CAPITULO 3. COMPETÊNCIA PROCESSUAL
3.7. Conflitos de competência
O conflito de competência é um conflito entre juízes que se afirmam competentes para determinado processo ou que se afirmem incompetentes, nos termos do artigo 115, I e II do Código de Processo Civil.
Nos casos em que mais de um juiz se declare competente para julgar uma demanda, depara-se com o chamado conflito positivo de competência e a contrario sensu, quando ambos os juízes recusam a competência para julgamento do feito o conflito será chamado de negativo.
Ilustra-se a situação com o caso em que houve divergência quanto à competência dos juízes federais nas hipóteses de execuções hipotecárias ajuizadas por agentes financeiros contra mutuários devedores, na medida em que, nestas demandas não resta demonstrado o interesse da Caixa Econômica Federal, visto que se executa tão somente a dívida pactuada entre pessoas de direito privado. Provocado o Superior Tribunal de Justiça203 quanto ao conflito negativo de competência, este se manifestou no sentido de que a competência é da Justiça Federal e não Estadual, visto que, mesmo nestas causas, irradiam-se interesses jurídicos e econômicos da Caixa Econômica Federal, que é a gestora do sistema.
202BUENO, Cassio Scarpinella. op. cit., v. 2, t. 1, p. 49.
203Neste sentido STJ Resp 811793/PR, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em
24/06/2008, Dje 07/08/2008; STJ, ADcl no AG 1069070, Quarta Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 27/04/2010, Dje 10/05/2010.
No entanto, já se decidiu que não será da competência da Justiça Federal a causa que versar sobre o contrato que não prevê cobertura pelo Fundo de Compensação de Variações Salariais, pois o contrato firmado com entidade de crédito privada, não é regido pelas normas do Sistema Financeiro da Habitação, falecendo competência à Justiça Federal para conhecer da ação204.
Quanto aos conflitos de competência envolvendo as demandas perante o Juizado Especial Federal Cível, são objetos de análise no quinto capítulo.
Às vezes, como ensina Humberto Theodoro Junior205, diz-se que
o conflito negativo de competências só se convalida quando a divergência é estabelecida a partir da remessa e devolução entre dois juízes e estes insistem em atribuir um ao outro a competência do feito; todavia, a lei não exige que a divergência se dê dessa maneira. Basta que, conforme o artigo 115 do Código de Processo Civil, os dois juízes se considerem incompetentes. Mas se um deles se retrata e aceita o feito, não se pode falar em conflito negativo, pois este se tornou competente.
Tanto o conflito negativo quanto o conflito positivo podem versar sobre a divergência entre dois ou mais magistrados quanto à reunião de processos que ocorrerá quando, com o objetivo de reunião de processos, um dos juízes avoca o processo pendente e o outro nega a remessa dos autos ou quando, ao contrário, um dos juízes determina a remessa dos autos ao outro juiz que recusa; ou quando ambos os juízes pretenderem conduzir os dois processos ou quando cada um dos juízes pretenda que a reunião se faça num outro juízo206. Esta hipótese apesar de prevista no inciso III do artigo 115 do Código de Processo Civil não configura uma terceira espécie de conflito de competência.
O conflito de competência pressupõe o lançamento das divergências entre magistrados nos autos, pois não se fala, a princípio, em conflito potencial de competência no direito brasileiro. Aliás, a doutrina italiana trata o tema de modo diverso, regulando a competência para evitar o choque de conflitos entre juízes. Entretanto, em caso citado pela doutrina processualista
204STJ, CC 15213/SC, Primeira Seção, Min. Rel. Demócrito Reinaldo, julgamento em 05/12/1995
publicado no Dj, 05/02/1996, p. 1341.
205THEODORO JR. Humberto. op. cit., p. 217-218. 206DINAMARCO, Cândido Rangel. op. cit., p. 471.
pátria, se manifestou o Superior Tribunal de Justiça para dirimir conflito potencial de competência no caso da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, no sentido de que a simples pendência de processos sujeitos à reunião perante o juízo de um deles seria suficiente para determinar a remessa de todos a este. A remessa, neste caso, deveria ser determinada porque a situação que se criou foi a de dezenas de cautelares semeadas por todo o território nacional eivadas de extrema litigância de má-fé e sua superlativa extraordinariedade exigia o desencadeamento de decisões enérgicas e urgentes207.
O conflito de competências deve ser julgado pelo Tribunal hierarquicamente superior aos juízes conflitantes. Se, porém, a divergência ocorre entre tribunais ou entre tribunal e juízes não vinculados ao tribunal ou, ainda, nos casos de tribunais diversos, a competência é do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade do artigo 105, inciso I, letra “d”, da Constituição Federal.
Se, por outro lado, o conflito de competências se instala entre o Superior Tribunal de Justiça e outro tribunal ou entre quaisquer tribunais superiores, é competente para resolvê-lo o Supremo Tribunal Federal, conforme regra constitucional do artigo 102, inciso I, letra “o”.
São legitimados para suscitarem os conflitos de competência, o juiz, a parte, e o Ministério Público, conforme determina o artigo 116 do Código de Processo Civil.
Quanto à legitimidade da parte para suscitar o conflito da incompetência relativa, esta será limitada à ausência de oferecimento de exceção de incompetência: a regra geral põe a possibilidade de a parte utilizar um único instrumento para pleitear a solução do conflito de competência e, uma vez apresentado, dá-se a preclusão lógica para garantir que o processo não seja indefinidamente procrastinado por abuso de um poder do sujeito208.
207O exemplo é de Cândido Rangel Dinamarco (op. cit., p. 471).
208Cassio Scarpinella Bueno tem entendimento diverso, pois afirma que a melhor interpretação
para o dispositivo é a que veda a iniciativa simultânea das duas medidas. Pode acontecer, com efeito, que embora acolhida a exceção de incompetência do réu e enviada os autos para o juízo competente, haja algum fato que justifique o conflito de competência que pode, sem prejuízo de sua suscitação pelo demais legitimados, ser provocada por ele mesmo. (BUENO, Cassio Scarpinella. op. cit., v. 2, t. 1, p. 60).
O juiz em conflito com outro que não tenha decidido sobre a exceção não fica obrigado a acatá-la, podendo suscitar o conflito para apresentar suas razões para a recusa da competência decidida na exceção.
Também a parte que não suscitou o conflito poderá interpor a chamada exceção declinatória de foro (na conformidade do artigo 117, parágrafo único), tendo em vista ensejar que o juiz reconheça desde logo sua incompetência, fazendo desaparecer o conflito antes que seja decidido.
O procedimento do conflito, se suscitado pelo juiz, será iniciado por ofício endereçado ao Presidente do Tribunal Superior, segundo o texto do artigo 118, inciso I do Código de Processo Civil. Se suscitado pelas partes ou pelo Ministério Público, será iniciado o procedimento por meio de petição (art. 118, II) e tanto o ofício quanto a petição deverão ser instruídos com os documentos capazes de fazer prova da existência do conflito (parágrafo único do artigo 118).
Recebendo a petição ou ofício, o Presidente do Tribunal o distribuirá segundo as regras de organização judiciária local. Após a distribuição, serão ouvidos os juízes em conflito por ordem do relator nos casos em que o incidente haja sido suscitado pelas partes ou pelo Ministério Público. E se a iniciativa foi do próprio magistrado, ouve-se o outro, chamado de suscitado.
O prazo para que se pronunciem os magistrados é fixado pelo relator, consoante o artigo 119, ouvido sempre nesses casos o Ministério Publico de Segunda Instância, visto tratar-se de assunto de ordem pública.
Ouvido o Ministério Público, com ou sem as informações prestadas pelos juízes em conflito ou por um deles, o relator apresentará o conflito em sessão de julgamento e o tribunal, ao decidi-lo, declarará qual é o magistrado competente, além de se manifestar sobre os atos então realizados pelo juiz considerado incompetente.
Cabe ordinariamente ao órgão colegiado do Tribunal julgar o conflito de competência, mas também é permitido, desde logo ao relator proferir decisão singular sobre o mérito da exceção, caso em que julgará em nome do Tribunal, como um de seus órgãos. Isto acontecerá quando a questão suscitada na arguição do conflito corresponde a tema já solucionado pela jurisprudência dominante do Tribunal. Da decisão do relator caberá agravo interno, no prazo de
cinco dias, para o órgão colegiado que tinha competência originária para o conflito (art. 120, parágrafo único).
Quanto aos efeitos do conflito, se tratar-se de conflito negativo, a causa fica paralisada, aguardando a decisão do Tribunal e os autos ficam retidos em poder do juiz suscitante. Mas se tratar-se de conflito positivo, poderá o relator, de ofício, ou a requerimento das partes, determinar o sobrestamento do processo.
De qualquer sorte, quer se trate de conflito positivo ou negativo, o relator designará qual juízo será aquele apto a resolver em caráter provisório as medidas urgentes. Uma vez julgado o incidente, os autos do processo (em que se manifestou o conflito) são remetidos ao juiz declarado competente na conformidade do artigo 122, parágrafo único do Código de Processo Civil.
Concluído o estudo das questões gerais da competência processual civil, passa-se para a análise específica da competência do Juizado Especial Federal Cível, determinada pela Lei 10.259/2001. Como ressaltamos no início deste capítulo, o estudo sobre as questões gerais da competência processual serve para fundamentar as divergências entre ela e a competência fixada pela Lei 10.259/2001, principalmente quanto à determinação da competência absoluta e a possibilidade de extinção do feito sem resolução do mérito ao ser constado que o juízo é incompetente.