Os trabalhos descritos nos capítulos anteriores sugerem que diversos tipos de ameaças ambientais podem ser capazes de induzir determinados tipos de conflito. À primeira vista, a disponibilidade de água no Médio Oriente, a depleção dos stocks de peixes das costas oriental e ocidental do Canadá, e a desflorestação no Brasil, Filipinas, Tailândia, entre outros, são, ou têm o potencial para o ser, fontes de conflito.
Myers (1993) sugere que a alteração atmosférica, aquecimento global e depleção de ozono, têm potencial para causar significante disrupção social. Por seu lado, a degradação
do solo, ou a alteração do uso do solo em geral, pode afectar directamente a capacidade da sociedade em prover recursos alimentares para a população crescente.
Aquecimento Global e Segurança Humana
Conflitos e tensões resultantes de disputas sobre água são directos e visíveis. Mais difíceis de determinar, e possivelmente mais devastadores, são os impactos de longo termo e difusos que podem resultar de um dos mais importantes factos ecológicos dos anos de 1990: o aquecimento global.
O aquecimento global pode ter implicações significantes nas disponibilidades de recursos, produtividade agrícola, e desempenho económico; ele pode submergir vastas áreas costeiras e criar “refugiados ambientais”. A redução do desempenho económico, acompanhado de grandes disparidades nos níveis de realização económica, ambos podendo ser exacerbados pelo aquecimento global, coadunam-se com os tipos de conflitos ambientalmente induzidos, sublinhados na discussão teórica anterior (Adaptado de: Lonergan, S. 1999).
Os trabalhos subsequentes de Bächler e Spillman (1996) demonstraram que a degradação ambiental e a depleção de recursos poderia jogar um número diferenciado de funções na afectação da segurança e contribuir para conflito. Estes trabalhos consideram a alteração ambiental como cenário de fundo de tensões, podendo desempenhar o papel de canal indutor de tensões, ser o disparador, o catalizador, ou ser o próprio alvo de conflito. Não obstante estas considerações, o trabalho destes dois investigadores foi criticado por a sua perspectiva sobre ambiente e conflito ser considerada de determinística (Lonergan, S. 1999).
É fundamental situar os argumentos sobre os padrões ambientais para conflito e as suas críticas num contexto alargado. Este contexto tem servido para expressar a essência dos debates empíricos e metodológicos, que o amplo discurso sobre conflito ambientalmente induzido encerra. Nesta linha, centra-se um contexto particularmente importante nos políticos que se dedicam ao fenómeno de escassez ambiental e conflito. Estes políticos procuram estabelecer como é que os conflitos ambientais podem ser identificados e percebidos, e como é que é possível representá-los dentro de uma multiplicidade de actores. Ainda que uma série de contextos sobrepostos possa ser examinada, normalmente dois aparecem com mais insistência na maioria da literatura: o contexto da segurança ambiental; e o contexto “Norte-Sul”. Em relação ao contexto da segurança ambiental, já se desenvolveu bastante esta matéria, pelo que agora apenas se vai colocar o foco no segundo contexto.
Contexto “Norte-Sul”
O contexto da segurança ambiental combina-se com o segundo conceito amplo: relações globais entre o Norte e o Sul. A dificuldade ancestral na capacidade desigual de relacionamento entre os países mais industrializados do Norte e os menos industrializados do Sul permanece central na actual divisão estrutural do mundo. O poder de relacionamento tem subjacente o passado histórico da relação entre a potência colonial e a antiga colónia. Nesta relação é frequente haver fluxos de transações muito desiguais. A antiga colónia extrai e cede os seus recursos naturais, recebendo em troca bens (muitas vezes de utilidade discutível). Esta prática ainda hoje é muito frequente, podendo estar camuflada sob a forma de instituições como o comércio livre, regulação estrutural e serviços de obrigação e dívida. Na realidade, particularmente no que concerne ao ambiente natural, estas clivagens entre Norte e Sul mantêm-se actuais e reafirmam-se repetidamente nas negociações, acordos e instituições, como fica patente durante as Cimeiras da Terra.
Os países em desenvolvimento contestam de certa forma algumas das perspectivas de segurança ambiental ancoradas nos países desenvolvidos do Norte. Um diplomata Egipto (Somaya Saad) argumentou que especialmente a segurança ambiental representa uma nova justificação do Norte para continuar o desigual relacionamento de poder entre o Norte e o Sul (Dabelko, G.D., 1996).
Dalby, por exemplo, examinou a segurança ambiental através do ponto de vista da “crítica do Sul”, incluindo diversos aspectos referidos pelo Egípcio Saad. Ele encontrou argumentos suficientes para que o Sul suspeitasse da perspectiva de segurança ambiental do Norte (em especial dos Estados Unidos). Os esquemas tradicionais de segurança militarizada e desigualdade económica continuam a sustentar a base das concepções de segurança ambiental centradas no Norte, e as políticas ambientais globais em geral. Com estas características familiares, a escassez ambiental falha ao endereçar os assuntos do Sul e no seu lugar realça os aspectos no que concerne ás novas racionalizações para as políticas do Norte, como usual (Dabelko, G.D., 1996).
Segundo Dabelko, qualquer perspectiva do Sul pode facilmente compreender que o que está subjacente à noção que os países do Norte têm de conflito ambientalmente induzido é de molde a desviar as atenções dos problemas ambientais que se verificam precisamente no Norte. Elevadas taxas de consumo ou de depleção histórica de recursos, próprias dos países mais desenvolvidos, não figuram proeminentemente no diagrama causal, ainda que elas sejam elementos integrais da grande problemática.
O grupo de Homer-Dixon considerava que tais aspectos globais, tais como alteração climática e depleção do ozono estratosférico, não seriam prováveis fontes de escassez ambiental ou prováveis causas futuras de conflitos ambientalmente induzidos. As fontes desses problemas globais tenderiam desproporcionalmente a emanar do Norte. Além disso, o interesse dos países desenvolvidos nos conflitos ambientalmente induzidos limita-se muitas vezes apenas ao que diz respeito à estabilidade do regime e ás implicações internacionais de segurança, detendo-se pouco no que concerne aos problemas do Sul, nomeadamente a degradação e depleção de recursos, pobreza, e desigual distribuição de bem estar (Dabelko, G.D., 1996).
Na tabela (Anexo 2) apresentam-se alguns aspectos ambientais significativos, agrupados por categorias para diferentes regiões do mundo. Esta tabela pretende fazer como que uma síntese dos factores ambientais e degradação ambiental mais sentidos em cada uma das regiões consideradas.
Dos diversos trabalhos passados em revista, retiram-se um conjunto de factores fundamentais que potencialmente contribuem para o conflito. A Tabela 4.1 lista alguns desses factores, bem como as respectivas ligações evidentes a conflitos violentos que ocorrem em contextos variados. Da leitura desta tabela, depreende-se que a ligação dos factores ao conflito varia de intensidade de factor para factor. Dentro daqueles que se ligam mais intensamente, sobressaem os relacionados com os regimes políticos, clivagens étnicas, status de poder e escassez de recursos.
TABELA 4.1 FACTORES QUE CONTRIBUEM PARA O CONFLITO VIOLENTO
Factor Contribuinte Ligação ao Conflito Violento Intraestado
Ligação ao Conflito Violento Interestado
Intensidade da Ligação
Sistema Político A probabilidade de violência varia inversamente com o grau de
democratização.
Em democracias estáveis é pouco provável ocorrer conflito violento entre elas.
Forte
Contiguidade Geográfica
É mais provável ocorrer conflitos entre países vizinhos do que entre países afastados.
Fraca
Fragmentação Étnica A probabilidade de violência aumenta com o grau de
fragmentação étnico.
As ligações étnicas através das fronteiras incrementam as
probabilidades da difusão do conflito.
Forte
Status do Poder Se existe uma diferença
substancial no status do poder, a probabilidade de violência cresce.
Forte
Conflitos Anteriores Conflitos violentos que tenham ocorrido nos dois anos anteriores aumentam a
probabilidade de violência.
Conflitos violentos que tenham ocorrido nos dois anos anteriores aumentam a probabilidade de violência. Média Nível do Desenvolvimento Económico ou Humano A probabilidade de violência varia inversamente com o nível de desenvolvimento Forte
Escassez de Recursos A probabilidade de violência cresce com os crescentes níveis de escassez de recursos
A probabilidade de violência cresce com os crescentes níveis de escassez de recursos Forte Vulnerabilidade aos Desastres Naturais Desconhecida ?