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1 SISTEMA, COMIDA E COMUNICAÇÃO

1.2 CONHECER E COMUNICAR: A CONSTRUÇÃO DO DIÁLOGO

O pensador e educador popular brasileiro Paulo Freire (1921-1997) (1971b) ao discutir sobre o ato de conhecer, afirma que o sujeito não pode pensar sozinho nem pensar acerca dos objetos sem a coparticipação de outro ser humano. Logo, é nesta coparticipação no ato de pensar que ocorre a comunicação. Assim, o autor afirma que:

A comunicação implica uma reciprocidade que não pode ser rompida. Portanto, não é possível compreender o pensamento sem referência a sua dupla função: cognitiva e comunicativa. O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo (...) (Ibidem, p. 66-67).

Ao estudar as contribuições de Freire para o campo da Comunicação e da Cultura, o

estudioso brasileiro da mídia e da política Venício Lima (2011) aponta que a

comunicação é uma categoria central tanto na sua teoria educacional como nas implicações políticas de sua obra. Trata-se de uma relação social, política e dialógica.

Segundo o educador: “não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos

interlocutores que buscam a significação dos significados”, pois argumenta que “o mundo dos seres humanos é um mundo de comunicação” (FREIRE, 1971a, p. 66-69). Lima (2011) salienta que Freire vincula comunicação e humanidade ao sustentar que “os homens não podem ser verdadeiramente humanos sem a comunicação, pois são criaturas essencialmente comunicativas”; e “somente através da comunicação é que a vida humana pode adquirir significado” (Freire 1971b p. 65-66). Lima esclarece, então, que a base filosófica de sua epistemologia e suas implicações políticas, bem como a dimensão total de seu conceito de comunicação, estão alicerçadas na ideia de que o ser humano é um sujeito criativo e essencialmente comunicativo.

O educador popular encara a comunicação como uma “tradução” do princípio dialógico. Assim, o verdadeiro conhecimento resulta de relações de transformações entre os

práxis da epistemologia dialética de Freire” (LIMA, 2011, p.40). Essa práxis compreende uma dimensão política específica, fundada na igualdade básica e num compromisso radical com a justiça social. Portanto, Freire entende que não pode haver conhecimento sem comunicação entre sujeitos igualmente livres. Eles podem, eventualmente, compartilhar os mesmos símbolos, mas a comunicação não é possível até que cada participante do diálogo se reconheça como sujeito; e reconheça o outro como tal. Ou seja, seres capazes de participarem das decisões que afetam a si e ao outro numa relação de equidade.

Se comunicar significa a coparticipação no ato de pensar, o objeto do conhecimento não pode se constituir no termo exclusivo do pensamento, mas é seu mediador. Lima (Op.cit.) explica que, quando esse reconhecimento não ocorre, inexiste diálogo e comunicação. Se a reciprocidade é rompida, pode ocorrer transmissão, conquista, invasão, manipulação, dominação. Ao analisarmos as ideias de Morin sobre conhecimento e comunicação, encontramos também a ideia de que a relação com o outro conduz ao desenvolvimento do conhecimento. Se expressa na dialética

açãoconhecimento e torna-se açãoconhecimentocomunicação. Esse movimento

exterior acontece em paralelo com o interior ao gerar sensibilidade/afetividade.

A dialética açãoconhecimentocomunicaçãosensibilidade/afetividade comporta,

ao mesmo tempo, subjetividade e objetividade, cria condições para o desenvolvimento

da dialética multidimensional cérebromãotécnicacultura (MORIN, O Método 3,

199). A afetividade permite a comunicação (relações interpessoais), a simpatia e a projeção/identificação com o outro, permitindo a compreensão (MORIN, O Método 3, 1999). Tudo o que é humano comporta afetividade, inclusive a racionalidade. A compreensão/explicação deve estar dialogicamente ligadas. Com efeito, não há compreensão sem explicação. “Tudo que decorre da compreensão também pode legitimamente decorrer da explicação, sob a condição de que esta não asfixie a compreensão”. Essa relação só pode ser complexa, ou seja, complementar, concorrente e antagônica. Deve remeter-se uma a outra num círculo construtivo de

A vida humana necessita da verificação empírica, da correção lógica e do exercício racional da argumentação, mas também se nutre de sensibilidade e imaginário (MORIN, O Método 4, 2011, p. 122). A emergência da afetividade é o amor, mas pode tornar-se ambição, em busca de poder e dinheiro. Comporta ainda a angústia e o horror, como a da morte e a da existência.

De acordo com Morin (O Método 1, 2003), a ideia de comunicação deve ser examinada e interrogada em todas as suas dimensões organizacionais e existenciais, pois é a dimensão nova que a vida traz. Trata-se de uma ideia capital tanto para o organismo quanto para o ecossistema. A comunicação está no coração dos problemas antropossociais, afirma o autor. Neste nível, a comunicação toma sua amplitude e sua intensidade existencial, individual, social, política e ética (p. 311-312).

Em sua argumentação, sustenta que no coração da problemática da comunicação se inscreve a sombra da incomunicabilidade. É no plano da organização social que se põe o problema fundamental a seu ver: “pode-se imaginar, conceber, esperar uma organização em que a comunicação comanda, ou seja, uma comunidade da comunicação?” Ele anuncia que a esperança será tola se ignoramos que, por trás da comunicação social há o comando por aparelhos, a ligação confusa e desconhecida entre comunicação e dominação. Esse exame e interrogação devem considerar a

informação, termo que está, necessariamente, implicado à comunicação (ibidem,

p.312).

As ideias de Freire e Morin acerca do desenvolvimento do conhecimento e da comunicação, a partir da relação com o outro, nos fornecem uma base teórico-metodológica para aproximar o ato de cozinhar e de comunicar como ações que orientam a articulação das dimensões organizadoras, existenciais e vinculativas (afetivas). Essas ideias contrapõem-se ao modelo hegemônico de conhecimento científico-tecnológico, comunicação e de aprendizagem. Isto porque restringe o acesso à informação, o direito à voz e o diálogo de interlocutores que controem os saberes coletivamente e em reciprocidade. Por isso, identificamos a necessidade de

problematizar o circuito conhecimento-comunicação-aprendizagem no sistema alimentar moderno.

O socioantropólogo defende que a ciência complexa desemboca em ação ao enriquecer e mudar o sentido da palavra conhecer (O Método 1, 2003). Portanto, a complexidade nos chama a enriquecer e a mudar o sentido da palavra ação, que nesta pesquisa designamos o cozinhar e comunicar. Morin propõe uma ciência que traga possibilidades de autoconhecimento; se abra para a solidariedade cósmica; não desintegra o aspecto dos seres existentes; reconhece o mistério das coisas, o erro, a incerteza e a ilusão. Nesta ciência, o princípio da ação não ordena, mas organiza, não

manipula, mas comunica, não dirige, mas anima (ibidem, p. 468).

Estamos tratando de sistemas de alimentação e comunicação, dentro do sistema-mundo, mas o que é sistema? Nessa busca dos sentidos do conhecer e do comunicar, esse questionamento nos ocorreu. Por isso, apresentamos uma discussão sobre esse conceito no tópico a seguir.