Dimensões socio-políticas do Conselho da Índia
IV. 1 3 D Francisco da Gama
IV. 3. Conselheiros Letrados
No caso dos conselheiros letrados, acima de tudo importa-nos perceber em que órgãos da administração do reino estes desempenharam as suas funções, tanto antes como depois de serem nomeados para o tribunal ultramarino, de forma que possamos compreender o enquadramento do Conselho da Índia no sistema polissinodal português. Ao contrário do que acontece com os homens da nobreza, com façanhas militares muitas vezes bem documentadas e até descritas pelos cronistas da época, o mundo dos letrados é ainda um mundo pouco explorado, tendo o historiador de basear a sua análise em documentação tendencialmente fragmentada e pouco descritiva.
Na carta através da qual Francisco Vaz Pinto é nomeado membro do Conselho da Índia, ficamos a saber que os motivos que levam o monarca a escolhê-lo para integrar este novo tribunal assentam nos bons serviços por ele prestados como desembargador da Casa da Suplicação, e pela sua especialização em Direito Canónico. Naquela referente à nomeação de Vaz Pinto como Desembargador da Casa da
83 Suplicação podemos apenas reler os elogios já presentes na nomeação para o Conselho da Índia. É uma escolha baseada na satisfação do monarca relativamente aos bons serviços prestados pelo licenciado Francisco Vaz Pinto até àquele momento. Acrescenta apenas que este letrado havia representado Portugal em Roma, o que, supõe-se, já o seu tio teria feito, uma vez que segundo Hugo Ribeiro da Silva “em 1584 o cardeal de Santo Estevão, datário, pedia 400 ducados para que Francisco Vaz Pinto, sobrinho do agente de Portugal em Roma, fosse confirmado no arcediagado de Olivença, no cabido de Braga”227. A consulta deste documento não só praticamente não nos acrescenta
informações como levanta mais uma. Esta carta encontra-se, muito provavelmente por lapso ou do escrivão que se equivocou na escrita da data, ou do arquivista que a associou à Chancelaria de Filipe III, datada de 1596. Não podemos, assim, afirmar com exactidão se Francisco Vaz Pinto foi nomeado para a Casa da Suplicação no reinado de Filipe II ou Filipe III, ou se a data foi realmente 1596228. Era, segundo os dados recolhidos por Santiago Luxán, muito próximo de Pedro Álvares Pereira, secretário do Conselho de Portugal em Madrid, tendo por isso visto o seu nome ser afastado da lista de possíveis candidatos a ocupar o lugar de secretário desse Conselho, aquando o projecto de reforma de 1601. Argumentava-se, segundo o historiador, que nomear Vaz Pinto para tal cargo “seria parecido a deixar os papéis nas mãos do antigo secretário”229.
A 16 de Julho de 1604 é nomeado Sebastião Barbosa para com Francisco Vaz Pinto completar o quadro de Conselheiros Letrados do Conselho da Índia. A carta de nomeação segue a mesma fórmula da de Vaz Pinto. Depois da explicitação dos motivos que levaram o monarca a criar o dito Conselho, refere-se apenas que a nomeação de Sebastião Barbosa se devia ao bom serviço deste enquanto Juíz dos Agravos e Apelações da Casa da Suplicação.
Estes dois homens são substituídos, respectivamente, em 1609 e 1611 por Antão de Mesquita e Simão Soares de Carvalho, depois de ambos serem nomeados para o Desembargo do Paço. Enquanto “tribunal supremo do reino”, “centro da administração jurídica”, “cabeça do aparelho judicial português”230 e “última instância em matéria de
227 Hugo Ribeiro da Silva, O clero catedralício português e os equilíbrios sociais do poder (1564-1670),
Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de História Religiosa, 2013, p. 142.
228 Chancelaria de Filipe II, Livros de Padrões e Doações, Livro 2, Fl. 49.
229 Santiago de Luxán Meléndez, La revolución de 1640 en Portugal .... op. cit., 1988, p. 147.
230 Nuno Camarinhas, Juízes e administração da justiça no Antigo Regime: Portugal e o império colonial, séculos XVII e XVIII, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, p. 69
84 graça”231, chegar a Desembargador do Paço era atingir o topo da carreira letrada e um
estatuto de relevo no seio dos juízes do reino, sendo as nomeações vitalícias e trazendo consigo benesses simbólicas e de distinção social como os títulos de fidalgo e de Conselheiro de Estado232. Francisco Vaz Pinto foi ainda agraciado, em data incerta, mas por certo após a sua saída do Conselho e do Desembargo do Paço, com o cargo de Chanceler-Mor do Reino233. Sebastião Barbosa, por sua vez, recebe a aposentadoria em Janeiro de 1615, pela sua falta de condições para continuar a servir no Desembargo234. Os novos Conselheiros tinham ambos exercido as funções de Juízes na Relação de Goa, Antão de Mesquita em 1601 e 1602235 e Simão Soares de Carvalho em datas que desconhecemos neste ponto da nossa investigação. Tinham ainda currículos concordantes pela ocupação de cargos no Tribunal da Inquisição de Goa, que originaria conhecimentos fulcrais numa época em que os portugueses viam as suas possessões no Índico prejudicadas pelas acções dos hereges. Os seus percursos não são, todavia, totalmente coincidentes. O primeiro é mencionado numa carta do rei a D. Martim Afonso de Castro, datada de 1607, na qual se diz que tinha sido Juíz dos Feitos da Fazenda e servido também o cargo de secretário236. Segundo o Memorial de Ministros, Antão de Mesquita havia também sido Visitador da Relação do Porto antes de chegar ao Conselho da Índia. Simão Soares de Carvalho, por sua vez, foi Provedor dos Defuntos em Goa. Estes dois últimos letrados que são escolhidos para pertencer ao Conselho saem do mesmo apenas aquando a sua extinção, sendo nessa altura que Antão de Mesquita é direccionado para a Mesa da Consciência e Ordens. Relativamente a Simão Soares de Carvalho não encontramos, neste ponto da nossa investigação, dados sobre o seu percurso após a saída do Conselho da Índia.
Em tom de conclusão, há que notar essencialmente a concordância de currículos existente, sendo que qualquer um destes quatro letrados havia passado por tribunais da Relação, aquando a sua chegada ao Conselho da Índia. No entanto, aumenta em 1609, e reforça-se em 1611 o conhecimento dos membros do Conselho a propósito das dinâmicas jurídicas, mas também políticas, sociais e económicas do Estado da Índia,
231 Ibidem, p. 72. 232 Ibidem, p. 71.
233 Chancelaria de Filipe II, Livros de Padrões e Doações, Livro 42, Fl. 222v. 234 Chancelaria de Filipe II, Livros de Padrões e Doações, Livro 34, Fl. 52v.
235 Historical Archives of Goa, 1602, Janeiro, 19, cód. 855, fls. 49-50vº; 1602, Setembro, 3, cód. 3033,
fls. 273-274.
236 Carta do rei Filipe III para o vice-rei Martim Afonso de Castro, Madrid, 26 de Janeiro de 1607, in DRI,
85 algo que é proporcionado pela escolha de dois homens que haviam desempenhado as suas funções nas repartições da Casa da Suplicação de Goa, e não de Lisboa. Além disso, estabelecendo a comparação entre as carreiras dos Conselheiros de Capa e Espada e as dos juristas, concluímos que o Conselho da Índia constituía patamares diferentes na carreira de uns e outros. Para os primeiros, o tribunal ultramarino revelou-se como um fim – ou topo – de carreira: ou sairam dele aposentados, ou foram substituídos aquando a sua morte. Por outro lado, para os letrados o Conselho da Índia parece estar num patamar intermédio e possibilita hipóteses de ascenção profissional. Aparentemente mais jovens que os conselheiros de Capa e Espada quando chegam ao Conselho, os juristas saem deste tribunal por via de promoções, e não pela aposentadoria ou morte.
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