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Condutas anti-sociais em contexto escolar

No documento Bullying e peer status na escola (páginas 40-46)

CAPÍTULO I Definição de Bullying

2- Condutas anti-sociais em contexto escolar

A amplitude das condutas anti-sociais identificadas no contexto escolar é, segundo Martínez- Otero Pérez (2005), diversificada. O autor refere-se, neste sentido, à categorização de Moreno e Torrego, que compartimenta os comportamentos socialmente negativos desenvolvidos pelos jovens na escola nos termos:

- “interrupção ou perturbação das aulas” (acções de baixa intensidade – risos, comentários, movimentos – perturbadores do processo de ensino/aprendizagem);

- “indisciplina” (situações de conflito entre aluno e professor, de média e elevada intensidade, variando entre o simples incumprimento de tarefas por parte do aluno e as ameaças e agressões físicas ao professor);

- “actos de vandalismo” (danificação de materiais escolares, com intenção de destruir, induzir ao temor ou subverter a norma social);

- “violência física” (direccionada contra pessoas indiferenciadas, com expressões preocupantes em alguns países europeus e do continente americano)

Pode-se concluir, então, pela existência de diferentes tipos de envolvimento das crianças ou jovens em actos de violência, sendo possível constatar que o bullying (que partilha algumas características com as manifestações anteriores) é um tipo de violência de índole relacional e interpessoal (Currie, 2004), mas nem todas as manifestações violentas emergentes em contexto escolar são necessariamente caracterizáveis como bullying (Casals Cervós, 2006).

Agressividade

Violência

Bullying

Bullying com

violência

Fig. 1: Bullying - Diagrama Conceptual (Peiró i Gregòri, 112006), adaptado de Olweus (2005)

Como se pode constatar pela observação do diagrama anterior, apesar de o bullying não ser sinónimo de violência ou agressividade (Andreou, 2000; Slee, 1995), envolve uma conduta agressiva (Rigby, 2004; Tapper, 2005; Solberg, 2003), que remete na sua definição para a própria noção de agressividade (Xin Ma, 2001; Salmivalli, 1996a; Roland, 2001; Ireland, 2004) sendo, por consequência, anti-social, apesar de relacional, visto que sem uma vítima não pode existir um vitimizador (Ahmed, data desconhecida).

À relativamente consensual afirmação anterior associa-se a ilação retirada pelos que se debruçam sobre o fenómeno de bullying de associação explícita entre bullying e comportamento agressivo (com a ressalva de este comportamento se caracterizar sempre por um desequilíbrio de forças), de expressão directa (verbal e física) e indirecta (relacional) (Rigby, 2003), que adiante será explorada.

O bullying apresenta, contudo, características que o diferenciam de outras expressões de agressividade e posicionam este construto como um sub-tipo de agressividade (Rigby, 2005) (aspecto analisado mais aprofundadamente adiante), que pode ou não “tocar” (na sua ocorrência em contexto escolar) em conceitos como “violência” (no que remete para a agressão física ou contra a propriedade) ou “assédio” (no que concerne às acções de índole verbal e/ou relacional) (Ireland, 2004). Flemming (2002) alude também à partilha de características entre bullying entre pares e outros tipos de abusos, como o maltrato infantil e a violência doméstica.

Fig.2: Relações entre os conceitos de violência, maus-tratos, agressão e conduta anti-social (Del Barrio, 2003, adaptado de Olweus, 1999, e Del Barrio, Martín, Almeida e Barrios, 2003)

Para Del Barrio (2003), a representação gráfica sugere um perpassar da violência pelas restantes condutas, mas igualmente uma transcendência, o que releva para a análise ora efectuada, na medida em que pode constituir-se como um factor explicativo da relativa valorização dos comportamentos físicos de intimidação/vitimização (que, segundo a mesma autora, são se encontram extensivamente comprovados pela comunidade científica como sendo de menor ocorrência quando em comparação com outras formas de bullying).

Pode-se assim concluir que, em consonância com os parágrafos seguintes, nem todas as agressões intimidatórias/vitimizadoras são físicas, e nem todas as agressões não estritamente físicas deixam de poder ser qualificadas como violentas.

O diagrama anterior evidencia também a componente relacional do fenómeno e a intenção de causar uma perturbação física ou psicológica no outro que conduz ao comportamento de

bullying, podendo esta perturbação, segundo Woods e Wolke (2003), acontecer na forma de

uma manipulação danosa para o outro (mesmo em relações de amizade entre pares) que cause sofrimento através de comportamentos como a exclusão social ou a disseminação de rumores negativos, dificilmente mensuráveis quando em comparação com acontecimentos visíveis como actos de vandalismo ou roubo, de maior impacto momentâneo mas menor prevalência - e até podendo não ter qualquer relação com comportamentos de bullying - quando em comparação com a incidência de bullying, segundo Ireland (2006).

Ainda assim, Flouri (2002) assinala a possibilidade de ocorrência de bullying envolvendo acções delinquentes como extorsão ou roubo do lanche (dano ou roubo de propriedade,

aspecto referido adiante). Olafsen (2000) aponta para o facto de o bullying ser percepcionado como uma componente de um padrão comportamental de cariz anti-social e tendencialmente delinquente mais amplo, com a probabilidade de conduzir futuramente a um percurso de criminalidade e/ou comportamentos anti-sociais.

3- Bullying

As diferentes expressões empregues na denominação do fenómeno de violência e vitimização escolar entre pares trazem consigo significados próprios (para além dos comuns a todas as definições e termos) que transmitem mensagens específicas, espelhando as perspectivas culturais pelas quais o fenómeno é observado. De facto, se considerarmos a expressão “mobbing” ou “mobbning” inicialmente adoptada pelos países nórdicos, é constatável que este termo remete para uma acção grupal violenta contra um indivíduo (já analisada anteriormente neste trabalho).

Segundo Henderson e Murphy (2000), a sua equivalente norte-americana “victimization” enfatiza o papel e impacto na vítima. Solberg (2003) refere que, em termos de definição, Olweus, apesar de aderir ao termo “mobbing” introduzido por Heinemann, estabeleceu uma comparação entre esta acção de cariz eminentemente grupal e o termo “bullying” (abrangendo este último na sua semântica a violência de índole grupal e individual), classificação insuficiente se constatarmos a actual compartimentação das expressões de bullying sugeridas pela comunidade científica e abaixo apresentadas.

Por outro lado, Banks (1997) faz referência a diversas definições de bullying (por autores como Furniss e Piskin), nas quais se podem incluir praticamente todas as acções cujo propósito seja magoar outra pessoa (conceito que dificultaria sobremaneira a anterior sugestão de compartimentação e análise do fenómeno de vitimização entre pares no contexto escolar).

Apesar das condicionantes culturais que atribuem ao fenómeno bullying diferentes conotações ((Yoneyama, 2003), a concordância geral aponta para determinados factores-chave que permitem distinguir o bullying de outros comportamentos anti-sociais. Para Martínez-Otero Pérez (2005), Vázquéz (2005), Gini (2004a) e Furniss (2000), o bullying distingue-se dos

comportamentos anteriormente referidos na medida em que o termo reporta para os comportamentos proactivos, segundo Rigby (2000) geralmente não provocados, que se repetem e prolongam no tempo, de dominância, intimidação e vitimização entre pares (alunos da mesma turma ou do mesmo estabelecimento escolar).

Estas acções, num construto conceptual iniciado por Olweus e seguido por autores como Walker (1995b), Pateraki (2001), Gini (2004a), Salmivalli (1996b), Unnever (2005), Roland (2002), Larsen (2003), Flouri (2002), Olafsen (2000), Andreou (2000), Smith (2000b), Roland (2001), Viljoen (2005) e Craig (1998), consistem na vitimização por acções de maltrato físico (empurrões e pontapés, de maior frequência no 1º Ciclo), verbal (o mais frequente, traduzido em insultos ou escárnio), psicológico (componente presente em todas as expressões de maltrato) e social (no sentido de excluir ou diminuir a vítima socialmente).

Lacueva (data desconhecida) recorda a definição de Olweus de bullying, delineada por este autor em 1998, que traduz esta situação de intimidação e vitimização no seguinte: Bullying é

quando um aluno se converte em vítima por exposição, de forma repetida e prolongada no tempo, a acções negativas (tanto verbais como físicas e psicológicas/relacionais) levadas a cabo por outro aluno ou grupo de alunos. Wolke, Woods, Stanford e Schulz (2001) referem-se

também à definição terminológica de Olweus em termos bastante semelhantes aos anteriores, sendo possível inferir que Olweus “reparte” o bullying na sua expressão comportamental directa e física e/ou verbal e, por outro lado, na sua vertente indirecta e social (vocacionada para a exclusão social e o disseminar de rumores negativos).

Neste ponto, um aspecto alvo de reflexão por parte de Horton (2005) que deve ser adicionado à discussão prende-se com o contraste entre a perspectiva ocidental de estudo do bullying (focando primordialmente os seus comportamentos caracterizadores) e a abordagem nipónica, que incide a sua observação no contexto e na estrutura social (num choque entre as perspectivas de análise psicológica e sociológica salientado por Taki, citado pelo mesmo autor).

Aliás, Akiba (2004), apresentando o termo homólogo para definir o bullying na cultura japonesa (Ijime) menciona precisamente a elevada incidência da tipologia relacional de ijime (nomeadamente ostracismo e abuso verbal) e a preocupação que este género de vitimização

causa no bem-estar dos estudantes japoneses, numa sociedade colectiva socialmente onse a pertença a um grupo é fulcral para a sobrevivência social e a exclusão social (shikato) se constitui como a mais dura forma de bullying (com mais impacto que a própria agressão física ou contra a propriedade, como sucede na sociedade ocidental).

Pikas (1975), citado por Sutton (1999) e Salmivalli (1996b), partilha desta opção pela valorização contextual sociológica, na medida em que a definição de bullying delineada por si inclui a expressão “contexto grupal” (com o reconhecimento da influência do contexto – principalmente no seio de grupos sociais relativamente permanents, como uma turma - para a realização das acções de intimidação/vitimização e do âmbito colectivo do bullying).

Tani (2003), Craig, Pepler e Atlas (2000a) e U.S. Secret Service (2004) introduzem, de facto, a dimensão contextual da sua ocorrência, salientando a necessidade de consideração do papel do contexto social, perspectiva ecológica avançada por Cairns and Cairns (1991), citados por Craig et al. (2000a) para a compreensão do comportamento agressivo e da respectiva vitimização decorrente da interacção no seio da díade bully – vítima, sem esquecer as consequências negativas para a atmosfera escolar da ocorrência de episódios de bullying entre as crianças ou jovens de uma sala de aula, ano lectivo ou estabelecimento escolar (O'Moore, 2005).

Inclusivamente, autores como Sanders (2004) e Berger (2007), consideram que o bullying não deve de todo ser percepcionado como exclusivo da díade anteriormente mencionada, mas sim como um fenómeno grupal, um “acontecimento social”, com maior probabilidade de ocorrência em grupos com fraca coesão relacional que, inclusivamente podem, pela própria observação do fenómeno e correspondente inacção, caucionar, reforçar e tornar normativa esta prática (Garandeau, 2006; O'Connell, data desconhecida), num ciclo de auto-alimentação que favorece a imagem do bully perante o grupo (estimulando o respeito e o tempor por parte dos seus colegas).

Walker (1995a) releva também factualmente a importância da intenção e do contexto como factores determinantes da ocorrência de um episódio de bullying mas, ao considerar ambos os elementos como de índole subjectiva, reconhece as dificuldades (tanto para adultos – pais e educadores/professores – como para as crianças) de interpretação do que é ou não bullying (numa tendência dos profissionais de educação para subestimar a frequência e magnitude

deste comportamento que se pode associar ao relative desconhecimento desta classe profissional das expressões deste fenómeno).

A leitura dos trabalhos subordinados à temática da violência entre pares no contexto escolar permite identificar uma definição guizada e aplicada por Hazler (1996), Olweus (1996), Schuster (1996), Smith e Morita (1999), autores citados por Hazler (2001) e Carney e Merrell (2001), a que se juntam a maioria dos autores inscritos na bibliografia deste trabalho, a qual identifica factores essenciais para a definição de bullying:

O conceito de bullying define-se pelo comportamento agressivo repetido (mais de uma única vez) face a um ou mais jovens (por parte de um ou mais jovens) através de palavras, actos físicos ou exclusão social no espaço da escola ou no percurso de e para casa que magoem a vítima de forma física ou psicológica. O bullying é uma acção injusta, porque o(s) aggressor(es) é(são) ou fisicamente mais forte(s) ou possui(em) mais aptidões verbais ou sociais que a(s) vítima(s). (Hazler, 2001)

Fig. 3: Bullying no contexto escolar

B/A: Assistentes do Bully B: Bully

O: Colegas Observadores (bystanders)

No documento Bullying e peer status na escola (páginas 40-46)