CAPÍTULO VI CONTRATO DE TRABALHO A TERMO NA LEI 7/15, DE 15 DE
1. FUNDAMENTOS DO CONTRATO A TERMO
1.8. A NECESSIDADE DA FORMA ESCRITA NO CONTRATO A TERMO CERTO
124 Mas, então, qual é a necessidade de forma escrita nos contratos, em geral, e no contrato de trabalho, em particular? Ora, a generalidade da doutrina enumera algumas situações de conveniência de forma (formalismo negocial)141:
a) Os negócios formais defendem as partes contra a sua leviandade ou precipitação, ou seja, entre o momento em que elas resolvem concluir o negócio e o da sua válida e definitiva conclusão, haverá o tempo necessário para refectir sobre o negócio;
b) Obter uma clara e completa expressão da vontade, obrigando as partes a cuidar da sua formulação por escrito;
c) Marcar a separação entre as simples negociações e os termos definitivos do negócio;
d) Facilitar a prova da declaração de vontade, fugindo aos perigos da prova testemunhal, cuja extrema falibilidade é bem conhecida. As testemunhas podem errar (erros de percepção ou erros de memórias) ou mentir (podem ser mal intencionadas ou maleáveis; podem ser manobradas ou querer manobrar por sua conta) ou vir a faltar.
Por outro lado, a forma oral é acentuadamente arriscada e perigosa, quer quanto à efectiva ocorrência do acordo negocial, quer quanto ao seu conteúdo, quer ainda quanto à distinção entre o que é pré-contratual e preparatório do contrato e o que constitui a sua versão final. A negociação do texto permite que as partes clarifiquem uma perante a outra, e até perante si próprias, os prós e contras e os contra do negócio142.
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JOSÉ OLIVEIRA DE ASCENSÃO, Direito Civil-Toeria Geral II, Acções e factos jurídicos, 2.ª edição, Coimbra Editora, 2003, p. 64 e ss. O fundamento das exigências legais de forma é a necessidade de levar as partes a reflectirem antes de praticarem actos consideravelmente graves; o reforço da segurança do negócio, nomeadamente por permitir a intervenção de terceiros; a facilitação da prova de atos. PEDRO PAIS DE VASCONCELOS, Teoria Geral do Direito Civil, 8.ª edição, Almedina, 2017, pp. 623-624. CARLOS ALBERTO DA MOTA PINTO, Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª edição (2.ª reimpressão) por ANTÓNIO PINTO MONTEIRO E PAULO MOTA PINTO, Coimbra Editora, 2012, p. 429. No mesmo sentido, ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Tratado de Direito Civil II, Parte Geral, 4.ª edição (reformulada e actualizada), reimpressão, Almedina, 2017, pp. 174-175. O autor indica mais razões justificativas de forma, nomeadamente a prova, a autenticidade, a comunicação, a informação material, o indício material, a delimitação e finalização, a oficialização e publicidade, o sobreaviso e a protecção, a consciencialização e a segurança, etc.
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PEDRO PAIS DE VASCONCELOS, Teoria Geral do Direito Civil, 8.ª edição, Almedina, 2017, pp. 623-624
125 Entretanto, a liberdade de forma justifica-se, antes de mais, pela necessidade de assegurar a fluidez do tráfico jurídico. Em Angola, por exemplo, predomina muito o comércio informal, pelo que a exigência de forma escrita entravaria de modo intolerável a actividade económica143.
Ora, no contrato de trabalho, justifica-se, tendo em conta o modo de constituição, a liberdade de forma. Aliás, mesmo que as partes não disponham sobre certas cláusulas, direito e deveres, aplicam-se as normas estabelecidas nas legislações de trabalho, por exemplo, o horário de trabalho, descansos complementares e obrigatórios, férias e feriados.
Todavia, a justificação por nós sustentada faz mais sentido em alguma categoria de contratos, como defende MENEZES CORDEIRO:
[…] “O formalismo se impõe, no Direito do trabalho numa de três conjugações: na celebração de contratos de trabalho especiais e feição mais técnica ou elaborada: no afastamento de regras supletivas de índole geral e no estabelecimento de regimes que, embora permitidos pela lei, se mostrem menos favoráveis para os trabalhadores”144.
Assim, no contrato de trabalho a termo, há necessidade de observância de uma forma. Pensamos que a forma que se exige não é a mais solene, nem é burocrática, tal como acontece com a escritura pública. A forma tão-somente exigida, na maioria dos sistemas juslaborais, sobretudo na CPLP, é a forma escrita, contendo alguns elementos necessários para a modalidade de contratação.
A observância de forma escrita no contrato de trabalho a termo incinde sobre a necessidade de fixar o período de vigência, as condições a que fica sujeito, bem como sobre a fundamentação da contratação a termo. Ora, sem uma forma escrita, fica difícil aferir estes elementos, em que o trabalhador, o contraente mais débil, se possa basear no caso da existência de conflito145.
143 DÁRIO MOURA VICENTE, Direito Comparado, Vol. II. Obrigações, Almedina, 2017, p. 134. 144
ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Manual de Direito do Trabalho, Almedina…, cit., p. 587.
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Por exemplo, a sua antiguidade, os benefícios acordados e auferidos pelo trabalhador, porquanto, passados 8 meses ou mais de trabalho o trabalhador pode não se recordar, com exactidão, do período de início de vigência do contrato e, nestas situações, a prova testemunhal pode não oferecer muita segurança ao intérprete ou ao aplicador da lei. Cf. ALDINO PEDRO DA FONSECA, O contrato de trabalho..., cit., p. 133.
126 O legislador, com esta nova lei, não se dignou a exigir a forma escrita para o contrato de trabalho a termo, facto que lamentamos. Porém, parece-nos que terá incorrido numa incoerência, senão vejamos. O número 2 do artigo 16.º da LGT estabelece que :
“O contrato de trabalho por tempo determinado pode ser celebrado:
a) A termo certo, isto é, com a fixação precisa da data da sua conclusão ou do período por que é celebrado;
b) A termo incerto, ficando o seu termo condicionado à desnecessidade da prestação do trabalhado por cessação dos motivos que justificaram a contratação”.
Ora, se o legislador determina que, no contrato a termo certo, é necessário fixar com precisão a data da sua conclusão ou do período da sua conclusão, e, no contrato a termo incerto, os motivos justificantes da contratação, como é possível não ter exigido a forma escrita? Não sendo esta a posição, torna-se o número 2 do artigo acima referido em letra morta.
Por outro lado, como já defendemos a inconstitucionalidade do número do artigo 16.º na parte referente à celebração dos contratos de trabalho a termo, baseado no critério da vontade das partes, mesmo quando a actividade seja transitória ou injustificada, há também a necessidade de o contrato de trabalho ser celebrado por escrito, porquanto nele deve constar, para além da duração, a data da celebração e os motivos justificantes da celebração a termo.
Assim, defendemos que o contrato de trabalho a termo, no sistema juslaboral angolano, tendo em conta a interpretação que fazemos dentro do sistema, e que foi oportunamente argumentada, deve ser celebrado a escrito, contendo os elementos previstos no número 2 do artigo 15.º, designadamente, identificação das partes, categoria ocupacional do trabalhador, local e duração do trabalho, data de início da prestação e razões justificantes da celebração do contrato de trabalho a termo, sob pena de o contrato ser considerado celebrado por tempo indeterminado.
Uma vez defendida a forma escrita, vale a pena clarificarmos que nada obsta a que a referida forma assuma a forma electrónica (substituindo-se o documento
127 em papel por documento electrónico), desde que corresponda, com fidelidade, às declarações das partes no contrato de trabalho e que os elementos nele contidos sejam disponibilizado às partes146.