• Nenhum resultado encontrado

A floresta da área de estudo, mesmo quando não produz bens com valor de mercado nem é gerida de forma comercial, tem um valor que é o valor dos serviços prestados à comunidade. O conceito de serviço, por ser completamente antropocêntrico, não foi facilmente adquirido pela comunidade dificultando a comunicação entre decisores, gestores, produtores e utilizadores dos serviços, condição fundamental para a implementação de programas de gestão sustentável dos recursos florestais. O facto de o conceito de serviço pressupor uma concepção holística do ecossistema (a oferta de serviços depende da manutenção do ecossistema como um todo que é superior à soma das partes que o compõe) permite suportar de forma ética, social e economicamente a gestão sustentada dos ecossistemas e a conservação da biodiversidade (Pereira et al., 2009).

Neste contexto, apesar de apelativo e de ampla utilização, há diversas questões relacionadas com o conceito de serviço de ecossistemas, principalmente ao nível da sua aplicação, que permanecem sem solução satisfatória, todas elas relevantes no caso do sector do Ngove. A primeira é a do valor. O valor dos serviços de ecossistema não se encontra quantificado excepto no caso de alguns bens de produção com preço de mercado (por exemplo madeira, cogumelos, caça, carvão vegetal). A valoração dos serviços é um pressuposto fundamental nesta análise encontrando-se em amplo desenvolvimento à escala mundial. Quanto vale a fixação de carbono nos solos

ferralíticos do Ngove? Quanto vale a flora endémica desta região? Quanto vale o saber popular da seleção, preparação e aplicação de plantas medicinais que se encontram nesta zona? Quanto valem, efetivamente, as florestas desta região considerando o valor de todos os seus serviços? São questões que provavelmente não serão respondidas na próxima década mas que, mesmo assim, permitem atribuir, ainda que de forma não monetária, valor às florestas o que muito deverá contribuir para a sua conservação e utilização sustentável (Pereira et al., 2009).

Sendo possível calcular um valor para a floresta e para os seus serviços, a questão que se coloca de seguida é a do pagamento destes serviços. Quem paga, como e quanto? A generalidade dos serviços de ecossistema das florestas, e dos ecossistemas em geral, não são pagos pelos seus beneficiários. A regulação de cheias, regulação do clima, valor cénico, património cultural e natural são exemplos de serviços de, reconhecida importância e valor, mas que não são pagos pelos seus beneficiários diretos e indiretos (Pereira et al., 2009).

No entanto, é crescente a defesa do pagamento desses serviços com base em argumentos de natureza económica e social mas também como ferramenta de conservação das florestas ou de outros ecossistemas. A produção e a utilização dos serviços encontram- se espacialmente segregadas. As áreas do interior do país, nomeadamente as áreas planalticas, são os principais produtores de serviços de ecossistema florestal. São áreas de baixa densidade populacional onde a procura local destes serviços é proporcionalmente baixa. São também áreas desfavorecidas, com baixos rendimentos e reduzidas oportunidades económicas e sociais. Os principais beneficiários dos serviços produzidos aqui são as populações concentradas no litoral (ou outras no caso de serviços gerados omnidirecionalmente). Os serviços de ecossistemas que as populações beneficiam não são pagos aos proprietários individuais ou colectivos, ou detentores de direitos de utilização dos ecossistemas. O que limita por um lado o interesse na sua posse e exploração favorecendo a sua substituição por usos do solo alternativos (construção, agricultura, floresta de rápido crescimento), como, por outro lado, limita a conservação da integridade do ecossistema, favorecendo a sobre-exploração do recurso com valor de mercado, geralmente a madeira e o carvão vegetal, o que pode degradar o ecossistema reduzindo a qualidade, quantidade e regularidade da oferta de serviços em geral. No caso das florestas, um conjunto de factores como a desvalorização do preço da

madeira, a fixação de taxa ao preço do carvão, a elevada vulnerabilidade ao fogo pode diminuir o interesse por esta produção, e deste modo prestar maiores incentivos a actividade agropecuária por formas a tornar geradora de renda imediata as famílias camponesas (Pereira et al., 2009).

O pagamento de serviços através da contribuição para uma valorização dos ecossistemas florestais e para a manutenção de povoamento poderia inverter esta tendência. O pagamento de serviços de ecossistema florestal depende sempre da disponibilidade da sociedade para o fazer. Pode, no entanto, ser incentivado por políticas e instrumentos de gestão e conservação da natureza e dos recursos florestais que os governos implementem. As comunidades rurais fruto da resposta aos inquéritos, parece concordar com o pagamento de serviços de ecossistema, falta de um impulso do sector político ligado a gestão das florestas para nos aproximarmos desta realidade (Aguiar et al., 2009; Azevedo et al., 2011).

i. A perda de biodiversidade está a destruir as funções dos ecossistemas sob pressão, a agricultura itinerante, a sobre exploração da lenha e o carvão. As alterações climáticas, e as espécies alóctones que competem com a flora e fauna autóctones, estão a causar danos nos ecossistemas naturais. Uma vez destruídos, a sua recuperação é dispendiosa e, por vezes, impossível. Existe a necessidade de um conhecimento mais exacto para aumentar a nossa compreensão das ligações entre a biodiversidade, os ecossistemas e o bem- estar humano (UE, 2010).

ii. Existem diversos tipos de solução para este problema da valorização criação de mercados directos para cada um dos serviços em causa (biodiversidade, qualidade da água, redução de risco de incêndio), deixando que os preços nesses mercados orientem as decisões dos gestores da floresta; venda indirecta venda dos serviços em mercados de bens relacionados, tais como produtos florestais certificados quanto à gestão sustentável das florestas ; políticas públicas, em que o Estado orienta as decisões dos gestores da floresta através da regulamentação, de isenções fiscais, subsídios, impostos ou taxas, de modo a obter os níveis pretendidos dos diversos serviços dos ecossistemas;

iii. Têm de existir compradores interessados em adquirir o bem ou serviço e vendedores interessados em fornecê- lo; O montante total que os compradores estão dispostos a pagar pelo serviço tem de exceder o montante mínimo que os vendedores exigem em troca, ou seja: no mínimo, os custos de produção do serviço (a valoração ajuda a avaliar se esta condição se verifica).

iv. Os que não pagam os serviços têm que ser excluídos como beneficiarios; caso contrário, ninguém pagaria e não haveria qualquer mercado (impossível no caso de bens públicos puros como a floresta ou a qualidade do ar);

v. Existe em Angola uma política nacional de florestas fauna selvagem e áreas de conservação, que não esta a ser implementada para atender aos grandes problemas verificados no sector do Ngove, tendo em conta o avançado estado de degradação florestal que se regista, motivadas pela abertura de novos campos agrícolas e o fabrico do carvão vegetal que está a ganhar corpo como a principal actividade geradora de renda para as famílias camponesas.

vi. Dado o seu potencial produtivo as zonas florestais do Ngove são economicamente atractivas e ambientalmente sensíveis, gerando intensos conflitos de interesses e profundos impactes ambientais que colocam em risco os actuais usos e ocupações, independentemente das evoluções ou convulsões que se perspectivam.

As zonas florestais por isso assumem uma importância estratégica em termos ambientais, económicos, culturais e recreativos.

BIBLIOGRAFIA

1. A. CASTANHEIRA DINIZ; F.Q DE BARROS AGUIAR – Zonagem Agroecológica de Angola, VI Edição – Instituto de Cooperação Portuguesa; Pág. 353 – 362, 1998.

2. AGUIAR, C.F.G. - Flora e vegetação da Serra de Nogueira e do Parque Natural de Montesinho. Lisboa: Instituto Superior de Agronomia. Universidade Técnica de Lisboa, 2001, Tese de Doutoramento.

3. AGUIAR, C., AZEVEDO, J. C. [et al.] - Montanha. In : Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment. Lisboa, Escolar Editora, 2009, pp. 295-339.

4. AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA. DISPONÍVEL EM: <http://www.clickescolar.com.br/agricultura-de-subsistencia.htm> . Acesso em: 02 set. 2011.

5. AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA. DISPONÍVEL EM: <http://www.suapesquisa.com/o_que_e/agricultura_subsistencia.htm> . Acesso em: 02 set. 2011.

6. ASSOCIAÇÃO LUSITANA DE FITOSSOCIOLOGIA - Tipos de Habitat Naturais e Semi-Naturais do Anexo I da Directiva 92/43/CEE (Portugal continental): Fichas de Caracterização Ecológica e de Gestão para o Plano Sectorial da Rede Natura 2000. Relatório. Lisboa, Associação Lusitana de Fitossociologia. 2004.

7. AZEVEDO, J.C. - Inventário de macrofungos em povoamentos de Castanea sativa em Trás-os-Montes. Vila Real, Universidade de Trás-os- Montes e Alto Douro, 1989 (Relatório Final de Estágio da Licenciatura em Engenharia Florestal).

8. AZEVEDO, J.C., CASTRO, J. P., [et al.] - Avaliação do potencial de produção e utilização sustentável de biomassa para energia no Distrito de Bragança. In : Acta do 17º Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional / V Congresso de Gestão e Conservação da Natureza / Workshop de Zamora da Associação Espanhola de Ciência Regional: Gestão de Bens Comuns e Desenvolvimento Regional Sustentável. IPB/APDR/AECR, Zamora e Bragança, 29 de Junho a 2 de Julho de 2011. 2011, pp. 1008-1021.

9. BARROS, L., CRUZ. T. - Wild and commercial mushrooms as source of nutrients and nutraceuticals. In: Food and Chemical Toxicology, nº46, 2008, pp. 2742-2747.

10. BARROS, L., CARVALHO, A.M, [et al.] - From famine plants to tasty and fragrant spices: three Lamiaceae of general dietary relevance in traditional cuisine of Trás-os-Montes (Portugal). In: LWT-Food Science and Technology, nº 44, 2011, pp. 543-548.

11. BAIRD, C. (2002). Química ambiental. Entendendo a mudança do clima: um guia para iniciantes da Convencção-Quadro das Nações Unidas e seu Protocolo de Quioto. 2ª ed. Porto Alegre: Bookman. Brasil.

12. BARRETO, L. V.; FREITAS, A. C. S.; PAIVA, L. C. (2009). Sequestro de carbono. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Brasil. 10p.

13. BRANCO, S. - Macrofungos no Parque natural de Montesinho. Estudo preliminar de inventariação e caracterização.. Relatório. Bragança, Instituto da Conservação da Natureza, 2003.

14. BILA, A. Estratégia para a Fiscalização Participativa de Florestas e Fauna

15. Bravia em Moçambique. 2005.

16. BROWN, S. (1997). Estimating biomass and biomass change of tropical forests: A primer. FAO For. Pap. 134. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations. 55 p.

17.

CAMPOS, ANTÓNIO; Agricultura, Alimentação e Saúde - uma

Documentos relacionados