2.2 SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
2.2.4 Conclusões
A sociologia no campo dos estudos do conhecimento, incluindo a sociologia do conhecimento, da ciência e do conhecimento científico desenvolve ao longo do tempo seguindo um fio condutor. Iniciou com a obra de Scheler que apresentou um ensaio em que abordou a formulação básica da sociologia do conhecimento. Buscou alcançar a objetivação dos valores históricos de forma hierárquica. Em continuação, Mannheim sistematizou e divulgou a sociologia do conhecimento, investigou as fontes de erro e o papel da ideologia, entendida como ideias que servem de armas para interesses sociais, na produção do conhecimento. Relacionou as relações efetivas do conhecimento com a situação histórico- social subjacente, porém não entrou na análise quanto à validade do conhecimento.
Merton ampliou a concepção da sociologia do conhecimento incluindo as mútuas implicações entre ciência e sociedade, pois esses estudos não existiam à época, entretanto, deu pouca atenção à influência da sociedade sobre a ciência. Considerou a sociologia da ciência como uma subdivisão da sociologia do conhecimento. Desenvolveu um conjunto de normas éticas que foram sistematizadas, publicadas e institucionalizadas como o ethos da ciência. Teve como objetivo o estudo da ciência dentro de uma ótica institucional. Sua contribuição para a sociologia do conhecimento foi a definição do paradigma do conhecimento expondo,
os temas mais importantes, representado por cinco perguntas que se constituem tanto no objeto quanto no método para a sociologia do conhecimento.
O conceito de paradigma de Kuhn veio ajudar no entendimento dos aspectos destacados por Mannheim relativos à gênese social do conhecimento e ao problema da sua validade, legitimando a relevância do conteúdo social (crenças, valores e consensos) como fator fundamental para a validade de muitas descobertas da ciência.
Já Berger e Luckmann contribuíram para a sociologia do conhecimento fazendo a separação entre os objetos da sociologia e os da filosofia. Para eles, a sociologia do conhecimento deveria ocupar-se com tudo que passa por conhecimento em uma sociedade, deixando as questões relativas à validade ou invalidade do conhecimento, os problemas epistemológicos e metodológicos. Para eles, o objeto da sociologia do conhecimento é o mundo da vida cotidiana, o conhecimento que dirige a conduta do indivíduo na vida diária.
A nova sociologia da ciência ou sociologia do conhecimento científico é caracterizada pela inclusão do conteúdo técnico da ciência dentro do escopo da análise sociológica; pela valorização de uma metodologia internalista, que se concentra nas práticas internas da ciência com ênfase na descrição, mais do que na explicação e na análise de como o conteúdo da ciência é considerado. Para a nova sociologia da ciência o conhecimento científico é susceptível de análise e explicação sociológica, nesse sentido a sociologia da ciência deve estudar o uso da linguagem, do discurso, os textos, os instrumentos e outros métodos e ferramentas utilizadas no campo. Sem deixar os aspectos externalistas, a nova sociologia da ciência incluiu a análise semiótica dos registros em laboratório, análise de negociações de significados em conversas científicas, estratégias de persuasão ou análise de discurso.
Com base na literatura consultada foi constatado que o desenvolvimento da sociologia no campo dos estudos do conhecimento não incluiu aspectos relativos ao processo de comunicação científica com profundidade. Fato também comentado por Cannavò (1997), pois a sociologia do conhecimento não atentou para o estudo de teorias e processos de comunicação que envolvem o público leigo. A sociologia no campo do conhecimento realizou estudos apenas voltados para a análise e modelagem da comunicação científica no âmbito interno à ciência.
Apesar dessa constatação, foram identificados aspectos discutidos no âmbito da sociologia do conhecimento, cujo detalhamento já foi abordado neste capítulo, que podem ser absorvidos por terem o potencial de diretrizes ou se constituírem em base teórica para os estudos da comunicação científica direcionada ao público leigo.
Nesse sentido retomando Merton, com o ethos da ciência, no que se refere ao universalismo e comunismo ou comunalidade abre precedentes para o processo de comunicação científica ao mesmo tempo que, ao considerar a ciência como de domínio público, torna-se imperativo, a comunicação dos resultados provenientes do processo de produção da ciência também para o público leigo, apesar de, em sua abordagem, o processo de comunicação estar restrito à comunidade interna à ciência, ou seja, entre os cientistas.
A comunicação científica gera sucesso, prestígio e reputação para aquele que produziu o conhecimento científico, cabendo ao receptor, nesse processo de comunicação, selecionar, decodificar e avaliar a mensagem, de acordo com o efeito Mateus, o que promove uma maior visibilidade e reconhecimento para aquele que a elaborou. Portanto, esse reconhecimento está dentro dos limites da comunidade científica, do qual o público leigo não participa.
Os estudos de Berger e Luckmann (2007), que consistem em um dos trabalhos basilares da sociologia do conhecimento, descrevem a estrutura e funcionamento das zonas de vida cotidiana e distante, incluindo as formas de apropriação do conhecimento relacionadas com tempo e espaço. Detalharam que o indivíduo vive dentro da realidade da vida cotidiana que se subdivide em setor rotinizado e setor de problemas, esse modelo oferece subsídios para reflexão quanto a diretrizes a serem adotadas visando à comunicação científica para o público leigo, ao tempo em que defenderam os tipos de necessidades e comportamentos que os indivíduos têm em cada uma dessas zonas.
Complementando este estudo, as relações, entre ciência e sociedade, ganham relevo. A sociedade pós-moderna é caracterizada pelo risco, incerteza e um esforço de modernização compulsiva e obsessiva. Essa mesma sociedade cria e interage diretamente com a ciência e a tecnologia transformando-a e sendo transformada, em um movimento denominado por Morin (2000) de anel recursivo ou circularidade autoprodutiva, de forma que produzimos a sociedade que nos produz, onde o efeito é ao mesmo tempo a causa, onde somos ao mesmo tempo produtor e produto (BAUMAN, 2003; BERNAL, 1991; GIDDENS, 1991; MORIN, 1997, 2000; RUSSELL, 1976; VALENTE; CAZELLI; ALVES, 2005).
Neste contexto, a ciência não é neutra. O grupo social responsável pela geração do conhecimento científico, para se manter e ocupar os espaços almejados ou considerados necessários utiliza-se da competição entre os pares visando o capital simbólico, o qual se traduz em benefícios para os indivíduos que o integram. Consequentemente, o grupo se associa aos detentores de poder e de recursos financeiros que podem patrocinar seus trabalhos. Assim, a ciência tornou-se uma instituição poderosa no centro da sociedade,
subvencionada, alimentada e controlada pelos poderes econômicos e estatais produzindo um processo inter-retroativo (DAGNINO, 2002; FOUREZ, 1995; MORIN, 1997, 2000; RUSSELL, 1976; ZIMAN, 1981).
Complementado com Schwartzman (2001), no cerne da comunidade científica há um mundo humano, de decisões baseadas em interesses, em ideias aproximadas e tentativas, em disputas de poder, em decisões oportunistas sobre temas e prioridades e no uso da retórica para conquistar aliados e derrotar inimigos. Assim, o desenvolvimento do conhecimento científico é influenciado pelas variáveis sociológicas, culturais e políticas como em qualquer outra prática humana. A prática da ciência é diferente de sua ideologia e justificação, por esse motivo, não é possível continuar a defender, de forma ingênua e irrefletida, a superioridade do conhecimento científico, das propostas dos cientistas e tecnólogos, sobre todas as demais. Nesse contexto, tornou-se premente a necessidade de conhecer com profundidade como a atividade científica se estrutura, se organiza, busca recursos, estabelece suas verdades e reordena os atores e objetos, que dela participam ou que são por ela influenciados.
Na realidade, a ciência tornou-se fundamental para o desenvolvimento e bem-estar dessa sociedade pós-moderna, porém, há diferentes abordagens que discutem os prós e contras da ciência em relação à sociedade, apesar de ter uma relevância do ponto de vista teórico objetivo de que a ciência deve suprir sua função social (BERNAL, 1991; FOUREZ, 1995; MORIN, 1997, 2000; RUSSELL, 1976; ZIMAN, 1981).
Habermas (1986) classificou as interações entre ciência e sociedade em três grupos distintos, alertando, porém, que essas interações não ocorrem separadamente uma da outra, mas, em alguns momentos a predominância de uma sobre a outra. Os três modelos de Habermas são: modelo tecnocrático – em que as decisões cabem única e exclusivamente aos especialistas; modelo decisionista – em que são identificadas as finalidades e valores do cliente a partir das quais os especialistas propõem meios para atingir os objetivos definidos, com base em seus conhecimentos; e modelo pragmático-político – pressupõe e privilegia uma discussão e negociação permanente e interminável em todas as etapas do processo.
Fourez (1995) ponderou que caso o modelo escolhido seja o pragmático-político o debate será fundamental, e é nessa perspectiva que a vulgarização da ciência17 assume grande importância.
Diante da complexidade e do avanço do conhecimento científico e tecnológico e de sua apropriação econômica se faz necessário questionar, buscar esclarecimentos quanto às
consequências advindas da utilização desse conhecimento que está sendo apropriado, pois tecnologias utilizadas para acelerar o desenvolvimento, aumentar a produção etc. podem afetar profundamente a vida e o meio ambiente, tornando, em alguns casos, realidades irreversíveis. Entretanto, para opinar, questionar e decidir é preciso primeiramente conhecer, e aí entra o papel fundamental da comunicação científica.
Diante dessas afirmativas, em uma sociedade de direito democrático, a comunicação científica para o público leigo deve adquirir um significado de direito do cidadão e uma das condições necessárias são a formação e capacitação dos indivíduos para lidar com o mundo no qual se encontram inseridos.
Parafraseando Morin (2000) a ciência tornou-se um problema sério demais para ficar apenas nas mãos de cientistas, tornou-se muito perigosa para ficar nas mãos dos estadistas dos Estados, passou a ser um problema cívico, dos cidadãos.
2.3 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA PARA O PÚBLICO