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A Universidade do Norte Fluminense foi criada por lei estadual em 1990, com estatuto

aprovado em 1991, para ser localizada na cidade de Campos dos Goytacazes, principal centro

do norte do Estado do Rio de Janeiro. A sua concepção e a coordenação da implantação foram

entregues pelo governador Leonel Brizola ao antropólogo Darcy Ribeiro, idealizador da

Universidade de Brasília. O resultado foi um modelo onde o conhecimento não estaria mais

compartimentalizado em departamentos, mas distribuído em laboratórios temáticos e

multidisciplinares. A ênfase foi dada à pesquisa e à pós-graduação, “uma universidade para

formar cientistas” (UENF, 2015).

A UENF compõe-se de quatro Centros, Biociências e Biotecnologia, Ciências e

Tecnologias Agropecuárias, Ciências do Homem, e Ciência e Tecnologia. Cada Centro reúne,

por sua vez, Laboratórios dedicados a determinados campos e pesquisa:

166

a) No Centro de Biociências e Biotecnologia: Laboratórios de Biologia Celular e

Tecidual, de Biologia do Reconhecer, de Biotecnologia, de Ciências

Ambientais, de Fisiologia e Bioquímica de Micro-organismos, e de Química e

Funções de Proteínas e Peptídeos.

b) No Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias: Laboratórios de

Engenharia Agrícola, de Entomologia e Fitopatologia, de Reprodução e

Melhoramento Genético Animal, de Sanidade Animal, de Solos, de Tecnologia

de Alimentos, de Zootecnia, de Melhoramento Genético Vegetal, de Clínica e

Cirurgia Animal, de Morfologia e Patologia Animal, e de Fitotecnia.

c) No Centro de Ciências do Homem: Laboratórios de Cognição e Linguagem, de

Estudo da Educação e Linguagem, de Estudo da Sociedade Civil e do Estado,

de Estudo do Espaço Antrópico, e de Gestão e Políticas Públicas.

d) No Centro de Ciência e Tecnologia: Laboratórios de: Ciências Físicas, de

Ciências Matemáticas, de Ciências Químicas, de Engenharia Civil, de

Engenharia de Exploração de Petróleo, de Engenharia de Produção, de

Materiais Avançados, e de Meteorologia.

Os nomes dos laboratórios podem esconder seus campos de atuação. Por exemplo, no

Centro de Ciências do Homem, o Laboratório de Cognição e Linguagem inclui linhas de

pesquisa que seriam interessantes para compor uma formação geral para os alunos de

Computação: Filosofia da Mente e Neurociências, Epistemologia e História das Ciências,

166

História da Filosofia e Pensamento Brasileiro, Hermenêutica, Fenomenologia e Ética,

Campos Semióticos, Artes e Representações Sociais, e Psicologia Cognitiva e Social.

Mas uma analise detalhada do Projeto Político Pedagógico do curso de Bacharelado

em Ciência da Computação (UENF, 2015) não revela preocupação em organizar o currículo

com componentes de educação geral. O curso é apresentado como “baseado nas diretrizes

curriculares de computação de MEC e respeitando os critérios internacionais dados por

ACM-IEEE- AIS, com um perfil científico-tecnológico, sem descuidar suas aplicações imediatas,

para formar cientistas em computação”, sob responsabilidade do Laboratório de Ciências

Matemáticas, do Centro de Ciência e Tecnologia.

O currículo não difere dos currículos convencionais de Ciência da Computação como

o da UFRJ, por exemplo. Exige o cumprimento de 208 créditos em disciplinas, dos quais

apenas 12 (6%) podem ser em eletivas ditas de escolha livre Os 12 créditos de “escolha livre”,

porém, só podem ser escolhidos dentre uma lista que inclui apenas 7 alternativas: Introdução à

Economia, Sistema de Informação, Libras, Português Instrumental I, Português Instrumental

II, Inglês Instrumental III, e Inglês Instrumental IV.

Os demais 196 créditos são de disciplinas obrigatórias, ou optativas eletivas de escolha

restrita, mas todas de conteúdos de matemática, física ou computação, com exceção apenas de

duas disciplinas não técnicas, Computação e Sociedade (2 créditos), e Empreendedorismo (4

créditos), ambas normalmente encontradas na maioria dos currículos convencionais de

Ciência da Computação.

Não foi possível, portanto, identificar no projeto pedagógico do curso de Ciência da

Computação da UENF atividades especificamente direcionadas para uma educação geral,

apesar de lá estar declarado textualmente que

“Deve-se ressaltar, também, que na execução deste projeto pedagógico uma atenção especial foi dada no sentido de dotar o profissional egresso do curso de uma visão crítica da sociedade em que ele irá atuar, das suas responsabilidades éticas e sociais, do seu comprometimento com a disseminação e aplicação do conhecimento adquirido, tornando-o capaz de atuar de maneira dinâmica na pesquisa, na aplicação de conhecimentos no mercado de trabalho de modo responsável e na inovação tecnológica visando ao desenvolvimento sustentado de uma sociedade mais justa”

11.3A FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC (UFABC)

11.3.1Uma nova proposta de organização universitária

A Fundação Universidade Federal do ABC foi criada pela Lei n

o

11.145 de 26 de julho

de 2005

167

, com uma proposta de renovação tanto da estrutura acadêmica como das práticas

pedagógicas.

O ensino é organizado em três ciclos. O primeiro é o Bacharelado Interdisciplinar

(B.I.), com três anos de duração, por onde entram todos os alunos da universidade, e equivale,

grosso modo, ao college norte-americano, não tendo objetivo de especialização profissional.

Os alunos que completam esse ciclo recebem um diploma de curso superior de graduação, e

podem optar por se dirigir ao mercado de trabalho, mas podem também optar por continuar

para se graduar em algum curso de graduação profissionalizante, ou até seguir direto para

algum programa de pós-graduação stricto sensu. Atualmente as “portas de entrada” da

UFABC são duas: o Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BC&T), o

Bacharelado Interdisciplinar em Ciências e Humanidades (BC&H). Cada um permite acesso a

um determinado conjunto de cursos de graduação mais especializados.

Uma característica que diferencia propostas como a da UFABC de universidades

tradicionais como a UFRJ é a existência de políticas institucionais fundamentais, gerais para

toda a universidade, que orientam a organização de todos os cursos, bem como as demais

atividades acadêmicas, a gestão e o desenvolvimento. Essas políticas atuam na direção de

eliminar de vez o isolamento entre faculdades e escolas e promover uma unidade de

propósitos que se efetiva na maior integração entre os diversos setores.

O Projeto Pedagógico Institucional (P.P.I.) relaciona 64 Políticas Fundamentais, das

quais 9 gerais, 28 sobre ensino, 5 sobre pesquisa, 7 sobre extensão e cultura, e 15 sobre a

gestão. Todas, de alguma forma, se relacionam a uma Missão Institucional, que é explicitada

no P.P.I: “Promover o avanço do conhecimento através de ações de ensino, pesquisa e

extensão, tendo como fundamentos básicos a interdisciplinaridade, a excelência e a inclusão

social.” (UFABC, 2017, p. 48).

Dentre as 64 políticas fundamentais algumas que possuem relevância direta com o

tema do presente trabalho são relacionadas a seguir, os grifos (meus) ressaltando pontos de

convergência com questões levantadas anteriormente

168

:

167

O texto da Lei 11.145/2005 está disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11145.htm>, acesso em 30 maio 2018..

 Fomento ao papel crítico na sociedade, resgatando a valorização cultural e não puramente econômica da formação superior;

 O ingresso na graduação se dá apenas pelos Bacharelados Interdisciplinares, de forma a evitar escolhas precoces e possibilitar a formação de profissionais de nível superior com base científica sólida, ampla e interdisciplinar169;

 Ensino visando o desenvolvimento da criatividade, capacidade de expressão,

capacidade de pensar e espírito crítico e científico dos alunos;

 Estrutura organizacional em Centros interdisciplinares, visando quebrar barreiras, otimizar recursos, promover a interação profissional e o crescimento integrado;

 Estrutura acadêmica e administrativa para os Centros, cursos e docentes, com o objetivo de evitar os caminhos da departamentalização.170

O documento do P.P.I. faz a defesa da abordagem interdisciplinar aplicada a todos os

cursos como contraponto à formação demasiado especializada, que estaria defasada em

relação às demandas atuais de um mercado de trabalho muito mais dinâmico (grifos meus):

“Essa abordagem [interdisciplinar] contribui para o pensamento crítico do aluno, que consegue transitar melhor entre as diversas formas de descrição da realidade, a partir do diálogo entre diferentes perspectivas científicas e filosóficas. Isso deve ser feito com a integração plena da formação em ciências humanas e sociais, com as ciências exatas e naturais, buscando desenvolver tanto capacidades críticas e reflexivas, quanto objetivas e instrumentais. Essa visão complexa da realidade torna-se ainda mais necessária no contexto de profundas transformações da organização social e ambiental e da própria forma de construção de conhecimento, exigindo do aluno capacidade de pensar tecnicamente e propor, a partir disso, soluções complexas, avaliando crítica e politicamente o impacto e o significado social das novas tecnologias e outros problemas que encontrará em sua vida profissional”.171

11.3.2O Bacharelado em Ciência da Computação da UFABC (BCC)

Como todos os cursos especializados da UFABC, o BCC só recebe alunos que

terminaram um curso interdisciplinar que prevê esse acesso, que no caso é o Bacharelado em

Ciência e Tecnologia (BC&T). Não cabe nos limites deste trabalho entrar em detalhes sobre o

conteúdo, bastando ressaltar alguns dos pontos em que esse arranjo difere de um curso

tradicional, baseado na último projeto pedagógico e estrutura curricular disponível, a de 2010

(UFABC, 2010).

De acordo com esse documento, a estrutura curricular tomou por base o Currículo de

Referência da SBC, as recomendações curriculares propostas pela ACM, IEEE-CS e AIS, e as

diretrizes curriculares editadas pelo MEC. Acompanhando a conceituação da SBC, indica que

168

ibid, p.49. 169

No final de 2017 a UFABC aprovou a criação de Licenciaturas Interdisciplinares, previstas no PPI de 2017, que irão constituir mais uma forma de entrada na universidade.

170

Ibid, p. 48/49. 171

o curso é “focado na Computação como atividade fim” (p.1), no sentido em que os alunos

estudam a ciência e a tecnologia da computação não apenas visando a sua utilização prática,

mas também como um campo distinto do conhecimento científico, expresso em um dos seus

objetivos específicos: “Incentivar o perfil pesquisador do estudante, visando promover o

desenvolvimento científico e tecnológico da Ciência da Computação”(p.1)

A estrutura curricular é apenas aparentemente semelhante ao conceito que vigorou na

UFRJ após a Reforma de 1968, com um Curso Básico (no caso o BC&T) contendo disciplinas

de caráter mais geral antecedendo um Curso Profissional, com foco em uma especialização.

As diferenças mais significativas são:

a) A organização curricular da UFABC é trimestral, com três trimestres letivos por

ano, cada um de 12 semanas;

b) O primeiro ciclo (BC&T) é independente do ciclo profissional, com três anos de

duração (12 trimestres), e conduz a um diploma superior específico de graduação,

sendo opcional ao aluno continuar os estudos para obter o diploma do BCC, ou de

outro curso especializado da universidade;

c) A estrutura curricular do BCC aproveita todas as disciplinas obrigatórias do

BC&T;

d) A estrutura do BC&T admite um elevado grau de flexibilidade. Até o quarto

trimestre, todas as 20 disciplinas são obrigatórias. Mas a partir do quinto trimestre

a quantidade de obrigatórias se reduz bastante, e começam a entrar disciplinas

eletivas de escolha livre ou de escolha limitada a um conjunto de ofertas. Por meio

das eletivas, o aluno que já decidiu pela opção profissional do BCC pode já cursar,

se preferir, todas as disciplinas que constam do currículo do BCC até o final do

terceiro ano, e estas valem também para sua formação no BC&T. Os demais

alunos, que não pretendem continuar para alguma especialização, ou que ainda

estão indecisos, têm uma ampla variedade de disciplinas eletivas e livres para

cursar.

e) Uma diferença importante: as disciplinas obrigatórias do BC&T não são

organizadas pelas áreas de conhecimento tradicionais (fechadas em si), mas por

“eixos temáticos”, levando a um tratamento interdisciplinar dos assuntos

apresentados. Pelo PPI da UFABC de 2017 o conhecimento está organizado em

dez eixos, a saber: Estrutura da Matéria, Processos de Transformação, Energia,

Comunicação e Informação, Representação e Simulação (matemática e lógica,

modelagem), Estado, Sociedade e Mercado (relações de poder), Pensamento,

Expressão e Significado (interação do ser humano com o mundo), Espaço, Cultura

e Temporalidade, Ciência, Tecnologia e Inovação, e Epistemologia e Metodologia.

Os cinco primeiros entram na base do BC&T, e os cinco últimos na base do

BC&H.

f) Dentro dessa organização, as disciplinas obrigatórias do BC&T não se limitam

apenas ao que seriam disciplinas básicas para um BCC (Matemática, Física e

Programação de Computadores), mas incluem, além dessas, uma formação mais

geral de cunho científico (Bases Computacionais da Ciência, Natureza da

Informação, Química e Bioquímica, Origem da Vida, Bases Epistemológicas da

Ciência Moderna) e social (Estrutura e Dinâmica Social, e Ciência, Tecnologia e

Sociedade);

g) A partir do término do BC&T, os alunos podem ingressar no BCC (ou para outro

curso), e para aqueles que já cursaram todas as disciplinas previstas para os 3

primeiros anos só precisam completar o quarto ano para obter o diploma adicional

do BCC;

h) A estrutura curricular do BCC também organiza sequencias específicas de eletivas

que, se cursadas, conduzem a certificados adicionais de ênfase em uma das

sub-áreas da Computação (Computação Cientifica, Redes de Computadores ou

Sistemas Inteligentes)