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Conflitos da luta pela terra e desmatamento florestal

CAPÍTULO I – FRONTEIRAS, INSTITUIÇÕES E MECANISMOS DE

2. EXPANSÃO DA AGROPECUÁRIA CAPITALISTA NA AMAZÔNIA

2.6. Avanço da fronteira agropecuária e a institucionalização da luta pela terra

2.7.1. Conflitos da luta pela terra e desmatamento florestal

Com penetração do capital na fronteira amazônica, tudo mudou e todos mudaram em relação com a terra como uma mercadoria fictícia, ou melhor, como um ativo. A ocupação, a posse, a moradia, a roça, a criação de animais, os vizinhos e todo o conhecimento do lugar – onde os trabalhadores rurais moram – deixou de ser relevante para assegurar o direito de propriedade capitalista. Os ocupantes, posseiros e donos de terras teriam que possuir um documento jurídico, registrado em cartório, para que as diferentes formas de “propriedade reais” ocupadas fossem consideradas propriedades legais pelo Estado. De repente, com a expansão da fronteira, não era mais possível saber a quem a terra pertencia. O capital separou o homem da terra e, portanto, da natureza com toda a sua fonte de recursos naturais.

Esse processo de apropriação de terras por métodos violentos caracteriza o que Marx chamou de acumulação primitiva – que termina com a expulsão dos produtores autônomos de suas terras. A luta pela propriedade da terra começa com uma luta jurídica do posseiro ou do colono quando decide requerer seu título de propriedade. “A morosidade burocrática do processo de titulação das terras ocupadas por colonos e posseiros junto ao INCRA levou que o governo federal criasse, em 1980, o Grupo Executivo de Terras do Araguaia (GETAT) com jurisdição sobre a metade da área do Programa Grande Carajás, com a finalidade de apressar a titulação das terras ocupadas para reduzir os conflitos decorrentes da luta pela terra”. (Bunker, 1980).

Para resolver esse problema de titulação novos mecanismos de ajustes institucionais, urdidos pelos planejadores de Brasília, levaram a uma revisão do escopo da ação fundiária nas zonas de maiores conflitos de luta pela terra. O governo do Presidente do Gen. João Figueiredo encetou uma série de medidas com vistas a resolver as questões fundiárias pendentes. Para isso foram criadas duas novas instituições: o GETAT através do Decreto-Lei nº 1.767, de 01 de fevereiro de 1980; e o GEBAM – Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas – por meio do Decreto nº 84.516, de 28 de fevereiro de 1989. O GETAT ficou responsável por uma área no Pará de 918.075 hectares com 8.084 famílias com 66 imóveis, como pode ser visto na Tabela 26.

Tabela 26: Área de Jurisdição do GETAT

Estados Nº de Imóveis Rurais Área Total (ha) Nº de Famílias

Pará 66 918.075 8.084

Goiás 48 412.967 2.092

Maranhão 12 268.185 2.957

Total 126 1599.227 13.133

Fonte: MIRAD (1985).

A ação denominada de regularização fundiária concentrava-se nas zonas do Pará, aonde a expansão dos posseiros migrantes, com seu movimento social de ocupação espontânea de terras devolutas, vinha superando a ocupação oficial controlada pelo governo autoritário. Os critérios adotados, por esses dois órgãos, eram de natureza econômica e tecnológica e tinham a finalidade de regularizar a situação das terras apenas daqueles posseiros que atendessem uma série de exigências burocráticas.

Em sete anos, o GETAT distribuiu mais de 60 mil títulos de propriedade cobrindo uma área de terra de 7.000.000 ha, ou seja, um sexto da área total de 45.000.000

de hectares do programa. No entanto, uma análise mais atenta dessas metas atingidas, revelava que essa “redistribuição” apenas consolidou legalmente a estrutura fundiária desigual que já existia, em vez de redistribuir as terras para os pequenos posseiros que mais precisavam. Embora cerca de 70% dos títulos fossem distribuídos para as propriedades com menos de 100 hectares, estes títulos correspondiam a apenas 21% da área total; enquanto os 8% das propriedades com mais de 300 hectares absorviam 51% das terras tituladas dos latifundiários e empresas capitalistas.

A controvérsia sobre a terra na fronteira amazônica é uma contestação que envolve a luta pela posse ou domínio das terras devolutas, estaduais ou federais, entre colonos e posseiros contra fazendeiros e grandes empresas desejosas a expandir os seus negócios agropecuários. A tendência deste debate, que culmina na luta pela terra, é a expropriação dos produtores autônomos que não dispõem de nenhuma proteção econômica, política e jurídica sobre suas terras ocupadas de que dispõem a grande empresa que decide ocupar e expandir suas atividades agropecuárias na região.

Além disso, o acesso institucional aos problemas agrários (ligados a terra e as relações sociais de produção que dela deriva) tem a vantagem de invadir a realidade, sem o compromisso necessário com a prática de isolar a essência econômica abstrata do fenômeno analisado. Os fatos econômicos são examinados no contexto de uma urdidura maior, envolvidos com (ou por) condicionantes técnicos, políticos e sociais, compondo assim um quadro sócio-econômico geral que ora age como fator condicionado, ora como fator determinante, dependendo do grau da dominação ou subordinação do trabalho ao capital assumido em momentos históricos distintos.

Os problemas agrários resultantes da expansão da fronteira agropecuária na Amazônia são analisados aqui numa perspectiva institucionalista de buscar uma explicação para os fatos relevantes da economia agrária na Amazônia paraense. Os fatos institucionais relevantes a que me refiro neste capítulo, tendo como respaldo o referencial teórico do primeiro capítulo, são a propriedade agrária e as relações de produção e trabalho.

Segundo Santos (1979), ao atribuir tal relevância a essas instituições supõe-se que o tratamento da questão da luta pela terra afeta os principais atores envolvidos no drama econômico da Amazônia agrária: de um lado, os grandes proprietários e as grandes empresas rurais e, de outro, os posseiros e trabalhadores rurais. Na fase de pleno domínio

da economia extrativista, as instituições regionais que regulavam a dinâmica de funcionamento da economia amazônica caracterizavam-se pelo quase imobilismo social quanto aos problemas da posse e uso da terra. O isolamento da Amazônia ao resto do Brasil reproduzia um modelo institucional, herdado do século XIX, chamado de “aviamento”.

O sistema de aviamento na Amazônia formava uma extensa rede de comercialização e financiamento do extrativismo e de produção agrícola no Pará. A própria pecuária, escapava-se do sistema de aviamento, nem por isso era menos imobilista, uma vez que a criação tradicional extensiva da criação de gado e o processo singular das relações sociais de produção entre fazendeiro (dono da fazenda) e vaqueiro e sua família constituíam uma estrutura arcaica que permitia a presença do morador e da parceria.

De acordo com Santos, (1979), posteriormente, com a criação do Banco da Borracha, o problema da propriedade da terra na Amazônia passou a ficar subordinado ao crédito bancário. Assim, com exceção das zonas ocupadas pela atividade pecuária, a propriedade da terra no ambiente rural da região não era uma instituição enquadrada na categoria social de propriedade privada capitalista, embora passasse a existir certa flexibilidade por parte dos bancos públicos para a concessão de crédito rural aos posseiros Igualmente havia desconhecimento do dono da terra do exato tamanho de suas terras e isso permitia uma tolerância das ocupações de terras devida não só o desconhecimento dos limites da propriedade, como também pelo desinteresse pela terra, a qual se convertia em res nullius, isto é, em terra de ninguém.

Os donos da terra, quase sempre, permitiam as livres entradas da vizinhança para a caça, a pesca e do abastecimento de água para subsistência. Além do mais, como o Estado permitia à larga ocupação gratuita dos posseiros e ocupantes de suas terras devolutas, a oferta de terras na Amazônia era praticamente ilimitada para o homem rural nessa época. Deste modo, o vínculo de subordinação do trabalho ao capital mercantil se estabelecia pelo detentor dos meios de comércio e financiamento ao produtor rural, isto é, a figura do aviador que poderia ser o dono da terra ou não.

Assim sendo, o padrão de economia extrativa vegetal e animal e a instituição do aviamento explicam por que eram raros o desmatamento da floresta e os conflitos sociais de luta pela terra nos dias atuais. Explica também o descuido dos posseiros e moradores rurais na Amazônia Legal, e em particular no Pará, relativamente quanto à legitimação jurídica de

suas posses. Tudo isso acabou inibindo a absorção das inovações e institucionais e tecnológicas já conhecidas no resto do País, na velocidade esperada pela burocracia do Estado autoritário, na região Amazônia.

Grilagens (escrituras falsas), corrupção cartorária e a burocracia dos órgãos responsáveis pela liberação dos títulos de propriedades, concessão de licenças de posses e até de confirmação de venda de terras (insuficiência de cadastro de terras do Pará época) e a morosidade da justiça tudo isso ensejou a manifestação das tensões sociais nas áreas da expansão da fronteira agropecuária da Amazônia Legal, sobretudo a partir de 1970 quando o aumento das tensões sociais é convertido em conflitos de luta pela terra.

De fato, o governo federal, com sua crônica incapacidade de resolver os problemas agrários no Brasil, em vez de enfrentar o problema da concentração da terra e o êxodo rural do campo para cidade com uma reforma agrária, preferiu assumir sua política de colonização dirigida ao lado da política de incentivos fiscais e financeiros aos grandes projetos agropecuários.

É na fronteira agropecuária da Amazônia oriental onde ocorrem os mais graves conflitos de terra, notadamente na área do “bico do papagaio” ponto de encontro dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins. Nessa zona, formada por seis microrregiões (Araguaia Paraense, Marabá e Xingu, no Pará; Mearim e Itapecuru, no Maranhão; e Extremo Norte Goiano, no Tocantins) ocorreram vários assassinatos de trabalhadores rurais por pistoleiros contratados pelos grandes fazendeiros.

O número de mortes no campo, entretanto, é apenas um dos critérios pelos quais pode ser mensurada a violência rural. “As expulsões, ameaças, espaçamentos seqüestros e prisões ilegais de policiais a saldo dos grandes proprietários completam os índices da violência humana e destruição da floresta com o avanço da fronteira agropecuária no Pará”. (Hall, 1991).

Não por coincidência que a zona chamada de “bico do papagaio”, a área rural mais violenta do Brasil, possui os índices de concentração de terras mais altos do Brasil e que tendem a se agravar cada vez mais.

A Tabela 27 releva o número e a distribuição dos conflitos por estados da Amazônia Legal que resultaram em mortes de trabalhadores rurais.

Tabela 27: Conflitos de Terra nos Estados da Amazônia e no Brasil: 1967-1985

Estados/Região 1967 1970 1975 1980 1985 Total Acre - - - 2 1 3 Amapá - - - 0 Amazonas - - - - 5 5 Goiás - - - 5 13 18 Maranhão 1 - 26 8 19 54 Mato Grosso - - 4 5 3 12 Pará 10 1 5 34 54 104 Rondônia - - - 1 3 4 Roraima - - - 0 Amazônia 11 1 35 55 98 200 Brasil 27 11 39 91 216 384 Pará/Amazônia (%) 90,91 100,00 14,29 61,82 52,10 52

Fonte: CPT - Conflitos de Terra no Brasil – 1985.

Ianni (1978) observa que desde 1967 têm sido intensificado as distintas formas de arranjo jurídico de controle privado da terra como mercadoria. Na verdade, a tendência do domínio legal sobre a ocupação ou posse é uma forma de institucionalização capitalista do estabelecimento de relações sociais capitalistas da propriedade da terra entre homem e natureza – liberando grande contingente humano do seu principal meio de produção, a terra, para transformá-lo num trabalhador livre – como um passo importante para o estabelecimento das relações sociais de produção e exploração capitalista.

No sistema capitalista brasileiro, o mesmo processo de concentração que ocorre na indústria também se manifesta na agricultura, só que de forma mais complexa e lenta. De fato, diferentemente da indústria urbana, a penetração do capital no campo é dependente da terra porque ela não é (ainda) e, talvez, nunca será produzida e reproduzível pelo esforço do trabalho humano. Assim sendo, tanto a pequena quanto grande exploração agropecuária dependem do solo agrícola à produção de bens de consumo humano ou matérias-primas para agroindústria.

Por isso uma das formas de concentração do capital na agricultura se manifesta na concentração de grandes extensões de terras. Porém, não é apenas pela concentração de terras agricultáveis que se constitui uma grande empresa agropecuária capitalista. As mudanças tecnológicas operadas na agricultura brasileira nos últimos anos, através do emprego de tratores, colheitadeiras, fertilizantes, defensivos, corretivos, vacinas contra

zoonoses, irrigação, drenagem, uso do computador e equipamentos de previsão de chuvas e tempestades, estão permitindo um aumento de produtividade do trabalho e do rendimento por unidade de área, o que implica na redução de grandes extensões de terras para a produção agropecuária.

No Brasil, esse processo de modernização da agricultura, que tem se intensifica fortemente na década de 1970, tem se concentrado muito mais no sul e sudeste do país, em particular em São Paulo. Na fronteira agrícola do centro-oeste, como principal região produtora de soja e algodão, nota-se também uma acelerada modernização da agricultura comercial de exportação. Contudo, o mesmo não se pode dizer da fronteira agropecuária na região amazônica onde a luta pela terra por grandes extensões de áreas é uma realidade.

Na Amazônia Legal, realmente, a terra é um meio de produção fundamental para o desenvolvimento das grandes explorações agropecuárias com base em regime extensivo. A distribuição da propriedade da terra na Amazônia é o principal problema que tem condicionado o desenvolvimento do setor agropecuário. A herança histórica da estrutura agrária e as disputas e conflitos da luta pela terra na Amazônia têm sido as principais causas relacionadas com a questão do desmatamento da floresta. Essa situação tende a se agravar na medida em que a grande empresa agropecuária, por diversos meios, incorpora as terras dos pequenos produtores para formar pastagens plantadas.