação de Ciências. Muitos deles são iniciativas pessoais e que foram migrando de uma perspectiva mais amadora para o profissionalismo, indicando a correta análise de Charles Leadbeater (2004) com o conceito de Profissionais-Amadores.

Além das premiações, é importante se levar em conta que o YouTube paga aos criadores de conteúdo, que habilitam o AdSense4, uma parte do valor recebido pelo Google pela veiculação de anúncios antes, durante e depois de os vídeos terem finalizado.

4 AdSense é a plataforma de publicidade do Google que veicula anúncios em sites e no YouTube. Disponível em:

https://www.google.com/intl/pt-BR_br/adsense/start/

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É importante ressaltar que o valor recebido pelos produtores de conteúdo depende da quantidade de reproduções rentabilizadas, ou seja, a quantidade de vezes que anúncios são reproduzidos no canal e do valor médio recebido pela veiculação de propagandas. Atualmente, os criadores de conteúdo têm como saber o valor recebido a cada mil reproduções rentabilizadas (RPM5) através do painel da plataforma. O termo RPM significa Receita por Mil Visualizações monetizadas.

Esse valor recebido varia de um canal para outro, uma vez que os leilões por anúncios da plataforma do Google têm diferentes índices de concorrência dependendo do nicho em que se encontram. Para exemplificar, um canal que tenha um RPM de 1,00 € e tiver um vídeo com 10 mil visualizações, irá receber, 10,00 € por esse vídeo na plataforma.

Com isso, temos um paradigma de uma plataforma que é um híbrido de um ambiente comercial onde o conteúdo gerado por usuários é amarrada por formas de rentabilização (Arthurs, Drakopoulou & Gandini, 2018, p. 7).

É importante salientar também que a plataforma tem passado por mudanças de paradigmas tanto pela questão do surgimento das diferentes formas de rentabilização quanto por mudanças constantes nos algoritmos de recomendação e da concorrência inerente ao simples processo de publicação de vídeos na plataforma.

Apesar das mudanças, é importante, também, notar que o YouTube desde sua criação parece favorecer as relações parassociais entre os geradores e os consumidores de conteúdo. O conceito de interações parassociais surge em 1956 nos trabalhos de Horton e Wohl (como citado por Chen, 2016, p. 5). Esse conceito explica como as pessoas criavam na década de 50 e 60 relações de aparente intimidade com os apresentadores de televisão, já que a mente humana apresenta processos mentais similares nos casos de encontros presenciais e de relações mediadas pelos meios de comunicação social tradicionais.

O conceito de interações parassociais é interessante para analisar a evolução da plataforma do YouTube, uma vez que é muito comum as pessoas conhecerem os apresentadores de conteúdos de Ciência pelo nome e terem conhecimento, em alguns casos, de aspectos pessoais da vida dos apresentadores dos conteúdos dessa área do conhecimento. De certa maneira, pode-se dizer que os usuários parecem criar um costume de assistir notícias de ciência com um determinado divulgador científico, uma vez que os consideram como pessoas conhecidas do seu círculo social.

5 RPM é uma sigla utilizada pelas pessoas que trabalham com YouTube para saber quanto dinheiro os vídeos estão rendendo. Disponível em: https://support.google.com/adsense/answer/190515?hl=pt

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Esse efeito havia sido mostrado novamente por Koening e Lessan em 1985 (como citado por Chen, 2016, p. 5). Os cientistas fizeram um estudo no qual mostraram que as pessoas que assistiam televisão julgavam os apresentadores de televisão da mesma maneira que faziam com amigos e vizinhos. Assim, é de se esperar que os produtores de conteúdo no YouTube sejam avaliados exatamente da mesma maneira.

2.4 O YOUTUBE, A EDUCAÇÃO E A DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS NO BRASIL. O CASO DA COMUNIDADE DO YouTubeEDU

No Brasil há uma grande quantidade de canais de educação e divulgação das ciências.

Vários desses canais são mantidos por professores e divulgadores de ciência de maneira independente e alguns são mantidas por empresas, como escolas preparatórias para concursos públicos, por exemplo.

Dentro desse panorama, surgiu o projeto YouTubeEDU que é uma parceria da Fundação Lemman com o YouTube. Essa fundação é mantida por Jorge Paulo Lemman, que segundo a Forbes6 é o segundo homem mais rico do Brasil. Nela são apoiados projetos relacionados à educação brasileira.

Segundo informações obtidas através de contato por e-mail com a curadoria, conforme o Anexo I, o projeto YouTube EDU surgiu em 2013 com objetivo de ajudar canais de educação no YouTube a crescerem e a compartilharem estratégias de melhorar seu trabalho. Nesse ano, eram apenas 26 canais que faziam parte do projeto. No ano de 2019, o projeto contou com a participação de 440 canais. No entanto, deve-se salientar que esses canais não representam todos os canais de educação brasileira. Dentre os canais que participam do projeto, há um total acumulado de 57 milhões de inscritos e 5 mil milhões de visualizações (número acumulado de agosto a março de 2019).

Para participar do projeto é necessário que o canal tenha conteúdos educativos, que não se limitam a videoaulas, e passar pela aprovação da curadoria do projeto.

Cerca de 70% dos canais do projeto são das áreas que englobam Física, Química, Matemática, Biologia e Ciências.

Uma das iniciativas apoiadas pelo projeto é o evento chamado de YouTubeEdu Con.

Uma conferência que reúne produtores de conteúdos educativos na plataforma. Nesse evento, os canais com maior número de inscritos e maior relevância, se reúnem na cidade do Rio de

6 Jorge Paulo Lemman. Disponível em: https://www.forbes.com/profile/jorge-paulo-lemann/#4beb49bc65f7

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Janeiro num espaço do YouTube para compartilhar conhecimentos e estratégias. Nesse evento, são criadas uma série de conexões humanas e que posteriormente facilitam o trabalho colaborativo entre os canais integrantes do projeto. Essas conexões são importantes, pois se tem noção das melhores práticas na divulgação do conhecimento com outros canais. Práticas essas que vão desde aspectos técnicos de áudio, vídeo, iluminação e divulgação do conteúdo até a maneira de se comunicar com o público através de uma câmera. Nesse contexto, o compartilhamento faz com que os criadores de conteúdo educacional se ajudem em um crescimento mútuo, fazendo com que a mensagem científica e educativa atinja públicos mais amplos. Cabe ressaltar que no caso do YouTube EDU, a maioria dos canais são de educação em ciências.

2.5 O USO DO YOUTUBE COMO FERRAMENTA PARA EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS

Os docentes, atualmente, têm uma ferramenta para enriquecer o leque de ferramentas disponíveis para facilitar o processo de aprendizagem de seus estudantes: O YouTube. Essa vasta rede de conteúdos permite ao professor o acesso, a busca e a seleção de conteúdos educativos e informativos, que podem servir de ponto de partida para discussões, ou como complementação do trabalho desenvolvido (Oliveira et al, 2016, p. 2) .

Uma das possíveis aplicações do YouTube como ferramenta de aprendizagem é a Sala de Aula Invertida.

“A Sala de Aula Invertida é uma metodologia de ensino que inverte a lógica tradicional de ensino. O aluno tem o primeiro contato com o conteúdo que irá aprender através de atividades extraclasses, prévias à aula. Em sala, os alunos são incentivados a trabalhar colaborativamente entre si e contam com a ajuda do professor para realizar tarefas associadas à resolução de problemas, entre outras. O contato inicial com a informação pode ser feito por meio de vídeos, textos ou qualquer outro material de apoio, os quais o professor pode disponibilizar online. Em aulas tradicionais, um breve momento de distração do estudante durante a exposição do professor, pode ser suficiente para dificultar uma compreensão adequada de alguma explicação. Em contrapartida, na Sala de Aula Invertida, o aluno, em casa, estuda em seu próprio ritmo, tendo a opção de pausar o vídeo e reproduzi-lo quantas vezes achar necessário ou, em caso de textos, reler diversas vezes o que não compreendeu. Em caso de dúvida, o aluno tem a possibilidade de recorrer a outras fontes de informações (e.g.

páginas da internet, vídeos, livros, etc.). Além disso, recomenda-se que o professor peça aos alunos que escrevam e enviem suas dúvidas para que ele possa abordá-las na aula. Em sala de aula, o foco é voltado à aplicação dos conceitos estudados em casa pelos alunos.”(Oliveira et al., 2016, p. 4).

Assim, temos uma metodologia de ensino que, evidentemente, pode fazer proveito do conteúdo já disponível na forma audiovisual para ajudar no processo de inovação dentro de sala de aula. Não obstante, o professor pode produzir também esses materiais para o YouTube e que

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poderão ser utilizados por ele em uma aula invertida ou por seus colegas de profissão desde que esse conteúdo seja encontrado na plataforma.

Como o YouTube é uma plataforma muito vasta de conteúdo, que são facilmente encontrados na plataforma, podem ser achados vídeos com diferentes abordagens das ciências.

Podem ser encontrados vídeos que se aproximam de documentários, entretenimento com temas científicos, gravações de práticas laboratoriais, experimentos científicos ou videoaulas que se aproximam do método tradicional expositivo. Todos esses materiais ajudam a complementar o trabalho do professor regente de uma determinada disciplina, seja ela ministrada da maneira tradicional ou com o uso de metodologias alternativas.

2.6 O PERFIL DO USÁRIO DA INTERNET NO BRASIL

É importante saber qual o alcance da Internet no Brasil já que o presente trabalho tem por objetivo mostrar que vídeos de divulgação científica no YouTube podem ser uma ferramenta de democratização do conhecimento.

A pesquisa TIC domicílios7 é feita desde 2005 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil para mapear a infraestrutura de acesso de TIC nos lares urbanos e rurais do Brasil e servir como base para políticas públicas de inclusão digital. A pesquisa é conduzida em domicílios selecionados aleatoriamente com base nos dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Segundo dados da pesquisa de 2018, obtidos através da apresentação dos principais dados à imprensa8, aproximadamente 70% dos domicílios brasileiros contam com acesso à Internet. Dentro desse escopo, aproximadamente, 50 % dos domicílios contam com conexão à banda larga fixa (Conexão via cabo, DSL ou fibra ótica) e 30% contam com acesso à banda larga móvel (tecnologias 3G ou 4G).

Outro dado interessante é que dos usuários de internet, 56% afirmaram usar apenas o celular como meio de acesso à rede. Número que vem crescendo ao longo dos anos. E aqueles que usam apenas o computador é de 3%. Número que vem reduzindo ao longo do tempo. Ou seja, percebe-se que o uso de internet está migrando cada vez mais para o uso da rede via dispositivos móveis.

7 TIC Domicílios, Disponível em: https://www.cetic.br/pesquisa/domicilios/

8 Disponível em: https://www.cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2018_coletiva_de_imprensa.pdf

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Assim podemos perceber que a Internet já faz parte da vida da maior parte da população brasileira, ainda que não esteja presente em 30% dos domicílios brasileiros.

Como o escopo desse trabalho é de compreender se o YouTube pode ajudar na democratização do conhecimento, é importante conhecer a velocidade de download da Internet brasileira, uma vez que esse fator influencia na experiência do usuário.

Segundo dados da empresa Ookla9 que mantém a ferramenta SpeedTest.net que testa a velocidade de download e upload dos usuários que desejam saber se o provedor está fornecendo a velocidade contratada, a Internet brasileira tem os seguintes valores: a velocidade média de download da Internet brasileira quando acessada por dispositivos móveis é de 18,50 Mbps e quando acessada por dispositivos fixos é de 23,64 Mbps. Esses dados são apenas médias. Ou seja, serve para concluir que – em média – o povo brasileiro que tem acesso à internet terá uma experiência de assistir vídeos sem que ele trave e prejudique a experiência audiovisual.

Para uma reflexão mais profunda de qual seria a possível experiência da população menos favorecida economicamente ao assistir a vídeos, dever-se-ia estudar mais a fundo os dados da TIC domicílios, já que essa também disponibiliza os dados sobre as velocidades de conexão da Internet brasileira.

E como é o comportamento dos brasileiros quando dizem respeito ao acesso ao YouTube?

Todos os anos existe um evento do YouTube chamado de YouTube Brandcast10. Um evento destinado à imprensa, aos criadores de conteúdos e às empresas que fazem propaganda na plataforma. Nesse evento são apresentados dados sobre o uso da plataforma. Os dados serão reportados aqui, apesar do reconhecimento de que seriam necessários estudos independentes por institutos de pesquisa em comunicação social que os confirmassem.

No Brasil são mais de 100 milhões de usuários mensais. Quando perguntados, aproximadamente, 80% dos que assistiram um vídeo nas 24 horas anteriores à pesquisa dizem ter aprendido algum conhecimento novo na plataforma.

Em reportagem do site CanalTech11 que acompanhou o evento, temos outras informações interessantes. Segundo a reportagem, a empresa divulgou que atualmente os brasileiros já consomem mais vídeos on-line do que televisão no cotidiano. Foi apontado que

9 Dados da Internet no Brasil. Disponível em: https://www.speedtest.net/reports/pt/brazil/#mobile

10 YouTube Brandcast 2019. Disponível em: https://www.thinkwithgoogle.com/intl/pt-br/advertising- channels/v%C3%ADdeo/youtube-brandcast-2019-como-falar-intimamente-com-milhoes-de-brasileiros/

11 Reportagem do Canaltech. Disponível em: https://canaltech.com.br/eventos/youtube-brandcast-confira-tudo-o- que-rolou-na-quinta-edicao-aqui-no-br-150647/

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nos últimos 4 anos, o consumo de vídeos na Internet subiu 165%. A pesquisa apresentada no evento também indica que 80% das pessoas que procuram vídeos na internet o fazem pois os conteúdos pesquisados não se encontram presentes na televisão.

Em reportagem do site TechTudo12 sobre uma pesquisa sobre uso de Internet e Redes Sociais no mundo, conduzidas pela agência We Are Social e a plataforma HootSuite, o povo brasileiro é um dos que mais gasta tempo nas redes sociais, com uma média de 3 horas e 40 minutos diários. Relativamente ao YouTube, essa é a página que o brasileiro fica mais tempo por visita única, tendo um tempo médio de 20 minutos e 30 segundos. E durante esse tempo, visita aproximadamente 10 páginas da plataforma.

2.7 RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E SOCIEDADE

A relação entre ciência e sociedade é mediada pela divulgação da ciência através dos diferentes meios de comunicação. A linguagem científica é altamente especializada e técnica e é apenas compartilhada entre um pequeno grupo de pessoas da sociedade. Essa questão é mais presente nas ciências da natureza e da matemática e suas tecnologias, uma vez que a linguagem não-verbal e não-escrita é de extrema importância na compreensão dos conceitos e ideias envolvidos nessas áreas. Há de se saber que, por exemplo, mesmo para um aluno formado em Física, por exemplo, é muito difícil conseguir interpretar muitos textos mais avançados de Física, uma vez que cada área usa um tipo de codificação bem específico.

Assim, nas regiões de fronteira das ciências da natureza e matemática e suas tecnologias as mensagens são extremamente excludentes para o público geral no que diz respeito a compreensão do que é feito. O fato das linguagens serem excludentes não significa que elas sejam feitas por esse motivo, muito pelo contrário. Esse tipo de linguagem é usado justamente porque é muito poderosa e tem muita precisão, além de ser compreendida pelos pares de maneira unívoca e não-ambígua. Um fator importante para a evolução da ciência.

Entretanto, em muitos países, como é o caso do Brasil, o financiamento da pesquisa é maioritariamente público, ou seja, são todos os cidadãos que pagam, via impostos, para terem essas pesquisas feitas. Ainda que esses cidadãos venham a utilizar as possíveis tecnologias advindas dessas pesquisas, as fazem – em grande parte do tempo – de maneira inconsciente. E em momentos de crises econômicas, pode ser que as ciências sejam diretamente afetadas, já

12 Reportagem TechTudo. Disponível em: https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/02/10-fatos-sobre-o-uso-de- redes-sociais-no-brasil-que-voce-precisa-saber.ghtml

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que a população pode não enxergar com a devida importância o progresso científico, afinal de contas, apesar de se utilizarem dele não sabem que o estão fazendo.

Segundo Moreira (2017)

As ciências e as tecnologias estão, com ou sem a concordância da população, incrustadas no cotidiano de cada um de nós e muitos de seus resultados são financiados com recursos públicos, por meio das agências de fomento à pesquisa. Dois princípios devem orientar, portanto, uma política de divulgação científica: prestação de contas à sociedade e a geração de informação técnica de qualidade e com linguagem acessível a toda a população. Estes dois princípios atuam no sentido de socializar informações científicas, valorizar a consciência de cidadania e ampliar a participação da sociedade nas decisões públicas. Assim, seja uma publicação ou um centro de visitação, como um museu, por exemplo, os diferentes processos e modelos de divulgação científica e cultural dos avanços científicos nas ciências da natureza, na história, na saúde humana e animal, entre outras áreas, são caminhos eficazes para a valorização da cultura científica e para a redução dasdesigualdades sociais (Moreira, 2017, p. 14).

Ou seja, a argumentação deixa claro que a questão da divulgação científica é uma forma de prestação de contas a sociedade.

Além disso, a importância da compreensão pública sobre a ciência passa a importar também a grupos políticos, econômicos e sociais em alguns países. Além disso, há uma crescente demanda do público por estarem envolvidos em questões tecnológicas e científicas (Entradas, 2015, p. 72).

A autora chama a atenção para o fato de que existem vários motivos revistos na literatura como sendo os principais pelos quais a divulgação das ciências deve existir. O fator mais referenciado é a questão democrática, segundo os mesmos princípios que considera o direito a cultura como fundamental. Também é evidenciado outro argumento muito utilizado que é o de que uma melhor compreensão do público sobre ciência pode aumentar o apoio no desenvolvimento da mesma.

Nesse sentido, é importante que se conheça aquilo que está pautando a divulgação das ciências seja em meios acadêmicos, como faculdades e universidades, como em meios não formais de difusão de conhecimento, como no caso do YouTube.

O caso COVID-19 é um exemplo claro que mostra a importância da análise dessa rede social no processo de comunicação em ciências.

Em 2019 a sociedade mundial se viu diante de uma grande pandemia global que afetou a vida das pessoas de muitas maneiras. Foram diversas as barreiras que se enfrentaram para que a crise pudesse ser, minimamente, contida e controlada pelos governos.

Nesse sentido, temos que um dos fatores que influenciaram na maneira como as diferentes nações enfretaram a pandemia foi a relação entre a comunicação das ciências da saúde e a socidade.

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A pandemia intensificou desafios para as empresas de informação. Hoje em dia, tem-se presente, em muitos veículos jornalísticos, espaços destinados a procurae ao combate à desinformação sobre os mais diferentes assuntos. Esses espaços já existiam antes da pandemia acontecer, entretanto, durante a crise foram essenciais para que as pessoas pudessem tomar as melhores escolhas dadas as informações corretas na área de ciências da saúde em contraste com as notícias falsas.

Como escrito anteriormente, as pessoas podem colocar um vídeo com notícias falsas em plataformas de grande distribuição, como o próprio YouTube, que não conseguem, no momento atual da tecnologia, fazer uma verificação da veracidade das informações antes da distribuição.

Algumas dessas mensagens se propagaram e acabaram chegando em um grande número de pessoas.

Por isso, dentro da mesma plataforma onde essas mensagens se propagam, surgiram divulgadores científicos independentes que começaram a mostrar as falhas nessas mensagens e fazer uma verificação independente das informações. Esse, certamente, é um fenômeno bastante recente, uma vez que o grande alcance de mensagens erradas pode acontecer pelo impulsionamento desses algoritmos. Por esse mesmo motivo, as mensagens corretas também podem chegar em um grande número de cidadãos.

Outro fato importante é que uma série de divulgadores de ciências com canais de grande repercurssão no YouTube também ganharam muito espaço e notoriedade na sociedade civil com a divulgação de informações de acordo com o conhecimento acadêmico na área da saúde.

Átila Iamarino é um exemplo disso. Durante a pandemia, o divulgador científico chegou a fazer transmissões ao vivo que chegavam a mais de 380 mil pessoas simultâneamente13. O alcance foi tamanho que os próprios meios de comunicação social tradicionais começaram a chamá-lo para a participação em programas televisivos e jornalísticos de alcance ainda maior. É difícil existir brasileiro que tenha acesso à Internet e não saiba, hoje em dia, quem é Átila Iamarino.

Inclusive, há de se destacar que esse divulgador de ciências recebeu a Medalha Anchieta14 e o Diploma de Gratidão da câmara municipal da cidade de São Paulo pelo serviços prestados à sociedade. O vereador Caio Miranda que presidiu a sessão falou que escolheram o Átila porque “seu trabalho vem sendo atacado por pessoas que negam a ciência. O Átila não é governante, é um cientista que estuda e emite suas opiniões. Essa homenagem é uma forma de dar força para o seu trabalho, porque você não está sozinho”.

13 Dados da revista Exame. Disponível em: https://exame.com/revista-exame/o-mundo-e-uma-live/

14 Medalha Anchieta para Átila Iamarino. Disponível em: https://www.saopaulo.sp.leg.br/blog/camara-entrega- medalha-anchieta-e-diploma-de-gratidao-ao-pesquisador-atila-iamarino/

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A notoreidade que o YouTuber construiu ao longo da carreira e seu papel desempenhado durante a pandemia fizeram com que ele fosse chamado para palestrar na conferência global de comunicação científica em emergência de saúde da Organização Mundial da Saúde15.

2.8 A ACADEMIA, A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E O YOUTUBE

A intenção do presente trabalho não é compreender por completo a relação da academia com os diferentes meios de divulgação das ciências, entretanto é importante que se faça esse breve suporte teórico para a discussão de um ponto bem específico que irá aparecer ao longo do trabalho. Precisamos entender a relação da academia no Brasil com a sociedade pelos meios tradicionais e buscar compreender como isso poderia afetar na visão sobre acadêmicos que divulgam ciências no YouTube.

O financiamento público desempenha papel central na ciência brasileira. Há de se ressaltar que segundo notícia da UNIFESP16 (Universidade Federal de São Paulo) as universidades públicas são responsáveis por aproximadamente 95% dos trabalhos científicos publicados, conforme as bases de dados internacionais mostram. Ou seja, pode-se perceber que as universidades públicas brasileiras têm extrema relevância na produção do conhecimento científico desenvolvido no país.

Existe uma indissociabilidade intrínseca entre ensino, pesquisa e extensão nas instituições públicas de ensino superior brasileiras, prevista na Constituição de 1988. Assim, é indispensável que essas tenham ações educativas nos três âmbitos, não sendo nenhuma delas opcionais (Gonçalves, 2016, p. 1230).

As ações de extensão, são aquelas que levam os discentes e docentes para além dos muros da Universidade. Colocando-os em diálogo direto com o restante da sociedade civil, por meio de diversos projetos com os mais variados objetivos. Apesar dos diferentes objetivos, todos eles são permeados pela concepção de que também é função da Universidade participar ativamente das questões sociais em contato com aqueles que não fazem parte do meio acadêmico brasileiro.

15 Átila Iamarino na Organização Mundial da Saúde. Disponível em: https://www.who.int/news- room/events/detail/2021/06/07/default-calendar/who-global-conference-on-communicating-science-during-health- emergencies

16 Notícia da UNIFESP. Disponível em: https://www.unifesp.br/noticias-anteriores/item/3799-universidades- publicas-realizam-mais-de-95-da-ciencia-no-brasil.

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Esse é o tripé que sustenta a função social das instituições de ensino superior públicas no Brasil. Ressalta-se que, apesar de um recente ganho relativo de importância da extensão nas relações acadêmicas, pesquisa e ensino ainda são mais importantes.

A extensão universitária é o conjunto de ações da universidade na busca de relações diretas com a sociedade civil, para além dos muros institucionais. As diretrizes da extensão, segundo o FORPREX (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Instituições de Ensino Superior Públicas Brasileiras) são as seguintes: Interação dialógica; Interdisciplinaridade;

Interprofissionalidade; Indissociabilidade entre Ensino-Pesquisa-Extensão; Impacto na formação do estudante; Impacto e Transformação Social (Gonçalves, 2016. p. 1237).

A autora também destaca que a questão da extensão universitária se consolidou no âmbito acadêmico brasileiro depois do ensino e da pesquisa. E isso é compreendido, segundo N. Gonçalves, quando analisados através do prisma teórico de Pierre Bourdieu conforme os conceitos de habitus e campo. Para esse autor, campo é o local onde ocorrem as interações humanas. Além disso, habitus é o que o autor considera por crenças, valores e certezas de que cada agente leva consigo, seja de maneira consciente ou inconsciente.

O habitus explica, por exemplo, a importância relativa pequena que as atividades de extensão desempenham na hora da contração de um professor para uma instituição pública de ensino superior ou para as progressões na carreira docente (Gonçalves, 2016, p. 1230). Salienta- se que os editais de seleção de docentes são feitos pelas próprias instituições de ensino superior, evidenciado a questão do habitus.

Outro ponto importante ressaltado é o fato de que a extensão universitária não é usada dentro das equações de previsão orçamentária de destinação de verbas pelo Ministério de Educação e Cultura às Instituições de Ensino Superior.

Além disso, apenas recentemente foi colocada uma área para adição de trabalhos de extensão na plataforma Lattes, que gerencia o padrão de currículos de professores/pesquisadores do ensino superior no Brasil. Ou seja, até pouco tempo atrás, sequer existia local na plataforma para que fosse divulgado os trabalhos dos professores e alunos nesse âmbito universitário.

Apesar das questões apresentadas anteriormente, que evidenciam o fato de a extensão ainda ter um papel menor, é importante ressaltar que essa passa a se tornar parte integrante dos currículos formativos dos estudantes. Essa é uma ideia antiga, que estava presente nos Planos Nacionais de Educação (PNE) de 2001-2010 em suas metas 21 e 23, que institucionalizava 10%

dos créditos curriculares exigidos para a graduação, integralizados por ações extensionistas.

Meta que ressurgiu no PNE 2014-2023 (Gadotti, 2014, p.1). É importante ressaltar que o autor

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também recorre ao princípio da integralidade da extensão universitária, devendo essa fazer parte da formação da universidade pública em conjunto com pesquisa e ensino, não apenas como algo desconexo das outras duas bases do tripé acadêmico.

Para Gadotti, a extensão universitária é uma possível resposta à crise universitária. Isso se dá em virtude de a extensão ser uma prática de diálogo com as pessoas de fora do meio acadêmico, que passam a mudar sua percepção sobre a importância e utilidade da universidade nas suas vidas.

Os desafios da implementação das metas do PNE, situam-se entre outras coisas, na superação do habitus de uma visão “academicista” que existe dentro das instituições de ensino superior (Gonçalves, 2016, p. 1252).

Mas afinal de contas, onde está presente a extensão universitária? Segundo o autor,

“Os campos de atuação da Extensão Universitária são imensos e muito diversos, dependendo de que área estamos falando: ciências exatas, ciências humanas, ciências biológicas, ciências da Terra etc. Pode-se atuar no campo da formação, cultura, meio ambiente, na construção de conhecimento interdisciplinar, na qualificação profissional, na EJA, na transferência de tecnologia, desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras, inovação, desenvolvimento institucional e novas tecnologias, práticas cidadãs em ambientes escolares, estágios e iniciação científica, criação de laboratórios e observatórios, desenvolvimento local rural. Só para abrir um cenário de possibilidades.

A criação de projetos de extensão como componentes de cada disciplina, devem ser construídos em diálogo entre professor, alunos e comunidades. Pode-se trabalhar com o protagonismo infanto-juvenil, com a atuação em movimentos sociais, com direitos humanos, esporte, cultura e lazer, formação continuada. Devemos nos centrar, prioritariamente, no levantamento e atendimento a necessidades de emprego, renda, moradia, empoderamento das comunidades, tecnologias sociais, saúde, transporte, justiça e segurança, nutrição, enfim, na qualidade de vida, no bem viver das populações mais empobrecidas.” (Gadotti, 2014, p.13)

Assim, no presente trabalho, salienta-se que a extensão universitária é uma das vias pelas quais se pode buscar institucionalmente ampliar a divulgação da ciência para o público que nunca integrou a universidade pública ou para aqueles que são ex-alunos das instituições e ainda buscam conhecimentos para sua aprimorar sua formação continuada.

Deve-se ressaltar que apesar de haver uma indissociabilidade prevista na constituição brasileira, na prática o ensino, pesquisa e extensão são dissociáveis, tanto por fatores de habitus quanto por fatores das estruturas econômicas universitárias.

Assim, a pesquisa e o ensino mostram ter importância relativa superior à extensão universitária quando analisadas sob o paradigma de distribuição de verbas federais, fator que também deve ser reconsiderado na busca de seguir os preceitos constitucionais de 1988. Mas não basta isso, é preciso também que a extensão universitária passe a ser importante tanto na

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contratação como na progressão acadêmica, pois isso fará com que haja uma mudança no habitus no meio acadêmico.

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3. DELINEAMENTO DA PESQUISA

3.1 QUESTIONAMENTOS A SEREM RESPONDIDOS

A comunicação científica é pautada nas diferentes mídias por processos que são estudados pelas escolas de comunicação e cursos específicos da área. Nesse contexto, é importante que se conheça que processos levam à criação dos conteúdos de divulgação de ciências na plataforma do YouTube, haja vista o grande alcance que tem hoje em dia, e qual a relação que os canais possuem com a sociedade civil no processo de comunicação científico.

Compreender o processo de criação de conteúdo é primordial, pois essa plataforma hoje disputa espaço de atenção pública com os meios audiovisuais tradicionais, e por esse motivo, existem inúmeras questões que serão elencadas a seguir:

• Quais são os canais de divulgação de ciências brasileiros na plataforma do YouTube?

• Quem são os produtores de conteúdo de divulgação científica na plataforma do YouTube?

o Qual a formação acadêmica?

o Qual o histórico na divulgação de ciências?

o O que levou à criação do canal?

o Quais as dificuldades encontradas pelos criadores de conteúdos científico?

• Qual a história do canal na plataforma?

• Como o canal evoluiu com o tempo na plataforma?

o O que mudou no canal desde sua criação?

• O que norteia a definição de pautas no canal?

• O canal sempre teve o mesmo foco de divulgação científica?

• Qual o papel da rentabilização e das propagandas pagas via AdSense na definição das pautas científicas?

• Qual a visão do criador do canal no papel social da divulgação científica na plataforma?

• Quais as oportunidades de relações profissionais surgiram por causa do canal no YouTube?

• Qual o alcance que o canal tem?

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• Qual impacto o canal teve no aumento da literacia científica dos seus inscritos?

Existem relatos que exemplifiquem os casos?

• O dono do canal já teve espaço nos meios de comunicação social tradicionais por causa do seu canal no YouTube?

3.2 METODOLOGIA APLICADA

3.2.1 RELAÇÃO DE CANAIS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO YOUTUBE

O YouTube não possui uma separação de categorias explícita em sua base de dados.

Assim, obter uma listagem de canais de uma determinada área específica não é uma tarefa simples (Leão, Taquini & Finardi, 2019, p. 164). Além disso, os criadores de conteúdo têm total liberdade para escolherem os temas de seus vídeos, de maneira que um canal pode ser maioritariamente sobre ciência, mas conter opiniões do autor sobre outros assuntos como política e sua vida cotidiana.

Por esse motivo, utilizei meu canal do YouTube17 para fazer uma lista inicial dos canais relacionados à divulgação científica.

Como também tenho um canal na plataforma, gravei um vídeo pedindo aos meus inscritos que colocassem uma lista de canais de divulgação de ciências que conhecessem na plataforma. Pedi para listarem canais conhecidos e canais que poucas pessoas pudessem conhecer, a fim de ter um panorama maior da rede.

Esse método resultou numa lista grande de canais, mas que, certamente, não possui o total de canais de Divulgação de Ciências na plataforma. Apesar disso, essa amostra de canais serviu como base para a definição de entrevistados.

Além disso, essa primeira listagem fez com que surgisse uma importante reflexão.

Alguns canais listados eram canais mais voltados à educação de ciências do que à divulgação de ciências, por esse motivo é importante que fique claro que nesse trabalho foram escolhidos canais que se encaixassem na segunda categoria.

No Brasil, existe uma ampla gama de canais que se dedicam a ensinar algum tipo de ciência para um público que pretende prestar provas como Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) ou outras provas de ingresso ao ensino superior ou para concursos públicos que

17 Vídeo pedindo participação do público na listagem de canais de divulgação de ciências:

https://youtu.be/A93xLOj81U0

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dependam de alguma matéria científica, conforme explicitado anteriormente. Esses canais serão denominados, nesse trabalho, como canais de educação de ciências.

Por outro lado, canais de divulgação de ciência serão considerados como aqueles que possuem como objetivo principal: divulgar pesquisas recentes ou passadas, estudos preliminares, explicar resultados, fazer entretenimento com ciência e se comunicar com o público não especialista da área.

3.2.2 ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA

Com a finalidade de responder aos questionamentos propostos anteriormente, esse trabalho aplicou entrevistas semiestruturadas a produtores independentes de conteúdo de divulgação científica na plataforma do YouTube. Dentre os entrevistados, seis possuem formação de nível superior na área científica, um possui formação superior em área não científica e outro não possui formação acadêmica. Aquele entrevistado com formação em área não científica apenas faz a dobragem de vídeos produzidos em inglês. O entrevistado que não possui formação superior conta com uma equipe de pessoas formadas na área científica e que prestam assessoria.

O guião das entrevistas pode ser encontrado no Apêndice IX.

A escolha de entrevista se dá pelo fato de que elas permitem aos participantes discutir suas interpretações e mostrar os seus pontos de vista sobre uma situação específica do mundo.

As entrevistas são multifacetadas e permitem a coleta de dados verbais, não-verbais que são faladas e ouvidas (Cohen, Manion & Morrison, 2017, p. 349).

Segundo Dyer, é importante salientar que uma entrevista não é uma simples conversa informal, no sentido que tem propósito e geralmente são baseadas em questionamentos pré- estabelecidos pelo investigador (como citado por Cohen et al., 2017, p. 349).

Segundo Duarte

“Entrevistas são fundamentais quando se precisa/deseja mapear práticas, crenças, valores e sistemas classificatórios de universos sociais específicos, mais ou menos bem delimitados, em que os conflitos e contradições não este- jam claramente explicitados. Nesse caso, se forem bem realizadas, elas permitirão ao pesquisador fazer uma espécie de mergulho em profundidade, coletando indícios dos modos como cada um daqueles sujeitos percebe e significa sua realidade e levantando informações consistentes que lhe permitam descrever e compreender a lógica que preside as relações que se estabelecem no interior daquele grupo, o que, em geral, é mais difícil obter com outros instrumentos de coleta de dados” (Duarte, 2004, p. 215).

É frequentemente lembrado que é importante ao pesquisador-entrevistador que ele seja capaz de criar uma relação com o respondente. Isso significa que o entrevistador seja capaz de criar uma conexão rapidamente com o entrevistado de maneira a encorajar aquele que responde

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a se sentir confortável em expressar sua real visão sobre o assunto abordado. Por outro lado, perguntas feitas de maneira muito amigáveis, podem fazer com que haja uma tendência de o respondente tentar agradar o entrevistador, enviesando o objetivo da pesquisa. Por esse motivo, é importante que o pesquisador tenha compreensão dessa limitação do processo (Bryman, 2012, p. 218).

Nesse sentido, diversas metodologias de entrevista podem ser adotadas, entre elas:

estruturada, semiestruturada e aberta. Nesse trabalho, optou-se por utilizar a entrevista semiestruturada pelo seguinte motivo.

Segundo Boni & Quaresma

“As entrevistas semiestruturadas combinam perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o interessa fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante tenha “fugido” ao tema ou tenha dificuldades com ele. Esse tipo de entrevista é muito utilizado quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo assim um direcionamento maior para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados” (Boni &

Quaresma, 2005, p. 75).

Segundo os mesmos autores, uma das vantagens que esse tipo de abordagem permite é a de uma elasticidade maior com relação à sua duração e sua capacidade de compreender em profundidade um determinado tema. Além disso, a interação entre entrevistador e entrevistado aumenta a oportunidade de respostas espontâneas. Essa maior liberdade das entrevistas semiestruturadas permitem que surjam perguntas inesperadas e que podem ser de grande importância para sua pesquisa.

Além disso, cabe ressaltar que nesse tipo de metodologia para se obter uma boa pesquisa é necessário escolher as pessoas que serão investigadas. Essa escolha não deve ser aleatória.

Deve-se dar preferência por pessoas que já sejam conhecidas pelo pesquisador ou apresentadas a ele por pessoas do convívio daquela que será entrevistada pois assim existe uma maior segurança por parte do entrevistado para a melhor colaboração possível (Boni & Quaresma, 2005, p. 76).

Como o autor da presente investigação também possui um canal na plataforma do YouTube e conhece alguns desses produtores independentes de conteúdo, facilita-se esse acesso de maneira direta e indireta conforme ressaltado pelos autores.

3.2.3 CODIFICAÇÃO

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As entrevistas feitas através do Google Meets foram colocadas no modo privado no YouTube a fim de utilizar o mecanismo de Inteligência Artificial da plataforma para obter a primeira transcrição das entrevistas feitas. Essas transcrições têm muita fidelidade, entretanto, contêm alguns erros. Essas transcrições foram baixadas e revistas. Os erros de português foram corrigidos e expressões locais foram substituídas/excluídas a fim de manter a mensagem original com o menor número de alterações possíveis. Depois disso, os vídeos originais foram apagados da plataforma respeitando a Lei de Proteção de Dados da União Europeia.

Após essa etapa, os diferentes grupos de perguntas foram separados e comparados de maneira analítica. É importante salientar que o trabalho procura responder a diversos questionamentos sobre a relação dos divulgadores de ciências com a plataforma do YouTube e tem por objetivo principal colocar luz sobre a questão da divulgação das ciências na plataforma.

Por esse motivo, a pesquisa pretende buscar por padrões repetidos nas respostas dos criadores de conteúdo.

Segundo Miles & Huberman (como citado por Cohen et al., 2017) existem diversas estratégias que facilitam o processo de análise. Algumas delas serão listadas abaixo:

• Contar frequências de ocorrência.

• Notar padrões entre temas.

• Procurar plausibilidade, ou seja, tentando fazer bom uso dos dados usando a intuição bem informada.

• Formar clusters: Analisar os itens por categorias, tipos, comportamentos e classificações.

• Agregar casos particulares a casos generalizados.

• Identificar relações entre variáveis.

• Criar uma cadeia lógica de evidências.

• Usar coerência conceitual e teórica, ou seja, passar de metáforas para construir teorias que expliquem o fenômeno.

Deve-se ter em mente que o processo de análise, assim como outros processos da pesquisa qualitativa são cumulativos e iterativos. Conforme a pesquisa vai sendo desenvolvida, algumas categorias começam a revelar conexões e ajudam a mostrar a potência explicativa para os questionamentos elaborados no estudo. Esse processo, de coleta de dados, codificação e análise de relações está relacionada com a análise e a síntese das descobertas. Quanto mais o pesquisador vai tendo ligação com o processo reflexivo, mais o poder indutivo da pesquisa qualitativa vai se mostrando (Galletta & Cross, 2013).

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4. RESULTADOS OBTIDOS

4.1 LISTAGEM DE CANAIS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

A listagem de canais aqui apresentados não representa a totalidade dos canais do universo de canais de divulgação de ciências brasileiros na plataforma, é apenas uma amostra grande e obtida conforme a metodologia explicitada anteriormente.

É importante salientar que ao pedir aos meus inscritos, ou seja, pessoas que estão em um canal de divulgação da Física, opiniões pessoais e assuntos correlacionados, é de se esperar que haja um maior número de canais dessa mesma área na listagem.

Na tabela a seguir, foram excluídos canais com menos de mil inscritos ou que não tivessem postado com regularidade no ano de 2020.

A tabela foi organizada na ordem decrescente do número de visualizações totais do canal e a quantidade de visualizações foi obtida entre os dias 01 de novembro de 2020 até o dia 07 de novembro de 2020 utilizando o YouTube Data Tools18 que é uma ferramenta online e gratuita que permite análises básicas de canais da plataforma.

Nome do Canal

Número de Vídeos

Inscritos Visualizações Área do Canal

Manual do Mundo 1.644 14.100.000 2.552.086.633 Ciências (Geral) Richard Rasmussen 617 4.220.000 340.350.496 Biologia

Nerdologia 633 3.010.000 321.850.171 Ciências (Geral) Canal do Schwarza 2.102 998.000 157.309.421 Ciências (Geral)

Drauzio Varella 846 2.600.000 156.338.554 Medicina Conheça o Arnold 60 881.000 142.900.423 Ciências (Geral)

Meteoro Brasil 860 879.000 107.221.805 Ciências Sociais Pirulla 538 919.000 98.157.502 Ciências (Geral) Ciência Todo Dia 214 1.720.000 86.319.676 Física/Ciências (Geral)

Minuto da Terra 224 485.000 65.857.432 Ciências (Geral) Buenas Ideias 337 870.000 61.280.940 História

DioLinux 1.638 446.000 60.859.597 Tecnologia Open Source Space Today 3.024 570.000 52.007.846 Astronomia Casa do Saber 840 1.260.000 46.270.373 Ciências (Geral) Átila Iamarino 60 1.290.000 42.040.306 Ciências (Geral) Minutos Psíquicos 328 1.020.000 41.841.162 Psicologia

18 YouTube Data Tools: https://tools.digitalmethods.net/netvizz/youtube/

Referências

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