Nessa hipótese, o tipo penal primário prevalece, mas se sobre qualquer hipótese não puder ser aplicado, aplica-se o tipo penal subsidiário.
Você deve ficar atento ao fato de que a subsidiariedade pode ser de duas espécies: a) expressa: quando o próprio tipo penal se declara subsidiário, como, por exemplo, o art. 132 do Código Penal, que dispõe – “se o fato não constituir pena mais grave” (a norma se autoproclama “soldado de reserva” – nas palavras de Nelson Hungria.
b) tácita/implícita: ocorre quando um tipo penal está contido em outro na condição de elementar (elementos pre-sentes no caput do artigo) ou circunstâncias (dados acessórios que podem interferir na pena), por exemplo, no caso do art. 304 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que prevê a omissão de socorro em acidente de trânsito, em relação ao homicídio culposo na direção de veículo automotor, qualificado pela omissão de socorro (art. 302 c/c o art. 303, parágrafo único, inciso III, do CTB).
Princípio da consunção.
Pelo princípio da consunção (ou absorção), meu amigo, ocorre quando um fato definido por uma norma in-criminadora é meio necessário ou normal fase de preparação ou execução de outro crime. Nesse caso, há uma relação de meio – fim, em que o crime fim absorve o crime meio.
Você também deve ficar atento ao fato de que o princípio da consunção é aplicado de duas formas, quais sejam:
a) Crime progressivo (há uma uniformidade de dolo): o agente possui, desde o princípio, o mesmo escopo e o persegue até o final, ou seja, pretendendo um resultado determinado de maior lesividade (por exem-plo a morte de seu algoz), pratica outro fato de menor intensidade (p.ex. lesão corporal, ao lhe desferir facadas que causam a morte). Nesse caso, as lesões corporais serão absorvidas e o agente responderá somente pelo crime de homicídio.
b) Progressão criminosa: aqui o indivíduo inicia o caminho do crime com o objetivo específico de praticar determinado crime (por exemplo, lesões corporais), entretanto, após alcançar esse resultado (já houve lesão a sua vítima) o agente criminoso MUDA de ideia e resolve matá-la. Desse modo, haverá a progres-são criminosa e o indivíduo responderá apenas pelo homicídio, ficando as lesões inicialmente praticadas, absorvida pelo crime do art. 121, do Código Penal.
c) Ante factum impunível: ocorre quando um fato anterior menos grave é praticado como meio necessário para a realização de outro. Preste atenção nesse exemplo, caríssimo: o crime de falsidade exclusiva-mente utilizado com o fim de cometer estelionato, nos termos da súmula 17 do STJ.
d) Post factum impunível: essa, por sua vez, se da quando o agente, após praticar o fato, provoca nova vio-lação o mesmo bem jurídico, pertencente ao mesmo sujeito passivo. Outro exemplo, meu amigo (a): o indivíduo que após furtar um relógio simplesmente o quebra (crime de dano). Nesse caso, haverá apenas punição pelo crime de furto.
Agora, vamos ver qual o nível de profundidade questionado nas provas de concurso.
Venha comigo!
Ano: 2018 Banca: FGV
Arlindo desferiu diversos golpes de faca no peito de Tom, sendo que, desde o início dos atos executórios, tinha a intenção de, com seus golpes, causar a morte do seu desafeto. No início, os primeiros golpes de faca causaram
lesões leves em Tom. Na quarta facada, porém, as lesões se tornaram graves, e os últimos golpes de faca foram suficientes para alcançar o resultado morte pretendido.
Arlindo, para conseguir o resultado final mais grave, praticou vários atos com crescentes violações ao bem jurídico, mas responderá apenas por um crime de homicídio por força do princípio da:
Alternativas
A) subsidiariedade, por se tratar de progressão criminosa;
B) alternatividade, por se tratar de crime progressivo;
C) consunção, por se tratar de progressão criminosa;
D) especialidade, por se tratar de progressão criminosa;
E) consunção, por se tratar de crime progressivo.
Resolução: veja, meu amigo(a), o ponto chave para identificarmos a resposta da questão está no dolo de Arlindo.
A banca deixa claro que o agente criminoso, desde o início dos atos executórios, tinha o dolo de matar a vítima.
Então, desse modo, todas as lesões causadas na vítima para chegar ao resultado morte serão absorvidas pelo crime fim (homicídio) e, também, por estarmos diante da figura do crime progressivo, eis que Arlindo passou por diversas etapas para chegar ao resultado morte.
Gabarito: Letra E.
Ano: 2015 Banca: FGV
Henrique, não aceitando o fim do relacionamento, decide matar Paola, sua ex-namorada. Para tanto, aguardou na rua a saída da vítima do trabalho e, após, desferiu-lhe diversas facadas na barriga, sendo estas lesões a causa eficiente de sua morte. Foi identificado por câmeras de segurança, porém, e denunciado pela prática de homicídio consumado. Em relação ao crime de lesão corporal, é correto afirmar que Henrique não foi denunciado com base no princípio da:
Alternativas A) especialidade;
B) subsidiariedade expressa;
C) alternatividade;
D) subsidiariedade tácita;
E) consunção.
Resolução: o mesmo raciocínio que usamos anteriormente, meu amigo(a), devemos transportar para cá. Desse modo, o dolo de Henrique era direcionado especialmente para a morte de sua ex-namorada. Desse modo, as le-sões praticadas para chegar ao fim do intento criminoso serão por este absorvidas, razão pela qual, estamos diante do princípio da consunção.
Gabarito: Letra E.
E, para encerrarmos nosso estudo e finalizarmos o conteúdo teórico da primeira parte do nosso curso, vamos para o último princípio do conflito aparente de normas.
Princípio da alternatividade.
Esse princípio está presente nos crimes que possuem diversos núcleos (verbos), separados pela conjunção alternativa “ou”.
Quando alguém pratica mais de um verbo presente no mesmo tipo penal, num mesmo contexto fático, só responde por um crime (e não pelo mesmo crime várias vezes).
Preste atenção no seguinte exemplo, meu caro!
Suponha que Austin exponha a venda e, em seguida, venda substância entorpecente. Nesse contexto, ele responderá por crime único de tráfico de drogas (art. 33 da Lei 11.343/067), mesmo que tenha praticado dois verbos nucleares (expor venda e vender).
Então, para encerrar nosso estudo acerca do conflito aparente de normas, deixo a você essa tabela resumindo cada um dos principais pontos acerca dos institutos:
ESPECIALIDADE SUBSIDIARIEDADE CONSUNÇÃO ALTERNATIVIDADE
Pressupõe uma rela-ção gênero - espécie
Pressupõe uma rela-ção continente-
con-teúdo
Relação meio – fim Tipo misto alternativo
Prevalece o tipo es-pecial sobre o tipo
geral
Prevalece o tipo con-tinente (primário)
O crime fim absorve o crime meio
Há crime único quando os verbos atingem o mesmo
ob-jeto material.
7 Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente,