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Confrontando os dois regimes internacionais

3. CONVENÇÕES AMBIENTAIS MULTILATERAIS E A OMC

3.1. Confrontando os dois regimes internacionais

Existem algumas similitudes entre as CAMs analisadas e o Acordo da OMC: a diversidade de assuntos objeto de regulamentação é uma delas. Como informa Sampson, proteger espécies ameaçadas de extinção envolve políticas bem diferentes das usadas para proteger a camada de ozônio. Da mesma forma, entre tratados comerciais, serviços

financeiros, regras sobre quarentena, medidas antidumping ou subsídios à agricultura são temas extremamente ecléticos que demandam abordagens bastante diferenciadas147. Esta

diversidade já torna cada conjunto de normas, considerado isoladamente, um sistema complexo em si. Portanto, estabelecer uma relação entre os dois regimes não é uma tarefa fácil.

Deve-se ressaltar também, como faz Soares, que "tanto as normas votadas e sancionadas no foro da OMC, quando as multilaterais sobre o meio ambiente participam de um fenômeno comum: a globalidade, que não distingue entre ordenamentos jurídicos internos dos Estados, nem fenômenos definidos em termos de fronteiras físico-políticas"148. A inter- relação entre as ordens nacional e internacional também são um fator de complexidade do estudo do tema.

As dissimilitudes, porém, são em maior número. Enquanto os mais de 70 Conselhos, Comitês, Grupos de Trabalho e outros corpos se encontram regularmente sob o mesmo teto na sede da OMC, em Genebra, para lidarem com questões comerciais, as Convenções Ambientais, têm seus secretariados geograficamente dispersos em Montreal, Naiorobi, Bonn, Genebra e outras localidades.

Além disso, as competências ambientais internacionais estão distribuídas por várias agências especializadas, como a Organização Mundial da Saúde, Organização Mundial Meteorológica, Organização Internacional Marítima e o PNUMA, entre outras. Esta dispersão dificulta ainda mais o processo de negociação dos instrumentos de política ambiental porque cada nova negociação acontece em fóruns diferentes, de maneira diferente149.

Em contrapartida, a institucionalização dos acordos sobre comércio na OMC tem implicações tanto na efetividade das políticas quanto nos custos de sua gestão. Os acordos comerciais são geridos pelos mesmos agentes, que compõem as delegações nacionais e os Secretariados da OMC. Isto proporciona a criação de um alto grau de expertise, com um mínimo de custo (com viagens, v.g.) já que todas as pessoas permanecem, em regra, estabelecidas em Genebra150. Também diminuem os custos com o monitoramento do

cumprimento das obrigações assumidas.

A OMC é uma Organização dirigida pela vontade de seus Membros. Assim, ao Diretor Geral, são ofertados poderes limitados, uma vez que o poder de criar, interpretar e executar as regras comerciais permanece no corpo supremo da OMC, que é a Conferência Ministerial. A

147 Sampson, op. cit., p. 23.

148 Soares, Direito internacional do meio ambiente, p. 162.

responsabilidade pela gestão dos acordos da OMC, além da supervisão contínua de suas atividades é do Conselho Geral. Isto possibilita, evidentemente, o estabelecimento de políticas mais coerentes, refletidas nas inúmeras rodadas de negociação. Em tais rodadas, como os governos agem coletivamente em relação a todos os aspectos dos acordos comerciais, verifica-se um certo equilíbrio de direitos e obrigações entre Membros, notadamente pela constante possibilidade de barganhas e compensações151.

Dois elementos ainda devem ser ressaltados quanto a esta unidade dos Acordos anexados ao Acordo que estabelece a OMC. Primeiramente, eles são influenciados pelos mesmos princípios de não-discriminação, o princípio da nação mais favorecida e o do tratamento nacional. São, ainda, construídos a partir de um consenso teórico e político bem estabelecido, em torno das vantagens da liberalização comercial. Em segundo lugar, o sistema de regras do comércio multilateral está unido, agora, por um único e eficiente mecanismo de solução de controvérsias. De fato, como se viu anteriormente, o OSC é considerado um elemento central para o funcionamento da própria OMC, desempenhando o papel fundamental de conferir segurança e previsibilidade tanto aos Estados envolvidos no comércio internacional quanto a seus agentes econômicos privados. Seus procedimentos quase judiciais não só asseguram o adimplemento das obrigações assumidas, mas, principalmente, autorizam a imposição de retaliações ou a suspensão de benefícios aos Membros perdedores.

Diferentemente da OMC, cada CAM tem seu próprio sistema de solução de controvérsias. A ausência de mecanismos efetivos de imposição das próprias regras vem sendo um dos principais óbices à construção de um sistema ambiental internacional efetivo. Muitas das discussões sobre a relação entre regras internacionais sobre meio ambiente e comércio passam justamente pela questão de que o OSC da OMC deve aplicar o direito internacional do meio ambiente e, mais precisamente, como este direito será aplicado. A OMC, entretanto, já afirmou oficialmente que conflitos entre Membros da OMC e partes de CAMs devem ser resolvidos de acordo com o próprio mecanismo previsto na respectiva convenção ambiental.

As CAMs também não possuem um só conselho lidando com a totalidade dos Tratados, embora o PNUMA exerça, com limitações, alguma tarefa de coordenação, mas apenas de algumas convenções ambientais. Isto pode indicar que, antes mesmo de se pensar em coordenar políticas ambientais e comerciais, é preciso coordenar as políticas ambientais entre si, a exemplo do que já acontece com as políticas comerciais. Esta foi, por exemplo, a 150 Sampson, op. cit., p. 24.

opinião expressada pelo então Diretor Geral da OMC, Renato Ruggiero, segundo a qual ambientalistas deveriam primeiro "colocar sua casa em ordem", por exemplo, com a criação de uma Organização Mundial do Meio Ambiente152. Tal apontamento se traduz,

evidentemente, na construção de um consenso racional sobre os melhores instrumentos de política ambiental.

Claro que o que está em jogo não é só a exigência, por parte de organismos ambientais, de uma jurisprudência mais "preocupada com as questões do meio ambiente" no âmbito da OMC, mas principalmente, a possibilidade de utilização dos mecanismos efetivos do sistema multilateral do comércio para a proteção do meio ambiente. Esta é, v.g., a opinião de Wakeford et. al.:

Restrições ao comércio para atingir objetivos ambientais são adotadas principalmente porque os organismos internacionais atuais que cuidam de assuntos ambientais não têm a capacidade de implementar seus acordos efetivamente. Assuntos ambientais são tratados por um grande número de organizações internacionais. Se existisse uma abordagem mais concentrada e consistente, por meio de poucas organizações - ou até mesmo um só corpo, mas com influência -, existiria menos razão para ligar restrições ao comércio a melhorias ambientais. Uma organização assim poderia negociar mais efetivamente com governos, como acontece com a OMC, barganhando concessões em uma área com benefícios para outra153.

Nesta área, o Consenso de Cingapura expressamente declara que "enquanto os Membros da OMC têm o direito de trazer conflitos para o mecanismo de solução de controvérsias da OMC, se uma disputa surgir entre Membros da OMC, que sejam partes em CAMs, sobre o uso de medidas comerciais que eles estejam aplicando entre si de acordo com uma CAM, eles deveriam considerar tentar resolvê-la através do mecanismo de solução de conflito disponível na CAM"154. A preferência por resolver o conflito segundo o acordo

ambiental, não significaria, segundo a OMC, a desconsideração de fatores ambientais em disputas no OSC, uma vez que os acordos comerciais permitem que painéis, por exemplo, busquem conselhos especializados em assuntos ambientais155.

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