3 CONTEXTOS DO TRABALHO NA ATIVIDADE TURÍSTICA DE
3.1 O CONDUTOR DE RAFTING
Os praticantes de TA procuram a aventura e a emoção (LIPSCOMBE, 2007; BREIVIK, 1996). Enquanto isso, as empresas oferecem a segurança que irá proporcionar as condições para a realização da vivência desejada (MORGAN, 2010; BUCKLEY, 2006; CATER, 2006). O profissional que trabalha para fornecê-la, tanto para a empresa, quanto para o turista, é o condutor.
Dejours (2002), comenta que o trabalhador é colocado em uma posição que exige dele a produção de vários objetivos, com distintos fins e interesses. Em nosso caso, o sujeito condutor, que admite o papel de conduzir as pessoas ao longo do percurso e realiza a atividade desejada por elas, necessitando dominar uma série de conhecimentos. Dele espera-se profissionalismo e responsabilidade.
No intuito de desenvolver o turismo de forma segura e uma experiência turística de qualidade, em 1993, o governo brasileiro constituiu oficialmente a profissão do Guia de Turismo, através da Lei nº 8.623/93 (BRASIL, 1993), reconhecendo que dentro da cadeia turística de deslocamento pessoas para distintos fins, devem existir profissionais responsáveis por conduzir e orientar os
turistas. Com essa situação, foi possível inscrever a profissão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)10, o que já não ocorre com outros profissionais do setor.
Atuando em atividades realizadas em ambientes naturais formalizados institucionalmente, na atualidade existem os profissionais Guias de Turismo especializados em atrativos naturais, o Condutor Ambiental Local e o Condutor de Turismo de Aventura. Porém, salientamos que cada um destes trabalhadores possui distintas áreas de atuação, com suas próprias características, peculiaridades e especificidades.
Com o mesmo intuito de garantir a segurança e qualidade dos serviços prestados, mas focado em um fim específico, o Condutor Ambiental Local é o sujeito trabalhador reconhecido pelo governo federal, para atuar em Unidades de Conservação Federal, de acordo com a Instrução Normativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), nº 08/2005 (BRASIL, 2005). Essa normativa, estabelece os “procedimentos necessários para a prestação de serviços por meio da condução de visitantes em Unidades de Conservação” (BRASIL, 2005). Baseado nesta normativa federal, o estado do Rio Grande do Sul através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA/RS), promulgou a Instrução Normativa nº 01/2014 (RIO GRANDE DO SUL, 2014), que estabelece “normas e procedimentos, para a prestação de serviços relacionados à visitação, e ao turismo em Unidades de Conservação de responsabilidade do Estado do Rio Grande do Sul, por condutores ambientais autônomos” (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
O Condutor de Turismo de Aventura, categoria de atuação dos sujeitos objeto deste estudo, encontram-se em uma situação diferenciada dos demais profissionais atuantes em meio natural. Esse profissional não é reconhecido legalmente como o Guia de Turismo e nem é amparado pelas Instruções Normativas como as do ICMBIO, devido à especificidade de sua atuação. É um profissional institucionalizado a partir da publicação dos manuais de boas práticas e de competências mínimas para condutor, bem como de sistemas de gestão da
10 A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), instituída por portaria ministerial nº. 397, de 9 de
outubro de 2002, tem por finalidade a identificação das ocupações no mercado de trabalho, para fins classificatórios junto aos registros administrativos e domiciliares. Os efeitos de uniformização pretendidos pela CBO, são de ordem administrativa e não se estendem as relações de trabalho. Disponível em:<http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/home.jsf>. Acesso em: 14 mar. 2014.
segurança trabalhados no PAS e pela criação das normas técnicas que regem seu trabalho. Assim, encontra-se incluso e enquadrado a nível nacional nas Normas de Segurança que definem as competências mínimas para condutor de turismo de aventura (NBR 15285) e os sistemas de gestão da segurança (NBR 15331), porém sua participação no Cadastro Brasileiro de Ocupações ainda está para ocorrer.
No estado do Rio Grande do Sul, está previsto e instituído na Lei nº 12.228/05 (RIO GRANDE DO SUL, 2005) que o Instrutor e Condutor de Turismo de Aventura seja fornecido pelas agências e credenciados para atuação no TA, ou seja, as agências possuem a obrigatoriedade de contratação destes profissionais, que devem estar devidamente qualificados e credenciados.
De acordo com o SEBRAE (2014), é apropriado que se estabeleçam requisitos focalizados nas competências mínimas consideradas essenciais e necessárias aos profissionais que atuam como condutores de turismo de aventura. Neste sentido, o MTUR colaborou ao lançar o manual de boas práticas do condutor de TA, bem como as normas técnicas (ABNT, 2005a) que descrevem, entre suas competências e responsabilidades:
a) o atendimento e condução do cliente; b) a prestação de um serviço de qualidade; c) a segurança;
d) os cuidados com o meio ambiente e as comunidades envolvidas.
Apesar das NBR 13285 (ABNT, 1995) e NBR 15370 (ABNT, 2006), que dizem respeito às competências mínimas para o condutor de turismo de aventura, e de condutor de rafting, respectivamente, não fazerem parte do arcabouço legal brasileiro de forma oficial, assim como a NBR 15331 (ABNT, 2005), referente ao sistema de gestão da segurança, após o decreto de 2010 da Lei Geral do Turismo (BRASIL, 2008), que trata sobre o TA, é oportuno os condutores de rafting se apropriarem dos procedimentos descritos nestes manuais, visto que abordam competências pertinentes a todo o profissional que atua em meio à natureza, e no
rafting. Deve-se, também, considerar, que, no caso da ocorrência de algum sinistro,
não havendo lei específica, o aparato jurídico pode fazer valer as normas técnicas existentes em áreas correlatas, sendo de sua responsabilidade estar informado sobre as recomendações presentes nas NBR, para assim estar amparado legalmente.
Além disso, de acordo com ABETA (2009a), deve-se estar preparado para o pior. Os impactos de um acidente fatal podem ser menores para uma empresa, e consecutivamente para o condutor, se ela estiver trabalhando dentro das normas de segurança, não deixando espaço para falhas operacionais e nem de segurança. Para isso, é necessário que a equipe esteja treinada para a operação segura do rio, e preparada de acordo com as normas e manuais em vigência.
Ressalta-se que, o fato da profissão de Condutor de Rafting ainda não estar inscrita no COB impede a esse sujeito ter seus direitos trabalhistas garantidos de forma correta, afinal o seu contratante não pode registra-lo na carteira de trabalho na função que exerce. Tal situação cria margem para que vários tipos de problemas de cunho trabalhista possam vir a ocorrer, tanto para o contratante, como para o contratado (BRASIL, 2014).
Dessa forma, enquanto a situação não é regularizada, uma opção para garantir a estabilidade e demais direitos do condutor, em caso de imprevistos, seria fazer uso do recurso fornecido pelo Estado, que é tornar-se um Micro Empreendedor Individual (MEI), atuando como um prestador de serviços autônomo na área de turismo e garantindo assim seus direitos como trabalhador.
Porém, foi relatado pelo diretor de qualificação da ABETA, Sr. Evandro Shutz (2014)11, que esta problemática da atuação profissional do Condutor de Aventura tinha sido pauta na última edição da Adventure Sport Fair, maior feira de atividades ao ar livre e turismo de aventura da América Latina, realizada em São Paulo entre os dias 15 a 18 de maio de 2014. Na ocasião, se iniciou um diálogo entre Ministério do Turismo e Ministério do Trabalho para a criação de uma lei que regulamente a atividade de Condutor de TA nas leis trabalhistas brasileiras (SHUTZ, 2014).
Além destas questões legais, existe ainda o dia-a-dia do trabalho, as responsabilidades, os riscos, os medos, a segurança e o prazer que a tarefa outorga ao condutor e que também devem ser levados em consideração. O trabalho de Sousa (2004), a este respeito, classifica a participação e a conduta emocional do condutor, como facilitador na decodificação das informações fornecidas pelo ambiente. O trabalhador tem que colocar em jogo todas as suas habilidades, sejam elas físicas, emocionais ou afetivas, para dar conta da defasagem existente entre a
11 Informação oral obtida durante participação no Seminário de Turismo em Parques Nacionais,
tarefa prescrita e a tarefa real. Assim, trabalharemos estas amplitudes e demais contextualizações quanto ao trabalho do condutor nas próximas seções.