Dimensões socio-políticas do Conselho da Índia
IV. 1 3 D Francisco da Gama
IV. 2. Conselheiros de Capa e Espada
O primeiro conselheiro de Capa e Espada a ser nomeado para pertencer ao Conselho da Índia foi, como vimos, Pedro de Mendonça Furtado, cuja nomeação é datada de 26 de Agosto de 1604. Sobre o seu percurso, Francisco Mendes da Luz pouco
76 mais escreve além de que foi “pessoa muito dedicada ao novo tribunal e que sempre servira a seu cargo com zelo e assiduidade”200.
Pela informação contida no Nobiliário de Felgueiras Gaio, Pedro de Mendonça foi Comendador de Mourão. Casado com Dona Mariana de Mendonça, era genro de D. João de Mendonça, que havia sido vedor e mordomo-mor da infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I, além de ser provido da capitania de Chaul. De pouco mais dados dispomos que nos permitam conhecer e perceber a vida e a carreira deste Conselheiro.
A exercer as suas funções no Conselho da Índia em simultâneo com Pedro de Mendonça Furtado encontra-se D. Francisco de Almeida. É nomeado governador de Tânger em Julho de 1581, sendo portanto o primeiro a ser enviado por Filipe II para ocupar este cargo, depois de resolvida a sucessão de Portugal. O conde da Ericeira, na sua História de Tânger, escreve sobre D. Francisco de Almeida que “governou com grande acerto e a gosto de todos”, deixando de si “muito grata memória”201. Acrescenta,
algumas páginas adiante, que “na guerra procedeu com valentia, e com prudência na paz. A seus súbditos, tratou-os mais com amor de pai que com severidade de senhor. Animou-os e consolou-os pelas perdas sofridas, realçou e aumentou a cavalaria e ergueu as armas quase à primeira reputação”202.
Os bons serviços em Tânger fazem com que no início de 1592 D. Francisco saia de Lisboa rumando a Angola, para ocupar o cargo de Governo Geral de Angola203. Segundo o texto de Elias da Silva Correia, escrito no século XVIII, ia D. Francisco “incumbido de estender a Conquista, e reduzir ao nosso inteiro domínio, as encantadas minas de prata da Serra de Cambambe, sobre que El Rei Filipe 2º de Castela, havia fixado a vista, e o desejo”204. Prossegue: “À sua chegada se exaltou a alegria, pela
200 Francisco Mendes da Luz, O Conselho da Índia .... op. cit., 1952, p. 153. 201 D. Fernando de Meneses, História de Tânger .... op. cit., 1949, p. 98. 202 Ibidem, p. 131.
203 Chancelaria de Filipe I, Livros de Padrões e Doações, Livro 23, Fl.138v.
Sobre esta nomeação e o seu contexto, escreve Mathieu Mogo Demaret: “La principale recommandation faite par Domingos de Abreu e Brito et reprise par la Couronne du Portugal avait trait aux domaines politique et administratif. (...) Le fonctionnaire envoyé à Luanda avait suggéré que l’Angola cesse d’être une capitainerie héréditaire et qu’elle devienne un territoire administré par un représentant désigné par la Couronne pour une durée déterminée, en principe trois ans. Moins de deux ans après la rédaction du rapport, le roi du Portugal mit effectivement fin au systéme héréditaire, en nommant une figure de la noblesse portugaise, Francisco de Almeida, au poste de gouverneur d’Angola”, Mathieu Mogo Demaret,
Portugais, Néerlandais et Africains en Angola aux XVIe et XVIIe siècles: construction d’un espace
colonial, Tese de Doutoramento apresentada à l’École Pratique des Hautes Études, 2016, p. 109.
204 Elias Alexandre da Silva Correia, História de Angola, Edição de Manuel Múrias, Lisboa, 1937,
77 esperança de remediar os males passados”. No entanto, tal remédio tornou-se rapidamente impossível de ser encontrado. Em primeiro lugar, pelo conflito latente com os Jesuítas, “costumados a dirigir os gabinetes do Governo; e entrevindo em todas as disposições do de Angola (...) se chamaram à posse pretendendo dominar nas disposições, que D. Francisco, queria por si só resolver”205. Esta luta pela jurisdição
abalou de tal forma “o religioso espírito” de D. Francisco de Almeida que este optou pelo caminho da reconciliação e da cedência.
Em seguida, tentou o Governador terminar o que Paulo Dias de Novais havia começado tempo antes, fazendo planos de subjugar o potentado de Sova, “mas antes de chegar ao teatro da premeditada guerra, teve a desgraça de ser acometido de uma epidemia tão forte que não achando meio de evitar os seus progressos se retirou apressadamente para a vila com muita perda de gente”206.
A investigação levada a cabo por Rodrigo Bonciani permite-lhe afirmar que, enquanto governador-geral de Angola, D. Francisco de Almeida “foi preso pelos moradores, com a conivência dos jesuítas que temiam o fim do sistema de amos e a vassalagem directa dos sobas ao Rei”207. Esta informação não nos é dada por Elias da
Silva Correia, que escreve apenas que “quando entrou outra vez nas irrupções que os padres fomentavam em despique à sua independência de governo; eles enfim atearam com tal sopro as dissenções do seu rancor que em breve tempo se acendeu como um incêndio capaz de devorar o sofrimento de D. Francisco; e não podendo o seu génio persistir sossegado perante o flagelo de tantas desordens, nem satisfazer a sua paixão, rompeu na imprudência de abandonar o governo, e embarcar-se repentinamente para Pernambuco em 8 de Abril de 1593.
Percebemos então que D. Francisco desafiou a ordem dos poderes instituídos, motivando a má recepção que foi prestada ao seu governo. Há que ter em conta ainda que este era um cargo recentemente criado que promoveu alterações de relevo, e que os conflitos por que passou D. Francisco não serão tanto promovidos pela sua figura ou pelas suas ideias, mas apenas pela reacção natural a um novo posto e a uma nova
205 Ibidem, p. 210. 206 Ibidem, p. 211.
207 Rodrigo Faustoni Bonciani, O reinado de Filipe III e a configuração das relações de poder político e dominium em perspectiva ibero-atlântica, XXVII Simpósio Nacional de História, Natal-Rio de Janeiro, 2013, p. 6.
78 estrutura administrativa que, aumentando o poder do centro sobre as periferias, diminuía o poder daqueles que aí se encontravam anteriormente208.
Como vimos, encontramos neste conselheiro, pela carreira anterior à sua passagem pelo Conselho da Índia, o know-how necessário à boa administração dos territórios marroquinos, mas essencialmente o conhecimento relativo à dinâmica do comércio de escravos entre Angola e o Brasil e às “articulações dos agentes coloniais no Atlântico”209, cujo relevo vinha crescendo em estreita relação com o desenvolvimento
territorial e económico do Brasil.
Familiarmente, D. Francisco é filho de D. João de Almeida e de Dona Luísa de Ornelas, cujo pai foi escrivão da Casa da Índia210. Deste casamento contam-se oito ou nove filhos, havendo dúvidas se realmente um dos filhos que é atribuído a D. João e Dona Luísa realmente o seria. Assim, exlcuíndo este filho – D. Diogo –, estamos perante sete irmãos de D. Francisco de Almeida, dos quais dois seguiram a vida eclesiástica, três serviram no Império – um destes tendo casado no Brasil, onde, supõe- se, estivesse a exercer qualquer cargo, e dois deles na Índia, um lá casando e outro lá morrendo sem deixar descendência – e duas mulheres, uma casada com D. João de Faro e outra com D. Francisco de Meneses, Comendador de Proença211.
D. Francisco, por sua vez, casou no Porto com Dona Isabel Brandão, filha do senhor de Avintes. Deste casamento foram gerados quatro filhos, dos quais se devem destacar D. Pedro de Almeida, que serviu na Índia, Dona Leonor, segunda mulher de Brás Teles da Silva, Capitão de Mazagão e D. João de Almeida.
Estes conselheiros são substituídos, respectivamente, em 1611 e 1612, por João Furtado de Mendonça e João Correia de Sousa. Segundo Francisco Mendes da Luz, a
208 Nas palavras de Mathieu Mogo Demaret, “un des principaux changements que devait opérer Francisco
de Almeida était d’ordre politique et concernait la relation entre les colons portugais et les pouvoirs africains. Pendant son mandat, Paulo Dias de Novais avait récompensé les soldats qui l’accompagnaient en leur octroyant les terres conquises et en faisant des chefs africains qui s’y trouvaient leurs subordonnés”. No entanto, com a nomeação de D. Francisco de Almeida por um tempo limitado de anos, “le territoire africain devait passer sous l’autorité de la Couronne, ce qui impliquait la remise en cause du systéme de type clientéliste mis en place par Paulo Dias de Novais. La volonté d’instaurer cette mesure provoqua un des primiers conflits d’ampleur au sein de la communauté portugaise, entre le représentant de la Couronne du Portugal et les colons. Les jésuites, qui bénéficiaient également des tributs payés par les chefs africains, s’opposèrent au nouveau gouverneur”, Mathieu Mogo Demaret, Portugais,
Néerlandais et Africains en Angola .... op. cit., 2016, p. 110.
209 Rodrigo Faustoni Bonciani, O reinado de Filipe III .... op. cit., 2013, p. 6. 210 Felgueiras Gaio, Nobiliário .... op. cit., 1938-1941, Volume II, p. 81. 211 Ibidem, Volume II, p. 81.
79 saída de Pedro de Mendonça Furtado do Conselho da Índia é coincidente com a nomeação de D. Francisco da Gama para a sua presidência, e terá estado associada ao ressentimento por não ter recaído sobre si tal nomeação, além, claro, da idade avançada e de um debilitado estado de saúde212. Acaba, portanto, por se aposentar. A saída de D. Francisco de Almeida, como se pode ler na carta de nomeação do seu substituto, deve- se também à sua aposentadoria213.
Infelizmente os Índices dos Livros de Padrões e Doações da Chancelaria de Filipe II não nos permitem chegar à carta pela qual o monarca tornou João Furtado de Mendonça conselheiro da Índia, mas podemos com certeza deduzir que nela encontraríamos as mesmas palavras que encontramos na de João Correia de Sousa: “pela satisfação que tenho do bom procedimento que João Correia de Sousa fidalgo de minha casa e do meu conselho sempre teve em meu serviço nos cargos e coisas que teve a sua conta”214.
João Furtado de Mendonça, havia já servido na Índia durante cerca de doze anos, como capitão de galés e de navios e capitão-mor das Armadas do Estreito de Ormuz e de Malaca215, ao lado do irmão, o capitão André Furtado de Mendonça, futuro governador da Índia, a quem aludimos já a propósito dos conflitos associados ao vice- reinado de D. Francisco da Gama. João Furtado de Mendonça foi ainda Governador- Geral de Angola entre 1595 e 1602.
Aquando a sua chegada a Angola, “conheceu Mendonça o triste estado da Conquista, e a consternação, que a vitória de Cafuxe havia semeado nos corações portugueses”216. Opta por vingar esta derrota lusa, mas apontando que a força das tropas
estivesse preparada no mês de Março para proceder ao combate, “se enganou com a estação; pois ainda que é o princípio da frescura; é deste país a mais nociva; e dirigindo- se pelo Bengo, lugar em todo o tempo pestífero, junto às copiosas chuvas, que houveram no mesmo ano, foi tal a epidemia, que não só o Governador se retirou para a Vila perigosamente enfermo, onde sete meses se esteve curando; mas morreram para cima de 200 soldados (...) tais foram os flagelos da peste, e fome, antes que vissem
212 Francisco Mendes da Luz, O Conselho da Índia .... op. cit., 1952, p. 153.
213 “E por folgar de lhe fazer mercê me apraz e hei por bem de lha fazer do cargo de Conselheiro do meu
Conselho da Índia e mais partes ultramarinas que nele está vago por aposento de D. Francisco de Almeida”, Chancelaria de Filipe II, Livros de Padrões e Doações, Livro 29, Fl. 153.
214 Chancelaria de Filipe II, Livros de Padrões e Doações, Livro 29, Fl.153. 215 Francisco Mendes da Luz, O Conselho da Índia .... op. cit., 1952, p. 153. 216
80 guerra”217. Refeito da convalescença, opta o Governador por retomar o seu projecto
bélico e fazer guerra aos Sovas. Contrariando o resultado da expedição anterior, termina esta investida de forma bem sucedida.
Posteriormente, Baltazar Rebelo de Aragão é enviado à frente das tropas portuguesas para prestar socorro a Massangano. Concluída a sua missão e reposto este presídio de munições e gente, dirigem-se os lusos para as terras do Sova Muxima, “para melhor subjugar a rebeldia destes inconstantes vassalos”218, onde após nova vitória
portuguesa é dada ordem para construção de um presídio, tornando-se assim este território definitivamente uma possessão portuguesa.
Além disto, durante o seu governo, João Furtado de Mendonça defendeu a vila de Luanda da presença de quatro navios de corsários franceses, galvanizando os espíritos dos seus moradores, “depois de se fortificar no morro de S. Miguel, entricheirando com pipas cheias de areia, e faxinas, e guarnecendo de artilharia os postos por onde podiam ser acometidos”219. Nas palavras de Francisco Mendes da Luz,
este governo simbolizou um alargamento considerável da presença e poder portugueses para o interior de Angola220.
Para finalizar a sua abordagem, Elias da Silva Correia afirma que após a saída de João Furtado de Mendonça do governo de Angola, este teria sido Presidente do Conselho da Índia e do Conselho de Portugal em Madrid. Nenhuma das duas afirmações é verdadeira. No que toca ao Conselho da Índia, sabemos pelo acima exposto, que este tribunal teve apenas três presidentes, aos quais já fizemos larga referência. No que ao Conselho de Portugal diz respeito, seguindo as listas contidas no estudo de Santiago de Luxán, não encontramos também qualquer ligação deste fidalgo ao Conselho de Portugal221.
217 Ibidem, p. 215. 218 Ibidem, p. 216. 219 Ibidem, p. 216.
220 Francisco Mendes da Luz, O Conselho da Índia .... op. cit., 1952, p. 154. Este alargamento é em
grande parte proporcionado, como escreve Mathieu Demaret, pelo clima de relativa estabilidade política vivido na colónia quando João Furtado de Mendonça aí toma posse, especialmente quando comparada com os momentos de governação de D. Francisco de Almeida e do seu sucessor, D. Jerónimo de Almeida. Assim, esta estabilidade “ce qui a permir la construction de plusieurs forteresses dans les dernières années du XVIe siècle”, Mathieu Mogo Demaret, Portugais, Néerlandais et Africains en Angola .... op. cit., 2016,
p. 111.
81 Era casado com Dona Madalena de Távora, filha de D. Álvaro de Sousa, que “passou a servir à Índia no ano de 1537, foi capitão de Chaul e depois de assistir muitos anos, voltou para o reino e foi do Conselho do rei D. Filipe II, senhor de Alcube, onde fundou um morgado”222. D. Álvaro era, além disso, cunhado de Cristóvão de Moura,
pelo seu matrimónio com D. Francisca de Távora, irmã deste fidalgo223.
João Correia de Sousa, por sua vez, antes da sua chegada ao Conselho serviu durante algum tempo na Índia. Recebe a concessão da capitania de Diu no ano de 1604. Esta capitania pertencia primeiramente ao seu tio, José (?) Gomes de Carvalho, morto no primeiro assalto à fortaleza do Cunhale, que a deixou testamentada ao sobrinho. A carta de nomeação refere também que o pai deste fidalgo, Jorge Correia de Sousa, havia servido el-rei D. Sebastião, e morrido com este na Batalha de Alcácer Quibir.
No entanto, não deixa a carta associada a esta mercê de referir que esta era concedida também pelos serviços daquele que a recebia. João Correia de Sousa havia estado em 1598 na armada que saiu de Malaca em direcção a Amboino, na qual foi “capitão de duas galeotas e de um navio de alto bordo”. Pertenceu também ao grupo de homens que, liderados por Furtado de Mendonça, lograram a já referida captura do Cunhale224.
Três anos depois de ser provido com a capitania de Diu pelo sistema de vagante, João Correia de Sousa é incumbido de capitanear dois galeões que nesse ano de 1607 foram armados para, saídos de Lisboa, irem prestar socorro às partes da Índia. Justifica o rei a sua escolha pela confiança que depositava em Correia de Sousa graças às qualidades que reconhecia a este fidalgo da sua casa225. Não temos qualquer dado que nos permita avançar que idade teria Correia de Sousa nesta altura, mas seria, por certo, homem já experiente, o que é justificado não apenas pelo facto de receber a missão de capitanear esta armada, com a responsabilidade que tal acarretava, mas também por ser escolhido apenas poucos anos depois para ingressar o Conselho da Índia. Além disso,
222 António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa ...., Lisboa, Oficina de
José António da Silva, 1735-1749, Volume XII, Parte 2, pp. 720-721.
223 Ibidem, p. 721.
224 Chancelaria de Filipe III, Livros de Padrões e Doações, Livro 12, Fl. 200. 225 Chancelaria de Filipe III, Livros de Padrões e Doações, Livro 14, Fl. 326v.
82 logo em 1615, apenas um ano após a extinção do dito Conselho, é redigido o seu alvará de aposentadoria226.
A conclusão mais evidente que podemos retirar do grupo de conselheiros de Capa e Espada que compuseram o Conselho é, sem dúvida, o conhecimento in-loco que estes possuíam do Estado da Índia e da situação que aí se vivia. Há que notar também que tanto na primeira fase de nomeações como na segunda há o cuidado de chamar homens conhecedores também das dinâmicas do Atântico e do florescente comércio triangular, como foi o caso, como vimos, de D. Francisco de Almeida e de João Furtado de Mendonça. Tal denota, pois, que apesar da manutenção da supremacia do valor – ainda que, em grande parte, esta fosse ideológica – do oriente português, as autoridades castelhanas demonstravam também a sua preocupação com a garantia de uma administração conhecedora e consciente dos problemas e desafios apresentos pela crescente viragem do império para Atlântico. No entanto, eram homens conhecedores essencialmente das dinâmicas de Marrocos e Angola, não havendo no Conselho da Índia indivíduos cujas carreiras tivessem passado pelo Brasil.