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1 PERCURSO METODOLÓGICO: ATÉ AS CACHOEIRAS DO

1.4 Conhecendo o Lócus da Pesquisa

O contexto investigado foi a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Francisca Campos Corrêa, localizada na zona rural, no bairro do Tarumã-Açu. Para compreendermos melhor este contexto, antes de entrarmos no histórico da escola, vamos conhecer um pouco mais do bairro onde a mesma está situada.

O bairro Tarumã Açu faz parte do bairro Tarumã, o qual possui a maior bacia hidrográfica dentro da área urbana de Manaus, embora atualmente não apresente as melhores condições de uso para banhistas, pelo fato de algumas áreas estarem poluídas e apresentarem mau cheiro, devido ao lixo urbano. Mas, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), ainda é possível, em alguns pontos do rio, acessar as águas para um banho nas cachoeiras.

Figura 3 - Uma das cachoeiras baixas do Rio Tarumã, situada nas proximidades do bairro em que está localizada a EMEF Francisca Campos Corrêa

Fonte: Site de busca Google Imagens 2019. Acesso em: 02 abr. 2019.

O Tarumã-Açu foi separado do bairro do Tarumã e criado oficialmente em 2010. É um bairro do município de Manaus, no estado do Amazonas e está localizado na zona Oeste da capital. E, conforme o censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população era de 12.053 habitantes.

Figura 4 - Mapa do bairro Tarumã Açu com uma extensão de 4.807, 05 hectares

Fazem parte do bairro Tarumã Açu alguns loteamentos como Jardim Tarumãzinho, União da Vitória, Portal do Tarumã, Parque Lusitano e a comunidade Nações Indígenas, da qual os alunos dos professores da pesquisa fazem parte com suas famílias. Esta é uma comunidade mista, formada por famílias indígenas de diversas etnias e também famílias não indígenas, oriundas do interior do estado do Amazonas.

A comunidade Nações Indígenas teve seu início, enquanto ocupação, no dia 19 de abril de 2011, liderados pelo senhor Sebastião Castilho Gama, intitulado Cacique Sabá Cocama. Por se tratar de um terreno acidentado, em princípio, ocuparam uma área na parte de cima, na qual permaneceram por um breve tempo, até que área foi reivindicada, por ser uma propriedade privada e, ao serem retirados do local, ocuparam a parte baixa do terreno, onde permanecem até os dias atuais. Segundo o atual cacique, o senhor Pedro Mura, quando chegaram ao local a área já estava desmatada e já havia sinais de ocupações anteriores.

De acordo com o relato do atual Cacique, do total de (653) seiscentos e cinquenta e três pessoas que compunham o grupo misto entre indígenas e não indígenas, houve (536) quinhentos e trinta e seis que se declararam indígena, sendo que somente (205) duzentos e cinco apresentaram o RANI. Entre os indígenas se apresentaram cerca de (13) treze etnias, prevalecendo o maior de número de Miranha, Mura e Cocama. Outras etnias ficaram entre Apurinã, Baré, Dessana, Guajajara, Kambeba, Munduruku, Sateré, Tikuna, Tukano e Wapixana. A comunidade está dividida em quatro ruas, cujos nomes dados foram: rua Aximaçu, onde moram um grupo de índios Mura e Munduruku; rua Iauareté, onde estão os Miranha e Cocama; na rua Andirá estão os Cocama e Baré; e na rua Tapira, está mais um grupo de Cocama e de Mura também. As demais etnias se organizam de acordo com a “parentela” ou grupos afins, formado um total de (180) domicílios na época.

É nesse contexto que situamos o nosso lócus da pesquisa, isto é, a EMEF Francisca Campos Corrêa localizada na Avenida do Turismo, ramal do Cetur29, s/nº,

Tarumã Açu, em Manaus – Amazonas. Iniciou suas atividades em 1994, como anexo da Escola Municipal Marechal Cândido Rondon, funcionando em um chapéu

29 Estrada de acesso ao bairro Tarumã-Açu. Cetur foi o nome dado a um antigo Centro de Turismo

(CETUR), inaugurado naquela área, que posteriormente deixou de ser uma sigla e passou a ser identificação da estrada de acesso para algumas cachoeiras e balneários, hoje conhecida como Avenida do Cetur.

de palha, com uma turma multisseriada (1º ao 5º ano), para atender as comunidades das marinas e dos antigos ramais que ligam a Orla do Rio Negro à Avenida do Turismo.

Figura 5 - Fachada da Escola da pesquisa, com a identificação EMEF Profa. Francisca Campos Corrêa

Fonte: Pesquisa de Campo/ Registro da pesquisadora / 2017.

Entre 1998 e 2002 com o aumento da demanda foi firmada uma parceria com a Primeira Igreja Batista de Manaus e as aulas passaram a acontecer em uma casa cedida pela igreja, atendendo oito turmas nos turnos matutino e vespertino. Em 2002, por decisão da Secretaria, o acordo foi com a igreja foi desfeito e o anexo foi transferido, temporariamente para a sede do CETUR, onde permaneceu por um ano. Em fevereiro de 2003, o prédio próprio da escola foi inaugurado no Ramal do CETUR. Desde a fundação da escola vários gestores passaram pela administração, sendo a primeira gestora a professora Marlôndia Rodrigues de Miranda e a atual gestora Nádia Maria Pacheco Gusmão, na gestão desde 2017.

Como filosofia a Escola Francisca Campos Corrêa segue o Regimento Geral da SEMED Manaus, o qual possui como valores universais a ética, igualdade, respeito, solidariedade, cooperação, integridade e dignidade humana, responsabilidade e valorização da vida, liberdade, amor e paz. Esta filosofia aparece em destaque no painel de gestão à vista da escola, expressa no tema anual, também previsto no Projeto Político Pedagógico da SEMED Manaus e das escolas

municipais pertencentes a rede, através do objetivo-tema “Promover os Direitos de Aprendizagem para a Construção de uma Cultura de Paz e Solidariedade”.

Figura 6 - Painel de Gestão à Vista – Tema do ano em todas as escolas da rede municipal de ensino de Manaus – “Promover os Direitos de Aprendizagem para Construção de uma Cultura

de Paz e Solidariedade”.

Fonte: Pesquisa de Campo/ Registro da pesquisadora / 2017.

No mural de gestão à vista a escola apresenta como missão “preparar o aluno da área rural como ser autônomo, critico, responsável e participativo em seu meio, consolidando o papel da escola como agente de integração, formação e transformação da comunidade atendida direta ou indiretamente, dentro de seus processos de ensino e aprendizagem” e como visão de futuro “ser reconhecida como referência na formação do homem do campo, bem como seu desempenho, qualidade facilidade de inovação do ensino até 2020”. Participa dos programas: Se Liga, Acelera, Pit Stop – Instituto Airton Sena; PESC – Programa de Ensino Sistematizado das Ciências30; Matemática Viva31; Novo Mais Educação; PNAIC; e

Segundo Tempo – SUP32 – Governo Federal; Agenda Ambiental em parceria com o

CECMA – Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia. Também

30 É um programa composto por materiais didáticos e uma unidade experimental que possibilita a

interação do aluno com a disciplina.

31 Programa é composto por estratégias que visam desenvolver competências e habilidades que

estimulem o educando e potencializem o processo de ensino-aprendizagem.

32 O Programa Segundo Tempo, convênio com o Ministério do Esporte, desenvolve as atividades de Stand Up Paddle, por meio da Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (SEMJEL), em

participa dos projetos: Educação Postural; Aluno Nota Dez33 - SEMED; e Leitura e

Movimento – Projeto Interno. O IDEB da Unidade de Ensino em 2015 era de 4,7 e em 2017 cresceu para 5,2, mas não alcançou a média geral que seria 6,0.

Nesse grupo de projetos, destacamos a iniciativa do Governo Federal, através do Programa Segundo Tempo, no ensino do SUP, uma modalidade de atividade na água que envolve uma prancha e um remo de fibra, como se elementos do mesmo gênero não fizessem parte da realidade indígena, ou seja, a canoa e o remo de madeira. No nosso entendimento, esta seria uma oportunidade de interação cultural, na qual o diálogo entre a atividade indígena de canoa e remo dialogaria com a atividade não indígena de “surfar” em uma prancha apoiado por um remo de fibra. Nossa observação se dá no sentido de tornar rica e significativa uma atividade, que tem origem na cultura indígena, valorizando o Índio suas contribuições para diversas atividades desenvolvidas em nossa sociedade na contemporaneidade.

O funcionamento da escola, no momento da pesquisa ocorria nos turnos matutino e vespertino, com turmas da Educação Infantil (1º e 2º período) e Ensino Fundamental (1º ao 9º ano), sendo a pré-escola e os anos iniciais no turno matutino e os anos finais no turno vespertino, distribuído conforme quadro a seguir:

33 Projeto que envolve critérios de avaliação como compromisso, assiduidade, comportamento,

QUADRO DE LOTAÇÃO POR TURMA E QUANTIDADE DE ALUNOS

MATUTINO

Tabela 6 – Turmas de Educação Infantil

SÉRIE TURMA QUANT. ALUNOS

2º Período A 25

TOTAL DE ALUNOS NA ED. INFANTIL 25 Fonte: Painel da Escola – Pesquisa de Campo/ 2107.

Tabela 7 – Turmas de Ensino Fundamental I – Anos Iniciais SÉRIE TURMA QUANT. ALUNOS

1º Ano A 23 1º Ano B 19 2º Ano A 19 2º Ano B 20 3º Ano A 17 3º Ano B 16 3º Ano (anexo) C 14 5º Ano A 21 5º Ano B 20 ACELERA ÚNICA 16 SE LIGA ÚNICA 14 TOTAL DE ALUNOS 199 Fonte: Painel de Gestão da Escola – Pesquisa de Campo/ 2107

Além da assistência em sala de aula, existem alguns acompanhamentos específicos para os alunos, como por exemplo acompanhamento pedagógico (reforço escolar) para desenvolvimento da leitura e escrita de alunos do 1º e 2º anos, aulas de Educação Física para os alunos de 3º e 5º e aulas de introdução à Língua Inglesa para todos os alunos, tanto da Educação Infantil quanto do Ensino Fundamental I, através do Projeto English for Kids, desenvolvido pela própria escola. Vale ressaltar, que na nossa concepção, este projeto poderia ser mais uma oportunidade de valorização da cultura indígena, no qual se poderia introduzir,

também, a Língua Indígena Nheengatu, já trabalhada na comunidade indígena Nações Indígenas, o que geraria uma melhor interação entre a cultura da escola e a cultura da comunidade, onde não haveria sobreposição de culturas, mas sim uma interação entre elas, uma vez que a realidade da escola é de multiculturalidade, não só pela presença dos indígenas, mas também de venezuelanos entre outras culturas.

VESPERTINO

Tabela 8 – Turmas de Educação Infantil - Tarde

SÉRIE TURMA QUANT. ALUNOS

2º Período B 12

TOTAL DE ALUNOS NA ED. INFANTIL 12 Fonte: Painel de Gestão da Escola – Pesquisa de Campo/ 2107

Tabela 9 – Turmas de Ensino Fundamental I – Anos Iniciais - Tarde SÉRIE TURMA QUANT. ALUNOS

4º Ano A 15

4º Ano B 16

4º Ano C 16

TOTAL DE ALUNOS 47

Fonte: Painel de Gestão da Escola – Pesquisa de Campo/ 2107

Além das turmas de Fundamental I, a escola atende também, durante o turno vespertino, (07) sete turmas de Fundamental II, com alunos do 6º e 7º anos, pois a escola é a única unidade naquela área para atendimento das demandas locais.

Quanto à estrutura física, a escola possui 13 (treze) salas de aula, 01 (uma) secretaria, 01 (uma) sala de professores, 01 (um) laboratório de informática, 01 (uma) biblioteca, 01 (uma) cozinha, 01 (um) banheiro masculino, 01 (um) banheiro feminino, sendo que cada um possui (04) quatro vasos sanitários. Possui também 01

(um) banheiro de professores, com (02) dois vasos sanitários e 01 (um) banheiro para administrativos.

Embora atenda toda essa demanda de alunos, a escola não possui quadra poliesportiva para a realização das atividades físicas, o que ocorre, de forma improvisada, em um terreno ao lado da escola ou na área verde em frente à escola. Os professores da disciplina de Educação Física, realizam as aulas de forma precária, utilizando os espaços disponíveis, nos quais não conseguem demonstrar com maior precisão as técnicas do desporto escolar.

Figura 7 - Professor de Educação Física realizando atividades com alunos do 3º ano em área verde em frente à escola

Fonte: Pesquisa de Campo/ Registro da \pesquisadora/ 2017.

Na figura 7 podemos observar o professor de Educação Física, juntamente com o professor da turma do 3º ano, realizando uma atividade diversificada em uma área de floresta existente em frente à escola. As crianças fazem as práticas em pequenos grupos onde exercitam saltos, pequenas caminhadas e atividades psicomotoras.

Figura 8 - Prédio anexo da EMEFFCC onde funcionam quatro salas de aula de Educação Infantil e Ensino Fundamental Anos Iniciais

Fonte: Pesquisa de Campo/ Registro da pesquisadora / 2017.

Além do prédio principal, a escola atende, em condições pouco favoráveis, em um prédio anexo, 04 (quatro) salas de aula, com turmas de pré-escola e anos iniciais. Ressaltamos que, embora haja um espaço/ terreno ao lado da escola, no qual se poderiam ampliar as dependências do prédio da escola, a prefeitura mantém o prédio anexo alugado, justificando que há necessidade de desapropriação do citado terreno para só então iniciar as obras necessárias para melhoria e adequação do prédio escolar. Destacamos que, por ser em área verde, o anexo, sofre inclusive, com o aparecimento de animais peçonhentos como cobra e escorpiões. Naquele período a merenda escolar dos alunos, lotados no prédio anexo, era preparada no prédio principal da EMEF Francisca Campos Corrêa e levada em panelas e/ou baldes, para ser servida no prédio anexo. Posteriormente foram providenciados, pela direção da escola, um fogão com botija e panelas para confeccionar a merenda no próprio prédio anexo.

Figura 9 - Ônibus Escolar zona Rural – transporte dos alunos na saída da escola em dia regular de atividades escolares

Fonte: Pesquisa de Campo/ Registro da pesquisadora / 2017.

Um fator muito importante na zona rural é o transporte escolar oferecido pela Prefeitura, uma vez que os alunos moram em comunidades nas quais praticamente não têm acesso à transporte público. O transporte escolar, direito assegurado ao aluno da escola pública, garantido pela Constituição Federal de 1988, mediante a obrigação dos estados e dos municípios e, de acordo com o artigo 208, item VII, temos a garantia de que “em todas as etapas da Educação Básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde”.

O serviço de transporte coletivo para escolares é mantido pela prefeitura de Manaus, de acordo com os dispositivos da Lei nº 1892/2014 e atende às escolas da zona Rural e Rodoviária. O ônibus escolar faz rota pelos bairros no entorno da escola e na comunidade Nações Indígenas, deixando as crianças nas proximidades de suas casas. As comunidades ao redor da escola são lugares relativamente distantes e com pouca infraestrutura e sem saneamento básico e por esta razão o transporte oferecido pela Prefeitura é primordial para o deslocamento dos alunos e a frequência deles na escola. A maior importância de se manter o transporte escolar é garantir o acesso e a permanência de crianças que os pais e/ou responsáveis não têm condições de manter os custos de passagem de ônibus, principalmente na zona rural onde os acessos são mais difíceis, as condições financeiras são mais precárias e as oportunidades são muito mais escassas.

Após toda a contextualização e esclarecimentos acerca do percurso metodológico, para além da metodologia utilizada, nos dispomos à uma contextualização da nossa pesquisa, por meio de um estudo correlato, na BDTD da CAPES, visando um levantamento de Teses e Dissertações que se aproximassem da nossa temática, a fim de correlacionarmos as aproximações e contribuições relevantes para o nosso estudo. Levantamento este, explicitado no capítulo a seguir.