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A conjuntura de crise do capital e o contexto da juventude do campo

3. JUVENTUDE DO CAMPO E CONFLITUALIDADES DEMARCADAS NA

3.1.2 A conjuntura de crise do capital e o contexto da juventude do campo

A problemática geral do modo de produção da vida no campo e dentro dela, a problemática da juventude do campo, sobretudo a juventude originária das famílias dos pequenos agricultores, situados em pequenos municípios do Brasil, encontra assento explicativo no modelo societário vigente, cujo sustentáculo tem sido marcado conflitivamente pela lógica organizativa da sociedade burguesa.

Esse modelo, que tem na propriedade privada um dos seus pilares, em sua fase atual de desenvolvimento, toma como estratégia, um acentuado processo de concentração e exploração

20Em 03 de maio de 2018, em contexto de crise econômica brasileira, o Banco Itaú, maior banco privado do Brasil, anuncia lucro líquido de R$ 6,419 bilhões apenas no segundo trimestre deste ano, obtendo alta de 3,9% na comparação com o mesmo período de 2017. No ano passado, esse Banco já havia alcançado o maior lucro de uma instituição financeira na história do Brasil, chegando a R$ 24,8 bilhões. Somando os resultados desse Banco aos do Bradesco e Santander, os três maiores bancos privados obtiveram lucro líquido de R$ 53,8 bilhões em 2017. A cifra representa um crescimento de mais de 15% em relação a 2016 (BRASIL DE FATO, 03 de maio de 2018).

dessa propriedade, para um pequeno grupo, sob a tutela do Estado. Segundo Lessa (2009), o Estado é o comitê executivo da burguesia usado para desenvolver as forças produtivas do capital, que se voltam contra a humanidade, aproveitando-se do aumento exponencial da população. Essa lógica, arrebata direitos essenciais dos trabalhadores do campo e da cidade, afetando-os nas diferentes dimensões da vida. Nesse contexto, os jovens da cidade e do campo, na condição de segmento da classe trabalhadora, recebem diretamente os efeitos produzidos por essa lógica societária.

Assim sendo, a inserção desse padrão capitalista no campo brasileiro, sobretudo nos anos de 1970, vem trazendo fortes implicações para a classe trabalhadora camponesa e em particular para a sua juventude. Esse modelo que vem sendo ancorado nas políticas neoliberais e tem produzido crises sistêmicas, de natureza geopolítica, tem afetado intensamente a vida dos trabalhadores do campo e por extensão, da cidade. Por extensão, se caracteriza como um modus operandi que atua sob o pressuposto da manutenção de um ideal de desenvolvimento que para permanecer em vigência, vai gerando novas formas de apropriação e controle dos recursos da natureza e da exploração desenfreada do trabalho.

Na América Latina e, especialmente no Brasil, o processo explicitado acima encontra forte expressão na figura de um Estado patrimonialista, originário da formação colonial escravista. Segundo Leal (1997), se desenvolve nesse Estado uma magistral relação entre o poder público e o poder privado, de maneira que os representantes políticos, dotam-se de um poder conservador, desinteressado da coletividade e tomam o espaço público que ocupam como sua propriedade privada, corrompendo o espaço público para atender interesses de uma minoria, na obtenção de privilégios.

Frente a este cenário que permeia as relações sociais no Brasil atual, Souza (2017), alerta para a necessidade de se desconstruir uma visão produzida por intelectuais brasileiros21, ainda predominante na sociedade, centrada em uma pseudoexplicação acerca do prestígio patrimonialista do Estado. Na perspectiva defendida por esse autor, essa visão atribui à corrupção da política todo o peso pelos dilemas e graves problemas sociais vividos no Brasil e exime a população dotada de elevado poder econômico, assim como grupos econômico- financeiros, de toda e qualquer responsabilidade quanto às consequências danosas à sociedade, vindas desse processo.

Com isso, se forja uma estratégia de ocultação da realidade por forças tornadas invisíveis para assim exercer o poder real, beneficiando-se amplamente das riquezas do Brasil. São essas

21Sergio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, Roberto DaMatta, entre outros, são alguns cientistas que propagaram essa visão de mundo.

forças oriundas da chamada “elite do atraso”, que segundo Souza (2017) produzem por desfaçatez uma inversão do sentido da captura da política pelo mercado. Trata-se, então, de forças engendradas nas relações de poder do capitalismo, cujo interesse é o controle dos rumos do desenvolvimento brasileiro ao redor da burguesia nacional e internacional (LIMA, 2011).

Em se tratando dessa ocultação da realidade, cabe fazer trazer as ideias Lacoste (2007), quando ele usou o termo “cortina de fumaça”, referindo-se ao modo como o Estado francês atuava junto aos professores de geografia na reprodução de uma falsa consciência da realidade. Esse autor via no poder centrado no Estado, o mecanismo de agir no sentido de “mascarar a trama política dos raciocínios centrados nas análises socioespaciais e impor, implicitamente, que não é preciso, senão memória” (LACOSTE, 2007, p. 32). Neste sentido, criticava essas estratégias de poder, em que as práticas estavam apoiadas em um saber consciente, cujo pressuposto era assegurar o monopólio do poder.

Na obra “A direita para o social e esquerda para o capital: intelectuais da nova pedagogia da hegemonia no Brasil”, elaborada por um coletivo de autores sob a organização de Neves (2010), é feita contundente discussão acerca da relação entre conhecimento e hegemonia, identificando aí o papel educador do Estado capitalista na atualidade mundial e nacional. A obra analisa a renovação das formas de dominação do espaço brasileiro, sob o capitalismo neoliberal, como sendo os novos aparelhos privados de hegemonia. Nesse contexto identifica, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), no âmbito das ONGs, como exemplo de dois intelectuais coletivos, comprometidos com a produção e divulgação das estratégias de convencimento e de coerção implementadas contra a ameaça socialista.

Segundo Neves (2010), as instituições supracitadas assumem em suas agendas a organização da ideologia da pedagogia da hegemonia no território brasileiro. Vem atuando na formação de intelectuais orgânicos do capitalismo brasileiro do meio empresarial, pela responsabilidade social das empresas, estruturando as fundações empresariais e apoiando programas elaborados pelos empresários. Também realizam trabalhos em espaços articuladores das lutas como o Fórum Social Mundial, em cursos de formação de lideranças populares, na assessoria e implementação de programas sociais, dentre outras.

A tarefa fundamental desses aparelhos privados de hegemonia é assegurar a “despolitização da política”, organizando o consenso em defesa da instalação de uma única visão de mundo. Essa manutenção do poder dominante se dá na escala internacional por meio do papel político e intelectual de ponta exercido por organismos internacionais (como Banco Mundial e UNESCO) e grandes fundações norte-americanas (como Ford e Rockfeller). Na

escala nacional, se desenrola através de densa malha de relações que os conecta, prestigiosas instituições de ensino e pesquisa, empresas privadas "socialmente responsáveis" e organizações não governamentais especializadas em "participação".

Neves (2010), ressalta o papel do intelectual no capitalismo, na adesão a essa estratégia política, direcionada à construção de um projeto de sociedade e de sociabilidade. As práticas orientadas por essa estratégia, ao esvaziar o mercado das relações de conflitos de classes, carrega a premissa fundamental da manutenção do poder da classe dominante, conforme exposto a seguir.

[...] ao reduzir os níveis de consciência política coletiva das várias frações da classe trabalhadora, impulsiona seus intelectuais coletivos a pautarem suas agendas políticas por demandas que, embora realizem mudanças parciais nas condições de trabalho e de vida das classes dominadas, mantém praticamente inalteradas as relações de exploração e de expropriação concernentes as relações sociais capitalistas (NEVES, 2010, p. 36).

Nesse processo, observa-se que são estabelecidas as condições de desenvolvimento de uma geopolítica em que o conhecimento e domínio sobre determinadas ideias, torna-se alavanca à produção e ao controle das relações socioespaciais. Assim, a hegemonia em torno de um conjunto de ideias, e, portanto, em torno de um certo conhecimento estratégico, assegura um território de poder, assim como o poder sobre territórios.

Os exemplos ora expostos permitem constatar a função ideológica das ideias, porque ao serem manipuladas por determinados sujeitos, conforme interesses dominantes, orientam o rumo que se deseja tomar determinada sociedade. Fica evidenciada, assim, a instalação da ideia de que o saber é um instrumento de poder. E na sociedade brasileira, isto significa tanto a expressão do monopólio do saber pela fração da sociedade detentora do poder, quanto a possibilidade da ruptura desse monopólio pelos sujeitos e grupos sociais do campo e da cidade que reivindicam direitos negados historicamente.

Sendo assim, a crise originária do sociometabolismo do capital (MÉSZÁROS, 2011), permite elucidar em tempos atuais, um processo de extrema apropriação daqueles meios e instrumentos produzidos socialmente para servir ao desenvolvimento social dos diversos grupos humanos. A resposta é identificada na exacerbação do metabolismo da propriedade privada, alimentado pelo recrudescimento da sua concentração e exploração.

Com isso, o conhecimento produzido socialmente toma um caráter de domínio cada vez mais privado. No Brasil, esse fato se revela nas disputas impetradas nos espaços de produção e difusão de conhecimento, expressos em retaliações dos detentores do monopólio da violência como poder, aos pensamentos contra reacionários postos em prática sobretudo nos espaços de

produção, difusão e transmissão do conhecimento, das universidades públicas brasileiras, das escolas públicas, entre outros. Observa-se, assim, no plano das relações sociais que mediam a produção do espaço brasileiro, reforço à concentração da privação da propriedade privada, dimensionando conflitos por educação, saúde, água, terra, mineração e que afetam o desenvolvimento do campo e da cidade.

Esse cenário marcado pela reprodução de “ideias-força”, exige dos sujeitos comprometidos com a negação do pensamento reacionário, tomar para si “o trabalho da prática e do pensamento críticos, da reflexão sobre o sentido das ações sociais e a abertura do campo histórico das transformações do existente” (CHAUÍ, 2016, p. 190).

Sendo assim, a cultura política brasileira prevalente, mantém firme uma estrutura de pensamento, cujas ideias embutidas no senso comum produzido pela classe dominante, se fortalecem à medida que unificam essa classe para atuar ainda mais no controle da classe que vive do trabalho. Não obstante, a constatação da existência de uma crise no Brasil atual, gerada pela crise estrutural do metabolismo do capital, coloca em xeque o conjunto das ideias que têm sido legitimadas e reproduzidas no interior da sociedade. Esse território minado por contradições e prenhe de contestações deflagra a crise das ideias. Quanto a esse aspecto, nos acena Souza (2017):

Épocas de crise como a brasileira atual são, nesse sentido, uma oportunidade única. Na crise, toda legitimação perde sua “naturalidade” e pode ser desconstruída. Mas é necessário que se reconstrua um novo sentido que explique e convença melhor que o anterior. Sem isso, a explicação anterior tende a se perpetuar (SOUZA, 2017, p. 9).

Logo, do âmbito da realidade concreta, se identifica a existência de relações sociais nutridas por conflitos e conflitualidades. Essas relações, se ainda são mantenedoras de um Estado submisso ao poder de mando de uma classe: a classe dominante, detentora de uma visão de mundo hegemônica, e isto é fato, também nelas se movimentam posições de enfrentamento, contrárias à ordem sociometabólica vigente. São posições que atuam na contra-hegemonia e tornam possível a luta de classes, cuja práxis identifica brechas na hegemonia existente, para forjar as bases que possibilitarão àquela fração da sociedade que vive do trabalho, tomar para si a responsabilidade pela “direção geral” da sociedade, ou seja, pelo estabelecimento de uma nova cultura política (CHAUÍ, 2016).

Contudo, se constata nas relações socioespaciais que mediam a produção do espaço brasileiro em tempos atuais, uma indissociabilidade na ação dos poderes executivo, legislativo, judiciário, midiático e financeiro, vinda da articulação da classe dominante e conformadora da base estruturante de mediação e controle dessa classe. Ocorre, assim, a reprodução do status

quo por meio do cooptação das diferentes esferas estatais e privadas de poder. No entanto, o que efetivamente aparece como algo legitimado é um deslocamento essencial dos fatos para a elevação da ideia de que a crise vivida pela sociedade brasileira é eminentemente uma crise política atrelada à corrupção do Estado. Isto favorece a manutenção dos privilégios, legitimando as injustiças e desigualdades tão latentes na sociedade brasileira, o que concorre para escamotear os conflitos de classe.

Com isso, se observa que as riquezas do país vêm sendo rateadas, via manutenção de privilégios, para pequenos grupos que controlam o setor financeiro, a política, a religião e a mídia. A prática do enriquecimento pela “rapinagem” se reproduz com veemência em detrimento do aumento da pobreza. Esse processo gera drásticas e nefastas consequências à classe trabalhadora brasileira e afeta de maneira particular, a juventude trabalhadora do campo e da cidade.

Nesta direção, Barros (2006) entende que frente aos impactos gerados pelo modelo societário capitalista no Brasil, uma análise da juventude do campo deve considerar a juventude da classe trabalhadora como um todo, na dimensão campo e cidade. Para o referido autor, isto requer situar as problemáticas vividas por essa juventude, no conjunto dos problemas enfrentados pela sociedade, no contexto das políticas neoliberais nos países de economia periférica, e dos seus incrementos na reestruturação produtiva, no desemprego estrutural e na precarização das relações de trabalho.

Considerando ser os jovens o segmento da sociedade que agudiza as suas contradições mais gerais, é bastante elucidativo o convite de Molina (2015), para que possamos elevar o pensamento a um patamar de superação das ideias que vem sendo trabalhadas acerca do campo e da juventude do campo (ABRAMOVAY, 1992)22. Isto torna-se necessário se, efetivamente, o que se pretende é desnudar a realidade que circunda essa temática. A autora imerge no contexto social e político das relações que permeiam a produção do campo brasileiro, para identificar elementos que deflagram e orientam os rumos tomados pela juventude do campo. Nesse sentido, situa o contexto dos desafios enfrentados pela juventude camponesa para assegurar a reprodução da vida nesse território, considerando a dimensão histórico-social como fundante da natureza desse fenômeno. Assim, afirma:

As juventudes camponesas contemporâneas enfrentam um tempo histórico no qual os horrores da sociedade capitalista se intensificam profundamente no campo brasileiro. As transformações trazidas com a mudança da lógica de

22Esse autor defende a tese do capitalismo agrário, atesta o fim da luta de classes e argumenta acerca do esvaziamento do campo e a favor da transformação do camponês em agricultor que vai sendo absorvido pela lógica o mercado.

acumulação de capital no campo, pelo modelo agrícola representado pelo agronegócio, que exige cada vez mais vastas extensões de terra para implementação de suas monoculturas para exportação, transformando os alimentos em commodities, intensifica, por diversas estratégias, a superexploração dos camponeses e suas famílias, e, entre eles, dos jovens (MOLINA, 2015, p. 13-14).

Fica evidenciado, desse modo, o desafio de superar a visão de mundo hegemônica instaurada no campo brasileiro à luz das estratégias e práticas ideológicas da modernização conservadora. Do interior dessas relações modernizantes são produzidos mecanismos que engendram novas sociabilidades no espaço rural e encobrem aqueles aspectos essenciais demarcadores do real cenário das relações sociais no campo.

Tal processo gera, por extensão, na prática cotidiana, o sentimento da ausência de expectativas de melhoria da vida camponesa nesse espaço. Ocorre assim, um intencional desvio do sentido daquilo que envolve as relações sociais no campo, justamente para inibir as tentativas de luta social, de enfrentamento e resistência no campo. A resposta imediata localiza-se na descrença acerca das condições emergentes que determinam a sobrevivência no espaço rural, e, sobretudo na saída dos jovens do campo, rumo à cidade, prática legitimada no âmbito dessas mesmas relações.

Assim, na interface campo-cidade estão situados os elementos que margeiam os interesses da juventude do campo e articulam essa juventude na dinâmica do espaço agrário. Nesse intermédio, a relação campo-cidade, é promissora das conflitualidades que emergem desse complexo de forças, movimentando-se por contradições e moldando formas espaciais, que se produzem dialeticamente.

Essa relação dialética entre o campo e a cidade, no Brasil, no contexto atual das relações capitalistas de produção, demanda um esforço pela busca de uma análise que integre as relações entre campo e cidade; rural e urbano, em suas formas e conteúdos. Neste sentido, campo e cidade compõem uma unidade dialética, cuja dinâmica das relações sociais interage no movimento da história, produzindo lutas, reivindicações, ganhos e perdas. São unidades contraditórias que se ligam e sem perder as diferenças, fazem, desfazem e refazem a realidade. Em Oliveira (2013) identifica-se um alerta para o fato de que o capitalismo está soldando a união contraditória que separou a agricultura e a indústria, a cidade e o campo, pois que agora procura fazer isto através de um processo avançado de cooperação no trabalho. A solução para a produção na agricultura e na indústria passa pelo trabalho coletivo e pela distribuição dos frutos da produção (salário e lucro). Isto requer, também, luta na cidade pelo camponês, por melhores preços para seu produto, condições e vantagens creditícias e técnicas que o permita

assegurar a sobrevivência a fim de reproduzir a vida com dignidade, sem, no entanto, ter que sair forçadamente do campo, para procurar aporte no espaço da cidade, também produtor de exclusões e desigualdades.

Mediante o exposto, faz-se importante entrar na realidade da juventude do campo no Brasil, para identificar aspectos e dados que demarcam os rumos a serem tomados por essa juventude, no enfrentamento às questões centrais concernentes à produção do campo brasileiro, entendendo ser a questão agrária um dos seus sustentáculos. A questão agrária se manifesta na multidimensionalidade dos diferentes aspectos que conformam o campo brasileiro, movendo- se por contradições e conflitualidades. Ela tem na propriedade privada da terra concentrada por uma minoria no/do poder, um dos seus eixos fundamentais.

Portanto, o desvelamento da realidade da juventude do campo na trama social e política dos elementos que articulam a questão agrária brasileira, é condição para revelar aspectos ocultados no interior dessas relações sociais. A ruptura com a pseudorealidade referente a uma visão hegemônica do espaço rural, é processo que faz emergir da juventude do campo os sentidos envolvidos na sua permanência ou saída desse território, o que imprime visibilidade às contradições daí demandadas.