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7 A EPISTOLOGRAFIA, SEU LUGAR NA ANTIGUIDADE E SUA

7.3 CONJECTURAS SOBRE A TROCA DE CORRESPONDÊNCIA ENTRE

O interesse de aproximação dos discursos de Paulo e Sêneca se efetua desde os primórdios do Cristianismo. Nota-se que a lenda que se criou de uma possível correspondência entre estes dois autores tem provocado o interesse de pesquisadores em desvendar esse cenário especulativo. Um dos pesquisadores nesta área é Ferreira (2012),157 que deu o seguinte título ao seu trabalho: Sêneca e

Paulo de Tarso: conjecturas em torno de uma correspondência incerta. Ferreira

(2012, p.149) observa que em fontes encontradas nos primeiros textos da literatura cristã, há referências de Tertuliano158 quanto às ideias de Sêneca filosófico, mas nenhuma menção quanto à aproximação entre Sêneca e o apóstolo Paulo.

A pesquisa realizada se mostra bastante minuciosa, apontando as dificuldades de se conceber as possibilidades de uma existência real de tais epístolas trocadas entre Sêneca e Paulo. O material referente às fontes toma como base a publicação de catorze epístolas – oito de Sêneca e seis de Paulo. Segundo Ferreira, os manuscritos desta correspondência estão situados entre os séculos XII e XIII d.C.. No trabalho deste pesquisador é realizado um levantamento de dados, como resultado de uma busca histórica, que situa as fontes indicadas como suporte para autenticar ou negar a existência da suposta correspondência. Nessa pesquisa de

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Capítulo integrante do livro, produzido pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da

Universidade de Coimbra, intitulado: Paulo de Tarso: grego e romano, judeu e cristão.

158 Segundo Ferreira (2012, p. 149), “dos Padres da Igreja, o primeiro a mostrar um bom conhecimento de Séneca foi Quinto Tertuliano, que viveu entre 160 e 240 d.C., e, por volta de 195, se converteu ao Cristianismo. Entre os oito passos onde explicitamente se menciona o nome ou apenas se pressente o texto de Séneca, conta-se Anim. 20.1,”Seneca saepe noster.” Ferreira (2012, p. 151) ainda menciona que “apesar de se não referirem a qualquer correspondência entre Paulo e Séneca, já os Actos Apócrifos dos Apóstolos, que devem ter sido compostos entre os séc. II e IV d.C., relatavam a gesta de Paulo na corte de Nero. E seria precisamente aqui que, para Bocciolini Palagi, estaria a origem da lenda do contacto entre Paulo de Tarso e Séneca que teria servido de intermediário entre o apóstolo e Nero.”

Ferreira é confirmada a referência à já conhecida circulação das epístolas trocadas entre Sêneca e Paulo na obra de Jerônimo, intitulada: De uiris illustribus XII.159 Ferreira (2012, p. 151) assim registra sua tradução, com base no texto de Barlow, em inglês.160

Lúcio Aneu Séneca de Córduba, discípulo do estóico Sócion e tio paterno do poeta Lucano, levou vida assaz regrada. Não o incluiria no catálogo dos santos se a tal me não tivessem induzido as cartas que são lidas por muitos, de Paulo a Séneca ou de Séneca a Paulo, e onde, embora mestre de Nero e o homem mais poderoso do tempo, diz que desejava ser tido junto dos seus na mesma conta em que era tido Paulo junto dos Cristãos (De uiris illustribus XII).

Em torno dessa colocação de Jerônimo circulam diferentes interpretações, como demonstrado por Ferreira, fato que enfraquece a possível veracidade a respeito da existência das epístolas citadas como sendo de Sêneca e Paulo, no século I d.C.. No século IX de nossa era houve uma retomada bem marcada do tema controverso sobre essa suposta troca de correspondência, pois os manuscritos conservados são desse período. Ligthfoot (1892, p. 318) faz uma análise dos manuscritos referentes ao conteúdo das catorze epístolas (oito de Sêneca e seis de Paulo) e expõe alguns comentários a respeito do assunto. Para ele, as hipotéticas epístolas trocadas não contêm questões doutrinárias e nem mesmo alguma informação histórica relevante. A mais provável inferência que se obtém do resumido comentário de Jerônimo é de que não se aceita deliberadamente o fato como genuíno. Ao olhar o comentário de Jerônimo com mais atenção percebe-se um texto vago e a ausência de informação segura, como pode ser observado: “Não o incluiria no catálogo dos santos se a tal me não tivessem induzido as cartas que são lidas por muitos, de Paulo a Sêneca ou de Sêneca a Paulo” [...] (De uiris illustribus XII). Na mesma linha de conduta, Agostinho161 não acrescenta nenhum dado novo, repetindo casualmente as informações de Jerônimo. Assim, Ligthfoot (1892, p. 320) conclui: “There is no reason to suppose that Jerome did believe the correspondence to be genuine, as I

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392 d.C. é registrado como o ano da publicação de De uiris illustribus. Segundo Ferreira, os manuscritos da correspondência entre Paulo e Sêneca estão situados nos séculos XII e XIII d.C. 160

Ferreira, (2012, p. 151) cita o autor de onde retirou o texto base para sua tradução: BARLOW, C. W. Epistolae Senecae ad Paulum et Pauli ad Senecam <quae uocantur>. Roma: American Academy in Rome, 1938.

161 Ferreira (2012, p.153) também expõe que, “algum tempo depois, mais propriamente em 413, é Santo Agostinho quem, em Epistula ad Mecedonium, se refere à correspondência nestes termos:

Merito ait Seneca (qui temporibus Apostolorum fuit, cuius etiam quaedam ad Paulum apostolum leguntur epistolae): “Justamente Séneca (que viveu no tempo dos Apóstolos e do qual ainda se lêem

have shown.”162

Ferreira se posiciona em relação às impossibilidades de autenticidade dessas epístolas serem oriundas da escrita de Sêneca e de Paulo, pelo fato da apresentação da escrita de ambas em latim, no mesmo patamar de igualdade do uso clássico da língua latina. Pela identificação da escrita das missivas, o latim usado por Sêneca é equivalente ao usado por Paulo.163 A partir de então, se estabelecem as dúvidas, visto que as epístolas de Paulo e os demais livros do Novo Testamento foram escritos em grego e não há prova histórica do uso do latim em registros das produções de epístolas de Paulo. Nesse ponto, Ferreira (2012, p. 174) expressa sua concordância com alguns pesquisadores e expõe: “Parecem ter razão quantos defendem tratar de uma correspondência forjada por quem queria mostrar que o cristianismo não tinha conquistado adeptos apenas nos estratos sociais mais baixos.”

As discussões a respeito da suposta troca de correspondência perpassam por outras questões relacionadas à postura de Sêneca mediante os conceitos fundadores do cristianismo. Haveria uma afinidade ideológica/moral entre os dois autores das epístolas e não exatamente uma identificação religiosa? Decerto, esta discussão não é recente e indica que aceitar a autenticidade do conteúdo da hipotética correspondência entre Sêneca e Paulo implica aceitar também que Sêneca se converteu ao cristianismo e este é o nó da questão. Marcos Vinícius Fernandes Miranda concluiu seu mestrado na Universidade Estadual de Maringá (2008) com a dissertação intitulada: Do vício à virtude: uma proposta educativa em

Sêneca. Em parceria com José Joaquim Pereira Melo, Doutor em História e

professor do departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá, realizaram a tradução para o português das chamadas epístolas

162 Lightfoot (1892, p.320). “Não há razão para supor ser genuína a correspondência (entre Sêneca e Paulo) como eu tenho demonstrado”.

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Na penúltima epístola da suposta troca de correspondência entre Sêneca e Paulo, o próprio Sêneca faz algumas advertências quanto ao uso do latim nas epístolas de Paulo.

SÊNECA PARA PAULO, Ep. 13. Saudações. Em muitas partes do seu trabalho estão incluídas parábolas e enigmas; portanto, a grande força e talento que foram dados a você deveriam ser embelezados, eu não digo com palavras elegantes, mas com certo cuidado. Você não deveria temer quando lhe lembro do que você freqüentemente tem dito: que muitos que se preocupam com tais coisas corrompem o pensamento e tornam degenerada a profundidade do assunto. Eu queria que você me fizesse uma concessão e adaptasse o genial Latim, dando beleza às suas nobres palavras, e que a grande dádiva que tem sido concedida a você possa ser tratada com o devido valor. Adeus! Dada no dia antes de nones de junho; Leo e Sabinus cônsules. Trad. de, Marcos V. F. Miranda e José Joaquim P. Melo.

apócrifas de Sêneca e Paulo e informam que as fontes utilizadas são a versão para língua inglesa feita em 1924, por M. R. James, medievalista da Universidade de Cambridge e a tradução, também para o Inglês, feita em 1938, por C. W. Barlow em Roma. No final da tradução, Miranda e Melo expressam a seguinte opinião:

As quatorze cartas, autênticas ou não, produto da imaginação ou uma estratégia de legitimação, ao menos ilustram a inegável valorização de Lúcio Aneu Sêneca por parte dos primeiros autores cristãos. Ao contrário de seus críticos, que na maioria dos casos se opunham ao seu pensamento e à sua prática política, os cristãos adotaram uma postura diferenciada e se voltaram para as suas ideias, suas sentenças e sua doutrina, orientação que gerou em alguns deles a ideia comum e aceita de um Sêneca pagão como precursor do cristianismo, e em outros, a de um Sêneca às vésperas da conversão ao cristianismo. Contudo, os legados são mútuos: se no século I d.C., Sêneca “emprestou” seu prestígio à fé cristã, provavelmente é a ela que ele deve a sua “sobrevivência” e notoriedade até os nossos dias (MIRANDA; MELO, 2007, p. 8).

Na introdução de sua pesquisa sobre epistolografia, Ebbeler (2001, p.1) menciona a circulação da correspondência entre Sêneca e Paulo, que ela declara considerar fictícia. Porém, esta autora admite que este fenômeno fortalece o valor dado à epistolografia, em especial, no século IV d.C..164

A coleção da suposta correspondência entre Sêneca e Paulo mostra que o gênero epistolográfico requerido para aquelas produções, verdadeiras ou forjadas, não segue os tipos de gênero epistolográfico usados por Sêneca e Paulo. Seria um terceiro gênero, voltado para o interesse de comunicação entre emissário e destinatário visando aproximação e conservação de uma possível amizade.165

Ebbeler (2001, p. 44) defende que a identificação do gênero epistolográfico e sua forma no ato enunciativo é essencial para a apreensão do texto. Ao revisitar o desempenho da epístola desde a Antiguidade, é possível observar a importância desse gênero no século I d.C.. O uso da correspondência foi muito ampliado no período Helenístico, pois este representou um momento de interação entre povos orientais e ocidentais. Assim, Paulo está no lado dos orientais e Sêneca dos ocidentais. O ponto de união entre ambos é o gênero epistolar no contexto da cultura helenística, a partir dos discursos constituintes que os direcionam.

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Ebbeler (2001, p.1) informa que os manuscritos dessas catorze epístolas, datados do século IX d.C., se encontram em Vienna public library.

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SÊNECA PARA PAULO, Ep. 3 - Saudações. Eu estou compilando e organizando alguns escritos num volume. Eu também resolvi lê- los para César. Se a sorte me ajudar, que ele possa me ouvir com atenção. Talvez você também esteja lá. Caso contrário, eu marcarei um outro dia no qual possamos examinar juntos o trabalho. Realmente, eu não poderia apresentar este trabalho a ele sem primeiro saber da sua opinião, para que não haja risco de você achar que esteja sendo relegado. Adeus querido Paulo! Trad. de Marcos V. F. Miranda e José Joaquim P. Melo (2007).

8 FORMAÇÃO JUDAICO-HELENÍSTICA DE PAULO E SEU POSICIONAMENTO