Segundo Guanaes (2006, p. 103):
Atualmente as propriedades particulares do PNCD são usadas para a coleta de flores secas, cada vez mais incipiente; para o pasto nativo de animais, em torno de 18.000 cabeças de gado e cerca de 600 criadores; pelo garimpo manual; e, recentemente, essas terras também estavam sendo usadas para fins turísticos com a organização de espaços e acomodações para visitação.
A afirmação acima revela que muito embora o Parna CD se encontre plenamente incluído na Chapada Lavrista, onde a lavra historicamente é uma atividade estabelecida, ele abriga atividades econômicas claramente contraditórias, tais como, garimpo manual, turismo ecológico, visitação científica, criação de gado, coleta de flores e pequena produção agrícola, o que se traduz num conflito no qual se opõem de um lado a valorização da tradição local e as formas seculares de uso dos recursos naturais, e de outro a utilização da natureza como espaços
contemplativos e fruição, e como laboratórios vivos que pressupõem políticas de conservação, em geral discrepantes com o modo de vida e de serra que se colocam como portadores de uma cultura tradicional remanescente.
O próprio plano de manejo do Parna CD, afirma que:
Foram identificadas, no ambiente interno da UC, deficiências de pessoal, financeira e administrativa, que contribui para uma ineficiência nas suas ações, tanto na proteção e manejo da área, quanto na interação com seu entorno (PARNA,1995, p. 24).
O mesmo se dá dentro dos limites da APA, onde o zoneamento coloca em contato áreas de preservação e conservação, com as de uso sustentável, o que acarreta em conflitos de uso, pois, não existe fiscalização efetiva, e a própria Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia (SEMA), admite a existência de conflitos ambientais, tais como queimadas, desmatamento, lixo e esgotos, turismo desordenado, ocupação de áreas de preservação permanente e garimpos clandestinos. Esses conflitos ocorrem principalmente na porção NW e SE da APA. Na porção noroeste, existem zonas de uso sustentável (de agropecuária, turística especial, de expansão prioritária), entrecortada por áreas de preservação (zonas de caverna e de proteção permanente). Da mesma forma, na porção sudeste da APA onde também áreas de uso sustentável (zonas agrícola restrita, de expansão prioritária, de vila turística, e núcleos urbanos consolidados) estão em contato com áreas de preservação (zona de preservação da vida silvestre, e de proteção rigorosa) e conservação (zonas agro florestal e proteção visual) gera fatalmente conflitos, pois, não há limites claros em campo e muito facilmente a área urbana de Lençóis pode invadir a zona de proteção visual (de conservação), contígua. Assim também a estrada que liga Lençóis à BR-242 corta também trecho da zona de preservação rigorosa, e em margens de estradas são comuns atividades predatórias.
O Parque Municipal de Mucugê (Parmu) é a menor das UCs da área em estudo e a mais preservada devido à extensão, mas, também pelo trabalho desenvolvido pela equipe que o administra. Não existem conflitos na área do parque, pois, todas as atividades são monitoradas, além do que é feito um cuidadoso trabalho de conscientização dos visitantes e comunidade. Assim as trilhas são sinalizadas para evitar pisoteamento, existem coletores de lixo ao longo delas, e todos (comunidade e turistas) incorporam a ideia do cuidar.
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As figuras 3.6 e 3.7 apresentam alguns dos conflitos que não foram ainda abordados, entretanto tivemos muita dificuldade em conseguir informações em virtude do alto custo das imagens que não estão disponibilizados livremente, e pela compatibilização cartográfica dos bancos de dados existentes, devido a sua obtenção em várias escalas.
Figura 3.6 – Áreas de pesquisa mineral e lavra situadas na área de pesquisa. Fonte de dados DNPM (2010).
Adaptado de Bonfim (2001).
Figura 3.7 – Áreas de agropecuária situadas na área de pesquisa.
Na figura 3.6 estão evidenciados os conflitos com a mineração, que se baseiam nas restrições impostas pela Constituição Federal de 1988, artigo 225, parágrafo primeiro, inciso III, in fine:
[...] Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização
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que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção [...] (grifos nossos).
Nos limites do Parna CD, existem áreas de pesquisa em estágio de lavra, localizadas a sul da cidade de Andaraí, nas proximidades do limite entre os municípios de Mucugê e Ibicoara, e no extremo sul da área da unidade em questão. Essas áreas de lavra evidenciam, em tese, exploração mineral em unidade de proteção integral, o que pela legislação é vetado. Existem também áreas em estágio inicial de pesquisa, nas linhas limites do contorno Parna CD e nas áreas de amortecimento.
Pinto (2005, 25) esclarece que:
1. Nos casos de requerimentos de títulos minerários em Unidades de Conservação de Proteção Integral pré-existentes, conforme art. 8º da lei do SNUC, os requerimentos deveriam ser indeferidos;
2. A maior área de conflito está nos casos onde já tiver sido expedida portaria de lavra em Unidades de Conservação de Proteção Integral que, segundo Processo DNPM nº 48400.000.788/2006, aprovado pela Diretoria Geral do Departamento Nacional da Produção Mineral, deverão ser objeto de processo de caducidade com fundamento nos art.7º, §1º, e art. 28, do código de mineração, em decorrência da impossibilidade da sua manutenção em razão de ter se tornado o seu objeto incompatível com a preservação do meio ambiente.
Na área da APA existem também áreas de pesquisa em dois estágios, mas, como área de uso sustentável, é regida de modo diferente, conforme Pinto (2005, 27):
1. Nos casos de requerimentos de títulos minerários em Unidades de Conservação de Uso Sustentável pré-existentes, nos termos do art.14 da Lei nº 9.985/2000, apresenta-se possível a outorga dos títulos desde que atendam às restrições impostas pela legislação;
2. Nos casos de requerimentos de títulos minerários em área livres que posteriormente se tornaram objeto de Unidades de Conservação de Uso sustentável, existe a possibilidade de outorga dos títulos minerários muito embora devam adaptar-se e atender às restrições legais.
E dessa forma não detectamos nenhuma ocorrência localizada em área de preservação ou conservação, entretanto, não podemos afirmar que as existentes nas áreas de uso sustentável estão atendendo às restrições legais.
Com relação á figura 3.7, podemos verificar a existência de conflitos com a atividade agropecuária, sobretudo no Parna CD, onde é visível essa atividade em extensas áreas nos arredores de Mucugê, na parte central a oeste de Andaraí, na linha NW-SE entre essa cidade e Lençóis, e um considerável adensamento dessa atividade na parte noroeste, ao leste de Palmeiras. Por outro lado, nos limites da APA são evidentes que as áreas de agropecuária invadem áreas de preservação
(proteção de cavernas e proteção permanente) no entorno de Iraquara, e de conservação (controle da paisagem e proteção visual), situada entre Iraporanga e Estiva.
Tudo isso vem confirmar que a ação de fiscalização é negligente, pois, pela extensão da atividade é impossível que não seja visível, e todas as limitações/restrições impostas pelo plano de manejo não são respeitadas, e a situação não mudou em relação ao período em que o Parque existia só no papel.
Em suma, a análise das lógicas territoriais na Chapada Diamantina deve ser vista de maneira sistêmica, pois, tanto a mineração quanto o turismo, com base na geodiversidade, contribuíram para tal realidade. É dessa inter-relação e da dependência dos sistemas sociocultural e politicoeconômico que surgem as lógicas de ocupação (Figura 3.8).
Figura 3.8 – Esquema das Lógicas Territoriais.
O sistema sociocultural compreende uma realidade que vai além do local onde o processo ocorre, pois, nele estão implícitos elementos que são capazes de influenciar o todo, mas, que nem sempre são passíveis de ser controlados ou monitorados localmente. Entre eles podem ser citados: valores sociais, avanços tecnológicos, fluxos de capitais, desigualdades sociais, mobilidade social, aspectos psicossociais, entre outros. Esse sistema apresenta tal complexidade que, por vezes, sua compreensão envolve outros tipos de atividade e até outros setores, sobretudo, o econômico. Nele estão embutidos valores socioculturais e históricos
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que, ao longo do tempo, foram responsáveis pela organização espacial desses espaços. Essa é resultado de trabalho humano acumulado, cujos resultados e características são passíveis de serem explorados e aproveitados pelo turismo, a exemplo das já citadas rugosidades.
Ainda dentro do sistema sociocultural estão os componentes que, de alguma maneira, influenciaram o modo de vida e o cotidiano das populações locais, territorializando-as. Esses componentes que englobam aspectos da vida social da localidade, suas manifestações populares, sua arquitetura, sua gastronomia, sua religiosidade, dentre outros, são passíveis de ser transformados em mercadorias, exatamente como aconteceu na Chapada Diamantina.
Entretanto, essa relação traz em si um conflito, considerado desigual, uma vez que a população autóctone termina por se submeter ao processo de colonização imposto por agentes (Estado e iniciativa privada) responsáveis pelo desenvolvimento. Com o passar do tempo, as características socioculturais se perdem, e vão dar origem a uma organização social completamente diversa daquela originalmente existente, como afirma Beni:
O grupo social receptor das inovações, isto é, os habitantes estáveis do núcleo, sofrem muitas vezes uma autêntica colonização econômica e são encarados como joguetes de poderosos e levianos interesses ocultos [...] Acabam caindo na marginalidade social por não conseguirem se engajar no ‘esquema’ que transforma passo a passo sua comunidade. Nas comunidades estáveis também pode ocorrer outro tipo de colonização: a dos hábitos, dos costumes e do estilo de vida. Uma colonização infelizmente aceita e assimilada com frequência, incentivada com ânimo de lucros pelos mesmos membros da comunidade autóctone; o hedonismo, o engano, a mentira, a vida de pura aparência, o hábito de ganhar e gastar fácil constitui uma poderosa influência que vai erodindo valores verdadeiramente importantes do povo (BENI, 2002, p.83-84).
A geodiversidade que é composta pelos elementos naturais, representados por elementos bióticos e abióticos (clima, flora, geomorfologia, hidrografia, geologia (mineração), solos, entre outros, que formam o espaço natural, cujas singularidades, dentre elas os recursos naturais, são transformados em atrativos, graças à função econômica a eles atribuída.
O componente econômico vai estar vinculado ao sistema politicoeconômico, que necessita de uma organização política que lhe dê aporte, e muitas vezes, fomento, como aconteceu na Chapada Diamantina, como já citado, envolvendo processos produtivos, políticos e legais (aqui incluído ações que visem minimizar os conflitos) que levaram ao desenvolvimento e as lógicas de apropriação
do território.
Assim, as lógicas territoriais, para se desenvolverem, dependem fundamentalmente de aspectos sociais, econômicos, políticos, naturais e culturais, que ocorrem em espaço claramente definido: o das comunidades que estão sendo territorializadas.
Entretanto, ao longo desta tese, pudemos constatar que a unidade/uniformidade da proposta de região econômica Chapada Diamantina, não se verifica, pois, os 33 municípios que a compõe, tem características diversificadas. Faz-se necessário dessa forma, uma análise dos seus cenários geoeconômicos, para se verificar se realmente no contexto amplo da região econômica utilizada, existem elementos que a caracterizem, apesar das diversidades, como Chapada Diamantina. É fato que tal atividade (mineração de diamante), abrange somente uma parte dela, e que a mineração como um todo, não contempla a totalidade dos municípios.
4 CENÁRIOS GEOECONÔMICOS E REGIONALIZAÇÃO NA CHAPADA DIAMANTINA
Muitas foram as regionalizações na Bahia, algumas federais, e outras estaduais, sendo essas as mais conhecidas e utilizadas. No entanto, essas regionalizações sempre deixaram a desejar, pois, é impossível a pretensão homogeneizante que elas se propõem. Outro problema comum é que foram estabelecidas sem que fossem explicitados os critérios utilizados para delimitá-las, assim têm-se os mapas, mas, falta um texto explicativo. Nesta tese escolhemos – regiões econômicas – pois, era a que mais delineava nosso objeto de estudo, ainda que abrangesse diversidades.
Essa regionalização foi criada pela Lei nº 6.349, de 17 de dezembro de1991, e os aspectos considerados para sua delimitação se encontram no Plano Plurianual do período de 1992-1995, publicado no Diário Oficial do Estado, de 19 de dezembro de 1991.