Após a exposição detalhada dos resultados encontrados e de sua discussão, torna-se importante retornar às duas perguntas iniciais, norteadoras deste trabalho: 1) As práticas educativas parentais estão associadas ao desempenho acadêmico de adolescentes?; 2) Qual a importância das variáveis mediadoras (sintomas depressivos, envolvimento dos pais nas tarefas escolares dos filhos e envolvimento dos adolescentes em suas tarefas escolares) na relação “práticas parentais X desempenho acadêmico”?
Respondendo à primeira questão, pôde-se concluir que sim, que foi verificada uma associação significativa entre práticas educativas parentais e desempenho acadêmico dos filhos. Verificou-se que as práticas parentais de envolvimento, regras e monitoria e comunicação positiva dos filhos estiveram associadas a melhores índices de desempenho acadêmico, enquanto a punição física e a comunicação negativa estiveram associadas a piores índices de desempenho. Também se observou que o clima conjugal negativo, avaliado pelo instrumento EQIF, esteve associado ao baixo desempenho acadêmico.
Na análise qualitativa, verificou-se resultados muito semelhantes, uma vez que os dois adolescentes com elevado nível de desempenho acadêmico estavam inseridos em famílias com predominância de práticas educativas adequadas e positivas, enquanto a adolescente com baixo nível de desempenho estava inserida em um ambiente familiar de risco quanto às práticas educativas, pois havia predominância de práticas coercitivas. Tais dados convergem com a literatura desta área, já discutida neste trabalho, que aponta o envolvimento parental como principal fator relacionado ao bom desempenho, e a coerção como o principal fator relacionado ao baixo desempenho acadêmico.
Os achados e discussão do presente trabalho (tanto os resultados quantitativos como os qualitativos) corroboram dados encontrados por HÜBNER (1999) em atendimento clínico. Esta autora verificou que existem dois padrões antagônicos de família, as quais chamou de famílias “pró-saber” e “anti-saber”. O padrão “pró-saber” é de famílias que valorizam e respeitam as atividades relacionadas à vida acadêmica dos filhos e favorecem um clima agradável e estimulador para a busca do conhecimento; enquanto o padrão “anti-saber” é de
famílias que utilizam predominantemente controle aversivo, regras que visam apenas o cumprimento de tarefas e obtenção de notas, e que demonstra, por atitudes e decisões, que a busca do conhecimento não é prioridade no contexto familiar (HÜBNER, 1999).
Quanto à segunda questão, concluiu-se que as variáveis mediadoras são realmente importantes neste processo, sendo que os resultados encontrados, aliados a uma extensa literatura, permitiram a elaboração de um modelo explicativo. Este modelo resume os principais resultados encontrados e pode ser visualizado na Figura 6, na qual estão representadas com flechas todas as relações significativas (realizadas com os testes Anova e Correlação), considerando nível de significância de 0,05.
Figura 6: Proposta de um modelo explicativo da relação entre práticas parentais e desempenho acadêmico, utilizando as variáveis mediadoras
É importante ressaltar que a proposta do modelo explicativo, apresentado na Figura 6, baseou-se em muitos estudos que apresentaram relações indiretas entre práticas/estilos parentais e desempenho acadêmico, estudos que demonstraram o importante papel de variáveis mediadoras. É importante citar alguns exemplos: a) associação entre estilos parentais e desempenho acadêmico pode ser mediada pelas estratégias de desempenho e estilo de atribuição de causalidade que os adolescentes empregam na escola (AUNOLA & cols., 2000); b) associação entre
F = 5,018 r = -0,256 r = -0,392 r = 0,162 r = 0,429 r = 0,231 F = 23,571 F = 25,845 F = 55,351 Qualidade na interação familiar (EQIF) Envolvimento dos pais nas tarefas
escolares dos filhos
Envolvimento dos filhos nas
tarefas escolares Sintomas depressivos dos filhos Desempenho escolar
práticas parentais e sucesso acadêmico foi mediada por comportamento em sala de aula (BRUYN & cols., 2003); c) variáveis de suporte familiar foram preditores indiretos de desempenho acadêmico, sendo mediadas por estresse psicológico (DUBOIS & cols., 1992); d) associação entre estilos parentais e resultados acadêmicos foi mediada pelo estilo de atribuição de causalidade do filho (GLASGOW & cols., 1997); e) verificaram-se efeitos indiretos de envolvimento parental no desempenho acadêmico, sendo a relação mediada por percepção de competência e compreensão do controle por parte da criança (GROLNICK & SLOWIACZEK, 1994); f) afetividade parental e interesse pelos assuntos acadêmicos dos filhos esteve relacionado a melhores notas escolares, sendo que esta relação foi mediada pela crença de competência dos adolescentes (JUANG & SILBEREISEN, 2002); g) associação entre estilos parentais e desempenho acadêmico foi mediada pelo desenvolvimento de um senso de autonomia saudável (STEINBERG & cols., 1989); h) associação entre estilos parentais e desempenho acadêmico foi mediada pelo envolvimento parental (STEINBERG & cols., 1992).
Todas estas pesquisas, e os resultados encontrados e discutidos aqui, ofereceram suporte teórico à proposta do modelo explicativo e à sugestão de uma continuidade da pesquisa. Sugere-se que, com um aumento considerável de amostra, este trabalho tenha seguimento utilizando-se a técnica estatística multivariada de modelagem de equações estruturais (SEM). No presente trabalho não foram utilizadas técnicas estatísticas multivariadas, sendo que as relações entre as variáveis foram verificadas sempre duas a duas. Portanto, como a técnica de equações estruturais combina aspectos de regressão múltipla e de análise fatorial, pode-se estimar múltiplas relações de dependência inter-relacionadas simultaneamente (HAIR, ANDERSON, TATHAM & BLACK, 2005), oferecendo uma compreensão mais profunda sobre as relações entre as variáveis.
Limitações do trabalho
Um ponto importante a ser comentado é o uso de notas escolares como indicadores de desempenho acadêmico. Discutiu-se, anteriormente, que o uso de notas pode trazer problemas metodológicos quando a escola não possui critérios bastante claros e coerentes de avaliação e que sejam comuns a todos os professores. Portanto, as notas escolares, como indicadores de desempenho, devem ser usadas
com precaução em trabalhos de pesquisa. E, para considerá-las como fonte adequada e confiável de desempenho acadêmico, deve-se primeiramente investigar as formas e critérios de avaliação utilizados pela escola.
Sendo assim, aqui surge a segunda sugestão de continuidade do trabalho. Pode-se verificar a mesma relação entre as variáveis propostas neste estudo, porém utilizando-se de teste padronizado para avaliar desempenho acadêmico. Uma proposta de continuidade neste sentido acarretaria em maior confiabilidade dos resultados encontrados até o presente momento.
Implicações práticas
Um estudo como este traz uma importante implicação prática: tornar este conhecimento acessível para aqueles que mais precisam, famílias e escolas. E, aqui, surge a terceira sugestão de continuidade deste trabalho, transformá-lo em uma pesquisa aplicada. Segundo POLONIA (2005), é de fundamental importância que as escolas elaborem projetos de parceria escola-família, com atividades de integração programada, como parte de sua rotina de trabalho e, desta forma, possam garantir maior cooperação das famílias. POLONIA (2005, p.156) ressalta que
Estimular a participação dos pais em reuniões e conselho de classe como um momento privilegiado de partilhar idéias e concepções sobre as formas de avaliação adotadas, e como estas influenciam o processo de ensino-aprendizagem, e orientar os pais na tarefa de acompanhamento do dever de casa de modo a manter consistência com as orientações da escola são duas estratégias ‘simples’ que podem ser implementadas pelas escolas, independentemente de sua infra-estrutura material e humana.
Entretanto, nem sempre as escolas estão munidas de conhecimento para levar a cabo projetos de integração com a família que possam viabilizar orientações adequadas e úteis para ambas as partes. E é por isso que este trabalho somente terá cumprido com o seu objetivo quando for estendido ao público leigo, proporcionando não só orientação, mas também uma melhor qualidade nas interações familiares, e uma qualidade na interação família-escola. E, desta forma, o desenvolvimento de um bom desempenho acadêmico deixa de ser objetivo para ser uma simples conseqüência das novas contingências familiares e escolares.