Dentro dessa narrativa, é possível se estabelecer um paralelo entre as considerações de excepcionalidade de Agamben e a Guerra ao Terror dos
Estados Unidos contra o terrorismo. Isso se dá em diversos momentos, como o surgimento de estruturas como os centros de detenção para suspeitos de terrorismo, mas operando principalmente pelo surgimento de narrativas que relativizam as distinções política interna / relações internacionais, polícia / militar e amigo / inimigo. Esta seção argumenta que tal a indefinição é provocada por uma mudança fundamental na política de segurança dos Estados Unidos. Os ataques de 11 de setembro de 2011 teriam gerado uma transformação de uma lógica de Defesa para prevenção. Conforme a Estratégia Nacional de Segurança (ENS) dos EUA de 2002 aponta:
Temos de nos adaptar o conceito de ameaça iminente para as capacidades e objetivos dos adversários de hoje (...) Para prevenir ou impedir tais atos hostis dos nossos adversários, os Estados Unidos deverão agir, se necessário, preventivamente"
A mudança narrativa indica potenciais mudanças geopolíticas , uma vez que os Estados Unidos já não poderiam depender uma postura meramente reativa, principalmente pela magnitude dos potenciais danos que tais grupos terroristas poderiam retaliar. Ainda na ENS de 2012, a afirmação resume essa lógica: "não podemos deixar que nossos inimigos ataquem primeiro".
Dessa forma, o objetivo já não é enfrentar um perigo concreto - mas intervir antes que as ameaças sejam totalmente gestadas. A mudança da defesa para a prevenção, da reação para pro-atividade (Munster, 2008) deve ser considerada principalmente em um nível ontológico. Enquanto a defesa implica proteção, segurança e confiança, a prevenção opera em sentimentos permanentes de medo, ansiedade e inquietação. Os discursos de segurança contra o terrorismo, assim, são dominados pela lógica de gestão de riscos, uma narrativa que apela para a administração de potenciais populações - e governos - interpretados como passíveis de criar ameaças.
Ainda dentro dessa lógica, a guerra contra o terrorismo não pode ser acoplada com os limites espaço-temporais tradicionais: o soldado do terror é que escolhe quando e como atacar, sendo o medo provocado por tal questão uma de suas principais ferramentas. Todos podem ser suspeitos, em uma instância, como a própria ESN-2012 aponta: "milhares de assassinos perigosos
(...), muitas vezes apoiados por regimes ilegais, estão agora espalhados por todo o mundo como bombas-relógio, criados para dispararem sem aviso prévio" (p. 23)
Em termos de seus efeitos sobre a ordem global, como já apontado, a doutrina de prevenção estabelece a base para a isenção dos Estados Unidos em relação às normas internacionais. Nesse sentido, a prevenção invalida a lei sem declarar o direito internacional abertamente obsoleto. Diante de uma ameaça etérea, a guerra contra o terrorismo institucionaliza um permanente estado de exceção em que o Estados Unidos se reserva o direito de agir unilateralmente quando exigido. Como Hardt e Negri (2000: 98) argumentam:
Aqui, portanto, nasce, em nome da excepcionalidade da intervenção, uma forma de direito que é realmente um direito da
polícia [que] está inscrito na implantação da prevenção,
repressão e força retórica que visa a reconstrução do equilíbrio social.
Dessa forma, a guerra contra o terrorismo implementaria um espaço de vigilância e prevenção contínua - que, em última análise, produz manifestações da vida nua. Como afirma Van Munster (2004:8), apesar da narrativa da guerra ao terror parecer ascender o terrorista dos domínios da justiça criminal para o da guerra e da segurança internacional, um olhar mais atento revela que os terroristas não são, de fato, considerados uma parte legítima dos conflitos. Ao contrário, eles são criminalizados e enquadrados como combatentes ilegais. A distinção entre o combatente inimigo e o combatente ilegal tem grande semelhança com a dicotomia schmittiana entre inimigo e adversário. Enquanto o primeiro se refere a um outro concreto, que constitui uma ameaça existencial para o indivíduo, o inimigo se refere a um "outro" criminalizado e moralmente rebaixado, que não só deve ser derrotado, mas totalmente destruído. A fala de Rumsfeld sobre o Afeganistão, em que indica que o objetivo da guerra era matar o maior número de talibãs, e não derrotá-los, materializa de forma adequada esse pressuposto. Como apontado, a construção da guerra contra o terrorismo como um conflito em nome da própria civilização nega que tais
valores possam ser anexados ao inimigo em questão. Como argumenta Zizek (2002: 91):
Não podemos sequer imaginar uma organização humanitária neutra, como a Cruz Vermelha, mediando entre as partes desse conflito, organizando a troca de prisioneiros (...) um dos lados do conflito, a força global liderada pelos EUA, já assume o papel da Cruz Vermelha - percebendo-se não como um dos lados da disputa, mas como um agente de paz e mediação da ordem global, esmagamento rebeliões e, simultaneamente, prestando ajuda humanitária às populações locais Talvez a imagem mais poderosa desse tratamento da "população local" como Homo
Sacer da guerra norte-americana é a de um avião voando acima
do Afeganistão - nunca se tem certeza se dele vão cair bombas ou alimentos
Como destacado anteriormente, um segundo aspecto, em que a transformação de vida em vida nua é visível na guerra contra o terrorismo diz respeito ao estatuto e tratamento de suspeitos de terrorismo detidos. Embora muitos dos presos tenham sido colocados sob custódia americana durante o conflito no Afeganistão, não foi concedido para estes o status de Prisioneiros de Guerra, conforme as atribuições estabelecidas pelas Convenções de Genebra.
A narrativa de combatentes ilegais, assim, autorizou os Estados Unidos a manter a detenção de tais indivíduos fora da regulamentação internacional, materializada pela prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. O destino dos detidos também é mantido fora da competência do sistema de justiça dos EUA, pela localização extraterritorial da base. Enquanto o sofrimento destes detidos obviamente, não é comparável às atrocidades enfrentadas pelos habitantes de os campos de concentração, não deixa de ser possível detectar a estrutura jurídica-política do estado de exceção (o campo) em centros de detenção, como a base de Guantánamo, na forma com que os detidos são despojados de todos os direitos legais, enquanto eles continuam a ser submetido ao poder exercido sobre eles.
3.6.. Inimigos excepcionais e atores de enfrentamento de emergência
Essa movimentação provoca reações nos atores empregados para lidar com esses ameaças de excepcionalidade. Isso se dá nos já mencionados campos de detenção extrajudiciais e, mais importante para a presente discussão, com o aumento do emprego de Companhias de Segurança Privada. Uma vez que o "terror" é construído como um inimigo que não respeita nenhuma das convenções tradicionais, a única forma para combatê-lo é justamente adequando os mecanismos em um nível semelhante. É dentro dessa lógica que o emprego de Companhias Militares Privadas (CSP) será galvanizado: uma vez que tais "Novos mercenários" também se encontram em uma prática de combate usualmente fora da lógica de excepcionalidade, sua atuação em campos como Afeganistão e Líbia será permeada por tais considerações.
Como irá se demonstrar nos próximos capítulos, o nascimento de CSP não é inédito e nem pode ser justificado puramente pela emergência e novas formas de violência típicas do fim da Guerra Fria. Contudo, a lógica de exceção aqui apresentada carrega em si a novidade ao servir para justificar a permanência de soldados contratados em novos campos de conflito. O processo securitizante, assim, não cria às CSP mas galvaniza seu emprego, ao apontar que apenas atores fora das normas podem lidar com tais dimensões inéditas dos conflitos armados.
Em virtude dessa lógica muitas das práticas militares no Iraque e no Afeganistão, palcos principais desse processo securitizante, são radicalmente diferentes dos mecanismos dito tradicionais para o uso da força. A designação do opositor armado como "terrorista", e a negação subsequente de sua natureza política, pautada pela construção de uma irracionalidade de suas ações, fazem com que tais intervenções incluam práticas de erradicação, com total ausência de capacidades de negociação. Assim, a população como um todo se torna um inimigo em potencial, uma vez que pela própria natureza fluída dos combatentes irregulares, não existiria capacidade de diferenciação imediata. Como apontado por Bush, "não sabemos bem ao certo quem são eles [os terroristas] mas sabemos que eles estão lá" (Bush, 2003b). A combinação das já citadas construções narrativas em que grupos considerados
terroristas são "bárbaros" e "irracionais", retira a necessidade de obedecer normas dentro do conflito. O respeito às normas internacionais seriam uma "amarra", uma vez que seriam práticas unilaterais. É recorrente a fala de que CSP, assim, seriam os melhores atores para lidar com essa situação. A fala de um contratante na Líbia explicita essa situação:
Imagine você tendo que pensar [nas normas] para lidar com eles [terroristas]. Devo atirar? Não atiro? Esse tempo pode ser a diferença para morrer ou não. Regras servem para soldados, se você não está de uniforme, está escondido atrás de criança e resolve atirar contra alguém, tem que entender se a resposta não for muito boa. Genebra [as leis internacionais do conflito armado] só valem para quem respeita.
Um conflito sem inimigos identificáveis não possui, dentro dessa perspectiva, fim - e mesmo declarações de encerramento da guerra, como ocorreu no Iraque, não indica o encerramento das violências. O inimigo deixa de ser um ator político para se tornar uma mera questão política. Isto também implica que os meios de abordar tal questão também é apolítica, necessitando assim de técnicas, sejam elas de vigilância, controle e eliminação. Essa prática acaba sendo relegada para atores não-militares, principalmente as Companhias de Segurança Privada.
Conclusão
Como já apontado, a Guerra ao Terror serviu de justificativa para uma série de movimentações de exceção, justificadas em uma narrativa securitizante que apontava para ameaças terroristas eminentes. Para melhor compreender tais ferramentas, além das considerações sobre Escola de Copenhague, feitas no capítulo anterior, se fez necessário estabelecer uma breve genealogia da excepcionalidade dentro do pensamento moderno. Para isso, se elencou dois dos principais teóricos do tema, Carl Schmitt e Giorgio Agamben, para ressaltar como práticas de ações fora da normalidade estão
profundamente inseridas nas democracias modernas. As considerações sobre "Amigo-Inimigo" do primeiro e as interpretações sobre a excepcionalidade contemporânea, assim como a vida nua e o Homo Sacer, do segundo, criam um quadro mais sofisticado sobre as possibilidades de compreensão da lógica de exceção.
Partindo dessas premissas, demonstramos como a Guerra ao Terror foi empregada como justificativa para a implementação de modelos fora do arcabouço jurídico nacional, nos Estados Unidos, e até mesmo em discordância de acordos internacionais ratificados por Washington. Discursos de desumanização dos socialmente construídos como terroristas, permeados por uma lógica binária entre Civilidade-Barbárie. Assim, por exemplo, autorizaram o emprego de ferramentas de exceção que resultaram em estratégias como a não inclusão de terroristas como combatentes legais em conflitos - estando fora dos mecanismos de proteção internacional, por conseguinte - ou a criação de espaços de detenção, como a prisão de Guantánamo, que, dentro desse discurso, não precisariam respeitar a lógica normativa vigente.
A materialização das considerações do autores, além da análise de discurso do governo Bush, apresentados nesse capítulo, auxiliam principalmente na compreensão de como o Estado, após construir as ameaças existenciais, aponta que necessita de ferramentas excepcionais para lidar com os novos desafios. Essa afirmação é especialmente importante para a compreensão do emprego das Companhias Militares Privadas dentro desse cenário, principalmente por que tais atores irão usar a falta de controle normativo como um dos seus principais ativos nos campos de batalha.
Capítulo 3
Revisitando o monopólio estatal do uso da força e a privatização da violência
Introdução
Como já abordado no capítulo anterior, entendemos a soberania como um conceito intrinsecamente relacionado mecanismo com a lógica de decisão de práticas de excepcionalidade. Focando nessa característica, ressaltou-se como a escolha por mecanismos fora do arcabouço normativo são vitais para a compreensão da Guerra ao Terror. Nesse capítulo específico, pretende-se discutir como a lógica da soberania, especificadamente a sua materialização em um suposto monopólio do uso da força, se relaciona com mecanismos de violência, como estratégia para compreender a relação dos agentes estatais com a privatização do uso da força. Compreendendo as características da soberania estatal como construções sociais, derivadas das relações entre diversos atores, enfatiza-se nesse capítulo as mutações do conceito no que diz respeito a quem possui a legitimidade para lidar com ferramentas de coerção.
Diferente do que a literatura tradicional de das análises em relação às Companhias de Segurança Privadas, assume-se aqui que tais atores não necessariamente erodem a soberania - mas representam um momento de resignificação da mesma, em conluio com redefinições do que é público e privado em tais contextos. Definimos este e o próximo capítulo como um interregno entre duas frentes: a análise macro da Guerra ao Terror Global, marcada por seus fenômenos de alcance planetário e narrativas de excepcionalidade, com a próxima sessão, micro, que tenta compreender como as CSP atuaram em campo, baseadas e reprodutoras de tais premissas de emergência. Como já apontado, no centro dessas movimentações com ordens de grandeza distintas, estariam tais companhias de segurança: como resultado de um processo de exceção e empregadoras de uma narrativa securitizante.