A História refere que por volta de 1503 Leonardo da Vinci intentou juntamente com Maquiavel desviar o curso do Rio Arno de forma a ele não passar pela cidade de Pisa, por ocasião de um conflito entre Florença e Pisa (Gleick, 2000:1).
Em 1960, por exemplo, a Síria tentou desviar de Israel água do rio Jordão. Esta acção teve como resposta o ataque aéreo israelita visando as infra-estruturas destinadas a esse desvio da água.
A guerra no Médio Oriente de 1967, resultou do sucesso de Israel no controlo de todas as cabeceiras de água do rio Jordão, assim como dos recursos aquíferos da margem ocidental (Ehrlich, A.H.; Gleick, Peter; Conca, Ken, 2000: 6).
Mais próximo da actualidade, pode-se referir ainda diversas situações que sugerem que o uso da água como arma continua a ser uma hipótese real. Por exemplo, em 1986 a Coreia do Norte proclamou o plano de construção da maior barragem hidroeléctrica no Rio Han-Gang, a montante da capital da Coreia do Sul, Seul. A Coreia do Norte alegava que o projecto se destinava a fornecer electricidade ao território, no entanto este era visto pela Coreia do Sul como uma potencial ameaça ao seu território. A destruição deliberada da barragem teria potencial suficiente para arrasar parcialmente Seul. Não obstante, este grande projecto foi protelado sucessivamente devido às dificuldades económicas e políticas
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Esta via de comunicação é de importância vital para o tráfego marítimo internacional. O seu encerramento ou inibição de uso implica que a ligação marítima entre o Médio Oriente e a Europa e/ou América tenha de ser feita rodeando o continente africano (rota do Cabo), como aconteceu em 1973.
da Coreia do Norte, permitindo que a Coreia do Sul adopta-se medidas de protecção para essa eventualidade. Essas medidas consistiram basicamente na construção de uma série de novas represas ao longo do rio e a verificação das existentes. Com esta iniciativa de precaução, Seul protegeu-se da eventual ameaça Norte Coreana (Ehrlich, A.H.; Gleick, Peter; Conca, Ken, 2000: 6).
Durante a Guerra do Golfo Pérsico, a Coligação Aliada equacionou a possibilidade de usar militarmente a barragem Turca Ataturk, localizada no rio Eufrates. Esta intenção visava cortar o abastecimento de água ao Iraque. O Iraque depende em cerca de 66% da água superficial que chega através daquele rio. Alegadamente, tal contingência nunca chegou a ser formalmente apresentada ao governo Turco. No entanto, na sequências deste acontecimento aquele país manifestou internacionalmente o compromisso de nunca vir a utilizar a água como forma de pressão sobre um estado vizinho (Ehrlich, A.H.; Gleick, Peter; Conca, Ken, 2000: 7).
No limiar do novo século, a China confrontou-se com uma disputa doméstica sobre água. Em Julho de 2000, milhares de agricultores envolveram-se em confrontos com a polícia, nos territórios ao longo da Bacia do Rio Amarelo (na região oriental da China), devido à divulgação de um plano governamental que previa captar água daquele rio, destinada a diversas utilizações. A água é particularmente importante para os agricultores daquela região do planeta que dependem em grande escala desse recurso para a irrigação agrícola. Qualquer diminuição na sua disponibilidade é vista por estes agricultores como uma potencial ameaça à sua já crítica existência (Postel, S., Wolf, A., 2001a).
Apelando mais uma vez para alguns conflitos passados, durante a guerra do Vietname, as forças militares americanas atingiram diversas represas vietnamitas. Na
Guerra dos Seis Dias (1967) entre Israel e os países Árabes vizinhos, a água jogou um
papel causal muito importante neste conflito. A primeira Cimeira Árabe foi organizada em 1964, num clima tenso motivado pela eminência do desvio de água da bacia do rio Jordão para Israel (Samson, P., Charrier, B., 1997:28).
A guerra do Golfo Pérsico mostrou igualmente diversos exemplos deste problema. O Iraque atingiu seriamente o sistema produtivo de petróleo do Kuwait e alvejou as centrais de dessalinização deste território. Por seu lado, a força de coligação ocidental atacou os sistemas de produção de energia e de transporte de água Iraquianos (Ehrlich, A.H.; Gleick, Peter; Conca, Ken, 2000: 8).
Os ataques e inibição/destruição de sistemas de água foram mútuos: as tropas de Saddan Hussein visaram as centrais de dessalinização do Kuwait; e os derrames e fugas de petróleo que atingiram o Golfo Pérsico danificaram igualmente as centrais de
dessalinização na Arábia Saudita. Esta faceta do conflito no Golfo demonstrou a importância e a vulnerabilidade destas infra-estruturas vitais para ambos os países (Engelman, R., LeRoy, P. 1993).
Por último, refira-se ainda que Israel destruiu três centrais de energia no sul do Líbano, em Fevereiro de 2000, supostamente como retaliação aos ataques que membros da Hezbollah realizaram no norte de Israel. Conforme o analista citado refere, as razões deste ataque não são muito claras, restando saber se foram de ordem táctica ou estratégica (Fahmy, M. 2000).
As situações acabadas de referir ilustram instâncias em que a água pode ter jogado favoravelmente como instrumento de pressão política e militar. Por outro lado, estes mesmos exemplos ilustram a forma como o seu acesso pode desencadear tensões e instabilidade.
Perante os cenários desenhados, os regimes que se vislumbram para a evolução da população, do consumo de água e, como consequência de ambos, da disponibilidade futura deste bem, não é descabido considerar que se avizinha um período propenso à escalada da competição por este bem. A concretizar-se este cenário, é provável que venham a emergir focos de tensão social e política nas regiões particularmente afectadas pelo stress e escassez de água.
Deste modo, as evidências apontam para que futuras tensões tenham provavelmente uma matriz de feição difusa e regional ou local, com intensidades e duração variáveis, porquanto o ciclo hidrológico e a própria geografia dos principais cursos de água configuram diversificados cenários hídricos no mundo inteiro.84 Por último, na Tabela 9.1 apresenta-se uma síntese dos principais conflitos que de uma maneira ou doutra estão relacionados com água.
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Ainda que não se pretenda aprofundar este aspecto, refira-se que na Península Ibérica se começam a acentuar algumas características de semi-aridez, particularmente no sul da Península. Considerando a situação espanhola, têm vindo a público diversas intenções de desvios e transvazes de água entre bacias hidrográficas. Esta matéria tem sido seguida atentamente pelos espanhóis, que pontualmente se têm vindo a manifestar contra.
TABELA 9.1 SÍNTESE DOS PRINCIPAIS CONFLITOS EM TORNO DA ÁGUA
Continente Bacia Hidrográfica Países Principais aspectos do Conflito Tipo de Conflito
ÁFRICA Chobe Botswana, Namíbia, Angola
Botswana tem projecto de transvaze de água para a África do Sul, que prejudica os países a jusante
Tensão Komati Suazilândia, África do
Sul, Moçambique
Construção de 2 barragens em conjunto pela Suazilândia e África do Sul
Mecanismo informal Nilo Sudão, Etiópia, Egipto,
Uganda, Tanzânia, Quénia, Zaire, Ruanda e Burundi
Egipto dependente de água do Nilo, usa a sua influência para evitar o desenvolvimento da bacia a montante
Acção diplomática Okavango Botswana, Angola,
Namíbia, Zimbabué
Namíbia planeia a utilização de grande quantidade de água do rio, que ameaça a sobrevivência de uma parte do território da Botswana
Tensão
Aquífero fóssil Sahariano
Líbia, Egipto, Sudão, Nigéria, Chade
Líbia tem como objectivo criar um rio artificial através da exploração do aquífero, o que prejudica os outros países
Disputa declarada Senegal Mali, Mauritânia,
Senegal, Guiné
Disputa entre a Mauritânia e o Senegal pelo controlo da bacia, após vários anos de cooperação
Tensão Volta Burkina, Ghana, Togo,
Côte d’Ivoire, Benin, Mali
Secas Mecanismo informal
ÁSIA Ganges e Brahmaputra Índia, China, Nepal, Bangladesh, Bhutan
Acordos sobre caudais mínimos que a Índia tem de garantir ao
Bangladesh a jusante da barragem de Farakka. Problemas de poluição e cheias no Bangladesh
Mecanismo institucional
Jordão Israel, Jordão, Síria, Líbano
Israel contra planos do Jordão e da Síria para construção de barragem. Acordo alcançado em 19994
Acção diplomática e disputa declarada Mekong Laos, Tailândia, China,
Cambodia , Vietname, Myanmar
Planos divergentes dos diferentes países comprometem a
compatibilização no aproveitamento dos recursos hídricos da bacia
Tensão Tigre e Eufrates Iraque, Irão, Síria,
Turquia
Planos turcos de construção de barragem geram oposição dos países a jusante
Acção diplomática
EUROPA Danúbio Roménia, Jugoslávia, Hungria, Áustria, Checoslováquia, Alemanha, Bulgária, URSS, Suíça, Itália, Polónia, Albânia
Disputa pelos recursos geram conflito elevado ao Tribunal Internacional de Justiça
Tensão
Reno Alemanha, Suíça, França, Países Baixos, Áustria, Luxemburgo, Bélgica, Liechtenstein
Criação de várias comissões com representantes dos diferentes países para lidar com matérias de navegabilidade, cheias e poluição
Mecanismo institucional
AMÉRICA DO NORTE
Colômbia Estados Unidos, Canadá
Acordos para redução da poluição, preservação de espécies selvagens ameaçadas e aproveitamento hidroeléctrico
Mecanismo institucional Grandes Lagos Estados Unidos,
Canadá
Acordos para redução da poluição Mecanismo institucional Rio Grande Estados Unidos,
México
Estados Unidos acusam o México de causar graves problemas de poluição na bacia, apesar de haver um acordo entre as partes
Mecanismo institucional (tensão)
AMÉRICA DO SUL
Cenepa Equador, Peru Conflito armado pelo controlo da cabeceira da bacia
Conflito armado Pilcomayo Argentina, Paraguai,
Bolívia
Problemas de poluição de origem industrial
Tensão