4. Segurança e (re) articulações estatais
5.1. Condotierri, Piratas e Companhias Mercantis
Escrevendo no Século XVI na Itália, o filósofo Nicolau Maquiavel emitiu um aviso severo para os príncipes que confiassem demasiadamente em forças mercenárias durante um conflito:
Mercenários e seus auxiliares são inúteis e perigosos. Se um Príncipe baseia a defesa do seu território em mercenários, ele
nunca vai alcançar a estabilidade ou segurança. Mercenários são desunidos, sedentos por poder, indisciplinados e desleais; são corajosos entre seus amigos e covardes perante o Inimigo (...) em tempos de paz, você será despojado por eles e, na guerra, pelo inimigo (Maquiavel, 1999: 39)
De certo modo, a história do emprego de mercenários remonta pelo menos o antigo Egito e a Mesopotâmia, com forças contratadas sendo amplamente utilizadas em guerras dentro e fora da Europa (Howard 2001: 20- 37; Thomson, 1994: 26-32). Antes e depois da Guerra dos Cem Anos, encerrada em 1453, grupos de soldados foram empregados como mercenários por monarcas ou pela Igreja renascentista, em um contrato (condotta) para conduzir uma determinada campanha militar. Estes condottieri foram, guardadas as devidas proporções, empresas militares, servindo diferentes empregadores em momentos diferentes. Durante o século XVI, por exemplo, Howard aponta que:
Seja qual for a razão de guerras durante este período, de disputas sobre herança ou conflitos religiosos, eles foram realizados, em grande medida, por uma classe internacional de soldados baseados puramente em uma lógica comercial (Howard 2001: 24)
O uso generalizado de mercenários nos séculos XVI e XVII significava que, para alguns, a guerra era realmente um negócio lucrativo e tal prática permitiu o surgimento de empresários militares relativamente poderosos. Por exemplo, em 1625, Albrecht von Wallenstein possuía um exército privado de cerca de 100.000 soldados que arrendou para o Sacro Império Romano e os Habsburgos (Giddens, 1987: 109). Enquanto Estados maiores tentaram limitar sua dependência de forças mercenárias, grupos políticos menos formavam seu exército, em alguns casos, quase que completamente com tais soldados (Lynn 1996: 516). A prática do mercenarismo continuou no século XVIII, com exércitos das grandes potências europeias (por exemplo, Prússia, Grã-
Bretanha, Espanha e França) sendo consituídos em mais de 60 por cento tropas estrangeiras (Thomson1994: 29).
Apesar de mercenários como soldados individuais serem provavelmente a representação mais conhecida da prática de contratação de violência não- estatal, eles não eram os únicos atores no "mercado" do emprego de medidas coercitivas. Corsários - descritos por Tilly (1992: 82) como " forças não- governamentais licenciadas" - eram embarcações navais particulares que eram licenciadas por governantes para realizar operações militares em seu nome. Assim, a pirataria era essencialmente um "programa governamental " (Tabarrok 2007: 572). O uso de corsários, com os primeiros registros no século XIII, tornou-se uma prática generalizada em tempos de guerra no século XVII - com piratas sendo usados por grandes potências europeias em sua competição por colônias e rotas de comércio.
Tal como aconteceu com os corsários, as empresas mercantis, como as Companhias holandesas ou inglesas das Índias Orientais, eram atores importantes no estabelecimento e manutenção das rotas de comércio e colônias nos séculos XVI, XVII e XVIII. Uma importante característica das empresas mercantis mostra-se especialmente para os argumentos aqui apresentados: elas formavam exércitos e marinhas próprias, que poderiam ser requisitados por Estados, em alguns momentos (Kinsey 2006: 38). Como Thomson conclui, as empresas mercantis:
eram instituições criadas pelo Estado que, através da violência, eram empregadas para angariar ganhos econômicos políticos tanto para atores estatais e não estatais e, assim como
atualmente as distinções entre atores estatais e não- estatais não faziam sentido (1994: 41, nosso negrito).
Essa ênfase no emprego de ferramentas de coerção através de atores interpretados como não-estatais ocorreu em um período da história em que os Estados nacionais na Europa estavam ainda em formação. Essas práticas foram ferramentas úteis aos governantes, mas, ao mesmo tempo, também resultou em uma série de consequências não intencionais. A autorização de violência não-estatal gerou discussões a respeito da legitimidade e
responsabilidade entre os Estados, por exemplo. Grande parte da literatura aponta que o período entre século XV e o XVII foi o "auge do emprego de tropas mercenárias por governantes civis" (Tilly, 1992: 122). Na Europa, foi a Guerra dos Trinta Anos que sinalizou tanto o auge desse tipo de mecanismo como o início da degeneração de um regime de forte dependência de violência não-estatal. Esta guerra, de acordo com Van Creveld, "logo degenerou-se para um conflito de cada um por si, em que Imperador, reis, governantes territoriais de diversos escalões, ligas religiosas, cidades livres, e mercenários lutavam com todos os meios à sua disposição "(van Creveld, 1999: 159-160). Com o término da guerra, com a assinatura do Tratado de Vestfália em 1648, o Estado foi consolidado como o "garantidor incontestável da ordem interna e legitimador da guerra externa" (Howard 2002: 16). Certamente, esta modificação dramática não foi uniforme, nem isso aconteceu rapidamente, mas, ainda assim, a Paz de 1648 é amplamente vista na literatura de Relações Internacionais como o ponto de partida para o moderno sistema internacional; uma ordem Vestfaliana, na qual o Estado tornou-se a forma predominante de organização social (Watson 1992: 182-196; Falk 2002).
Novamente, é importante salientar o caráter irregular deste processo, a fim de evitar simplificações e determinismos, em que o resultado final - o Estado - parece explicar todo o seu processo (Tilly, 1992: 33). De modo a fazer esta análise ainda mais relevante para o estudo da privatização em curso da segurança e da violência, se faz necessário uma apreciação também da principal instituição coercitiva do Estado, os militares, e o próprio desenvolvimento posterior da guerra. Através desta investigação, um quadro histórico mais abrangente de distintos conceitos será produzidos e utilizado, posteriormente, para análise do Estado moderno, sua relação com a violência e o sistema de estados e, finalmente, para as mudanças que estão ocorrendo na era pós-Guerra Fria.