2. O CENÁRIO ARTÍSTICO DA FRANÇA NO SÉCULO XIX: CARTAS SOBRE O
2.2. A NOVA ARTE: AS RUPTURAS PROVOCADAS PELO IMPRESSIONISMO
2.2.2 Os conflitos de interesse
Após a exposição de 1874, as discordâncias começaram a emergir. O primeiro motivo foi o sucesso alcançado por alguns (e não todos) e a escassa venda de obras. As especulações surgiram no mercado da nova arte e alguns, antes considerados “alternativos’, tornaram-se aqueles que venderiam quadros.
Cézanne ironizou em carta a Émile Bernard, escrita em 27 de junho de 1904: “O tempo está bonito, aproveito para trabalhar; seria preciso fazer dez bons estudos e vendê-los caro, já que os aficionados especulam com eles.” (1992, p. 247)
Na correspondência dos últimos anos, encontra-se menção ao descontentamento com a atitude e a postura adotada pelos colegas pintores. Em carta a Joachim Gasquet, datada de 08 de julho de 1902, Cézanne vocifera: “Busco o êxito através do trabalho. Desprezo todos os pintores vivos, exceto Monet e Renoir, e quero vencer pelo trabalho” (1992, p. 236).
É visível a amargura do artista nas epístolas dessa fase, que se relaciona com a cisão do grupo e com as dúvidas sobre os caminhos a serem trilhados. Esses sentimentos desvelam aquilo que John Rewald (1995) afirmava sobre a “separação” dos impressionistas, após 1866. De um lado restam os antigos pintores, com experiência, estilo próprio e algum sucesso; de outro, os jovens, mais audaciosos e inovadores. Cézanne pertencia ao primeiro grupo, mas com ele não se identificava. Tinha interesse pelos novos talentos, mas não era um deles.
Em 26 de agosto de 1906, desabafou ao filho Paul a decepção com os colegas:
Eu vivo um pouco como num sonho79. A pintura é o que mais me vale. Estou muito irritado com o atrevimento que meus compatriotas tiveram de quererem integrar-se a mim como artista, e de querer pôr a mão nos meus estudos. – É preciso ver as sujeiras que eles fazem. (CÉZANNE, 2011, p. 80, tradução nossa)
Na última carta ao filho, escrita em 15 de outubro de 1906, Cézanne comentara sobre a visão dos pintores de sua época a respeito dele próprio: “Acho os jovens pintores muito mais inteligentes que os outros. Os velhos só conseguem ver em mim um rival desastroso.” (1992, p. 272)
79A transcrição original de Rewald (CÉZANNE, 2007, p. 403) usa a palavra vide (vazio) ao invés de rêve (sonho),
Desiludido com os impressionistas, Cézanne tornou-se esperançoso novamente em relação a um grupo de jovens do Sul da França, ao qual se refere com alegria. Em carta a Henri Gasquet, escrita em 23 de dezembro de 1898, afirmou:
Associo-me de todo o coração ao movimento artístico80 que eles determinam e que devem caracterizar. Você não imagina como é vivificante encontrar ao nosso redor uma juventude que consente em não nos enterrar imediatamente; assim, só posso fazer os votos mais sinceros pelo seu triunfo. (1992, p. 217)
O outro motivo está intimamente ligado ao primeiro e revela as repercussões do sucesso no campo subjetivo. Se na segunda metade do século XIX os ditos impressionistas eram considerados revolucionários, no início do século XX o sucesso de alguns (como Monet) tornava-os praticamente integrantes da arte oficial. Conflito gerado a partir das contradições entre a arte instituinte e a instituída, entre o independente e o estabelecido.
Após a terceira exposição, Cézanne decidiu não mais participar, enquanto enviava anualmente obras ao Salão. Algumas discussões foram travadas entre os pintores que insistiam em tentar ser selecionados. Alguns - incluindo Cézanne - acreditavam ser incongruente o fato de expor com os impressionistas e simultaneamente tentar a exibição oficial.
O pintor acreditava que seriam posicionamentos inconciliáveis: quem tenta ser aceito pela Academia não pode se afirmar como artista independente, visto que essa postura tornaria ainda mais difícil a escolha pelo júri. Desde o início das exposições do grupo, Manet já havia tido atitude semelhante, que foi bem sucedida. Por já haver participado do Salão, desejava manter os aceites nessa única exibição.
Em carta a Camille Pissarro, escrita em 1º. de abril de 1879, confirma-se essa tese: “Penso que em meio às dificuldades levantadas pelas telas que enviei ao Salão ser-me-ia muito conveniente não participar da exposição dos impressionistas” (Ibid, p. 143). Também Monet, Renoir e Sisley decidem não tomam parte da quarta exposição. A ideia se repete em 1880, quando nem Cézanne, Monet ou Renoir expõem na quinta edição, enviando obras ao Salão.
Com o tempo, a exposição dos impressionistas se esvaziou dos grandes nomes, concluindo lentamente a dissolução do grupo. O Salão continuava sendo o objetivo de alguns, enquanto as exposições individuais (promovidas pelos marchands) surgiam, somando ao
80Quando Cézanne afirma que há um “movimento artístico”, refere-se ao poeta de Aix Joachim Gasquet (1873–
1921, filho de Henri, o destinatário da carta citada), sua esposa Marie Gasquet (escritora) e seus amigos. Joachim, que publicou uma obra sobre Cézanne em 1921 (GASQUET, 2012), trocou numerosa correspondência com o pintor na última fase de sua vida.
cenário da arte.
Mas as tentativas de aceitação nas exposições oficiais ainda demandavam uma movimentação política. Em 10 de maio de 1880, mais um registro escrito expressou a insatisfação com as constantes recusas e busca por um meio de transformação. Cézanne enviou a Zola uma carta de Renoir e Monet (rejeitados naquele ano) endereçada ao ministro de Beaux-Arts, em que pedia a exposição dos pintores “impressionistas puros”. Solicitava81 ao amigo que pudesse comentar e reforçar o evento em suas críticas no Voltaire:
Envio-lhe anexa a cópia de uma carta que Renoir e Monet vão remeter ao ministro das Belas-Artes para protestar contra sua má instalação e exigir uma exposição para o ano que vem do grupo dos impressionistas puros. Eis o que me é solicitado pedir-lhe:
Fazer publicar essa carta no Voltaire, precedendo-a ou acompanhando-a de algumas palavras sobre as manifestações anteriores do grupo. Essas poucas palavras tenderiam a demonstrar a importância dos impressionistas e o movimento real que eles provocaram. (CÉZANNE, 1992, p. 151)
Fora do circuito oficial, as mostras individuais serão importantes meio de divulgação da nova arte. Em 1883, Cézanne mencionou a Zola - em carta de 10 de março - que faria uma exposição individual após a de Monet (Ibid, p. 167). O marchand Durant-Ruel, ao não conseguir acordo com os impressionistas, organizou exibições separadas: Monet, Renoir, Pissarro e Sisley foram contemplados. Também organizou mostras no exterior, divulgando o Impressionismo fora da França. Ainda assim houve descontentamento, pois os preços das obras eram altos e as vendas ruins.
Essas novas possibilidades de exibição foram responsáveis pela grande divulgação de artistas como Cézanne, que até então não tinha sucesso no Salão, nem havia obtido destaque nas mostras dos Impressionistas. Segundo Chilvers (2009, p. 120-22), Cézanne ficou obscuro até 1895, sendo revelado ao grande público através de exposição de Ambroise Vollard, que tornou-se seu marchand, pelo intermédio de Pissarro. Como o pintor de Aix era mestre apenas para seus companheiros, os críticos que o desconheciam ficam surpresos ao contemplá-lo.
Pissarro, em carta a Esther, preocupa-se com a incompreensão que o trabalho de Cézanne poderia suscitar. Escreveu em 13 de novembro de 1895:
81Este pedido entretanto não foi atendido por Zola, que publicou em substituição uma série de artigos “Naturalismo
Na galeria de Vollard, há uma exposição de Cézanne bastante completa. Naturezas mortas de um acabamento desconcertante, coisas inacabadas, mas verdadeiramente extraordinárias de selvageria e de personalidade. Creio que isso será pouco compreendido. (PISSARRO, 1950, p. 386)
A partir daí, naqueles que seriam os últimos anos da vida de Cézanne, as exibições se multiplicaram. Em 1890, foi convidado a expor em Bruxelas, no Palais des Beaux-Arts, junto com artistas de vanguarda, como Toulouse-Lautrec, Van Gogh e Signac (chamado Grupo dos XX). Apesar de ter recusado inicialmente, por temer a repercussão de suas obras, o pintor reavaliou sua decisão. Em carta a Octave Maus, escreveu de Paris, em 27 de novembro de 1889.
Depois de inteira-me do teor de sua lisonjeira carta, agradeço-lhe em primeiro lugar e aceito com prazer seu amável convite.
Mas ser-me-á permitido repelir a acusação de desdém, com que o senhor me gratifica relativamente à minha recusa em participar das exposições de pintura?
Quanto a isso, tenho a dizer-lhe que, como os estudos a que dediquei só deram resultados negativos, e temendo críticas por demais justificadas, eu havia resolvido trabalhar em silêncio, até o dia em que me sentisse capaz de
defender teoricamente o resultado de minhas experiências.
Ante o prazer de achar-me em tão boa companhia, não hesito em modificar minha resolução e peço-lhe aceitar, Senhor, meus agradecimentos e minhas confraternais saudações. (CÉZANNE, 1992, p.186, grifo nosso)
Nas cartas dos últimos anos, são encontradas várias referências à solicitação de empréstimo de quadros para exibições e comentários correlatos. Em epístola de 30 de junho de 1889, Cézanne (Ibid, p. 185), solicitou um quadro ao conde Doria (La Maison du pendu, de 1873, exibido na Primeira Exposição dos Impressionistas) a fim de participar na Exposição Universal daquele ano.
Já em 1902, são relatadas, na correspondência, críticas referentes à sua não-adesão a uma mostra, que promoveram a consequente revisão da decisão. Em correspondência a Ambroise Vollard, de 17 de março de 1902, Cézanne relatou ao marchand que recebeu carta de Maurice Denis, tomando como “deserção” o fato de ele não participar da Exposição dos Independentes. Solicitou a Vollard que colocasse à disposição algumas obras, para que Denis escolhesse qual seria exposta. (Ibid, p. 233) Cézanne exibiu três telas na referida mostra82.
Outras oportunidades surgiram e foram mencionadas na troca epistolar. Em cartas a Ambroise Vollard, de 10 de maio (rascunho) e 12 de maio (carta), Cézanne comentou sobre o convite para expor com a Sociedade dos Amigos das Artes de Aix (1992, p. 234). Lá, expôs em 1902 e 1906, auto intitulando-se “aluno de Pissarro”, em homenagem ao seu maior professor.
É possível perceber que o cenário hostil aos artistas independentes e à arte moderna se modificou bruscamente na Europa, durante a primeira metade do século XX. As exposições e galerias de arte se proliferaram, dando ao público maior acesso à informação e poder de escolha (“em termos de gosto”), como desejava Cézanne. Os marchands tornaram-se patrocinadores oficiais dos pintores, que, historicamente, só sobreviviam de seu talento se subsidiados pela Igreja ou pelo Estado (ou simultaneamente, em épocas nas quais ambos se aliavam).
Nos aspectos imagéticos, as paisagens e o cotidiano ganharam espaço e destaque, antes considerados temas menores. Os diversos efeitos do tempo e da luz multiplicaram as possibilidades de trabalho sobre um único motivo. Entre o primado do desenho e da cor, não há vencedores. Um “bom” pintor passa a ser avaliado mais em termos de criatividade do que pela aplicabilidade da técnica.
O caminho da liberdade foi traçado pelos jovens artistas e teve Cézanne como um defensor convicto. Sua correspondência revela as querelas entre o passado e o presente, os antigos padrões e as novas técnicas, a tradição e a vanguarda, os tristes ressentimentos e a alegre persistência. O fruto colhido foi a aparição de um novo movimento artístico - que alavancou muitos outros posteriormente – que pregava a leveza do instante, a exaltação da natureza, a pintura ao ar-livre e a livre escolha de temas e motivos.
Em carta a Charles Camoin, de 28 de janeiro de 1902, após relatar as notícias de encontros com os jovens artistas, Cézanne afirmou ao pintor:
Como vê, uma nova era está se preparando para a arte, pode-se pressenti-lo; continue a estudar com perseverança – Deus fará o resto. Termino desejando-lhe muita coragem e bons estudos. O sucesso não deixará de coroar os seus esforços. (1992, p. 228, grifo nosso)
Cézanne certamente é um dos precursores dessa “nova era” da arte, embora a insegurança em relação ao seu talento muitas vezes o tenha feito hesitar. Em carta a Roger Marx, datada de 1905, o pintor comentou os dois artigos publicados por Marx na Gazeta de Belas Artes e agradeceu os elogios. Um ano antes de sua morte, Paul se ressente:
A idade e a saúde não me permitirão realizar o sonho da arte que persegui durante toda a minha vida. Mas serei sempre reconhecido ao público de apreciadores inteligentes que tiveram – através de minhas hesitações – a intuição daquilo que tentei para renovar minha arte. Em minha opinião, não se substitui o passado, apenas se acrescenta a ele um novo elo. Com um temperamento e um ideal artístico, isto é, uma concepção de natureza, seriam precisos meios de expressão suficientes para ser inteligível ao público médio e ocupar uma posição conveniente na história da arte. (CÉZANNE, 1992, p. 254-5)
O “sonho da arte” que se iniciou no século XIX transborda em repercussões até os dias de hoje. Foi mais amplo do que Cézanne pode enxergar. Plantou sementes para diversos movimentos artísticos, como o cubismo, de cujos artistas, como Georges Braque, homenagearam o grande mestre.
Braque foi ao sul da França, para L´Estaque, a fim de contemplar e pintar as paisagens antes retratadas por Cézanne. Essas telas nos dizem, a partir de imagens, a importância do legado de um momento na História da Arte que possibilitou relevantes inovações no século XX. Contam-nos também que o talento e a intensidade do pintor de Aix estabeleceu-se na eternidade, muito além do espaço e tempo que ele mesmo imaginava conquistar.
IMAGEM 17 – Fotografia de Arbres à L´ Estaque, ano de 1908, de Georges Braque (2013).