7.1 FUNDAÇÃO DO CURSO
7.1.1 A conexão ITA-COPPE-NCE-IM
Há um fio condutor que liga a criação do curso de Ciência da Computação da UFRJ
com o curso de engenharia eletrônica do ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica,
prestigiada instituição de ensino de engenharia sediada na cidade de São José dos Campos,
São Paulo, e com a COPPE – Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia
da UFRJ
83.
A COPPE/UFRJ foi criada em 1963 pelo Professor Alberto Luiz Coimbra,
inicialmente como um programa de mestrado em engenharia química, mas com uma proposta,
inovadora para o Brasil na época, de aliar o ensino de qualidade à pesquisa multidisciplinar
em um ambiente de dedicação integral do corpo docente e discente, com apoio de bolsas do
Funtec do BNDE
84. A partir de 1965, com a criação do mestrado em Engenharia Mecânica,
programas similares em outras áreas de engenharia aderiram ao modelo, levando à formação
83
A COPPE passou a ter a denominação de Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia a partir de 1995, mantendo a sigla original.
84
A história da criação da COPPE/UFRJ é descrita com mais detalhes em http://www.coppe.ufrj.br/pt-br/a-coppe/apresentacao/historia
de uma Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia, com Coimbra no
comando.
Em 1966 o Professor Tércio Pacitti
85, foi convidado por Coimbra para dotar a COPPE
do suporte computacional necessário aos trabalhos de pesquisa de seus professores e alunos.
Pacitti, oficial engenheiro da Aeronáutica e professor de computação, tinha sido responsável
pela introdução do ensino de computação no ITA com a criação do Laboratório de
Processamento de Dados (LPD) e a instalação do computador IBM 1620, em 1962 naquele
instituto. Alunos da COPPE já peregrinavam regularmente a São José dos Campos para
processar seus trabalhos no LPD
86. A COPPE havia adquirido um computador IBM-1130,
mais moderno, e Pacitti assumiu a tarefa de organizar o Departamento de Cálculo Científico
(DCC/COPPE) para torná-lo operacional. Ao montar sua equipe, chamou para auxiliá-lo,
entre outros, dois recém-formados de eletrônica do ITA e seus ex-alunos, Ysmar Vianna e
Silva Filho, em 1966 e, um ano depois, Ivan da Costa Marques. Ambos teriam papel
fundamental na criação do curso de Ciência da Computação na UFRJ.
Pacitti permaneceu na Chefia do DCC/COPPE até meados de 1968, quando se afastou
para se doutorar na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Antes de sair, porém, procurou
um substituto à altura, alguém com titulação e experiência em computação que garantisse a
continuidade do projeto, algo raro de encontrar para a época. Conseguiu convencer um
ex-aluno, também de eletrônica do ITA, Denis França Leite, mestre em computação pela Purdue
University, a deixar seu emprego na IBM americana e retornar ao Brasil para assumir o
DCC/COPPE (FRANÇA, 1988, p.13).
Em 1969 Coimbra, já prevendo a necessidade crescente de demanda computacional
pelos programas da COPPE, negociou com a IBM a doação de um computador de grande
porte, um System /360, modelo 40, com capacidade de processamento bem superior ao
pequeno IBM-1130. A nova máquina iria requerer mais recursos em espaço físico, pessoal e
manutenção, e era necessário dividir os custos. A solução, encontrada em comum acordo com
a reitoria, foi repassar todo o acervo material e humano do DCC/COPPE para uma nova
Unidade da UFRJ, o Núcleo de Computação Eletrônica (NCE), a fim de colocar a
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Tércio Pacitti (1928-2014) influenciou as primeiras gerações de programadores Fortran no Brasil com seu livro “Fortran- Monitor” lançado em 1967, que teve 250 mil exemplares vendidos. Doutor em Computação pela Universidade da California em Berkeley, foi Reitor do ITA de 1982 a 1984, onde idealizou e criou o curso de Engenharia de Computação. Foi também Decano do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da UNIRIO de 1991 a 2000, onde montou a equipe que criou o Bacharelado em Informática Aplicada em 1999, atual Bacharelado em Sistemas de Informação.
86
Ver em (PACITTI, 2003, p. 30): “O Memorável IBM 1620: Arma de Guerra” e na p.146: “A UFRJ: o Namoro ITA/COPPE”.
computação a serviço de toda a universidade, tanto para as necessidades acadêmicas como
administrativas.
Coube a Denis Leite, como primeiro Coordenador do NCE, realizar toda a transição
do DCC/COPPE, instalado no bloco F do Centro de Tecnologia, na Cidade Universitária, para
o novo espaço do NCE (inicialmente no bloco B do mesmo Centro), receber e instalar o novo
computador, expandir as equipes técnicas, administrativas e de manutenção, estruturar a
organização interna, e negociar com a reitoria e as demais unidades acadêmicas a prestação de
serviços computacionais.
Ysmar, em 1968, e Ivan, em 1969, partiram também para Berkeley, onde se
doutoraram em Ciência da Computação. Ao retornar, em 1972, Ysmar se reintegrou à equipe
do antigo DCC/COPPE, agora já instalada no NCE, e poucos meses depois foi nomeado
Coordenador do NCE, com a saída de Denis que decidira tomar novos rumos. Ivan voltaria
em 1973.
A COPPE havia criado em 1970 um novo programa de pós-graduação, o Programa de
Engenharia de Sistemas e Computação – PESC, reunindo pesquisadores de Otimização de
Sistemas e de Computação, no qual Ysmar e Ivan passariam a atuar. Em setembro de 1972 o
autor, igualmente egresso do curso de engenharia eletrônica do ITA, ingressou como docente
do PESC.
Coimbra havia idealizado o NCE também como um meio de difundir o conhecimento
da computação por toda a universidade. Até então, os poucos cursos de computação que
existiam eram oferecidos internamente pela equipe do DCC/COPPE aos professores e alunos
da COPPE. A partir da criação do NCE, cursos rápidos de programação Fortran começaram a
ser ministrados para alunos e professores em geral, e o IBM 1130 passou a processar
programas para todos os interessados.
Estimulado por Coimbra, Ysmar deu partida ao projeto de criação de um curso de
graduação em Informática
87na UFRJ, uma forma, segundo ele, de compartilhar os
conhecimentos que havia adquirido no doutorado
88. Para isso contou com a ajuda de um
colega do PESC, João Lizardo Rodrigues Hermes de Araújo, também formado em eletrônica
pelo ITA, e doutor em Matemática Aplicada pela Universidade de Toulouse. Recursos
materiais para o novo curso não seria um problema, pois o NCE dispunha de laboratórios
necessários e analistas experientes, além de uma biblioteca especializada em computação.
87
O curso de Ciência da Computação passou por diversas denominações formais ao longo da sua história, mas o nome Bacharelado em Informática (oficializado em 1988) foi o dominante pelos primeiros 30 anos.
88
Havia, porém, um obstáculo institucional a ser superado: nem a COPPE, e nem o
NCE, poderiam abrigar o novo curso, e essas eram as duas únicas unidades onde se atuava em
computação em toda a universidade. A COPPE, por ter sido criada como uma Unidade
exclusivamente de pós-graduação, e o NCE, por ter a estrutura de um Núcleo, e por isso não
ser formalmente uma unidade acadêmica.
Mas a COPPE ainda iria contribuir de outra forma para a criação do Curso de
Informática na UFRJ. O pioneirismo de Coimbra havia possibilitado abrigar, em 1970, sob o
“guarda-chuva” da COPPE, um programa de pós-graduação em Matemática
convenientemente denominado Programa de Engenharia Matemática. Seu criador e
coordenador era o professor Guilherme Maurício Souza Marcos de La Penha, engenheiro
mecânico de formação, que havia migrado para a matemática do contínuo durante seu
doutorado em Engenharia Mecânica na Universidade de Houston e no pós-doutorado na
Universidade de Carnegie Mellon. Em 1971, o reitor da UFRJ nomeou De La Penha Diretor
“Pro-Tempore” do Instituto de Matemática (IM), unidade criada em 1964 que atuava até
então somente no ensino de graduação. Com apoio de Coimbra e do Decano do Centro de
Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), Prof. Paulo Emídio Barbosa, o Programa de
Engenharia Matemática, com seus pesquisadores, foi transferido para o IM com o nome de
Programa de Pós-Graduação em Matemática. De La Penha reformulou a estrutura do IM
criando quatro novos departamentos, entre os quais o Departamento de Ciência da
Computação, inicialmente encarregado apenas de ministrar disciplinas de programação de
computadores e cálculo numérico para os cursos básicos do CCMN e do CT, com apoio do
NCE. Em janeiro de 1973, Guilherme de La Penha foi nomeado Diretor do IM por decreto do
Presidente da República, com mandato de quatro anos (MEDEIROS, 1996).
Ysmar e Guilherme passaram a ter assento no Conselho do CCMN, que reunia
semanalmente os diretores das unidades do Centro, sob a presidência do Decano. Do
entendimento que se seguiu, surgiu a proposta de sediar o curso de Informática no Instituto de
Matemática, sob a responsabilidade do Departamento de Ciência da Computação, com Ysmar
acumulando a chefia do Departamento com a coordenação do NCE. Para viabilizar a curto
prazo a oferta do novo curso, o NCE ofereceu contribuir com os recursos adicionais
necessários, incluindo professores, laboratórios, biblioteca e espaço físico.
Um “olhar sociotécnico” sobre a disposição do NCE em assumir para si
responsabilidades de ensino, que não eram atribuições suas, revela o que se poderia chamar de
um movimento de “tomada de poder” sobre um território acadêmico. A consolidação de uma
nova disciplina acadêmica não se limita a um movimento apenas cognitivo, mas envolve
interesses de grupos em assegurar o controle de departamentos, chefias, espaços acadêmicos,
verbas e influência
89. O grupo que se formava no NCE para atuar em computação precisava se
afirmar no contexto da universidade, onde a atividade de ensino e pesquisa é muito mais
valorizada do que a de serviços de apoio. Veremos mais adiante como esse processo se
acentuou nos anos seguintes com o estabelecimento no NCE de projetos de pesquisa e
desenvolvimento em computação e a criação de um programa de pós-graduação.
No início de 1973, Ivan Marques retornou do seu doutoramento para o NCE, e em
setembro assumiu a Chefia do DCC/IM sucedendo a Ysmar. Com a questão institucional do
curso resolvida, os demais trâmites processuais foram rápidos: em 23 de março de 1973 o
projeto do curso foi aprovado pela Congregação do Instituto de Matemática, em 3 de maio
pela Conselho do CCMN, em 23 de agosto pelo Conselho de Ensino de Graduação da UFRJ
e, finalmente, em 24 de agosto de 1973, foi formalmente criado pelo Conselho Universitário.
(UFRJ-IM, 1973, p.1).
Um facilitador adicional para organizar o curso no Instituto de Matemática foi a
existência, na época, do Curso Básico do Instituto. Todos os candidatos aprovados no exame
vestibular para o IM eram matriculados neste curso, com dois anos de duração, contendo
disciplinas introdutórias de Matemática, Física e Programação de Computadores. Somente
após seu término poderiam optar por um dos cursos finais oferecidos, a saber, Matemática,
Licenciatura em Matemática, Estatística e Ciências Atuariais. O curso de Informática seria
mais um a ser adicionado ao rol de ofertas e, como teria quatro anos de duração, apenas os
dois últimos do currículo precisariam ser definidos.
Por conta disso, foi possível iniciar a primeira turma do curso de Informática logo no
primeiro semestre de 1974. Foram aceitas inscrições de candidatos que haviam terminado os
cursos básicos do IM e também da Escola de Engenharia, que utilizava um curso básico
similar. Desses, trinta alunos foram selecionados por meio de provas de matemática e
computação.
89
Devo a conversas com o Prof. Henrique Cukierman a percepção de disciplinas acadêmicas como “complexos sociotécnicos”, além da expressão “olhar sociotécnico”, por ele cunhada no contexto da engenharia de software.