A geodiversidade inclui a variedade de ambientes geológicos, fenômenos e processos que dão origem às paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na terra, em suma, a natureza abiótica. Nesse contexto, os minerais, em particular, o diamante e o ouro, foram os primeiros agentes, dentro da lógica territorial, de estruturação do espaço na Chapada Diamantina, e que serviram, juntamente com outros, todos ligados, de alguma forma, à geologia, para essa segunda etapa, comandada pelo turismo, numa nova lógica e com novos contornos, já que traz para a região uma nova dimensão, dinâmica e mais eficaz, pois, não está sujeita à exaustão, o que dá uma garantia, se bem estruturada, de um desenvolvimento duradouro para a região.
Dessa forma, ao se formar, a cerca de 1,8 bilhões de anos (Proterozóico Médio), por intermédio de um processo de inversão de relevo, como remanescente de uma bacia sedimentar que se instalou sobre o cráton do São Francisco, a Chapada Diamantina assumiu morfologia condicionada tanto pela estrutura sedimentar que facilitou o seu modelamento, como pela tectônica superimposta que deu origem a serras alongadas, platôs e morros tabulares, como o Pai Inácio, e vales, ora estreitos, ora abertos, como o Vale do Paty (em Lençóis). O modelamento citado envolve a ação da água e do clima (ventos), num processo de intemperismo que deu à região uma feição morfológica característica, com inúmeras cachoeiras, rios, grutas, alagadiços (marimbus) que servem atualmente de atrativos para o turismo de vários matizes, seja ele ecológico, de aventura, ou mesmo contemplativo.
A compreensão dos mecanismos formadores desses modelados permite uma avaliação consciente dos patrimônios geológicos, pois:
O estudo das paisagens naturais por meio da geomorfologia reveste-se, portanto, de relevante interesse para a avaliação da geodiversidade de uma determinada região, uma vez que a morfologia dos terrenos traduz uma interface entre todas as outras variáveis do meio físico e consiste em um dos elementos em análise (SILVA, 2008).
69 Aqui cabe introduzir o termo patrimônio geológico que é tido como conjunto de sítios geológicos (geossítios), definição que discordamos, pois, consideramos que um geossítio isolado também se constitui num patrimônio. O termo está estritamente relacionado com a geodiversidade, mas, deve-se ter a preocupação de não o considerar como sinônimo, já que na verdade ele é uma pequena parcela dela.
Assim, patrimônio geológico apresenta especificações raras que lhe confere peculiaridade e, portanto precisam ser preservados. Por outro lado, existem controvérsias sobre a forma de definir ou estabelecer o que é englobado como tal, embora seja consenso que deve ter valor científico e educativo. Assim, Brilha (2005) fala em conservação de “afloramentos fósseis no mundo”, e Nascimento e colaboradores (2008) referem-se “ao que pode ser considerado topo de gama da geodiversidade”. Esses autores consideram que patrimônio deve ser definido por geólogos, pois, consideram que só esses profissionais têm competência para identificar o seu valor superlativo, para serem definidos como tal.
É consenso entre os autores que trabalham com o tema que não se deve considerar patrimônio geológico como sinônimo de geodiversidade, ainda que se saiba que ele é parte da geodiversidade, mesmo porque nem toda geodiversidade pode ser considerada patrimônio. Assim, por exemplo, todas as paisagens da Chapada Diamantina, em especial da nossa área de estudo – a borda oriental que abrange os municípios de Lençóis, Mucugê, Andaraí, Iraquara, Ibicoara, Palmeiras e Nova Redenção, constituem a geodiversidade, enquanto que apenas os geossítios, tal como o morro do Pai Inácio (Figura 2.1), ou a cachoeira do Sossego (Figura 2.2), se constituem em patrimônio geológico.
Figura 2.1 - Pai Inácio, município de Palmeiras.
71 Conforme afirma Muñoz (1988)
[...] patrimônio geológico é constituído por georrecursos culturais, que são recursos não renováveis de índole cultural, que contribuem para o reconhecimento e interpretação dos processos geológicos que modelaram o Planeta Terra e que podem ser caracterizados de acordo com seu valor (científico, didático), pela sua utilidade (científica, pedagógica, museológica, turística) e pela sua relevância (local, regional, nacional e internacional). No caso em estudo, esse patrimônio tem mais ênfase pela utilidade turística já que é um dos atrativos que impulsiona a atividade e influencia a lógica de ocupação. Entretanto, ele também tem valor pelos aspectos científico e cultural/educativo, como afirmam Valcarce e Cortés (1996).
Existem outros conceitos, mas, propomos fazer uma síntese deles já que na essência estão todos muito próximos. Assim, consideramos que patrimônio geológico de modo abrangente engloba toda a estrutura geológica e suas formas, onde ocorrem elementos da geodiversidade que possuam valor científico, cultural ou educativo.
Nascimento e colaboradores (2008) explanam que:
[...] o patrimônio geológico compreende os minerais, as rochas e os fósseis presentes em afloramentos (exposições no meio natural) ou em coleções de museus, incluindo também o relevo, que no seu conjunto guardam a história da evolução da Terra por processos cuja escala temporal é de milhões (e até bilhões) de anos. Associado a esse patrimônio, existe o patrimônio da história da mineração (ou patrimônio mineiro), uma atividade muito importante no Brasil. Para alguns autores o patrimônio geológico inclui as coleções de minerais, rochas e fósseis expostas em museus, já para outros autores não, principalmente por não se encontrarem em seu meio natural e já estarem protegidas.
Esse comentário contribui com a nossa premissa de que patrimônio geológico tem também importância na lógica de ocupação, uma vez que ele engloba o patrimônio da história da mineração, o que Muñoz chama de arqueologia industrial, e que serve de atrativo para o turismo, um dos vetores da lógica territorial.
Tendo em vista que por definição patrimônio geológico é um conjunto de geossítios, se faz por tanto importante defini-los.
Os termos geossítio e geótopo são sinônimos, sendo que o segundo é mais empregado pela escola alemã (como já afirmado anteriormente), e o primeiro pela escola angloescandinava. É usado também o termo geomorfosito para tratar formas de paisagens com atributos geomorfológicos, bem como geomonumentos, mas, neste trabalho utilizaremos apenas geossítio, no intuito de uniformizar a linguagem.
Segundo Wimbledon (1999), “um geossítio pode ser qualquer localidade, área, ou território, onde é possível definir um interesse geológico geomorfológico para a conservação”. Na verdade é considerada uma forma abreviada de sítio geológico ou sítio de interesse geológico.
Por outro lado, Gray (2004) define o termo em questão como “elementos de geodiversidade, bem delimitados geograficamente e que, pela sua peculiaridade ou raridade, apresentem valor científico, pedagógico, cultural, estético, econômico, ou outro”.
Molina e Mercado (2003) consideram como geossítios “porções espacialmente delimitadas da geosfera com um significado geológico, geomorfológico ou geoecológico especial, que devem estáticos ou dinâmicos e devem ser conservados para as futuras gerações”.
Esses geossítios se constituem em grandes atrativos para o turismo, bem como tem importante papel na ocupação do espaço na Chapada Diamantina, na forma conhecida como geoturismo, e sua variante o ecoturismo.
Uma tentativa de dividir as áreas por geossítios englobaria:
1. os rios – representando a rede hidrográfica, divididos naqueles de planície e os serranos;
2. as áreas semi-horizontalizadas do topo do planalto (Gerais - localmente);
3. os marimbus, e
4. as grunas, ou cavernas. As primeiras de origem tecnogênica; as segundas, naturais ou ampliadas tecnogenicamente pelo garimpo, podendo ser silicosas (gruta do Lapão, por exemplo), ou carbonáticas (pouco comum na região).
Todos esses geossítios poderiam estar englobados em dois ou três sistemas sedimentares tecnogênicos: urbano, rural e mineiro, ou até só em rural e mineiro, considerando que os núcleos urbanos não se constituem sistema dominante da região, e sim uma consequência, pelo menos até agora, dos outros dois citados.
Aliado às feições geomorfológicas, o processo tectônico favoreceu a formação de uma sequência sedimentar constituída de conglomerados, arenitos, dentre outros, sendo os conglomerados portadores dos diamantes de aluviões (e secundariamente ouro) pertencentes à formação Tombador (Figura 1.10). A exploração mineira formou rugosidades (marcas deixadas na paisagem, resultantes
73 do modo de desenvolvimento do modo de produção ao longo do tempo histórico) na região, como as cidades (Igatu, Lençóis e Mucugê, principalmente), mas também deixou outras marcas, como a vila abandonada dos garimpeiros, nas cercanias de Igatu, as transformações causadas no meio ambiente, dentre outros, que agora servem como atrativos ao turismo, associados aos atrativos naturais, descobertos graças à fase desbravadora da mineração, o chamado geoturismo.
É provável que a região sofra um novo surto de mineração, em função do avanço dos estudos que vêm sendo realizados, onde já se detectou a rocha matriz dos diamantes – kimberlitos – muito embora em outro tipo exploratório, o empresarial, já que a extração não seria mais artesanal, como no passado.
Para iniciar discussão sobre esse termo, necessária se faz uma breve discussão sobre turismo. É fato que cada vez mais o espaço é produzido por novos setores de atividades econômicas como o do turismo, e desse modo praias, montanhas e campos entram no circuito da troca, apropriadas, privativamente, como áreas de lazer para quem pode fazer uso delas.
Assim, Cazes (1995, p. 98) explana que:
[...] o turismo não é uma atividade industrial, mas um setor que se volta, exclusivamente, ao setor de serviços. É evidente que a atividade turística refere-se em grande parte à prestação de serviços, mas parece-me que também traz em seu bojo uma série de atividades produtivas, o que nos leva a pensar que não se pode caracterizar o turismo como atividade econômica, segundo a classificação de Clarke, o que significa transcendê- la. O turismo, portanto, apareceria como um misto de atividades que se definiria na articulação entre indústria e serviços, o que requer uma nomeação mais satisfatória, mas não é o caso do debate apresentado no presente texto. Aqui ele aparece como atividade que produz espaços e comportamentos, bem como coisas.
No processo de apropriação do espaço, o turismo engloba todos os elementos da geosfera, seja ele biótico ou abiótico, procurando produzir uma forma do homem moderno se desvencilhar do grande estresse a que está submetido nos grandes centros, por intermédio do incentivo ao lazer e recriação, seja ele contemplativo ou de aventura.
Conforme Nascimento e colaboradores (2008, p.7):
O turismo, assim como outras atividades que fazem uso do ambiente, é um grande consumidor de paisagens e pode causar impactos, tanto positivos quanto negativos, onde se desenvolve. Neste sentido, a paisagem ainda é vista como simples referência espacial, um bem a ser consumido. Porém, diferentemente de outras atividades, o ambiente terrestre representa o grande atrativo para o turismo e representa o grande atrativo para o turismo e representa a matéria prima desta atividade.
Entretanto, a presente correlação que entrelaça o turismo com meio ambiente, traz novas perspectivas, e produz e introduz inovações nas modalidades de turismo, particularmente em ambientes naturais, intocados ou pouco conhecidos, como na Chapada Diamantina, que convivem com culturas locais, e procuram se preservar das influências externas, embora nem sempre isso seja conseguido, a exemplo da cidade de Lençóis, situada no centro da Chapada Diamantina que procura centralizar e capitalizar todos os olhares para região, sofrendo as consequências disso, entre as quais destacamos problemas urbanos, com as construções irregulares inclusive na parte histórica, loteamentos em áreas de risco devido à expansão urbana, bem como construção de casas populares em áreas de voçorocamento e incipiente favelização.
Assim a combinação de turismo e meio ambiente, foi denominada como ecoturismo que é englobado pelo geoturismo, em publicação do Ministério do Turismo de 2005, que caracterizava as principais opções do turismo dentre as várias praticadas no país, objetivando sistematizar terminologias, abordagens e delimitações. Entretanto, existe uma grande carência de literatura sobre o assunto, e em português nada ainda foi publicado. Assim o termo só veio a surgir em 1995, quando Hose (1995, p. 12), o definiu como:
A provisão de serviços e facilidades interpretativas que permitam aos turistas adquirirem conhecimento e entendimento da geologia e geomorfologia de um sítio (incluindo sua contribuição para o desenvolvimento das ciências da Terra), além de mera apreciação estética. Tendo em vista ser uma definição muito restritiva que a vinculava basicamente à geologia, não abarcando a geodiversidade como um todo, em 1997, o mesmo autor elaborou uma redefinição:
A provisão de facilidades interpretativas e serviços para promover o valor e os benefícios sociais de lugares e materiais geológicos e geomorfológicos e assegurar sua conservação, para uso de estudantes, turistas e outras com interesse recreativo ou de lazer (HOSE, 1997, p. 13).
Entretanto, Stueve e colaboradores (2002), em trabalho conjunto com a
National Geografic Society (NGS) e a Travel Association (TIA) dos Estados Unidos
da América, definem geoturismo como “o turismo que mantém ou reforça as principais características geográficas de um lugar, seu ambiente, cultura, estética, patrimônio e bem-estar dos seus residentes”.
75 É com base nessas últimas definições que utilizaremos o termo durante este trabalho, por considerá-lo mais abrangente, e por isso mais próximo do que entendemos como tal. Assim faremos a seguir breves considerações sobre turismo e geologia.
A história registra a mobilidade dos homens desde os seus primórdios, por regiões diversas, entretanto, a partir do século XX, sobretudo quando se estabeleceu o direito de descanso anual de suas atividades, na sociedade industrial, o homem se lançou ao mundo em busca de conhecer novos lugares, desencadeando a atividade turística, que constitui o fluxo de pessoas em deslocamentos por pequenas, médias e longas distâncias.
Segundo Nascimento e colaboradores (2008, p.8),
[...] a palavra turismo surgiu no século XIX, porém a atividade estende suas raízes pela história e certas formas de turismo, ligadas às viagens, existem desde as mais antigas civilizações, mas segundo Fourastié, foi somente a partir do século XX e, mais precisamente após a segunda guerra mundial, que o turismo evoluiu para os moldes atuais que se alicerçam, sobretudo no lazer.
A partir de então, o turismo passou a ser estudado em centros acadêmicos, pois, tornou-se uma das atividades econômicas mais rentáveis, crescendo a taxas elevadas, e englobando receitas da ordem de trilhões de dólares. Essa atividade vem se apropriando cada vez mais espaços ao redor do mundo, para atender a demanda de um consumidor cada vez mais ávido por desbravar lugares longínquos e exóticos.
No início da década de 1970, nós, estudantes de geologia, dizíamos inúmeras vezes que, quando alguém, nas etapas de campo se mostrava sem ânimo para o desempenho dos trabalhos, que a excursão não era geoturismo, mas sim um requisito de aprendizagem para o curso. Lançávamos mão de um termo que mais tarde viria se caracterizar como o turismo que se apropria dos atrativos naturais, sobretudo as espetaculares paisagens de singular beleza cênica.
Ainda conforme Nascimento e colaboradores (2008, p.9),
[...] o turismo faz uso da paisagem, na concepção geográfica de espaço (ambiente ou meio), formado pelos elementos bióticos e abióticos que constituem a geosfera, zona de interseção da litosfera, atmosfera, hidrosfera e biosfera, explorando-o com o propósito de lazer e recreação, como uma maneira do homem moderno fugir do tumulto dos grandes centros urbanos. Dessa forma, o turismo se caracteriza como grande consumidor do ambiente terrestre que passa a ser um bem a ser consumido, representado pelas
paisagens, e isso nem sempre é feito de modo harmonioso. Essa apropriação/dominação do homem sobre a natureza, mantinha a civilização humana, e teve especial atuação quando da revolução industrial. Ao começar sentir os efeitos dessa atividade, se iniciou o processo de valorização da natureza selvagem, e teve início o processo de criação de áreas protegidas que se espalhou primeiro pelo mundo desenvolvido, mas atingindo os demais países.
Na atualidade, a relação turismo versus meio ambiente privilegia, sobretudo os ambientes naturais menos degradados, mas, que nem sempre tem uma relação tranquila com as populações locais, e sob esse enfoque estão compreendidos os aspectos geológicos.
A geologia, que estuda a Terra nas suas diversas nuance e inter-relações, é, assim, a ciência que, de modo abrangente, engloba a geotectônica, a mineralogia, a petrografia, a geoquímica, a paleontologia, a geofísica, a hidrogeologia, enfim, todo o arcabouço que compõe nosso planeta. Cabe também ao geólogo o papel de conscientização da sociedade pela preservação dessas formações geológicas que compõem as paisagens, parte da geodiversidade.
Assim sendo, Nascimento e colaboradores (2008, p. 8) afirmam que:
[...] as paisagens atuais, que admiramos e utilizamos como atrativos turísticos, são o resultado dos processos geológicos atuantes durante cerca de 4,6 bilhões de anos de história da Terra. As rochas e o relevo, além de terem importância científica, formam o substrato sobre o qual se desenvolve toda a vida no planeta. Portanto, as rochas e o relevo da Terra registram e fornecem dados sobre história geológica do planeta.
Desse modo, a geologia, resultante da longa evolução do planeta Terra, tem papel importante na constituição da geodiversidade que por intermédio das paisagens e elementos associados, promovem as atividades turísticas.