2 REVISÃO DE LITERATURA
2.3 Química e mineralogia de materiais sedimentares
2.4.3 Conflitos socioambientais da atividade mineradora
Devido à exploração desenfreada dos recursos minerais, ao alto consumo e às elevadas taxas de crescimento populacional nos anos de 1970, surge a preocupação com o meio ambiente. Dentre as atividades geradoras de impactos e danos ambientais, está a mineração, sendo que os principais problemas oriundos dessa atividade, no território brasileiro, podem ser englobados em quatro categorias: poluição da água, poluição do ar, poluição sonora e subsidência do terreno.
Segundo Bitar (1997), a mineração provoca um conjunto de efeitos não desejados, que podem ser denominados de externalidades, tais como: alterações ambientais, conflitos de uso do solo, depreciação de imóveis circunvizinhos, geração de áreas degradadas e transtornos ao tráfego urbano. Dessa forma, essas externalidades geram conflitos com a comunidade, os quais, normalmente, têm origem quando da implantação do empreendimento, pois o empreendedor não se informa sobre as expectativas, anseios e preocupações da comunidade que vive nas proximidades da empresa de mineração.
Sánchez (2008) esclarece também que, do ponto de vista dos empresários, existe uma tendência de ver os impactos causados pela mineração unicamente sob as formas de poluição, que são objeto de regulamentação pelo poder público, o qual estabelece padrões ambientais: poluição do ar e das águas, vibrações e ruídos, gerando, assim, diversos conflitos com a comunidade do entorno da atividade mineral.
As percepções acerca dos problemas ambientais de cada uma das partes envolvidas, normalmente, são diferentes daquela do empresário. As partes envolvidas na mineração, uma vez informadas sobre a atividade, têm condições de
interferir no processo de gerenciamento dos impactos socioambientais, para a busca de soluções que minimizem as situações de conflito.
É notório que os impactos causados pela mineração, associados à competição pelo uso e ocupação do solo, geram conflitos socioambientais em decorrência da falta de metodologias de intervenção, que reconheçam a pluralidade dos interesses envolvidos. Dessa forma, os conflitos gerados pela expansão desordenada e sem controle dos loteamentos nas áreas limítrofes aos locais de extração mineral exigem uma constante evolução na condução dessa atividade para evitar situações de impasse (FARIAS, 2002).
Os impactos da mineração em áreas urbanas estão relacionados, portanto, à acelerada expansão horizontal. Esses impactos são agravados, em razão da proximidade entre as áreas mineradas e as áreas habitadas. A construção de grandes conjuntos habitacionais pelo poder público ou empreendimentos particulares, as ocupações irregulares de vilas ou favelas e demais formas de uso e ocupação do solo tornam aleatórias as perspectivas de garantia de suprimento futuro, inviabilizando a manutenção de uma atividade mineral sustentável.
O empreendedor deve, portanto, tomar ações preventivas para minimizar os conflitos, a exemplo da compra ou do arrendamento de áreas no entorno do empreendimento, para que possa ocorrer a melhoria das relações com os proprietários das terras vizinhas, além do planejamento das operações de lavra e de beneficiamento de acordo com as disposições legais que regulam o uso e ocupação do solo na região (FREIRE, 2000 citado por FARIAS, 2002).
A atividade extrativa mineral tem gerado diversos danos ambientais nas Áreas de Preservação Permanente (APP), devendo, então, haver a proteção dessas áreas por parte dos poderes públicos que atuam no setor mineral, em conjunto com a sociedade civil e com os empresários, de modo que sejam implementadas normas e procedimentos com critérios claros.
A mineração de materiais de uso imediato na construção civil, desenvolvida a céu aberto, a exemplo da extração de areia, massará e seixos, tem provocado problemas ambientais e diversos conflitos com outras formas de uso e ocupação do solo, sendo que tais atividades minerais vêm conduzindo a uma diminuição crescente de jazidas disponíveis para o atendimento da demanda desses materiais pelas principais regiões metropolitanas.
Segundo Fonseca (1995), os impactos da mineração a céu aberto decorrem da destruição completa da área da jazida e das áreas vizinhas, porém, é possível conduzir a operação de lavra no sentido de recuperar a aparência e o equilíbrio natural das áreas lavradas. A referida autora destaca que:
Ao tratar do impacto da mineração a céu aberto sobre a área da jazida e da recuperação da área minerada, devem-se distinguir três casos: áreas e jazidas onde é possível a volta à situação igual, ou muito próxima, à anterior da existência da mina; áreas e jazidas onde a mineração altera irreversivelmente a paisagem e não é possível a volta à situação anterior; áreas e jazidas onde, a critério da sociedade e/ou das autoridades, existem razões que recomendem que a mineração não se implante. [...] A maior parte das minerações brasileiras [...] se enquadram no segundo caso, de áreas que ficam irremediavelmente alteradas pela mineração. [...]. Em geral são corpos minerais situados em topografia elevada, e uma vez minerados não há como reconstituir a topografia [...]. (FONSECA, 1995, p. 178).
Segundo Borges e Martinez (2001, p. 37-38), existem alguns pontos relevantes para a sustentabilidade da atividade mineradora e para a redução dos impactos ambientais, a saber:
• Buscar atuar sempre de forma a prevenir a degradação ambiental; • Minimizar ao máximo os impactos, buscando, sempre que possível, a condição mais próxima da natural de origem dos terrenos trabalhados;
• Restaurar satisfatoriamente os sítios degradados;
• Controlar os processos erosivos e de estabilidade do terreno; • Garantir a segurança e a estabilidade física, química e biológica das áreas mineradas e adjacentes;
• Revegetar de forma contínua as áreas desmatadas e outras adjacentes ao projeto;
• Gerenciar e monitorar de forma contínua todas as áreas de influência do projeto mineiro;
• Reduzir a níveis satisfatórios a emissão de poeiras e gases na atmosfera;
• Minimizar os impactos visuais;
• Garantir a segurança, a saúde e a higiene da comunidade e das áreas públicas;
• Promover e manter a autossustentabilidade dos ecossistemas, bem como sua biodiversidade, protegendo a vida e os espécimes da fauna e da flora;
• Prever o desmonte e a remoção das instalações, equipamentos e materiais;
• Assegurar o uso viável da terra e a qualidade de vida da comunidade local após a atividade de mineração;
• Prever medidas complementares e corretivas após a exaustão da mina;
• Promover medidas compensatórias como forma de amenizar os impactos relevantes.
Farias (2002) ressalta, ainda, que a incorporação da questão social, além da ambiental, é de suma importância ao tratar dos processos de fechamento das minas, dentro da concepção do desenvolvimento sustentável, pois o fechamento de minas acarreta problemas sociais mais graves e de difícil solução. O planejamento efetivo da atividade mineradora deve ser realizado, desde a implantação do projeto, de modo que, quando do seu fechamento, os impactos sociais e ambientais sejam minimizados, especialmente a mineração realizada a céu aberto.
O enfoque dado à mineração de pequeno, médio ou grande porte, relacionada à produção de areia, seixos, massará e de outros agregados para a construção civil, tem estabelecido, portanto, dimensões ambientais, além das socioeconômicas muito relevantes e disseminadas em todo o país, pois contribuem para a melhoria da qualidade de vida da população que dela depende direta ou indiretamente. Porém, a solução dos conflitos decorrentes da atividade mineral passa por estudos que contemplem os benefícios e malefícios gerados pela mineração local, a exemplo do que ocorre em Teresina, no Piauí.