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3 COZINHAR E COMUNICAR: PALAVRAS BOAS DE SE COMER

3.3 COZINHAR E COMUNICAR: PRÁXIS E POIESIS

3.3.2 Todo o trabalho do ser humano é para a sua boca

Agroecologia, entre os anos de 2014 e 2017, que reuniu uma diversidade de mulheres de todos os estados da região nordestina.

O objetivo é mostrar a realidade e discutir os desafios e opressões comuns vivenciados pelas mulheres, sejam elas camponesas, das cidades, quilombolas, indígenas, estudantes, quebradeiras de coco, pescadoras, professoras. Em sua justificativa, a rede reitera que os trabalhos domésticos e os cuidados colocam a vida no centro, contribuindo para a existência humana na terra. A denúncia sobre a divisão sexual do trabalho tornou-se a proposta de anúncio:

o trabalho doméstico e de cuidados é algo que necessita ser tratado enquanto responsabilidades de homens e mulheres, apontando a necessidade de discutir com toda a sociedade sua origem, consequências na vida das mulheres, como também propondo uma mudança social: o compartilhamento das tarefas entre as pessoas que moram na mesma casa54.

A partir da ideia de ação cultural para a liberdade, Freire demonstra a necessidade da tarefa de denunciar a realidade desumanizadora e a possibilidade de transcendência. Nesse sentido, trazemos para esse debate o papel da cozinha no contexto da SSAN, abordando-a como uma ação que orienta a articulação da organização, da existência e dos vínculos (afetos) entre indivíduo-espécie-sociedade. Caso contrário, o sistema capitalista aprofunda essa divisão e valorização do trabalho, entendido pelo seu significado econômico, não como poiesis e essência da práxis humana.

3.3.2 Todo o trabalho do ser humano é para a sua boca

54 Disponível em: <https://www.casadamulherdonordeste.org.br/noticias-detalhe.php?idNoticia=4628>. Acesso em: 15 dez. 2017.

Ao tratar, em seu estudo sobre a noção econômica de interesse e necessidade, baseado em Kosik (1976), o pesquisador brasileiro na área de economia política da comunicaçãoe da cultura Marco Schneider (2016) destaca que interesses, necessidades e utilidades podem ser os mais diversos. Em muitos aspectos, são mediados, biológica e culturalmente, de modo inconsciente; às vezes, de modo consciente e racional. O autor atenta que não se perca de vista que cultura, natureza e razão não são entidades abstratas, mas conceitos que pretendem expressar aspectos concretos da práxis humana, cuja história não se desenrola somente no campo simbólico, mas também ao mundo exterior às representações (ibidem, p. 130).

Dentro dessa perspectiva, o autor afirma que as relações alimentares entre os homens e as espécies animais e vegetais, mediadas pelo trabalho, estão na origem da dupla acepção do termo gosto (sabor/saber), pois a preservação da espécie começa pelo trabalho necessário à obtenção de alimentos. É o imperativo sobre o qual se erguem todas as culturas.

Schneider (2015) questiona se o sentido dilatado do termo gosto não teria vindo da relação entre os saberes necessários à alimentação (selecionar, coletar, sugar, engolir, morder, mastigar, fabricar instrumentos, caçar, pescar, depenar, esfolar, cortar, espremer, temperar, misturar, cozinhar, assar, conservar etc.) e o

sabor dos alimentos, tendo desdobrando-se em preceitos alimentares e, em seguida, nos demais códigos e articulações simbólicas que organizam as sociedades humanas e buscam dar sentido às suas práticas.

“Seriam as práticas e preceitos alimentares a fonte de todo o juízo de valor?”, pergunta, e conclui que o trabalho de todo o corpo (dos nervos, dos músculos e do cérebro) seria, portanto, o meio para que se atinja a satisfação do gosto, a princípio como satisfação das necessidades indispensáveis à sobrevivência, em seguida como satisfação dos desejos (ibidem, p. 59,60). Kosik (1976) explica

que o agir humano objetivo, que transforma a natureza e nela inscreve seus significados, é um processo único cumprido por necessidade, ao mesmo tempo que realiza os pressupostos da liberdade e da livre criação.

A divisão desse processo único em duas esferas, aparentemente independentes uma da outra, é um produto historicamente transitório, enquanto a consciência é prisioneira dessa divisão opõe trabalho e liberdade, atividade objetiva à imaginação, técnica e poesia, como dois modos independentes de satisfazer as aspirações humanas (ibidem, p. 188-189). Assim, o filósofo conclui que as formas históricas da produção em que necessidade e liberdade se realiza como separação entre trabalho e prazer (alegria, regozijo, felicidade) ou como unidade das contradições que tomam corpo no antagonismo dos grupos sociais (idem).

No pensamento complexo, também se preserva a interdependência dos conceitos. Por isso, Morin trabalha com macroconceitos em que um termo se remete a outro sem subordiná-lo. É assim com as tríades indivíduo-espécie-sociedade; ciência-política-ideologia, organização-sistema-inter-relação. Desse modo, combate-se o pensamento reducionista, disjuntivo e simplificador, o qual opera a cisão entre saber-sabor.

Para Schneider (2015), as noções de prazer, conhecimento e juízo (ético ou estético) são mais íntimas do que supúnhamos e a economia, incluindo a da informação, é um fator importante na formação do gosto. A que estímulos, dados, referências, repertórios temos acesso, da alimentação à música, da música à política? O autor pergunta e prossegue: “Por que a esses e não a outros, e nessa forma particular e não em outra? Dessa forma, propõe um conjunto mais geral de questões:

Por que se tornou “natural” conceber saber e sabor como níveis distintos e até antagônicos da experiência vital? Por que se deu essa cisão? Por que os prazeres foram afastados idealmente dos juízos? (ibidem, p. 39).

Esta articulação entre saber e sabor é uma aposta para repensar os conceitos contidos nestes termos, indicando as duplas articulações-chave historicamente ocultadas e desassociadas do sistema conhecimento científico e tecnológico: natureza-cultura, sujeito-objeto, real-simbólico. Essas ligações inseparáveis foram esgarçadas ao ponto de parecerem distintas, fato pelo qual nos leva a questionar a prevalência de um modo de produzir conhecimento de forma reducionista, simplificadora e disjuntiva.

O que temos visto é um entrelaçamento envolvendo saber e sabor num circuito

práxico entre conhecimento-comunicação-aprendizagem, tendo a cozinha e a comunicação como ações articuladoras da organização, da vinculação e da existência do ser-máquina, inserido numa megamáquina social que comporta emancipações e dominações.

Para Morin, a questão crucial é o princípio organizador do conhecimento. O vital não é aprender, mas reaprender a aprender; não é apenas reaprender, mas reorganizar nosso sistema mental para reaprender a aprender. “Será preciso nos servirmos de nosso pensamento para repensar nossa estrutura do pensamento” (O Método 1, 2003, p. 35). A comida como sistema de comunicação complexo e práxico entrelaça as esferas física, biológica e antropossocial. Essa perspectiva pode nos ajudar a enxergar a complexidade do sistema alimentar moderno-colonial a partir duas ações inseparáveis: ato de cozinhar (de acordo com a cultura) e de comunicar (os saberes alimentares/informação e ter o direito à voz/à palavra).

Partindo da ideia de sistema-mundo moderno-colonial de Porto-Gonçalves (2006), consideramos adequado pensar no sistema alimentar global nos servindo dessa descrição por se adequar às contradições que estamos apontando. Assim, esses sistemas apresentam-se como o que há de mais moderno e atualizam o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder, instaurando uma colonialidade do poder sobre o saber.