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2. MODELO DE REGULAÇÃO DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO: CONCEPÇÕES E CARACTERÍSTICAS

2.2 Constituição de 88: progressistas e conservadores

O final da década de 80 marca um novo período político na história do Brasil. No processo de redemocratização do país se constitui, em 1987, uma Assembleia Constituinte Nacional para dar cabo do desafio de construir uma nova Carta Magna para o país.

As disputas internas em relação aos preceitos constitucionais são intensas, e a comunicação não fica de fora deste processo. Além da concepção conservadora, presente em toda constituição do CBT, outra linha política disputa as resoluções sobre o capítulo da Comunicação na Constituinte: a progressista, caracterizada pela defesa da diversidade cultural, o princípios do serviço público e a função educativa dos meios.

A concepção conservador se traduzia nos interesses da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (ABERT), enquanto a corrente progressistas era composta de dos atores não- hegemônicos, como a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).27

Uma das questões mais polêmicas, que dividiam a concepção conservadora e progressista na construção do capítulo sobre a Comunicação estava, exatamente, na definição da competência e dos critérios para a concessão e outorgas de rádio e TV.

Em síntese organizada por Bolaño (2007) aponta que, de um lado, os radiodifusores trabalhavam pelo controle das concessões de rádio e TV por parte do Poder Executivo e sua exploração pela iniciativa privada. No outro lado da balança, os progressistas defendiam a criação de um Conselho Nacional de Comunicação, com autonomia para o controle das outorgas, sendo que a prioridade das concessões seria dada para as entidades sem fins lucrativos.

Os progressistas, articulados pelo FNDC, conseguiram reunir uma quantidade de assinaturas e apresentar a Emenda Popular nº 91, que defendia a criação e as responsabilidades do Conselho em torno dos serviços de radiodifusão, além da consolidação do monopólio estatal das telecomunicações.

Lima (2011) relata que a Emenda Popular foi anexada ao primeiro ante-projeto apresentado pela Deputada Cristina Tavares (PMDB-PE), na sub-Comissão de Ciência e

27O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação foi organizado como movimento social no ano de

1991, se transformando em entidade em agosto de 1995 Sua principal pauta é a luta pela democratização dos meios de comunicação.

Tecnologia, no dia 13 de maio de 1987, e tinha como principal pauta a instauração do Conselho Nacional de Comunicação, enquanto órgão autônomo, com representações do Poder Público e da comunidade cientifica e cultural, e com responsabilidades de outorgar e renovar as concessões, além de regular tarifas e garantir a pluralidade e a descentralização da propriedade dos meios.

Em sua primeira votação, o ante-projeto foi derrotado em praticamente todos os parágrafos. Para explicar a série de derrotas dos setores progressistas e a vitória conservadora, mesmo diante da intensa articulação promovida pelo FNDC, é importante revisitar a barganha política na construção da Constituição Federal, em torno das concessões de outorgas de rádio e TV no Brasil.

Nos últimos momentos do governo do General João Batista de Figueiredo, foi iniciado um processo de barganha política em que a principal moeda de troca foram as concessões e outorgas de rádio e TV. Traduzindo em números, enquanto no ano de 1983 foram outorgadas 80 concessões, nos últimos dois meses do Governo Figueiredo, praticamente às vésperas da convocação da Assembleia Constituinte, foram autorizadas 91 concessões, grande maioria relacionadas aos setores conservadores.

Essa política de concessão de outorgas de rádio e TV como elemento de negociação para apoios tem continuidade no governo de José Sarney. O Presidente Sarney e o Ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, distribuíram, ao todo, 1028 concessões de TV e rádio até a promulgação da Constituição Federal.

Com a instalação da Constituinte, Sarney e Antonio Carlos Magalhães encontraram nas concessões uma maneira de agradar os seus aliados políticos. Em três anos e meio – de 15/03/85 a 5/10/88 –, Sarney distribuiu 1.028 outorgas, sendo 25% delas no mês de setembro de 1988, que antecedeu a promulgação da Constituição. Com raras exceções, os beneficiados foram parlamentares, que direta ou indiretamente receberam as outorgas em troca de apoio político a projetos de Sarney (INTERVOZES, 2006, p. 28)

Lima (2011) fez um levantamento sobre os constituintes, concessionários de emissoras de rádio e/ou televisão, que definiram as derrotas dos setores progressistas em relação ao texto constitucional.

Fazem parte desse grupo de constituintes vinculados, direta ou indiretamente, a empresas concessionárias de emissoras de rádio e/ou televisão, como os deputados Arolde de Oliveira (PFL/RJ – TV RIO); presidente da Sub Comissão de Ciência e Tecnologia e de Comunicação; Fausto Rocha (PFL-SP- Sistema Silvio Santos) José Carlos Martinez(PMDB/PR – Organizações OEME, TV Carimã); José Elias (PTB/MS-TV Mato Grosso); Mendes Ribeiro ( PMDB/RS – RBS); Paulo Marques (PFL/PE –TV Tropical) (..) Foram esses constituintes que, com a ajuda dos outros três parlamentares do PMDB e um do PDS, derrotaram praticamente toda a parte sobre

Comunicação do Relatório da Dep. Cristina Tavares. Foi também o “grupo das comunicações”, acrescido dos deputados Ervin Bonkoski (PMDB/PR – Emissoras de Rádio, PR) e Renato Johnson (PMDB/PR – interesses da indústria eletroeletrônica), que derrotaram os dois substitutivos de Artur da Távola (LIMA, 2011, p.63)

Em todo caso, é importante ressaltar que os progressistas foram protagonistas da inclusão de importantes artigos existentes nos textos constitucionais: Art. 220, sobre a liberdade de expressão e pensamento; Art.221, que incide sobre o conteúdo regional; Art. 222, sobre o limite ao capital estrangeiro; Art. 223 sobre a complementaridade dos sistemas privado, público e estatal; Inciso 5º, contra o monopólio e oligopólio nas empresas de comunicação; artigo 21, inciso XI do Capítulo 5º, sobre a estatização dos serviços de telecomunicação. Entretanto, a grande maioria destes preceitos ainda se encontra tem regulamentação.