3 1ª CONFECOM: INTERESSES, RESOLUÇÕES E O MODELO DE REGULAÇÃO PARA O SETOR DE RADIODIFUSÃO
3.4 Confecom e o cenário de convergência superficial
Em síntese, analisando a Confecom a partir das propostas aprovadas e vetadas sobre o sistema de comunicação, a partir da atuação dos segmentos (sociedade civil empresarial e não empresarial), temos o retrato das concepções que historicamente formularam as políticas de comunicação no Brasil e a disputa de hegemonia.
A corrente conservadora está presente nas propostas que defendem o conteúdo nacional, as empresas nacionais, e na limitação na atuação das empresas de telecomunicações, referentes à produção de conteúdo na TV por Assinatura, nitidamente presente no modelo de negócios proposto pelo Grupo Bandeirantes através da ABRA para TV segmentada na Confecom. Resoluções que tiveram acordo com a corrente progressista, na aprovação das propostas ainda por consenso nos Grupos de Trabalho.
Ao passo que a concepção progressista, representada pela sociedade civil não empresarial, se apresentou na consolidação de uma nova proposta de regulação para TV Aberta com a regulamentação dos preceitos constitucionais enquanto critérios para renovação de outorgas para rádio e TV, mecanismos que impõe limites à concentração na produção de conteúdo e na propriedade e a regulamentação das verbas publicitárias, resoluções que se apresentaram convergentes superficialmente aos interesses da ABRA.
Propostas aprovadas como o estabelecimento de cotas para veiculação de programas que atendam grupos vulneráveis, o fortalecimento do sistema público de comunicação e a reativação Conselho de Comunicação Social, como órgão autônomo, fiscalizador de conteúdo e com responsabilidades por renovar as concessões de TV e rádio, também foram resultado da ação da corrente progressista
A corrente liberal também teve uma atuação importante na Confecom, a partir das defesas da Telebrasil sobre uma nova regulamentação para TV por assinatura independente de tecnologia - proposta essa que teve acordo com a concepção progressista, com ressalvas propostas pelo LaPCom -, a utilização do FUST para a universalização dos serviços de telecomunicações e a definição do papel do Estado enquanto ator regulador e não explorador dos serviços de telecomunicações, a diminuição de tributação e os mecanismos que defendem a livre concorrência para o setor.
Em relação aos vetos, os progressistas conseguiram que a Confecom não determinasse a multiplexação dos canais comerciais na TV Digital e a aprovação dos serviços de banda larga sobre o regime público, enquanto os conservadores conseguiram impedir que a Confecom aprovasse percentuais específicos sobre a veiculação de conteúdo educativo e regional e o direito de antena na plenária final, bem como a instalação de uma agência reguladora de conteúdo e os liberais impediram mecanismos de fortalecimento da Telebrás.
Em síntese, a Confecom foi uma grande arena de disputa e busca pela hegemonia entre as concepções entretanto, com uma grande convergência, que neste trabalho chamamos de superficial, diante do contexto em que um dos principais atores do setor empresarial não legitimou a Confecom.
A análise sobre as concepções que atuaram na Confecom está intrinsecamente ligada a um acontecimento que definiu as regras do jogo antes mesmo do seu início: a saída das seis representações empresariais, principalmente a ABERT e a ABTA, o que revela a opção das Organizações Globo em relação à Confecom.
Vale à pena dizer que entre as seis representações que saíram da Confecom, somente a ABERT e a ABTA são atores diretamente ligados ao mercado de televisão, além disso, o papel político das Organizações Globo nessas duas Associações tem um peso efetivo.
Na ABTA, as Organizações Globo compõe duas posições diretas no Conselho Diretor, com empresa Globosat, e quatro indiretas, através do controle societário das empresas Sky e Net Serviços59 e na ABERT, embora a presidência estivesse com o representante do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Daniel Slaviero quando da realização da Confecom, tanto o ex-presidente no biênio 2010 a 2012, Emanuel Carneiro, quanto o atual vice-presidente da instituição no biênio 2012 a 2014, Vicente Jorge, são representantes de uma afiliada da Rede Globo em Pernambuco : a TV Asa Branca e da Radio Globo FM.60
Para as Organizações Globo, a Confecom não representava um espaço em disputa e sua saída foi uma estratégia para deslegitima-la, tanto em relação as propostas vindas da corrente progressista sobre a democratização do acesso aos meios de comunicação, como nas divergências impostas pela sua liderança no mercado da TV Aberta em relação às outras emissoras.
A permanência das Organizações Globo seria decisiva para os conflitos com as propostas de desconcentração de mercado propostos pela ABRA, ao mesmo tempo em que seriam também antagônicas as defesas da concepção progressista. A mesma situação estaria incluída nas resoluções sobre o cenário de implantação da TV Digital.
Na TV por Assinatura, a postura das Organizações Globo teria uma concordância em relação a defesa do conteúdo nacional - já que a sua principal estratégia comercial está na produção de conteúdo para o mercado de TV Paga -, próxima a concepção conservadora e também da progressista, mas estaria distante da desconcentração do mercado, posições defendidas tanto pela corrente progressista, tanto pela ABRA.
Já no que diz respeito às possíveis convergências entre a corrente liberal e os interesses das Organizações Globo, as discussões sobre esses dois atores são realizadas em negociações sob a lógica de mercado, através de contratos e acordos, como vimos no capítulo 2 e a fusão entre a SKY e Directv em 2004, sendo a Confecom um espaço limitado nesse sentido.
59 Conselho Diretor da ABTA, disponível em: http://www.abta.org.br/conselho.asp - acessado em 13 de janeiro
de 2015
60Composição do quadro diretivo da ABERT em sua
Portanto, a retirada da ABERT e da ABTA, ainda no início da organização da Confecom, foi determinante para o grau de convergência entre a ABRA e a concepção progressista, na construção de um novo modelo de regulamentação para TV Aberta e TV por Assinatura proposto na conferência.
O Grupo Bandeirantes, através da sua representação, a ABRA, encontrou na Confecom a possibilidade de um espaço em que ele pudesse definir um modelo menos concentrado para o mercado da TV Aberta e disputar o modelo de negócios para a TV por Assinatura, se contrapondo a hegemonia das Organizações Globo, principal ator a compor a ABERT e a ABTA.
Ao mesmo tempo, a concepção progressista viu na Conferencia o terreno fértil para a consolidação de um modelo de regulação para os serviços de radiodifusão, a partir da democratização dos meios de comunicação. Ambos os interesses, com seus respectivos direcionamentos, traçaram as convergências que possibilitaram a aprovação de propostas que se efetivadas, reorganizariam o mercado da televisão no Brasil.
Por outro lado, alicerçada pela sua hegemonia de mercado, a saída da ABERT e da ABTA revelou uma opção das Organizações Globo em não disputar a Confecom, mas continuar incidindo nas normativas do mercado de televisão no Brasil, através da sua influência direta com os poderes políticos e no debate sobre o conceito de liberdade de expressão na sociedade.
A opção de debater o conceito da liberdade de expressão em contraponto com a defesa de uma maior regulação do setor de radiodifusão, pode ser comprovada tanto nos editoriais do Jornal Nacional, quando da realização da Confecom61, quanto da construção 1º Fórum de Democracia e Liberdade de Expressão, organizado em março de 2010, pelo Instituto Milenium, menos de três meses depois da conferência, a partir da crítica aos debates acerca do controle social da mídia, presentes na Confecom.62
O Instituto Milenium, que desde 2005 já estava dando os seus primeiros passos63, se qualificando como um “centro de pensamento” do liberalismo econômico no Brasil, a partir da garantia de uma sociedade livre, com liberdade individual, direito de propriedade, economia
61 3 O editorial pode ser ser lido no endereço http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,10406-p-
17122009,00.html. – acessado em 14 de janeiro de 2015
62A matéria sobre a realização do 1º Fórum e Democracia e Liberdade pode ser lida neste link:
http://www.institutomillenium.org.br/divulgacao/clipping/forum-critica-controle-social-da-midia-folha-de-s- paulo-020310/ - acessado em 18 de janeiro de 2015.
63 Fundado pela economista Patrícia Carlos de Andrade, em 2005, com o nome de Instituto da Realidade Nacional,
ele foi oficialmente lançado em abril de 2006, durante o Fórum da Liberdade, em Porto Alegre. Em dezembro de 2009, o Imil recebeu a certificação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), outorgado pelo Ministério da Justiça sob o número 08071.020869/2009-95- disponível em:
de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo, passa, a partir do 1º Fórum de Democracia e Liberdade de Expressão, a ser uma referência no que diz respeito ao debate da censura imposto pelos grandes meios de comunicação, apoiado por importantes grupos empresariais do país.
Entre os mantenedores, parceiros e patrocinadores do Instituto Milenium estão as grandes empresas de mídia, como o Grupo Abril (revistas Veja e Exame), Grupo OESP (O Estado de S. Paulo) e Grupo RBS (afiliado à Rede Globo no Sul do Brasil) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), conglomerados industriais (Grupo Gerdau e Suzano), e corporações financeiras, como o Bank of America Merrill Lync.64
Portanto, com o objetivo de avaliar a efetividade da conferência, além de analisar as propostas originárias da Confecom e a movimentação das três concepções que influenciaram as políticas de comunicação no Brasil, é importante entender o peso das Organizações Globo na formulação do ambiente normativo para o setor de radiodifusão pós-Confecom.
3.5 Confecom e os resultados no campo legislativo e no movimento pela democratização