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3.2 Aspectos Práticos

4.2.4 Conclusões e Mapas Resultantes

A realização dos três experimentos, como havia sido previsto na etapa metodológica, configura, assim, o objetivo principal do trabalho de avaliação das técnicas situacionistas da deriva e da psicogeografia. Durante os três experimentos os pesquisadores puderam exercitar o reconhecimento de duas hipóteses situacionistas atreladas ao exercício das técnicas: o reconhecimento das unidades de

ambiência, e a observação de espaços semelhantes ao conceito de plaque tournante

psicogeográfica.

O conceito de plaque tournante foi reconhecido de maneira aproximada, durante a execução dos experimentos, nos espaços do Shopping Boa Vista e da ponte da Boa Vista. Enquanto que, durante as pesquisas-piloto, as referências relativas ao conceito foram a praça da Igreja da Soledade e a Praça do Marco Zero. Entretanto, as conclusões sobre a constatação da hipótese das plaques tournantes não obtiveram

resultados expressivos por conta, majoritariamente, da incerteza dos pesquisadores na classificação desses lugares. Essa incerteza decorre de falta de solidificação conceitual em relação a hipótese. O que se justifica, em parte, pela falta de precisão na descrição do conceito nos textos situacionistas, em específico a Teoria da Deriva e o Esboço de Descrição Psicogeográfica do Les Halles de Paris. Deste modo, para fins de conclusão dos experimentos, considera-se que a hipótese continua como uma formulação insuficientemente testada, que necessita ser investigada de forma mais profunda em prováveis novas pesquisas, com vistas a obtenção de melhores resultados.

Com relação ao reconhecimento de unidades de ambiências, pode-se considerar justamente o oposto. O processo de caracterização dessas unidades foi basicamente a tônica principal dos experimentos e resultou na demarcação de dois tipos de ambiências: as ambiências nostálgicas e as ambiências suspensas. As

ambiências nostálgicas foram definidas por espaços em que a presença de edifícios

antigos ou mesmo modernos, cobertos pela pátina ou outros elementos que caracterizam envelhecimento, é percebida como uma atmosfera em que ainda podem ser intuídos movimentos e práticas sociais próprios das épocas passadas.

No caso das ambiências suspensas as áreas foram delimitadas de acordo com sua atmosfera de acomodação urbana. Elas se distinguem por espaços onde o tempo da deriva é compreendido de maneira mais lenta, cuja ação principal se torna o estar e não o percorrer, e onde os edifícios ao redor potencializam a sensação de reclusão e separação do movimento urbano.

É perceptível que a caracterização das ambiências foi influenciada, em grande parte, por uma predileção dos elementos arquitetônicos e pela ênfase em aspectos físicos da cidade. O fato dos pesquisadores-participantes serem dois arquitetos e um cineasta também pode ser considerado como aspecto importante de uma leitura com tendência visual. Entretanto, é possível notar que apesar do destaque para aspectos físicos, existiu por parte destes mesmos pesquisadores, uma tentativa de apreensão das subjetividades, não só em relação as unidades de ambiência, como na percepção de possíveis elementos de passatempo e divertimento, incorporando conceito de jogo

situacionista aos trajetos de deriva.

A inclusão do jogo como elemento natural nas deambulações vai além do aspecto lúdico e configura-se como uma ação de contestação. Estar sempre aberto a

mudanças inesperadas de trajeto ou de olhar, muitas vezes pelo simples fato de obedecer a um sinal, uma placa, ou alguma conjuntura repentina da cidade, foi uma estratégia de perpetuação do jogo utilizada pelos participantes como um instrumento de quebra da monotonia do andar objetivo. Um enfrentamento às condições habituais de caminhar pela cidade com fins demasiadamente traçados, sem a possibilidade da abertura aos movimentos naturais e desejantes do trajeto. Nesse sentido, os pesquisadores também chegaram a conclusão da alteração de tempo e de percepção relativa ao processo de deriva.

Durante a experiência da deriva as percepções em relação à cidade ganham um ritmo mais lento, e principalmente, se distanciam da lógica habitual da circulação relativa apenas à realização de objetivos previamente estabelecidos. Essa alteração do olhar no participante da deriva torna-se essencial para o reconhecimento dos elementos lúdicos, ambiências e outros elementos difíceis de perceber no dia-a-dia.

No que concerne ao exercício da deriva durante à noite, os pesquisadores chegaram à conclusão de que as adaptações noturnas podem ser capazes de gerar novos tipos de ambiências, de experiência lúdica e ainda, novas hipóteses sobre a cidade. Esse novo perfil da cidade durante a noite e a madrugada é, em grande parte, diferente do período diurno, o que necessitaria, portanto, um tipo de estudo mais aprimorado para a obtenção de conclusões mais efetivas. Tendo em vista que os três experimentos foram executados entre às nove da manhã e às cinco da tarde, uma análise realizada ainda nesta pesquisa sobre o período noturno torna-se insuficiente. Um outro elemento importante do processo de deriva foi o levantamento, por parte dos pesquisadores, da hipótese dos becos enquanto túneis de potencialização da experiência de deriva. Essa hipótese emana principalmente da experiência direta da passagem em alguns dos principais becos dos bairros da Boa Vista e de Santo Antônio. Para uma melhor compressão dessa formulação, faz-se necessário a análise de um dos fragmentos do documento Teoria da Deriva, de Guy Debord, onde o autor trata das margens fronteiriças das ambiências:

As diferentes unidades de atmosfera e de moradia não são hoje muito nítidas, e sim cercadas de margens fronteiriças mais ou menos extensas. A mudança mais geral, que a deriva leva a propor, é a diminuição constante dessas margens fronteiriças, até sua completa supressão (DEBORD, 1957).

O trânsito através dos becos do centro Recife foi analisado pelos pesquisadores como uma experiência que consegue exercer um radical estreitamento dessas margens fronteiriças conceituadas por Debord. Pode-se afirmar, por conseguinte, que a travessia pelos becos é uma maneira de esborrar de forma brusca as bordas de ambiência da cidade, abreviando, de tal modo, a circulação pelas distintas percepções e impactos da paisagem, dos sons e de outros elementos próprios da metrópole.

Para um melhor esclarecimento e aprofundamento dos ajuizamentos sobre as questões relatadas, os pesquisadores confeccionaram sete mapas, utilizando como base a cartografia da cidade e interferindo graficamente de modo a ilustrar de maneira física essas ponderações.

Os três primeiros mapas representam os mapas de percursos equivalentes respectivamente aos trajetos dos experimentos. Esses mapas tiveram como base para elaboração as representações georreferenciadas registradas pelo aplicativo Map

my Walk, e podem ser consultados nos apêndices C, D e E desta dissertação.

O quarto mapa corresponde ao mapa de ilustração da hipótese dos becos. Nele estão marcadas as localizações dos becos, com suas correspondentes entradas e saídas, além de uma inserção visual da experiência de ultrapassem dessas extensões. O mapa de ilustração da hipótese dos becos pode ser consultado em sua totalidade no apêndice F deste documento.

O quinto e o sexto mapa procuram traduzir a inter-relação entre as unidades de

ambiências descritas nos experimentos. O trio procurou conectar os lugares relatados

nas derivas, aproximando suas extensões com componentes gráficos e fotográficos, tomando partido dos recursos visuais utilizados nos mapas situacionistas (como as setas de ligação e recortes do mapa da cidade), adicionando a eles registros imagéticos das ambiências.

As setas procuram representar a proximidade das ambiências com relação as suas atmosferas, independentemente de sua localização geográfica. Além disso, também almejam traduzir a tendência de percurso entre uma ambiência e outra, baseando-se nas sequências dos trajetos realizados pelos pesquisadores. O recorte dado às fotografias busca potencializar a tradução imagética do ambiente retratado, enquanto que o posicionamento delas no mapa tem a intenção de representar a

atmosfera das ambiências que estão imediatamente próximas a elas. Esses dois mapas correspondem aos apêndices G e H no final do documento.

O sétimo e último mapa tem a responsabilidade de transmitir graficamente a variedade de elementos lúdicos que rementem às situações associadas ao jogo

situacionista. Nele foram representados sons, objetos e situações num mescla de

fotografias e pequenas inserções textuais. Ele procura se distanciar do olhar com ênfase nos dados físicos e representar os momentos e componentes mais subjetivos dos experimentos. Intitulado de mapa de ilustração de elementos de jogo, ele corresponde ao apêndice I desta dissertação.

Figuras 126 e 127. Exemplos dos mapas disponíveis nos apêndices F e G. Arquivo do autor.

Além dos sete mapas elaborados, os pesquisadores criaram uma conta no aplicativo Instagram, destinada exclusivamente ao registro das fotos das derivas e intitulada de Deriva Recife. A criação desse perfil foi pensada como uma forma de organizar as imagens dos três experimentos em suas respectivas localizações geográfica, além de torna-las disponíveis para acesso on-line. O resultado da submissão das fotos durante os dias de experimento encontra-se disponível no endereço eletrônico: https://instagram.com/derivarecife.

Figura 130. Captura de tela do site do derivarecife. Arquivo do autor.

As considerações sobre o método fenomenológico, a elaboração de diagramas e o conceito de cartográfica afetiva serviram como base para o balizamento tanto da pesquisa efetuada em campo, como elaboração dos mapas de hipótese dos becos e de inter-relação de ambiências. Deste modo, a prática dos experimentos foi importante, não apenas pela sua investigação empírica da cidade, como também para o exercício de confecção e diagramação estética das cartografias.

Os capítulos apresentados nessa dissertação correspondem, como já demonstrado, a um planejamento que teve como objetivo traçar um panorama histórico sobre o desenvolvimento da Internacional Situacionista, discutir de modo detalhado as técnicas escolhidas para a pesquisa: deriva e psicogeografia, construir um planejamento metodológico de experimentação e executar a aplicação dos métodos procurando extrair as possíveis contribuições para o estudo das cidades contemporâneas. Sobre esse planejamento serão tecidos, de maneira gradativa, alguns comentários que possuem o intuito de encerrar possíveis lacunas de compreensão, aprimorar a discussão da pesquisa e expor de forma geral as contribuições do trabalho.

Com relação ao primeiro capítulo, onde são expostas as críticas situacionistas ao funcionalismo do urbanismo modernista, uma questão pode ser destacada. Muito embora as censuras situacionistas residam sobre o excesso de planejamento e racionalização dos urbanistas modernos, as próprias teorias situacionistas também exigiam, em parte, uma racionalização em suas aplicações. A deriva, a psicogeografia, a situação construída, e outras tantas proposições possuíam definições estritamente objetivas e grande parte dos textos do movimento apresentam argumentos bastante radicais, o que acaba por prejudicar, em alguns momentos, diálogos com teorias e conjecturas afins.

A excessiva objetividade em relação aos métodos pode ser observada no episódio, já citado, do afastamento de Constant por conta do projeto Nova Babilônia. Enquanto o artista argumentava que Nova Babilônia representava a realização arquitetônica do urbanismo unitário (CONSTANT, 1959), o restante dos situacionistas, principalmente Debord, afirmavam que representar o urbanismo unitário de forma edificada seria uma atitude cerceadora (SADLER, 1999). Essa afirmação, por parte de Debord, pode ser considerada contraditória tendo em vista que o mesmo, por exemplo, no último trecho da Teoria da Deriva, abre a possibilidade de maneira entusiasmada para a realização de derivas dentro de construções de apartamentos. “Até na arquitetura, o gosto pela deriva leva a preconizar todo tipo de novas formas do labirinto, que as modernas possibilidades de construção favorecem” (DEBORD, 1956). É possível afirmar, deste modo, que o posicionamento teórico e prático do movimento situacionista tem, em certa medida, aspectos que podem ser considerados equivocados.

O segundo capítulo têm início com uma análise histórica relativa aos primeiros indícios de exercício da psicogeografia. Esse resgate se mostra importante, pois demonstra que o conceito de psicogeografia, mesmo tendo sido elaborado pelos situacionistas, remonta a experimentações realizadas desde o século XVIII. Nessa parte do capítulo também são relatadas as primeiras tentativas de levar a arte para o campo das cidades, principalmente por parte dos movimentos dadá e surrealista. Toda essa análise histórica se faz relevante, pois insere as técnicas da psicogeografia e da deriva num contexto histórico de experimentações urbanas e demonstra que, apesar da originalidade dos conceitos situacionistas, ambas as técnicas são produtos de um desenvolvimento e amadurecimento do processo histórico da arte na sociedade.

A partir daí são expostos de modo detalhado os conceitos da deriva e da psicogeografia. Além de uma descrição sobre o caráter situacionista, das hipóteses e dos possíveis resultados da aplicação das técnicas, o texto procura definir o grau de relação entre elas, esclarecendo a função principal de cada uma. Sobre essa questão conclui-se que a deriva se apresenta como um desdobramento prático da psicogeografia. A deriva seria uma apropriação do espaço urbano através do caminhar, enquanto a psicogeografia estudava o ambiente urbano utilizando-se da deriva como instrumento prático (JACQUES, 2003, p. 22).

Ainda no segundo capítulo é exposta uma reflexão sobre a afinidade situacionista com o conceito de jogo. Esse conceito, ligado à condição do homo

ludens, é analisado como um dos elementos principais que levaram à concepção

situacionista da cidade enquanto labirinto, uma construção ideológica que encarava a cidade como um elemento de possibilidades lúdicas. A discussão é desdobrada com a exposição de ações situacionistas de relevância em relação ao conceito de labirinto e a aplicação da deriva e da psicogeografia. O capítulo conta ainda com uma análise da literatura e de ações contemporâneas influenciadas pela teoria situacionista, salientando o impacto positivo dessa revisitação de conceitos para o campo da arte contemporânea e para a pesquisa vigente.

Os aspectos teóricos e metodológicos em relação ao modo de aplicação das técnicas situacionistas no Recife foram abordados ao longo no terceiro capítulo. Nele é realizada uma análise dos pormenores relativos às duas hipóteses levantadas pelos situacionistas advindas da aplicação da deriva: as unidades de ambiência e as

plaques tournantes. Aliado a essa análise são introduzidos aspectos do campo da

filosofia, com foco nos estudos de fenomenologia; da psicologia, com relação ao conceito de cartografia; e ainda, uma avaliação sobre a relevância do estudo de diagramas. Algumas conclusões foram obtidas a partir dessa associação de disciplinas, como, por exemplo, o uso dos diagramas enquanto um importante instrumento de apreensão do corpo na cidade, e a relação de aproximação entre os conceitos de cartógrafo e psicogeógrafo, sendo o primeiro produto do campo da psicologia, e o segundo referente a alcunha do sujeito que se propõe à psicogeografia.

Após essas considerações, o capítulo se dedica a apresentação dos aspectos práticos da dissertação. São apresentadas reflexões que delimitam o trabalho, a partir de seus principais objetivos, a uma pesquisa de campo de caráter experimental. Além disso, a demarcação do sítio de aplicação torna-se importante, dada a condição da escolha de um centro metropolitano para aplicação das técnicas. Por fim, o exercício dos pilotos se revela como uma parte essencial da pesquisa, pela sua propriedade de ajustar os aspectos relativos à aplicação dos métodos para que as experimentações se tornassem mais proveitosas.

A aplicação e análise de três experimentos, realizada no último capítulo, teve como resultado algumas reflexões relativas às hipóteses situacionistas, ao caráter contemporâneo do experimento, e foi responsável pela geração de documentos fotográficos e cartográficos, frutos diretos do exercício da deriva e da psicogeografia. Apesar da proposta inicial de análise de todo o centro expandido, as três derivas detiveram-se, prioritariamente, nos bairros da Boa Vista, de Santo Antônio e em parte do bairro de São José. Essa delimitação se deu de forma espontânea, e elucida a grande probabilidade dessa área ser a mais interessante, dentro do contexto do centro do Recife, para o exercício da deriva.

A utilização de elementos tecnológicos, mais precisamente o uso de aplicativos de smartphone, como instrumentos de auxílio na apreensão dos efeitos psicogeográficos foi de grande importância para os experimentos. O uso dos aplicativos Map my Walk, Snapchat e Instagram contribuiu para uma ampliação das possibilidades de registro e interação virtual das derivas, e ainda, como relatado na conclusão sobre os pilotos, pode ser encarado como um artificio de revisitação do conceito de jogo situacionista, haja vista que os mesmos tiveram suas funções principais desviadas em virtude do objetivo das derivas.

Outro fator importante sobre a aplicação das derivas foi a averiguação das hipóteses situacionistas. As suposições referentes ao reconhecimento de unidades de

ambiências foram corroboradas pelo trio de pesquisadores. Os participantes

exercitaram o reconhecimento dessas unidades em vários setores da área explorada e detectaram a presença recorrente de dois tipos de ambiências: as denominadas

ambiências suspensas e ambiências nostálgicas. Esses dois tipos de ambiência foram

analisados durante os três experimentos de forma gradual e espontânea, e acabaram por se manifestar como elementos que funcionavam ao mesmo tempo como espaços reconhecidos e espaços norteadores de trajetórias.

Em relação a hipótese das plaques tournantes os pesquisadores obtiveram diferentes conclusões. Apesar de reconhecerem espaços com potencialidades similares ao conceito, os três experimentos realizados não foram suficientes para que os participantes qualificassem com propriedade essas áreas de acordo com o conceito. Uma afirmação veemente e uma reflexão detalhada sobre a existência de

plaques tournantes psicogeográficas necessitaria, portanto, de um exercício ainda

mais continuo e aprofundado das técnicas situacionistas.

Para além da averiguação das hipóteses, a experiência das três derivas acabou por suscitar o levantamento de uma proposição por parte dos próprios pesquisadores. Levantada e analisada durante os experimentos no quarto capítulo, não apenas em modo textual, como em formato de mapa, a hipótese dos becos enquanto túneis de potencialização da experiência de deriva se apresenta como uma importante contribuição contemporânea, de caráter especulativo, e com grandes possibilidades de desdobramento para pesquisas futuras.

Aliado a essa conceituação dos becos como elementos de ampliação da deriva, os pesquisadores, ainda no quarto capítulo, reconheceram que a própria experiência da deriva possui um tempo particular, como um momento de contrariedade à circulação habitual e objetiva da cidade. De acordo com esse preceito, as derivas teriam a capacidade de apresentar uma nova relação de espaço-tempo ao transeunte, desvinculando-o momentaneamente de processos corriqueiros e, por vezes, alienantes da sua própria vida, como o trabalho, o trânsito de automóveis, entre outros. Essa particularidade da deriva também chegou a ser especulada pelos situacionistas, o que torna, portanto, essa apreciação dos pesquisadores mais uma conclusão de conteúdo alinhado aos preceitos do movimento.

Com relação ao contexto geral da pesquisa, pode-se acrescentar algumas outras ponderações. Devido ao desenvolvimento das tecnologias, a aplicação das derivas no contexto contemporâneo sofre um tipo de alteração, não apenas de recursos (tal qual os aplicativos utilizados nos experimentos), como em relação ao seu caráter cognitivo. As derivas tornam-se diferentes nos dias atuais por estarem imersas e serem praticadas num espaço onde as relações sociais, culturais e temporais já foram submetidas e se relacionam de forma intima com os aspectos atuais das redes de comunicação, velocidade de informação, e outros elementos implementados pela rápida evolução tecnológica das últimas décadas. A atenção e o reconhecimento dessa nova atmosfera contemporânea devem, portanto, fazer parte das premissas de derivas contemporâneas, assim como a procura, dentro destas novas condições atmosféricas, pelo desvio e contestação de elementos de cunho espetacular.

Desde o fim da IS aos dias atuais, a submissão às questões ditas espetaculares pelos situacionistas e ao sistema capitalista teve o seu caráter apenas reorganizado. As relações sociais mediadas por imagens (DEBORD, 1997) deixaram de se apresentar majoritariamente através do veículo televisivo e ganharam status de rede com o advento da internet. O dever político e desviante da deriva contemporânea é, portanto, o de combater a lógica de massificação e alienação que continuam

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