7 A EPISTOLOGRAFIA, SEU LUGAR NA ANTIGUIDADE E SUA
7.2 SÊNECA E AS EPISTULAE MORALES
O título Epistulae morales contribui para uma indicação básica do gênero no qual Sêneca investe a produção de sua obra. Não basta identificar que o título da coleção de Sêneca se engaja no gênero epistolar, mas é necessário especificar o subconjunto como gênero epistolar filosófico. Habinek (2005, p. 85) analisa os tratados e as epístolas de Sêneca como um corpo de textos que podem ser comparados para identificação do interesse central que é a exortação, pois Sêneca desenvolve um projeto filosófico, oferecendo instruções morais. De acordo com a opinião de Wilson (2001, p.175), a hipótese de Habinek é contraditória com a teoria da epístola antiga que não é concebida como oportunidade para exortação, mas como substituta da conversação. Essa posição de Wilson reforça a ideia da ligação da epístola ao diálogo.
Wilson (2007, p.437) comenta que no período da última fase das produções de Sêneca, nota-se que ele adotou a epístola como gênero literário, por ser mais favorável a um maior grau de liberdade em sua comunicação. Ainda, o gênero epistolar permitiu-lhe construir o discurso filosófico como conversa privada, como o próprio Sêneca assume em suas epístolas, optando pelo estilo coloquial.
escassas. O mesmo vale para as epístolas deutero-paulinas (Efésios; Colossenses; 2
Tessalonicenses; 1 e 2 Timoteo; Tito), que são testemunhos de como o paulinismo se desenvolveu
após a morte do Apóstolo. Elas, porém, somente podem ajudar de maneira limitada a projetar luz histórica sobre Paulo (cf., por exemplo, 2Tm. 3.11). Essa avaliação é mais pertinente ainda acerca de escritos pertencentes aos apócrifos no Novo Testamento, antes de tudo, acerca dos Atos de Paulo e da troca de correspondência entre Seneca e Paulo. Os Atos de Paulo já são atestados por Tertuliano, Hipólito e Orígenes, portanto, a partir de 150 d.C. estão amplamente divulgados. As citações do filósofo Sêneca deixam seus primeiros vestigios no século II d.C. Jerônimo cita a correspondência entre Sêneca e Paulo em 392 d.C. Ambos os escritos relacionados com o nome do Apóstolo Paulo estão tão distantes da teologia paulina e tão claramente longínquos de um conhecimento do tempo de Paulo, que são insignificantes para a interpretação de Paulo. O mesmo juízo deve ser feito sobre a restante literatura paulina apócrifa, como, por exemplo, a carta à Laodiceia e os Atos Lendários de
Paulo. Também as judeu-cristãs e antipaulinas, cartas pseudo-clementinas podem ser totalmente
Se nós nos sentássemos a conversar e discutíssemos passeando de um lado para o outro, o meu estilo seria coloquial e pouco elaborado, pois é assim mesmo que eu pretendo sejam as minhas cartas, que nada tenham de artificial e fingido! (SÊNECA, Ep. 75.1).
A partir dessa intervenção de Sêneca fica declarado seu propósito de recorrer ao gênero epistolográfico para exposição de suas ideias, de modo espontâneo, como revelação de si mesmo, diante de seu destinatário. Portanto, o que importa não é a literatura enquanto manifestação artística, mas sua relação entre escritor, leitor e sua representatividade como obra.
Edwards (2007, p. 271) relaciona a epístola em prosa com a produzida em verso, apontando para o caráter literário na constitutividade da epístola, na Antiguidade, mencionando a qualidade literária da correspondência de Cícero. Outro destaque fornecido por Edwards (2007, p. 274) é quanto à circulação das coleções das epístolas de Platão e Epicuro, consideradas textos literários, de caráter filosófico. Na produção romana, Horácio interliga literário e filosófico na criação de suas epístolas em versos. Na sequência histórica, Ovídio adota o gênero epistolar em forma de verso, mas usa o mito e a ficção na condução literária de suas epístolas.
Inwood (2007, p. 137) se posiciona a favor da classificação da correspondência de Sêneca no campo da epistolografia filosófica, e observa que o poder literário e a influência das epístolas, como um legado deixado por Sêneca, despertou em Foucault o interesse em compreender o estoicismo imperial do século I d.C., por meio dessas produções. A respeito da escrita de si e do cuidado de si, na Antiguidade, Foucault (2004, p.157) toma como apoio a epistolografia, recorrendo aos personagens estoicos Sêneca e Marco Aurélio e algumas citações de Plínio, observando que nesses autores, “a narrativa de si é a relação consigo mesmo.” Os postulados de Foucault contribuem como apoio aos que defendem a correspondência entre Sêneca e Lucílio como gênero epistolar, pois pontos básicos na elaboração das epístolas caracterizam o gênero epistolar na Antiguidade.155 Em sua análise da epístola setenta e oito, Foucault (2004, p.168) identifica um lugar comum na produtividade da correspondência na Antiguidade, em que as notícias sobre a saúde eram assuntos recorrentes entre os interlocutores da missiva.
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Morello e Morrisson (2007, p. ix) apontam que determinados tópicos são regulares na epistolografia latina. O tópico mais frequente é relacionado às questões de saúde, por meio de recomendações, conselhos ou até mesmo metáforas. Outro tópico recorrente é a ministração didática de técnica de algum conhecimento.
“Lamento saber que sofres frequentemente de gripe, e daquelas febres ligeiras e irritantes que as gripes prolongadas, e já quase ininterruptas, arrastam consigo” (Ep. 78.1). A partir desse tópos, Sêneca insere suas instruções e recomendações ao transcorrer de sua comunicação: “um homem tem que lutar contra a dor, de alma e coração; se ceder à dor será vencido, mas se juntar com ela todas as forças, sairá vencedor” (SÊNECA, Ep. 78.15). Outro tópos que Foucault (2004, p.155) destaca em sua análise é a aproximação entre ausentes, através da correspondência, pois a epístola torna o remetente presente para aquele a quem ele envia: “nunca recebo uma carta tua sem que, imediatamente, fiquemos um na companhia do outro” (SÊNECA, Ep. 40.1).
Como já discutido, vale enfatizar que tanto gregos como romanos concebiam a epístola com características de forma literária e é nessa perspectiva que Alexandre Jr. (2015, p. 170) identifica a “inevitável influência da retórica no gênero epistolar, como um veículo de importância no trânsito da comunicação na Antiguidade clássica e Helenística”. Por isso, este autor visualiza que a própria função do gênero epistolar foi sempre maleável à aplicação dos recursos da retórica, permitindo assim a penetração da argumentação na construção nos discursos desse gênero. Aprofundando mais em suas considerações, Alexandre Jr. (2015, 171) afirma que os discursos de consolação encontraram no gênero epistolar “a forma retórica e literária que mais se prestou a veicular seus conteúdos”. Assim, nas epístolas em que a retórica é mais evidente, são perceptíveis as três partes do discurso: abertura, desenvolvimento e conclusão. A flexibilidade no estilo era o fator fundamental. A epístola sessenta e três de Sêneca a Lucílio serve como indicação dessa prática. Logo na introdução ele dá o tom de consolação na sua mensagem: “Lamento profundamente o falecimento de seu amigo Flaco, no entanto, entendo que a tua dor não deve ultrapassar o limite do razoável” (Ep. 63.1). Após a introdução (exordium), algumas reflexões vão se desenvolvendo (narratio) ao longo da epístola, entre exemplos e instruções: “Gozemos intensamente a companhia dos nossos amigos, até porque não podemos saber por quanto tempo o faremos” (Ep. 63.9). Na conclusão (conclusio) o desfecho se liga à abertura: [...] “até pode suceder que tenham razão os sábios e haja um lugar onde todos iremos residir após a morte: se assim for, esse amigo que julgamos ter morrido, limitou-se a partir para lá à nossa frente” (Sên. Ep. 63.16).
Outro tópico a ser considerado na epistolografia é o fenômeno da relação EU/TU que se fundamenta no princípio do diálogo. Em sua contribuição para os estudos neste campo, Braren identifica alguns tópicos inerentes ao gênero epistolar, destacando o aspecto elocutivo da enunciação.
Na verdade, o extraordinário de um texto epistolográfico são as marcas que estabelecem a ligação entre o próprio autor da carta e o missivista, o enunciador natural em primeira pessoa, seja em qualquer nível que ocorrer. Procuramos conhecer os sinais de identificação reveladores da personalidade, da ideologia ou da filosofia do eu que fala. No caso da Antiguidade Clássica, o texto é tudo ou quase tudo que temos. Fornece-nos o material de investigação que será tanto mais vivo quando melhor estabelecer a comunicação, principal requisito do discurso epistolográfico (quer a comunicação seja efetuada com o endereçado, quer seja com o leitor) (BRAREN, 1999, p. 40).
No gênero epistolar, o modo enunciativo é predominante na organização do discurso. Charaudeau (2008, p.74) identifica como função essencial o fato de “dar conta da posição do locutor com relação ao interlocutor, a si mesmo e aos outros”, sendo esse mecanismo um indicador do acontecimento enunciativo. É nessa perspectiva que o gênero epistolar favorece a identificação do cuidado de si, como analisado por Foucault, em suas últimas pesquisas. Por isso, Sêneca declara: “a natureza incumbe-me de cuidar de mim” (Ep. 121.16).
Não há registros de epístolas de Lucílio em resposta a Sêneca, mas Ebbeler (2001, p.174) observa que Sêneca mantém a ficção da correspondência e o diálogo é constituído pelas evidências. “A tua carta encheu-me de satisfação e restituiu-me um pouco as forças que me vão faltando; reavivou-me mesmo a memória que já se me vai tornando cansada e lenta” (SÊNECA, Ep. 74.1).
Segurado e Campos (1991, p. XIV) analisa a interlocução entre Sêneca e Lucílio, como apresentado nos textos das epístolas e observa que há traços que contribuem para autenticar a veracidade da correspondência. Para este autor, o que pode confundir o leitor é a presença de características da diatribe cínica156 em alguns
156
Reale (1994a, p. 45) informa que o cínico Bion de Borístenes (335-245 a.C.), no período Helenístico, exerceu um papel importante no início do cinismo, principalmente na área da literatura. Foi ele quem provavelmente deu origem à forma literária da diatribe – um monólogo argumentativo com interlocutores imaginários. A paródia é usada não exatamente para obter efeitos cômicos, mas para contestar as convenções e regras da sociedade que os cínicos rejeitavam. Essas características influenciaram escritores romanos como Lucílio e Horácio na produção das sátiras. Nota-se que Paulo também faz uso da diatribe, como identificado nestes versos: “Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato! o que tu semeias não é vivificado se primeiro não morrer” (1Cor. 15. 35-36).
aspectos da construção das epístolas. O traço mais evidente da caracterização da diatribe é o chamado interlocutor fictício, como esclarece Segurado e Campos.
[...] o processo é bem conhecido, tanto da suasoriae propriamente ditas, como ainda dos textos filosóficos. [...] consiste o processo em o autor imaginar que uma sua afirmação é objectada por alguém (interlocutor fictício) objeção essa que lhe dá oportunidade para retornar sua ideia original e comprová-la com novos argumentos ou ilustrá-la com nova e mais impressionante exemplificação” (SEGURADO E CAMPOS, 1991, p. XV).
A ideia de um interlocutor fictício na enunciação abre espaço para que Sêneca faça uso da diatribe, expandindo suas reflexões filosóficas, por meio de um diálogo imaginário, independente dos questionamentos reais do coenunciador, na figura de Lucílio. A estratégia da diatribe introduz o uso de exemplos para dar sustentação aos argumentos e as máximas para aplicação moral aos ensinamentos. Com esses recursos, Sêneca dá sequência à ordem das epístolas, de acordo com os assuntos que vão sendo introduzidos. O próprio Sêneca assume o uso da estratégia da diatribe: “Mas já chega de diatribe contra Báias; contra os vícios, porém, nunca ela será excessiva” (Ep. 51.13).
Apoiando a ideia da organização das epístolas de Sêneca como coleção, Inwood (2005, p. 137-146) expõe que há uma variedade de formas identificadas nas produções das epístolas. Algumas são mais técnicas e doutrinárias, outras são mais informais, permitindo ao autor falar de si mesmo e evidencia suas próprias experiências. Mesmo que a filosofia moral seja predominante, outros temas são acrescentados, inclusive a polêmica contra outras escolas ou mesmo com antecessores do estoicismo.
Todas essas características apontadas contribuem para a identificação das epístolas de Sêneca constituídas como gênero epistolográfico e mais especificamente como gênero epistolar filosófico. De acordo com as considerações de Edwards (2005, p. 278), a leitura das epístolas em sequência permite estabelecer o nível do progresso filosófico, tendo em vista o destinatário. O caráter filosófico da obra é delineado a partir da primeira epístola e os temas vão sendo tratados em um crescente, e às vezes são revisitados sob outros ângulos. Os tópicos, como lugar comum na constituição do gênero epistolográfico, aparecem como garantia da caracterização do próprio gênero. Esses tópicos são variados, de acordo com o remetente e destinatário, podendo ser identificados como o falar de si mesmo, abrir-se com o outro, dar conselhos e instruções, entre outros.
Ao constatar a amplitude do uso da correspondência, Young (2005, p. 11) observa que a identificação do gênero epistolar se torna crucial na determinação de como o texto deve ser lido. Ainda pode-se acrescentar a essa colocação de Young que a epístola como gênero está ligada a um tipo de discurso que tem sua origem nos discursos constituintes. Esse é um fator essencial para a leitura das epístolas de Sêneca e de Paulo e o tratamento ao corpus de análise neste trabalho aqui desenvolvido.
7.3 CONJECTURAS SOBRE A TROCA DE CORRESPONDÊNCIA ENTRE