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A CONFORMIDADE DO NÚMERO DO 1 DO ARTIGO 16 º DA LGT COM A C ONSTITUIÇÃO DA

CAPÍTULO VI CONTRATO DE TRABALHO A TERMO NA LEI 7/15, DE 15 DE

1. FUNDAMENTOS DO CONTRATO A TERMO

1.4. A CONFORMIDADE DO NÚMERO DO 1 DO ARTIGO 16 º DA LGT COM A C ONSTITUIÇÃO DA

REPÚBLICA DE ANGOLA

I. No que se refere ao quadro jurídico-constitucional, o ponto de partida é este: será o número 1 do artigo 16.º da LGT, estabelecendo a vontade das partes como critério para a celebração dos contratos de trabalho, compatível com os preceitos constitucionais, designadamente com o artigo 76.º da Constituição da República de Angola? Será inconstitucional? Ora, dizem-se inconstitucionais, nas palavras de MARCELO CAETANO, os vícios das leis que não tenham sido elaborados

de acordo com o processo prescrito na constituição ou contenham normas opostas às constitucionalmente consagradas115 ou ainda, no entendimento de JOSÉ MELO

ALEXANDRINO, a relação directa de desconformidade de um acto do poder político

com uma norma constitucional a que se encontra submetido116.

II. No ordenamento jurídico angolano, tal como na maioria dos ordenamentos jurídicos, vigora o princípio da supremacia da Constituição, especificadamente estabelecido no número 3 do artigo 6.º, que dispõe que “As leis,

os tratados e demais actos do Estado, dos órgãos do poder local e dos entes públicos no geral só são válidos e se forem conforme à Constituição”.

O referido princípio é novamente enunciado no primeiro artigo do Título VII da Constituição relativo às Garantias da Constituição e Controlo da Constituição: “A

validade das leis e demais actos do Estado, da administração pública e do poder local depende da sua conformidade com a Constituição” (n.º 1 do artigo 226.º da CRA). Por

sua vez, o n.º 2 do mesmo artigo 226.º estatui que “São inconstitucionais as leis e os

actos que violem os princípios e normas consagrados na presente constituição”.

Por outro lado, a LGT confirma, no artigo 9.º, a supremacia da Constituição da República, qu se encontra no topo da hierarquia normativa da regulamentação das matérias laborais.

115 MARCELO CAETANO, Direito Constitucional. Direito Comparado. Teoria Geral do Estado e

da Constituição. As Constituições do Brasil, Vol. I, Forense, 1977, p. 401 e ss.

110 Com efeito, há um dever de conformar as leis à Constituição117. Contudo,

tendo em conta os nossos humildes argumentos acima expostos, acolhemos a posição segundo a qual o critério estabelecido pelo legislador ordinário, designadamente, no número 1 do artigo 16.º da LGT, viola o direito à segurança no emprego, previsto no número 2 do artigo 76.º da CRA.

Por conseguinte, o regime de contratação laboral, adoptado pelo legislador, em que o critério da vontade das partes prevalece na celebração do contrato de trabalho, é inconstitucional. Sendo a lei aprovada pela Assembleia Nacional, com todas as formalidades respeitantes à produção cumpridas118, a

inconstitucionalidade que defendemos é material, na medida em que o conteúdo da norma ínsita no número 1 do artigo 16.º da LGT colide com o conteúdo do número 2 do artigo 76.º da CRA119, ou seja, a indeterminação do contrato de

trabalho é a regra de contratação, e não a vontade das partes, de acordo com a segurança no emprego.

III. Quanto ao critério para a celebração do contrato de trabalho, infeliz é a posição do legislador vertida no número do 1 do artigo 16.º. Assim, a opção do legislador é inconcebível, na medida em que a regra de contratação no sistema juslaboral angolano foi sempre por tempo indeterminado.

117 Cf. ROSÁRIO PALMA RAMALHO, Dogmática Geral…, cit., pp. 181-182. Os preceitos

constitucionais devem também ser tomados em conta como critério de interpretação das normas laborais. A Constituição é um referente sistemático de grande importância na fixação prevalente das normas laborais em caso de dúvida.

118 Esta matéria não é reservada ao Presidente da República, logo a Assembleia Nacional

tem competência legislativa, nos termos da al b) do artigo 161 e o número 2 do artigo 165.º e revestiu da forma adequada, nos termos da al) d) do número 2 do artigo 166.º, todos da CRA. Portanto, a Lei foi aprovada por quem tem competência e revestiu a forma adequada, ou seja, a lei é um acto normativo da Assembleia Nacional, logo não se fala de inconstitucionalidade orgânica nem formal.

119

JOSÉ MELO ALEXANDRINO, Lições de Direito Constitucional…,cit., p. 283. […] quanto à modalidade de inconstitucionalidade material, a mesma tanto pode consistir numa violação textual da norma constitucional (por exemplo, a criação de uma pena de duração indeterminada), como na violação de uma norma implícita (por exemplo, uma ofensa ao princípio da protecção da confiança). No mesmo sentido, MARCELO CAETANO, Direito Constitucional. Direito Comparado. Teoria Geral do Estado e da Constituição. As Constituições do Brasil..., cit., p. 402. GILMAR FERREIRA MENDES E PAULO GUSTAVO GONET BRANCO, Curso de Direito Constitucional, 9.ª edição, Saraiva revista e atualizada, 2014, p. 1040 e ss. Mais sobre o assunto, JORGE MIRANDA, Fiscalização da Constitucionalidade, Almedina, 2017, p. 41 e ss.

111 Os tribunais angolanos, designadamente as Salas de Trabalho, o Tribunal Supremo e Constitucional, são chamados a tomar uma posição relativamente à inconstitucionalidade vertida no número 1 do artigo 16.º da Lei Geral do Trabalho, pelo que caberá ao Juiz do Trabalho, em primeira linha, se for celebrado um contrato de trabalho a termo para necessidades transitórias e sem motivação para tal, em violação flagrante da Constituição, declarar a inconstitucionalidade de tais normas e declarar o temo resolutivo inválido, seguindo-se a regra do contrato por tempo indeterminado120.

Aliás, apesar de a Constituição estabelecer que compete ao Tribunal Constitucional apreciar a constitucionalidade de quaisquer normas e demais actos do Estado, nos termos da al a) do número 2 do artigo 180.º da CRA, todos os demais tribunais, inclusive os arbitrais, podem fazer o controlo da constitucionalidade da norma, no âmbito da fiscalização concreta, por ser difusa, salvo se tratar de fiscalização abstracta, que é exclusivo do Tribunal Constitucional, ao abrigo do artigo 30.º da Lei n.º 3/08, de 17 de Junho, Lei do Processo Constitucional121.

IV. Não obstante os parâmetros constitucionais acima referidos, cremos ainda que se deve colher a experiência do caso alemão, em que os tribunais influenciaram o legislador ordinário, como escreve MENEZES CORDEIRO:

“A aposição de termos resolutivos nos contratos de trabalhos foi genericamente admitida ao abrigo da autonomia privada. Mas a jurisprudência desde cedo veio a introduzir restrições, de modo a prevenir abusos. Ainda no tempo da RAG entendeu-se que uma cadeia de contratos a prazo, sucessivamente celebrados, revelaria a intenção de tornear as regras relativas a despedimentos: deveria, pois, ser reconduzida a um contrato sem prazo. Várias leis vieram introduzir restrições sectoriais à limitação no tempo, de contratos de trabalho; assim sucedeu com a lei das reformas, admitindo-se ainda as

120

NORBERTO CAPEÇA, Os Despedimentos à luz da nova Lei Geral do Trabalho…, cit., p. 55. O autor defende ainda a necessidade de uma fiscalização sucessiva da constitucionalidade junto do Tribunal Constitucional.

121 Veja-se ainda, ONOFRE DO SANTOS, Direito Constitucional, ELISA RANGEL NUNES E

JORGE BARCELAR GOUVEIA (coord), in Direito de Angola, Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, 2014, 165-196, pp. 180-181.

112 limitações desse tipo fossem introduzidas por instrumento de regulação colectiva. Finalmente, e perante a lei de protecção dos despedimentos, entendeu-se, sempre por via jurisprudencial, que a aposição de prazos seria ineficaz quando visasse contornar a lei. A jurisprudência só admite a eficácia de termos apostos no contrato quando exista uma justificação material para a limitação”122.

Mais do que à experiência alemã, os tribunais devem fazer recurso à segurança no emprego previsto no número 2 do artigo 76.º da CRA. Tal como já amplamente discutimos, a segurança no emprego abrange, não só os despedimentos sem justa causa, como consagra a indeterminação dos contratos de trabalho.