6 OS SENTIDOS DE SEGURANÇA PARA OS CONDUTORES DE
6.3 RISCO, MEDO E VALENTIA
6.3.2 Estratégia defensiva
A estratégia defensiva é um instrumento de fuga, de algum fato que não deveria ter surgido ou ocorrido, seja de forma efetiva ou subjetiva. A estratégia defensiva só existe para lidar com o medo, a dor, e o sofrimento. Sobre isso, Dejours (1992) comenta sobre duas possibilidades. A primeira seria a característica de existir uma “fachada que resulta na realidade de um sistema defensivo destinado a controlar o medo” (DEJOURS, 1992, p. 35), declarando que é seguro, através das regras prescritas. A segunda especificidade é, novamente, de caráter coletivo. Este sistema defensivo é partilhado por todas as categorias profissionais (da construção civil, de acordo com o estudo do autor). Na verdade, para funcionar, este sistema necessita encontrar sua configuração. A eficácia simbólica da estratégia defensiva somente é assegurada pela participação de todos. E estas instruções implícitas são respeitadas.
O autor comenta que:
[...] ninguém pode ter medo. Ninguém deve demonstrá-lo. Ninguém pode ficar a margem deste código profissional. Ninguém pode recusar sua contribuição individual para o sistema de defesa. Nunca se deve falar de perigo, risco, acidente nem do medo” (DEJOURS, 1992, p. 45).
Essa situação complementa os exemplos trazidos através das SD apresentadas, que demonstram através de sua fala, como expressam este sistema defensivo, mas que, justamente por este motivo, visam o acobertamento, explicitado na forma e criação de contradições, para evitar o sofrimento e espetacularizar seu posto de trabalho.
Desse modo, a preocupação que o condutor dá à fachada existente em sua atividade, para poder esconder as falhas, confere destaque, sobremaneira, à importância das estratégias defensivas e ao acobertamento para garantir o consumo do seu espetáculo.
Tratando-se de um recurso fundamentado no coletivo da classe trabalhadora, caso um dos membros do grupo não consiga incorporar-se aos mecanismos de defesa utilizados, no intuito de lidar com o medo, minimizar os riscos de sua profissão e superar a própria apreensão, ele será obrigado a se afastar da tarefa e terá de parar de trabalhar, pois o grupo de trabalhadores, armado da ideologia defensiva coletiva, elimina aquele que não consegue superar o risco (DEJOURS, 1992). Situação esta que também ocorre junto à classe dos condutores de rafting.
SD107: [...] aí tem aquela velha frase que o grupo exclui né, se entra no
grupo e ele não consegue se encaixar, ele acaba caindo fora, então a gente hoje tem uma equipe que a gente sabe o que o outro pensa, a gente faz sinal na beira do rio e a gente sabe o que o outro tá pensando, vai fazer. (A)
SD108: [...] tem que ser ético e trabalhar bem isto, porque se não, pode
procurar outra coisa pra fazer, porque aqui tu não vai ficar e a gente... tanto lá na água como aqui a gente fala mesmo, e um puxa o outro. (G)
Percebe-se que o coletivo novamente se faz presente e, neste caso, em um ponto chave, para que o sujeito seja ou não aceito pelo grupo. De acordo com Dejours (1992), a classe trabalhadora, após confiar no novo membro, lhe apresenta as regras que fundamentam a sua tarefa, demonstrando confiança no recém- chegado.
Analisando a SD109, baseado no pensamento de Dejours (1992), pode-se inferir que a fala do condutor expressa este sentimento de confiança no grupo que o acolheu, a ponto de sentir-se seguro nas situações de risco que fazem parte do seu trabalho, pelo fato de estar na presença de seus pares.
SD109: [...] seguro, pelo conhecimento e pelo apoio dos outros guias que
tão contigo, um cuidando do outro, então tu te sente seguro com isto aí, me sinto seguro sim, pelas pessoas que estão comigo, porque se tiver em apuros eles vai te ajudar então... me sinto seguro pelas pessoas que estão comigo, não pelo rafting... o rafting é seguro, mas tem sua parte de risco, mas eu me sinto seguro pelas pessoas que estão ali comigo. (F)
A ideologia defensiva coletiva é funcional em nível do grupo, de sua coesão e de sua coragem, e é funcional, também, no âmbito do trabalho, pois é a garantia de produtividade. Caso não existisse esse clima, essa cumplicidade e essa confiança, bem provável que não existiriam condições de trabalho para que o sujeito pudesse exercer sua tarefa. Para Dejours (1992), “em numerosas profissões
reencontramos sistemas defensivos que estão profundamente estruturados pela natureza do risco em questão” (p. 43).
Esse risco pode ser fator para que duas situações ocorram. Uma delas é a do grupo compartilhar um espaço de palavra, que origina confiança e solidariedade. O outro é referente à preocupação de zelar pela integridade de sua atividade, assim como fazem com a do cliente através da segurança, para que a atividade se perpetue comercialmente e seu consumo seja efetivado dentro da sociedade do espetáculo.
Para garantir o relacionamento entre os meios social e comercial, garantindo os fluxos oriundos dele, os condutores tentam agir coletivamente, defendendo a sua classe.
SD110: [...] por isto que eu falei desta preocupação coletiva, pela segurança
no operacional Rio das Antas. (B)
SD111: [...] aqui em Três Coroas todos se preocupam com isto. (E)
SD112: [...] todos atentos um com o outro, não se preocupar só com o teu
bote... e sim se preocupar com a segurança de todos... total, pra fluir o operacional. (I)
SD113: se tem uma pessoa que tem medo de água, tem 6 pessoas no bote
e tem uma com problema disto ou daquilo já não brinco mais, não facilito.
(K)
No caso pesquisado, verificou-se que uma estratégia defensiva muito utilizada pelos condutores é o acobertamento, conforme demonstrado, mesmo eles alegando que se cuidam e se preservam. Ao ser questionado sobre se em determinadas situações ele omitia, negava ou distorcia os fatos para beneficiar a imagem da atividade e de seu posto de trabalho – principalmente nos temas envolvendo questões ligadas ao risco e ao medo, que são elementos que podem colocar em cheque a segurança do rafting - eles dizem que são como uma família, alegam que mesmo assim se fiscalizam e se cobram para que tudo dê certo.
SD114: [...] nós entre as empresas, a gente se fiscaliza, a grosso modo né,
mas a gente aqui se cobra muito, se a gente percebe que tem guias que fazem coisas fora dos padrões que a gente tá acostumado a fazer aqui na região, a gente já liga né. (B)
SD115: [...] nós aqui a gente se ajuda e se auxilia... a gente viu que ele
ficou chateado e indignado com ele mesmo... ele não sorria, ele não brincava e aí o que a gente fez, ali na primeira oportunidade encostamos os botes ali e brincamos e deixamos este cara tranquilo em relação a isto e nós
rimos mas acontece né, bola pra frente e daí pra baixo a gente viu que este instrutor mudou né... então às vezes a gente precisa deste incentivo... primeiro porque a gente é humano né, todo mundo tá exposto, não posso dizer que a gente nunca vai errar. (B)
A vivência do medo existe efetivamente, mas só raramente aparece na superfície, pois encontra-se contida, no mínimo, pelos mecanismos de defesa que são alimentados e sustentados pela classe que deles fazem uso para amenizar o sofrimento. Até mesmo porque, apesar do risco de crítica, afirmamos que se o medo não fosse assim neutralizado, se pudesse aparecer a qualquer momento durante o trabalho, neste caso os trabalhadores não poderiam continuar suas tarefas por muito mais tempo (DEJOURS, 1992).
Ainda para Dejours (1992), a consciência aguda do risco de acidente obrigaria o trabalhador a tomar tantas precauções que ele se tornaria ineficaz do ponto de vista da produtividade. Esta situação pode ter relação com a questão levantada anteriormente, sobre a ilusão do trabalhador em achar sua tarefa segura, ignorando os seus riscos, acreditando que nada pode lhe acontecer, como nas imagens que consome de outros espetáculos. O que poderia explicar o fato dele negar o risco de sua morte e descumprir as regras existentes.
Desta forma, passaremos a discorrer sobre a reconhecimento de que a segurança do rafting não é integral. O sofrimento de saber que há o risco constante pode prejudicar a viabilidade da tarefa e extingui-la enquanto espaço de trabalho e como atividade econômica de mercado.