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O questionamento do talento e a decepção com as obras

3. O CAMINHO TRILHADO PELO ARTISTA: CARTAS SOBRE NATUREZA,

3.1 AS DIFICULDADES NO TRABALHO COM A NATUREZA

3.1.1 O questionamento do talento e a decepção com as obras

A correspondência indica alguns episódios de clara insatisfação com as obras produzidas, que certamente são apenas amostras na vida do pintor. Quando ele estava em Paris, em agosto de 1861, Zola escreveu ao amigo Baille, relatando os rompantes de desânimo ocorridos a partir do descontentamento com o resultado das obras. Previu que o retorno de Cézanne para Aix ocorreria em breve, possivelmente acompanhado da desistência da carreira. Um dia, ao encontrar Cézanne fazendo as malas, Zola levou-o a um café e pediu-lhe para pintar seu retrato, como forma de retê-lo um pouco mais em Paris. Mas ao desenvolver a tarefa, tanto o processo quanto o resultado da obra produziram grande frustração, causando justamente o que o amigo pretendia evitar.

Ao perguntar sobre seu retrato, Cézanne houve a seguinte reação: “Seu retrato’, respondeu, ‘acabo de destruí-lo. Quis retocá-lo esta manhã, mas, como ele ficava cada vez pior, aniquilei-o; e vou embora.” (CÉZANNE, 1992, p. 75). Após mais uma conversa, Zola conseguiu fazê-lo desistir, mas assegurou, na carta a Baille, que isso seria por pouco tempo, visto que “o menor obstáculo o desespera” (Ibid, p. 75) e que sua personalidade não suporta a menor crítica87.

Um outro exemplo data de muitos anos à frente, apontando a continuidade do desagrado. Durante a realização do projeto que visava elaborar o retrato do crítico Gustave Geffroy em seu escritório em Paris, após três meses de trabalho, Cézanne ficou insatisfeito com o andamento. Afirmou que a tentativa havia sido um erro e retornou a Aix, interrompendo as sessões de pintura88.

Em epístola a Geffroy, de 12 de junho de 1895, atestou o erro cometido, desculpando-se pelo fracasso:

Estando prestes a partir, e não podendo levar a bom termo o trabalho que ultrapassa minhas forças e que tive o erro de empreender – venho pedir-lhe que me desculpe e que faça remeter ao representante, cujo endereço lhe fornecerei, os objetos que deixei em sua biblioteca. (Ibid, p. 198)

O pintor escreveu sobre o episódio a Monet, que foi o responsável pela apresentação dos envolvidos. Em carta de 6 de julho de 1895, agradeceu pela compreensão em relação ao trabalho.

87As obras inacabadas exteriorizam o sentimento de incapacidade do artista em relação à tarefa proposta.

Tive que abandonar momentaneamente o estudo que empreendera na casa de Geffroy, que se colocou tão generosamente à minha disposição, e estou um pouco confuso com o magro resultado que obtive, sobretudo depois de tantas sessões, e de entusiasmos, e de desânimos sucessivos. Eis-me, pois, de volta ao Midi, de onde talvez jamais deveria me afastar, para lançar-me na busca quimérica da arte. (CÉZANNE, 2011, p. 37, tradução nossa)

Embora inacabado, o quadro felizmente não foi destruído e faz parte hoje do acervo do Musée d`Orsay. Revela Geffroy em sua mesa de trabalho, cercado de objetos significativos ao escritor, como livros e uma estátua de Rodin.

IMAGEM 18 - Paul Cézanne. Gustave Geffroy (1895-96). Musée d`Orsay, Paris, França.

Fonte:http://en.wikipedia.org/wiki/Portrait_of_Gustave_Geffroy#mediaviewer/File:Paul_C%C3%A9z anne_141.jpg

Os aspectos geométricos e a perspectiva utilizada no quadro geraram encantamento nos (futuros) cubistas Picasso e Braque. O tom inacabado da tela, a simplificação das formas (o escritor aparece representado sob forma triangular), as insinuações da imagem (como livros não escritos, sem dizeres na capa, sem palavras no interior) pareceram geniais aos olhos dos artistas do século XX.

Geffroy aparece retratado de frente, enquanto a mesa é mostrada ao espectador como se este estivesse no alto da cena. A perspectiva utilizada por Cézanne nem mesmo era comum entre os contemporâneos, sendo ainda mais revolucionária se comparada com os pintores dos séculos anteriores. Mas todos esses efeitos pareciam fugir das intenções de Cézanne, que se sentia fracassado ao produzir tantas “imperfeições” numa tela.

A “busca quimérica da arte” representava um caminho árduo, que gerava desilusões naquele que era incessantemente questionador de sua habilidade para a pintura. Escreveu ao amigo Numa Coste, no ano de 1864 (sem data definida): “Quanto a mim, meu caro, tenho cabelo e barba mais longos que o talento. Mas nada de desânimo com a pintura, é possível seguir seu caminho, embora soldado.” (CÉZANNE, 1992, p. 83)

As constantes recusas no Salão soavam para Cézanne como mais uma comprovação sobre sua inabilidade artística. Esse sentimento foi expresso em algumas cartas, e era tema constante do cotidiano, embora nunca tenha sido suficiente para o abandono da carreira, felizmente.

Em 1878 - um dos muitos anos quando uma tela de Paul foi recusada – ele tentou conformar-se com o fato. Entretanto, não participar da pintura oficial era sinal de fracasso na arte. Em 8 de maio de 1878, escreveu a Zola.

Agradeço-lhe pela notícia acerca de minha pequena tela. Compreendo perfeitamente que ela não poderia ser aceita devido ao meu ponto de partida que está muito longe do fim a atingir, isto é, a representação da natureza. (Ibid, p. 129)

As exposições realizadas por marchands também não coroaram o sucesso de Cézanne. Em Marseille, em janeiro de 1867, o público ficou chocado ao contemplar sua obra, que foi considerada escandalosa. Rewald afirmou que as aglomerações se formavam na rua e a multidão estava estupefata com as imagens. Segundo ele, se a exposição houvesse durado mais tempo, o povo poderia ter quebrado os vidros da galeria e furado a tela. (REWALD, 1995, p. 145-6)

Enquanto Cézanne continuava anônimo e sem capacidade de manter-se financeiramente, Zola experimentava o sucesso com seus livros - que já estavam inclusive sendo adaptados e montados no teatro89. Na correspondência ao amigo, de 24 de setembro de 1879, novamente expressou dificuldades.

Eu me empenho sempre em encontrar o meu caminho pictórico. A natureza me oferece as maiores dificuldades. Mas não vou muito mal, depois de uma bronquite, retomada de 77, que me abalou durante um mês. Eu desejo que você esteja longe de qualquer incômodo desse gênero. (CÉZANNE, 2006, p.234, tradução nossa)

Nos anos finais, a correspondência ativa continuou a anunciar aos amigos descontentamento, entretanto sinalizou uma perspectiva um pouco mais positiva. O pintor buscou amenizar a sensação de incapacidade ao aproximar-se mais da natureza, buscando inspiração nas belas paisagens da Provence. Em carta ao marchand Ambroise Vollard, de 9 de janeiro de 1903, Cézanne escreveu

Trabalho obstinadamente, entrevejo a Terra Prometida. Serei como o grande líder dos hebreus ou poderei adentrá-la?

[…]

Tive que abandonar suas flores, com as quais não estava muito satisfeito. Tenho um ateliê no campo90. Ali trabalho e me sinto melhor do que na cidade. Fiz alguns progressos. Por que tão tarde e tão penosamente? Será a Arte, de fato, um sacerdócio que exige homens puros que lhe pertençam por inteiro? (CÉZANNE, 1992, p. 238)

Em meio a tantos questionamentos, Cézanne comparou a arte a um sacerdócio, uma tarefa que não permitiria distrações, exigindo foco e persistência. A partir deste norte, o artista pautava seu cotidiano. Pintava diariamente. Produziu uma quantidade incalculável de obras, muitas das quais destruídas após o descontentamento com o resultado.

Rilke ilustrou o sacerdócio de Cézanne, mostrando seu método de trabalho e a expectativa de revelação da santidade de suas obras, a partir da beleza dos resultados. Em carta à esposa, Clara, de 9 de outubro de 1907, descreveu:

89 Na carta de 24 de novembro de 1879, Cézanne solicitou ao amigo entradas para a adaptação teatral de

L´Assommoir.

90O atelier ao qual Cézanne se refere é o de Lauves, no norte de Aix, construído num terreno comprado pelo pintor,

em 1901. Ele passou seus últimos anos trabalhando nesse espaço, mais próximo da montanha de Sainte-Victoire. O espaço encontra-se preservado e aberto ao público, tendo sido visitado durante a pesquisa realizada na França.

(...) E arruma suas maçãs sobre colchas, das quais Madame Brémond91

certamente sentiu a falta um dia, e coloca suas garrafas de vinho ali no meio, junto com o que mais encontrasse na hora. E (como Van Gogh) faz dessas coisas seus “santos”; e os obriga, os obriga a ser belos, a significar o mundo todo, toda a felicidade, toda a glória, e não sabe se conseguiu que as coisas façam isso para ele. (RILKE, 2006, p. 54)

O apreciador de artes Dr. Gachet, que recebeu Cézanne diversas vezes em sua casa em Auvers, descreveu também a persistência de seu método. Afirmou que o pintor trabalhava lentamente e com bastante esforço. Ia ao motivo duas vezes por dia, de manhã e à tarde, a fim de perceber as nuances de cada período. Às vezes lutava tanto para concluir um quadro, trabalhando de uma estação à outra, às vezes durantes anos no mesmo projeto, que um quadro de primavera podia vivenciar o efeito da neve. (REWALD, 1995, p. 188)

Toda energia empregada não foi completamente em vão. Cézanne possuía alguns admiradores e incentivadores em seus últimos anos. Esse estímulo tornava o pintor um pouco mais confiante e com vontade para persistir. Em carta de 22 de fevereiro de 1906, dirigida a Ker-Xavier Roussel - pintor francês que participou do movimento pós impressionista Les nabis – Cézanne agradeceu a amizade e admiração, sinais de reconhecimento pelos esforços realizados durante a carreira.

Acabo de receber “Le jornal de Delacroix”. Eu o aceito com o maior prazer, pois sua leitura consolidará novamente, eu assim espero, o sentimento que tenho da verdade em algumas das minhas pesquisas sobre a natureza.

Agradeço-o fortemente por sua amável amizade; ela é para mim o precioso testemunho que meus esforços pela realização da arte, que sempre persegui, não são completamente vãos, desde que encontro ao lado dos jovens uma aprovação tão desinteressada quanto lisonjeira. (CÉZANNE, 2011, p. 70, tradução nossa)

De acordo com a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804), o julgamento estético não é um conhecimento, pois ele não formula um saber sobre a essência do objeto, mas refere-se ao impacto de uma representação no sujeito. Um objeto belo gera uma satisfação livre, não importando seu uso ou função. Daí emerge a máxima kantiana: o belo é um objeto de satisfação desinteressada, sem conceito.

A aprovação desinteressada dos jovens artistas à obra de Cézanne aponta para a subjetividade do sentimento estético e ausência da necessidade de vínculo com o mundo prático. O artista é apreciado pela simples satisfação que suas obras geram no observador.

Entre decepções e algumas alegrias, a frágil saúde trouxe limitações ao cotidiano do obstinado pintor, nos anos finais de vida. Lidar com a doença e a velhice, dentro do grandioso projeto de Cézanne, tornou ainda mais árdua sua tarefa. Mesmo assim, não impediu completamente seu objetivo: pintar até os últimos dias.