Nabuzoka (2003) realizou uma comparação dos comportamentos de bullying em alunos da Zâmbia e da Inglaterra abarcando o 1º, 2º e 3º ciclos de ensino, descrita no artigo Experiences
of bullying-related behaviours by English and Zambian pupils: a comparative study.
Os resultados obtidos sugerem uma diferenciação dos padrões comportamentais tanto em termos gerais, como entre anos escolares, idade e sexo, e os alunos ingleses relatam mais exposição ao bullying, além de, proporcionalmente, mais rapazes nos dois países, tendo o autor considerado a influência e nacionais culturais das estruturas educacionais.
Em um estudo que ultrapassou as fronteiras de uma nacionalidade e envolveu 2.377 crianças de Inglaterra entre o 2º e o 4º ano de escolaridade e 1.538 crianças alemãs do 2º ano de escolaridade Bullying and victimization of primary school children in England and Germany:
Prevalence and school factors (Wolke et al., 2001), os participantes foram questionados com
recurso à mesma entrevista padronizada, subordinada à temática da intimidação/vitimização entre pares no contexto escolar.
Cross-National Comparison of Children’s Attitudes Towards Bully/Victim Problems in School é
outra expoente da vertente transnacional da investigação sobre esta temática, na qual Menesini (1997) engloba no estudo estabelecimentos de ensino italianos e ingleses, visando investigar as componentes atitudinais face ao bullying escolar (mais precisamente, a extensão da expectativa das crianças quanto à intervenção dos seus pares e dos professores em situações de bullying, à empatia com as vítimas de bullying e à sua predisposição para elas próprias intervirem).
Tendo os resultados obtidos sido semelhantes nos dois países, os mesmos indicam que os professores intervêm frequentemente mas as crianças fazem-no mais raramente apesar de a maioria ter atitudes de empatia com as vítimas de bullying (apesar de uma maioria significativa, que inclui muitos bullies, não ter). Em termos de género, as raparigas sentem mais empatia que os rapazes pelas vítimas, mas tal empatia não se concretiza numa maior probabilidade de intervir.
Culturalmente, as crianças mais velhas das escolas italianas sentem mais empatia que as mais novas, revertendo-se esse quadro nas escolas inglesas, mas em ambos os países a probabilidade de intervir é mais reduzida junto dos alunos mais velhos, dados recolhidos nas seguintes amostras:
- Itália: 1.379 crianças de Florença (126 rapazes e 120 raparigas do ensino primário; 299 rapazes e 239 raparigas do ensino preparatório) e Cosenza (160 rapazes e 138 raparigas do ensino primário; 146 rapazes e 151 raparigas do ensino preparatório), com idades entre 8 e 11 anos (1º ciclo) e 11 e 14 anos (ensino preparatório)
- Inglaterra: 6.758 crianças de Sheffield (1.271 boys rapazes e 1.352 do ensino primário; 2.152 rapazes e 1.938 raparigas do ensino preparatório) com idades entre 8 e 11 anos (1º ciclo) e 11 e 16 anos (ensino preparatório).
Outro estudo que ultrapassou as fronteiras da nacionalidade e se dedicou ao comum entre cultoras diferentes foi o descrito no artigo Moral Emotions and Bullying: A Cross-National
Comparison of Differences Between Bullies, Victims and Outsiders, de Menesini (2003b),
autora de trabalhos já citados neste capítulo, em que a diferenciação patente ao nível das emoções morais nos participantes em situações de bullying foi objecto de estudo, com base num questionário de nomeação de pares aplicado a alunos (posteriormente agrupados em três grupos: bullies, vítimas e não-participantes) de três cidades de dois países (Espanha e Itália).
Seguidamente, realizaram-se entrevistas subordinadas aos sentimentos relativamente a situações hipotéticas nas quais, num cenário de bullying, devem adoptar a perspectiva do bully (abrangendo emoções como a culpa ou a vergonha expressas num sentido de responsabilidade moral, ou indiferença e orgulho, relevadoras de uma atutide de desligamento moral).
As conclusões a que os autores chegaram reportam para uma diferenciação significativa entre bullies, vítimas e não-participantes tanto aos níveis afectivo como cognitivo. Em todas as cidades se constatou um maior desligamento moral dos bullies, apontando para um perfil de personalidade e argumentação egocêntrica. Para lá das diferenças entre bullies e vítimas, as especificidades culturais também estiveram presentes, pois as crianças de Cosenza atribuiram um maior desligamento moral aos bullies.
Apesar de sedeado no Reino Unido, o papel da escola e da cultura de pares na construção da identidade adolescente em contextos sociais de violência foi analisado numa investigação abrangendo três países africanos (Zimbabwe, Malawi e Gana). Leach (2003), no trabalho
Learning to be Violent: the role of the school in developing adolescent gendered behaviour
estabelece através do registo de incidentes de violência entre géneros (estendendo-se os mesmos a um âmbito de gravidade muito superior ao bullying), uma conexão entre comportamentos violentos perante raparigas ou rapazes mais fracos e a formação de uma identidade masculinizada, culturalmente e normativamente determinada, com a conivência da organização escolar.
Enveredando pela investigação qualitativa faseada, fundamentada no método observacional, a observação de 112 raparigas e 59 rapazes, com idades compreendidas entre os 11 e os 16
anos, num segundo grupo de dimensão inferior (73 raparigas) e num terceiro grupo (25 raparigas) foi agregada à entrevista a pais, professores e profissionais de educação.
A esta primeira fase seguiu-se um estudo qualitativo realizado no Gana e no Malawi (no ano lectivo 2000–2001), em 6 escolas (3 de cada país), que incluiu entrevistas, observações naturalistas e o acompanhamento de intervenções de escala reduzida.
Finalmente, uma referência ao Innocento Report Card 7, da United Nations Children’s Fund (2007), intilulado An overview of child well-being in rich countries, estudo de âmbito internacional que pretendeu conhecer a prevalência do bullying em diversos países, e onde é possível localizar as únicas menções encontradas pelo autor da presente tese doutoral a países como a Suécia ou a República Checa (com percentagens de vitimização na ordem dos 15% de alunos em idade escolar) ou à Suíça e à Áustria (com percentagens na ordem dos 40%).