2 GÊNERO E LINGUÍSTICA TEXTUAL: OS AVANÇOS NO ENSINO DE
2.6 A LEITURA E O PROCESSAMENTO TEXTUAL
2.6.1 Conhecimento linguístico
Todos sabem que o ensino da gramática normativa perdurou por décadas no ensino de Língua Portuguesa, sendo por muitos considerados sinônimos, ou seja, ensinar português era ensinar as normas gramaticais, saber ler era decodificar os elementos que representavam a mensagem.
Nos últimos anos, com os avanços dos estudos linguísticos, essa concepção vem tomando novos rumos, Koch e Travaglia (2011, p.55) apresentam, em suas pesquisas sobre o texto e a coerência que a maioria dos estudiosos da língua admitem que os conhecimentos linguísticos são importantes para a composição e compreensão do texto, contudo, não apenas como descrição e estabelecimento de regras para o uso da linguagem verbal, e sim como elemento que articulado com outros conhecimentos (de mundo e de fatores pragmáticos) promovem as amarras necessárias para que o leitor construa sentido durante uma atividade de leitura ou produção textual.
No decorrer de sua discussão, Koch e Travaglia (2011) expõem algumas considerações de linguistas sobre a relevância dos elementos linguísticos para a coerência textual, que discutiremos adiante:
• A primeira ressalta que “é ilusão pensar que entendemos o significado de uma mensagem com base apenas nas palavras e na sintaxe” (BROWN e YULE 1983, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.55). Nesta afirmação, refletimos sobre o equívoco que o ensino de LP vivenciou ao estabelecer que bastava reconhecer e identificar o léxico, a sentença e sua estrutura morfossintática, que o aluno/leitor saberia interpretar um texto. Os estudiosos ainda destacam que “a compreensão depende de nosso conhecimento de mundo e de fatores pragmáticos” (BROWN e YULE 1983, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.55), pois é na relação entre estes e o linguístico que são inferidos no texto verbal e/ou não-verbal o desenvolvimento das competências necessárias para a compreensão textual pelos leitores.
• Outro aspecto nos remete que “há relações (um certo paralelismo) entre o nível gramatical e o conceitual do texto, mas que a cadeia gramatical só se estende por pequenas partes do texto, enquanto a cadeia conceitual abrange o texto todo” (BEAUGRANDE e DRESSLER, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.56). Assim, diante de tal relação, podemos perceber que os conhecimentos gramaticais e conceituais andam lado a lado, e são despertados na leitura, contudo o primeiro é mais restrito aos elementos explícitos no texto e o segundo são previstos em todo o texto;
• Já Prince e Yule (1981, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.57) comentam que para a construção de sentido dependem da “relação das formas linguísticas com a estrutura informacional”, pois são o material linguístico (léxico, elementos sintáticos, semânticos, sinais gráficos) que constituem a estrutura do texto e a compreender tal relação implica na produção de sentido;
• Para os estudos “pragmáticos das expressões”, Fillmore (1981, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.57) relata que as situações de uso das sentenças são importantes para esclarecer sobre o seu caráter plurissignificativo, permitindo “perceber/ estabelecer coerência”, a partir de seu estudo pragmático;
• Fillmore (1981, apud KOCH e TRAVAGLIA, 2011, p.57) afirma ainda que há “relação das formas linguísticas com o tipo de texto”, pois de acordo com a tipologia textual (narrativo, argumentativo, descritivo, injuntivo e expositivo) são selecionados,
pelo autor, os léxicos e estruturas sintáticas adequadas a sua intencionalidade no texto, sua função comunicativa.
A partir destas considerações, Koch e Travaglia (2011) nos expõem que os conhecimentos linguísticos não atuam isoladamente no processo de elaboração de sentido de um texto, no momento da leitura, eles se relacionam com os conhecimentos prévios do leitor, o contexto sociocomunicativo das sentenças, a tipologia textual, a intencionalidade do autor, entre outros aspectos, possibilitando que os sujeitos da interação obtenham êxito na atividade leitora.
Também Koch e Elias (2014, p.40, grifo nosso) resumem a importância dos saberes linguísticos para o processamento textual, pois, a partir deles, podemos compreender “a
organização do material linguístico na superfície textual; o uso dos meios coesivos para efetuar
a remissão ou sequenciação textual; a seleção lexical adequada ao tema ou aos modelos cognitivos ativados”.
Neste trecho, destacamos três palavras que consideramos chaves para compreender a funcionalidade destes saberes – organização, uso e seleção – pois, para o sucesso da construção de sentido e alcance do objetivo almejado, tanto pelo autor (no processo de produção do texto), quanto pelo leitor (no processo de leitura), Koch e Elias (2010) afirmam que os sujeitos da interação devem dominar as convenções da escrita (conhecimento da ortografia, da gramática e do léxico) de sua língua.
Este domínio provem, ainda segundo as estudiosas, do contexto socio-cultural que envolve os sujeitos e do saber sistematizado ensinado nas escolas. E, que, numa perspectiva interacionista da linguagem, além desta atenção especial a escrita proporcionarem ao leitor a devida ativação desse conhecimento linguístico no processamento textual, torna-se um recurso que “contribui para a construção da imagem positiva de quem escreve, porque, dentre outros motivos, demonstra: i) atitude colaborativa do escritor no sentido de evitar problemas no plano da comunicação; ii) atenção e consideração dispensadas ao leitor.” (KOCH e ELIAS, 2010, p.37).
A seguir vejamos um exemplo de ativação de conhecimento linguístico necessária para a compreensão dos enunciados e linguagem visual presentes na figura 3, que apresenta a tira de Ernest Mão única:
Figura 3 – Tira de Ernest: Mão única
Fonte: Koch e Elias (2014, p.40)
Na tirinha de Ernest Mão única, da série Frank e Ernest produzida por Bob Thaves, presente na figura 3, podemos perceber que apresenta, além das imagens, uma sequência linguística. Koch e Elias (2014) destacam que esta sequência leva o leitor a considerar duas ideias: a primeira está relacionada à informação inicial “Mão única” e a segunda a “não
necessariamente a certa”, elas encontram-se ligadas pela conjunção adversativa/opositiva
“mas”. E este elemento linguístico é o motivo da quebra na linearidade de sentido pretendido com a ideia 1, pois há hipótese inicial é de que se aquele caminho é o único só pode ser, também, o certo a seguir, contudo, a presença do “mas” expressa uma incerteza quanto a esta afirmação, uma oposição de informações expressa na ideia 2.
Ademais, neste exemplo, constatamos também que não é apenas a linguagem verbal que contribui para a compreensão do texto durante a leitura, tornando-se necessário inferir informações gerais a partir dos elementos não-verbais que o constituem.