• Nenhum resultado encontrado

3.1 Aspectos Teóricos

3.1.2. Diagramas e Cartografia Afetiva

Ao tratar da representação de elementos nas cidades é comum que se considere o uso de mapas ou esquemas aproximados que permitam reproduzir o posicionamento ou mesmo a escala dos objetivos em duas dimensões. O uso da cartografia é inerente às cidades desde suas primeiras formações, dado o seu grau de eficiência enquanto instrumento de localização, medição e representação.

A deriva e a psicogeografia, enquanto instrumentos de intervenção e análise da cidade, fazem uso igualmente da cartografia. Entretanto, a cartografia utilizada como instrumento situacionista visa traduzir elementos pouco comuns à representação tradicional. Por conta disso, a confecção e análise de uma cartografia psicogeográfica está imbuída de processos e subjetivações que concernem a campos ainda pouco explorados. Estes campos serão, portanto, objetivo de análise discussão nesse capitulo, com objetivo de melhor entendimento de seus processos.

Há tempos, o uso da diagramação no conceito de projetos relativo ao campo da arquitetura, do design, e de outras áreas tem sido valorizado. A reflexão causada pelo exercício de ordenamento gráfico de pensamentos, seja em formato de croquis, mapas de fluxo, zoneamento espacial, entre outros, é tida como elemento de grande contribuição para a melhoria da qualidade desses projetos. Se os diagramas, enquanto sistemas de tradução gráfica de significados, permitem ao seu projetista transpor elementos porventura abstratos em superfícies concretas, então pode-se considerar que estes diagramas prestam um serviço no ordenamento de aspectos subjetivos da natureza.

Diagramas são simples desenhos ou figuras que usamos para pensar com ou para pensar através. A ideia de pensar por meio de um diagrama é crucial, não só porque um digrama fornece ordem a estabilidade, mas porque ele é um veículo para desestabilização e descoberta (KNOESPEL, 2002, p. 10, tradução nossa).

O engenheiro Kenneth Knoespel intitula a segunda parte de um de seus artigos sobre diagramas de Diagram and Metaphor (Diagrama e Metáfora), em face da capacidade dos diagramas em concretizar elementos tal qual uma expressão metafórica é capaz de traduzir uma determinada ação ou circunstância em palavra. Segundo Knoespel (2002, p. 12) é apropriado pensar que os diagramas se traduzem em veículos que nos permitem observar o quanto o discurso visual é realmente composto de uma genealogia de figuras que delineiam a geração de significados.

Os mapas psicogeográficos elaborados pelos situacionistas, em especial os mapas de Guy Debord, demonstram o quanto esta noção de transposição de um discurso visual pode ser eficaz. Nesse sentido a cartografias psicogeográficas podem ser vistas como uma experiência de diagramação do processo de deriva, e consequentemente de apreensão urbana.

Figura 30. Exemplo de composição psicogeográfica.

A composição de um mapa psicogeográfico é pautado na adaptação de conceitos linguísticos para o campo da expressão gráfica. Os conceitos de unidades

de ambiência, por exemplo, são representados por secções dos lotes e ruas

fotocopiados do mapa de Paris. Os pontos de inflexão dos trajetos são representados pelas setas vermelhas, ganhando certa personalidade de acordo com suas curvaturas e comprimentos. Eles são descritos por Debord como “desvios de direção espontâneos” (DEBORD apud JACQUES, 2003, p.23). Não fica evidente, pela literatura situacionista, se as plaques tournantes também são representadas por essas setas, pelos recortes em fotocópia das ruas, ou mesmo se aparecem realmente de forma gráfica nesses mapas. Entretanto, sabe-se que elas são importantes para a elaboração afetiva e organização espacial dos mesmos.

A produção desse tipo de mapa era incentivada pelo grupo como uma maneira de especular sobre os aspectos relativos as circunstancias subjetivas cidade. Ao associarmos esses mapas ao conceito de diagrama esbarramos novamente no campo fenomenológico: “do ponto de vista da fenomenologia ou da ciência cognitiva, os diagramas têm grande embasamento óptico porque sugerem as formas em que as conexões são realizadas dentro do um campo visual” (KNOESPEL, 2002, p. 11, tradução nossa).

Os situacionistas tiveram essa percepção precisamente por conta das suas contraposições aos modos de vida não-perceptivos, que é tônica do paradigma fenomenológico. Não à toa, as primeiras elucubrações acerca das possibilidades de

uma cartografia psicogeográfica surgem ainda nos textos de crítica urbana, no período embrionário do movimento, quando Debord ainda participava da Internacional Letrista.

A confecção de mapas psicogeográficos e até simulações, como a equação – mal fundada ou completamente arbitrária – estabelecida entre duas representações topográficas, podem ajudar a esclarecer certos deslocamentos de aspecto não gratuito, mas totalmente insubmisso às solicitações habituais (DEBORD, 1955).

Outro elemento importante em relação aos mapas enquanto resultados de deriva é a noção de que eles também devem traduzir a relação do corpo na rua. A noção de percurso, ou seja, do corpo em movimento também pode estar presente enquanto formas de diagramação. “[...] os diagramas podem marcar uma maneira de seguir a linguagem do corpo, e ainda mais, uma maneira de seguir a linguagem para dentro da experiência espacial do corpo” (KNOESPEL, 2002, p.12, tradução nossa). Um exemplo disso é o mapa de Khatib referente ao seu percurso realizado na área próxima ao Mercado de Les Halles.

Figura 31. Percurso de deriva produzido para o relato de Les Halles. Abdelhafid Khatib, 1958.

Essas experiências sensoriais traduzidas em mapas, diagramas, esboços, também podem ser abordadas sobre um viés um pouco menos filosófico e mais relativo a psique humana. Um dos recursos utilizados para esse tipo de análise das experiências do mundo pelo homem, no campo da psicologia, é chamado de cartografia sentimental ou afetiva.

Paisagens psicossociais também são cartografáveis. A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que o desmanchamento de certos mundos – sua perda de sentido – e a formação de outros: mundos que se criam para expressar afetos contemporâneos, em relação aos quais os universos vigentes tornaram-se obsoletos (ROLNIK, 2014, p. 23).

A cartografia tal qual objeto de estudo da psicologia não se equivale a cartografia tradicional que representa medidas gráficas, mas sim a um estado de ordenamento de ideias e experiências por parte dos seres humanos. O cartógrafo, nesse sentido é o personagem que imerge nas estruturas psicossociais com o intuito de esclarecê-las. A tarefa do cartógrafo, segundo Rolnik (2014, p. 23) é a de “dar língua para afetos que pedem passagem”.

Pode-se traçar, portanto, um paralelo muito claro entre a figura do cartógrafo da psicologia e do psicogeógrafo situacionista. O psicogeógrafo de acordo com as definições da IS (1958) é o “indivíduo que pesquisa e transmite as realidades psicogeográficas”, ou seja, o estudo do meio geográfico e dos elementos que agem sobre o “comportamento afetivo dos indivíduos”. A similaridade referida se agudiza quando Rolnik (2014, p. 66) argumenta que o que um sujeito cartógrafo deseja “é mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem”.

É interessante tratar ainda que, na avaliação de Rolnik, pouco importa quais os domínios da vida social que o cartógrafo pode tomar como objeto de estudo. “O que importa é que ele esteja atento às estratégias do desejo em qualquer fenômeno da existência humana que se propõe perscrutar” (ROLNIK, 2014, p. 65). Assim sendo, é sensato argumentar que o psicogeógrafo é uma ramificação do cartógrafo da psicologia, um cartógrafo urbano.

Se esse cartógrafo urbano, ou psicogeógrafo, opera seus experimentos no ambiento da cidade, ele necessita, impreterivelmente, despender atenção ao comportamento do seu corpo no ambiente urbano. A esse corpo sensível, capaz de apreender afetividades e projeções da cartografia é dado o nome de corpo vibrátil (ROLNIK, 2014). Esse corpo é responsável por uma tarefa complexa, a de compreender os movimentos desejantes dos aspectos sociais e naturais. No caso do psicogeógrafo, a constituição de corpo vibrátil serve para a uma maior tomada de consciência das razões e do próprio movimento do seu percurso na cidade.

Aliada a esta noção do corpo vibrátil, existe a reflexão sobre o caráter interventivo de uma experiência a nível cartográfico, a noção de que uma avaliação compassiva de um ambiente, incorpora também, de forma inequívoca, a intervenção neste próprio ambiente. “Com o conceito de transversalidade, Guattari prepara a definição do método cartográfico segundo o qual o trabalho da análise é a um só tempo o de descrever, intervir e criar efeitos-subjetividade (PASSOS; BARROS, 2009, p. 17, grifo nosso).

Algumas experimentações lastreadas por esse conceito de cartografia sentimental e de corpo vibrátil interventivo já estão sendo realizadas no âmbito urbano. O Programa de Pós-graduação de Arquitetura e Urbanismo da UFBA é um dos incentivadores desses experimentos. Num artigo publicado pela revista Redobra, editada pelo PPGAU-UFBA foi realizado um experimento que procurou expressar através de um diagrama essa relação de análise-participação do cartógrafo na cidade.

Mais do que mapear os percursos, procurou-se cartografar ações, modos de usar o espaço no tempo oportuno. A sobreposição de variados dispositivos de registro da experiência, do vídeo à memória do corpo, constrói uma espécie de mapa de procedimentos ou operações de sujeitos ambulantes, mas também do próprio cartógrafo (SCHVARSBERG, 2012, p. 161).

O trabalho de Schvarsberg além de abarcar as questões relativas ao diagrama e à cartografia sentimental demonstra que o estudo dessas relações pode auxiliar no aprimoramento e na ampliação da visão sobre as intervenções experienciais situacionistas. Em conjunto com as considerações sobre a fenomenologia e a percepção atreladas as hipóteses situacionistas esses aprimoramentos configuram uma base teórica que contribuirão para uma melhor adequação e processo de investigação dos experimentos pretendidos pela presente pesquisa.

Documentos relacionados