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CAPÍTULO 1 - A GOVERNANÇA AMBIENTAL DEMOCRÁTICA E O TURISMO

1.2. Conflito Ambiental: uma análise conceitual do termo

Os conflitos ambientais são um novo campo de estudo que se apresentam frente aos questionamentos da Sociologia, da Engenharia e de outras disciplinas. Dentre os estudiosos existem posicionamentos evolucionistas que remetem os conflitos ambientais aos problemas de adaptação da espécie humana. Outros autores abordam a questão pela ótica econômica, tratando a distribuição de externalidades e a indefinição de proprietários sobre o uso dos recursos como promotores do conflito ambiental. Existem os que caracterizam os conflitos ambientais como “relativos aos interesses e estratégias diferenciadas de apropriação e aproveitamento da natureza na era da globalização econômico-ecológica”(ASCELRAD, 2004, p.18) e, ainda existem aqueles que entendem como a “expressão de tensões no processo de reprodução dos modelos de desenvolvimento”(ASCELRAD, 2004, p.18).

Henry Acselrad (2004) caracteriza o conflito ambiental como um tipo de conflito social que expressa uma luta entre interesses opostos em que grupos possuem modos diferenciados de apropriação, uso e significação do território e, num dado momento, uma das partes se sente ameaçada por práticas de outros grupos. Este tipo de conflito é constituído por quatro dimensões: apropriação material, apropriação simbólica, durabilidade e interatividade espacial das práticas sociais.

A esta definição complementamos que o conflito ambiental pode derivar “da disputa de uma mesma base de recursos ou de bases distintas, mas interconectadas por interações ecossistêmicas” (ACSELRAD, 2004, p.26). Além disto, podemos destacar que o estopim do conflito pode ser anunciado após o rompimento “do 'acordo simbiótico' em função da denúncia dos efeitos indesejáveis da atividade de um dos agentes sobre condições materiais do exercício das práticas de outros agentes”. (ACSELRAD, 2004, p.26).

Diante desta idéia, compreendemos que os problemas ambientais não se resumem ao efeito das relações objetivas do homem na natureza, mas pode resultar dos diferentes

interesses e visões dos atores sociais sobre a interatividade das práticas sociais e a durabilidade dos recursos disponíveis no meio.

Nessa perspectiva, podemos ver que a dinâmica conflitiva decorrente das diferentes concepções em torno dos modelos de desenvolvimento, ou seja, a designação daquilo que é ou não correto na apropriação dos ambientes tem relação com os espaços de distribuição e espaços das representações nos quais se configuram respectivamente o capital material e o capital simbólico7.

Por este prisma, a luta simbólica de um grupo de pessoas pela base material tem relação com os valores, normas e relações que justificam as instituições e a ocorrência de ações coletivas do e no ambiente em que elas vivem. Por conseguinte, as relações de poder e a legitimidade das condições de reprodução do capital material e capital simbólico dos atores sociais definem situações de maior desigualdade social ou mais justiça ambiental.

Desta forma, coloca-se o conflito ambiental como resultado da divergência de interesses sobre a apropriação material ou cultural a partir do impedimento do uso dos recursos derivados da proteção ou do resultado de atos inapropriados que interferem nos interesses de pelo menos uma das partes.

Ormeño e Saavedra (1995 apud BREDARIOL, 2001, p.58) entendem o “conflito ambiental como a incompatibilidade de interesses que emerge como um resultado da prevenção ou reparação de danos”. A reflexão sobre esta e as demais definições de conflito ambiental nos permite inferir que o ato de impor áreas naturais de uso restritivo em áreas antes apropriadas por um determinado grupo pode ser considerado como um tipo de conflito ambiental por gerar incompatibilidade de interesses entre os antigos usuários e os objetivos da nova condição de preservação ambiental.

Atrelado a este conflito está o ato da denúncia que pode vir tanto das partes que compõem diretamente o conflito como de forças externas cujo ato da revelação pode gerar os elementos de tensão ou a tentativa de resolução do conflito. Uma das possibilidades existentes para resolução de conflitos é através do consenso entre as partes, o que nem sempre é compatível com os interesses em jogo, logo, não deve ser considerado como única proposta para a sua resolução.

7 A durabilidade e a interatividade são duas das dimensões do conflito colocadas por Ascerald (2004) que são capazes de dar origem às denúncias do quadro conflitivo: A) a durabilidade indica a continuidade dos modos de apropriação material cuja integridade da base material depende de determinadas formas sociais, ou ainda, é tomada como aporte para a justificativa dos sujeitos sociais pelos seus atos; B) a interatividade pode ser tanto as “externalidades”,isto é, resultados indesejáveis de uma prática sobre outra, ou então, a interação da própria prática espacial sobre outra.

Harrysson Luiz da Silva (2001) afirma que é um equívoco determinar que a solução para a dinâmica entre as partes de um conflito seja o consenso. Ao contrário, esta condição pode ser manipulada por uma das partes para que as condições que a sustentam não sejam alteradas nos fóruns de negociação, embora, algumas instituições internacionais priorizem o diálogo e a negociação mediada de forma a encontrar soluções para os conflitos.

O que fundamenta esta opinião é o acesso desigual à informação sobre as condições ambientais, sobre as condições de distribuição do poder e sobre as formas de apropriação material e simbólica do território do conflito, conseqüentemente, estas condições impedem a representação, a participação das partes menos informadas e até mesmo a identificação de interesses comuns que possam amenizar os conflitos.

Silva compreende que os conflitos ambientais são

[...] resultantes do processo de relação e de seus desdobramentos sobre: a sustentação da dinâmica da personalidade das partes envolvidas nos conflitos, a partir de equívocos resultantes dos principais tipos de conhecimento que fundamentam a compreensão das mesmas sobre os objetivos dos conflitos; e, de escolhas realizadas com base num estado de consciência posicional do conflito. (2001, p.110)

Harrysson Silva expõe que o primeiro passo para a resolução dos conflitos é admitir que o conflito faz parte de uma dimensão objetiva e não fruto de nossas mentes. “Ao admitirmos que os que estão a priori não fundamentam os conflitos ambientais, que não há leis governando as partes e o meio ambiente, damos o primeiro passo para a compreensão dos conflitos ambientais: a possibilidade de descrição dos mesmos”. (2001, p.111).

Trazendo para nossa realidade, podemos dizer que quando um gestor não reconhece o conflito como legítimo, ele dificilmente poderá ser resolvido, ou ainda, de forma mais agravante, sequer existirá uma abertura para discussão no Conselho sobre alternativas que possam amenizar a dinâmica conflitiva.

Celso Bredariol, em sua tese “Conflito ambiental e negociação para uma política local de meio ambiente”, conclui que entre as principais razões para um quadro de dificuldades para negociação de conflitos, em contexto brasileiro, estão: “[a] estrutura autoritária do Estado, [a] falta de tradição de negociação entre Mercado e Sociedade, [a] falta de tradição democrática, [a] representação ainda incipiente dos diferentes interesses, em especial aqueles dos grupos sociais mais pobres”(2001, p.224).

Parece-nos concebível dizer que este contexto social tem reflexo nas restrições ou subtrações temporárias ou permanentes dos direitos civis, políticos e sociais que acabam por limitar a construção do paradigma de ações coletivas baseado na participação social e na efetivação de novas esferas públicas institucionais e informais capazes de transformar um

padrão de desigualdades sociais e ambientais, tornando ainda mais eminente a necessidade da posição favorável do gestor de unidades de conservação no fortalecimento de estruturas de governança ambiental democrática para resolução dos conflitos ambientais.

A fim de esclarecer o conceito de conflito ambiental utilizado neste estudo indicamos a preferência pelo conceito de conflito ambiental cunhado por Alcserald (2004) que trata deste tipo de conflito como um conflito social entre agentes sociais que possuem interesses opostos e modos diferenciados de apropriação, uso e significação do território, mas que num dado momento, uma das partes se sente ameaçada desequilibrando o sistema interacional pré-existente.