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Conselho Deliberativo da Comunidade Escolar (CDCE)

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CAPÍTULO 3: GESTÃO DEMOCRÁTICA NA ESCOLA ESTADUAL SÃO MIGUEL

3.2 A GESTÃO DEMOCRÁTICA NA PERSPECTIVA DA COMUNIDADE ESCOLAR

3.2.2 Conselho Deliberativo da Comunidade Escolar (CDCE)

A Lei 7.040/1998, em seu Art. 18, define que o CDCE deverá ser constituído paritariamente por profissionais da educação básica, lotados ou em exercício na instituição, pais ou responsáveis pelos estudantes e alunos matriculados e regularmente frequentes, tendo, no mínimo, 08 (oito) membros titulares e, no máximo, 16 (dezesseis) membros titulares. 50% (cinquenta por cento) devem ser constituídos de representantes do segmento escola e 50% (cinquenta por cento) de representantes da comunidade escolar, sendo o diretor da escola membro nato do CDCE. Essa porcentagem foi observada na EESM, o CDCE é composto por três representantes de cada segmento, totalizando 12 (doze) membros, porém, no último estatuto (vigente em 2020), consta a regra de 08 (oito) membros, constatando-se uma divergência entre a composição atual do Conselho em relação ao seu próprio estatuto. Tais registros se encontram no livro 02 do CDCE.

A Diretoria Executiva do CDCE é constituída pelo presidente, tesoureiro e secretário, como representantes legais do Conselho. Os estudantes podem ocupar os cargos de tesoureiro

e presidente se tiverem, no mínimo, 18 anos completos. Nesta composição, o diretor/a é membro nato do conselho, sendo eleito para um mandato de dois anos, empossado juntamente com o CDCE, podendo ser reeleito por uma única vez, como constam os dados no estatuto vigente de 2020.

O Art. 19, da Lei 7.040/1998, define que o mandato dos eleitos do CDCE é de dois anos, permitida sua reeleição por apenas um período. Já o art. 21, define que para fazer parte do Conselho, o estudante deverá ter no mínimo 14 anos, assim, somente a partir do 6º ano, o aluno terá direito a votar, deixando claro que esse aluno do sexto ano não poderá concorrer às eleições, somente poderá exercer o direito ao voto, devido à idade. O art. 24 veda a participação, no segmento de pais/mães ou responsáveis, de profissional da educação, que atue no estabelecimento de ensino. Cabe destacar que essa regra é aplicada na íntegra aos membros do CDCE da EESM.

Neste tópico, para obtermos uma organização das respostas, utilizamos A1 e B1 para identificar os membros do CDCE, e A2, B2 e C1, para os gestores que responderam às questões.

A participação da comunidade escolar no processo de gestão democrática é um instrumento fundamental para o exercício da gestão escolar, bem como para a integração da escola com a comunidade. A legislação, tanto nacional como estadual, proporcionou novas discussões democráticas no espaço da escola, proporcionando a prática democrática da participação e de criação dos CDCE’s, empoderando, assim, a comunidade como agente transformador de ações e de decisões na escola.

As escolas estaduais no Estado de Mato Grosso, como já vimos no capítulo 2, têm como instrumento regulatório, em relação a gestão democrática, a lei estadual nº 7.040/1998, que garante a eleição representativa para a direção da escola e dos CDCE’s, a qual veio substituir os processos de indicações para cargos de direção. Na sequência, apresentamos como esse processo foi vivido pela Escola São Miguel, através das respostas oferecidas pelos entrevistados.

O primeiro passo foi compreender o que é um Conselho Deliberativo e sua função. Para isso, foi aplicado um questionário composto de nove questões, buscando descrever o perfil/função de cada membro da diretoria na escola, a rotina de reuniões, as frequências das reuniões, a participação em cursos de formação e a motivação que os levou a participar do CDCE. Responderam à primeira questão, “Como você define conselho deliberativo”, dois membros titulares do CDCE e que fazem parte, atualmente, da diretoria executiva.

Para o colaborador da pesquisa “A1”, conselho deliberativo “É uma forma de gestão na qual a direção é compartilhada por um conjunto de pessoas (alunos, pais e funcionários”). Já o informante “B1” definiu conselho deliberativo “[...] como uma organização colegiada, constituída por vários representantes de todos os segmentos que compõem a comunidade escolar. Tem como função participar da tomada de decisão de cunho administrativo, financeiro e político-pedagógico da escola”. Percebe-se, nas duas respostas, uma afinidade com os princípios da gestão democrática, inclusive, conhecimento sobre a necessidade do diálogo e compartilhamento de informações em relação à gestão da escola. No entanto, a resposta de “B1” foi mais completa, uma vez que informou as atribuições inerentes aos membros do conselho deliberativo, diferentemente de “A1”, que não descreveu com mais detalhes os quesitos democráticos decisórios administrativos, pedagógicos e financeiros, como pilares de conhecimento de um membro do CDCE.

Como aponta Höfling (2001), há necessidade de se compreender que a política educacional deve estar presente nas ações dos sujeitos envolvidos nos processos de gestão democrática. Esse autor faz uma comparação a ordem mundial globalizada, afirmando que esta ordem busca formar sujeitos competitivos e que a política educacional deveria se preocupar mais com a formação do cidadão:

Numa sociedade extremamente desigual e heterogênea como a brasileira, a política educacional deve desempenhar importante papel ao mesmo tempo em relação à democratização da estrutura ocupacional que se estabeleceu, e à formação do cidadão, do sujeito em termos mais significativos do que torná-lo ―competitivo frente à ordem mundial globalizada (HÖFLING, 2001, p. 40).

Quando a política educacional, via gestão democrática, é assumida como valor e compromisso ético, as pessoas são motivadas a lutar pela melhoria do ensino a partir da participação coletiva. Nesse sentido, os dois entrevistados do CDCE da Escola São Miguel, ao responderem à questão O que te motivou a candidatar-se ao Conselho Deliberativo, foram unânimes em afirmar que seria por uma questão de melhor contribuir com o processo de aprendizagem na escola. O entrevistado “B1” afirma que seria para “Conhecer como funciona [CDCE] na prática e propor algumas ações para melhorar os índices da escola”. O entrevistado “A”, além de justificar o mesmo argumento de “B1”, acrescentou que “[...] tinha

interesse em ficar mais por dentro de tudo o que acontecia no meu ambiente de trabalho”.

Como forma de compreender a categoria participação, Santana (2012, p. 7), demonstra que a participação é fundamental no processo de transformação da sociedade, assim, como a proposta de participar do CDCE:

Participar dessa sociedade vai além de decifrar letras e sons, mas de entender e compreender a mensagem implícita ou explícita. Inserir-se nesse contexto e participar dele, pertencer a esse grupo como agente autônomo e capaz de promover transformação na sociedade.

Ainda com relação à questão das motivações para participarem do conselho deliberativo fica evidente, nas falas dos colaboradores da pesquisa, a vontade de conhecer o andamento do CDCE e contribuir com suas ideias. Ao responder à questão sobre como foi

assumir a função de conselheiro do seu segmento, o entrevistado “A1” justificou que “Apesar do tempo que temos para dispor de algumas atividades, foi bastante tranquilo”. Neste caso,

ele está se referindo ao fato de que não existe nenhum tipo de remuneração para o exercício de conselheiro e, sim, se trata de um trabalho voluntário que o profissional tem que se dedicar e conhecer por conta própria. A esta questão, se soma uma quarta pergunta, se o interlocutor já participou de alguma formação para conselheiro(a)”. As respostas indicam que os conselheiros, ao assumirem suas funções, não frequentaram cursos específicos por parte da Seduc/MT. A interlocutora “B1” afirmou que buscou, por conta própria, formação para entender o funcionamento do CDCE: “Fiz algumas formações à distância, leituras e

reuniões”. Já o entrevistado “A1” afirmou nunca ter participado de nenhuma formação de

conselheiro. “Até o presente momento, não fui comunicada de nenhuma formação”.

Neste caso, a não preocupação com a formação dos conselheiros é muito preocupante, pois as normas estatutárias buscam estabelecer formação individual para que os membros possam contribuir no processo decisório das ações do CDCE. Segundo Souza (2009), apesar da conquista da gestão democrática, o ato em si não garante a efetiva participação, cabendo aos envolvidos uma análise da proposta em si, de reconhecimento e pertencimento à comunidade, com seus valores para desenvolver um bom trabalho de conselheiro, decorrente de seu processo formativo:

O fato de determinada escola [...] ter conquistado a definição regimental da eleição direta para diretor ou da gestão democrática em todas as suas esferas, não significa, necessariamente, que o princípio democrático passou a ser, automaticamente, o elemento norteador das práticas político-pedagógicas dos profissionais que a constituem. É preciso muito mais que isso; o princípio legal é imprescindível, não há dúvidas. Mas, para se tornar efetivo, é preciso avançar para além dele. (SOUZA, 2009, p. 202)

Outra questão respondida diz respeito à organização das reuniões do conselho: Você se

reúne com seu segmento para discutir e deliberar sobre as necessidades da escola? Esta

perspectiva da gestão democrática. Infelizmente, nenhum dos questionados detalhou sobre como são realizadas as reuniões, o que discutem e deliberam. O entrevistado “A1”, afirmou que “Sim, já tivemos várias reuniões durante o ano de 2019, porém, este ano de 2020, por

motivo da pandemia do Coronavírus, ainda não foi possível nos reunir novamente”. O

colaborador “B1”, disse apenas que sim, que já tiveram reuniões, “[...] mas precisamos

melhorar nesse quesito”, com relação a melhorar a forma de organização do segmento. Com

relação à frequência das reuniões do CDCE, pergunta da questão 6, o interlocutor “B1” afirmou que, conforme o planejamento, deveriam ocorrer reuniões bimestrais, mas, nem sempre isso foi possível. “Foi proposto reuniões bimestrais, no entanto, nem sempre isso é

possível, até porque, ao longo da semana, sempre há diálogos com a gestão sobre as questões pertinentes que surgem ao longo do ano”. Já o entrevistado “A” também não soube, ao certo,

falar das frequências das reuniões, afirmando que elas ocorrem em “Até mais ou menos duas

vezes por semestre”.

Podemos perceber, pelas respostas, uma ausência de calendário de reuniões ordinárias, pois nenhum membro soube demostrar com que frequência elas acontecem e como são organizadas, já que parecem desconhecer e, por isso, não praticam as ações descritas no próprio estatuto do CDCE.

Todo CDCE possui normas e regras a serem seguidas, que devem ser de acesso público, pois as pessoas necessitam ter esse conhecimento e acesso para melhor compreensão das suas atribuições. Nesta perspectiva, perguntamos aos membros do CDCE se eles tinham “conhecimento do estatuto do CDCE”, integrando a questão sete. A resposta do interlocutor “A1” foi bem impactante, pois segundo ele, “Até o presente momento [o estatuto] não foi

apresentado”. Ou seja, ele não tinha conhecimento do documento que descreve as atribuições

e a própria organização do CDCE. Já o entrevistado “B1” afirmou não conhecer o documento por completo, como aponta, “Sim, no entanto ainda não o li na íntegra”.

O desconhecimento, parcial ou integral, do estatuto que disciplina a organização do CDCE, pode trazer problemas para a efetivação das ações dos membros do conselho, pois, o desconhecimento das regras, tanto de fiscalização, quanto de participação democrática efetiva pode comprometer a atuação destes conselheiros. O regimento interno, como afirma Mamedes (2005, p. 59), foi uma conquista “à liberdade e responsabilidade da escola na construção de sua identidade para gerir o ensino”. Assim, conhecer o estatuto interno é o primeiro passo para se assumir compromissos com a gestão democrática.

Em relação ao cargo da diretoria executiva do CDCE e se alguns dos informantes já haviam participado do conselho deliberativo: Você exerce ou já exerceu função na diretoria

executiva do CDCE (presidente, tesoureiro, secretário)? Se sim, em qual função? Como define suas atribuições”? O colaborador “A” afirmou que já participou como “Tesoureiro” e

que faz “o trabalho com transparência e responsabilidade”, apesar de não ter conhecimento do próprio estatuto. O entrevistado “B1”, por sua vez, descreveu que já esteve na condição de presidente, e afirmou que a aproximação com os membros do conselho é fundamental para o bom andamento das atividades escolares. Assim se expressou:

Estou como presidente durante o biênio da direção. São atribuições bem relevantes e, às vezes, decisivas. Nesse sentido, vejo que as relações dos conselheiros precisam ser mais próximas para que as ações sejam mais discutidas entre as partes, a fim de desenvolver propostas e metas que melhorem o desempenho da escola.

Foi perguntado aos colaboradores se poderiam descrever o que acreditam que deveria

melhorar no CDCE. Ambos mencionaram a necessidade de se ter reuniões mensais com a

gestão da escola, uma vez que não existe um calendário de reuniões ordinárias (entrevistado “A1”). Tal afirmação condiz com os questionamentos referentes à forma de organização dos membros do conselho, no sentido de se buscar um diálogo para o bom andamento das atividades do CDCE. Para Mamedes (2005, p. 62, “[...] com a autonomia e a descentralização do poder, a escola torna-se centro das decisões, ao mesmo tempo em que assume a responsabilidade dessas decisões”. Nesse sentido, é imprescindível a responsabilidade dos membros do CDCE sobre a condução das ações da escola, cabendo a eles decidirem os caminhos a serem seguidos.

A criação dos CDCE’s foi, sem dúvida, um avanço democrático dentro do espaço escolar, pois se tornaram uma ferramenta importante, contribuindo na formulação e acompanhamento de políticas públicas e no seu controle social. No contexto geral, percebemos que ainda existe uma fragilidade muito grande em relação ao CDCE da Escola São Miguel, desde a sua própria organização interna, com ausência de um cronograma sistemático de reuniões, como o diálogo entre seus próprios membros. Fica evidente, no entanto, a preocupação dos entrevistados diante das dificuldades para se implementar e manter os diálogos inerentes ao processo democrático, uma vez que os membros devem estar em constante vigilância para se evitar retrocessos e para que eventuais falhas possam ser corrigidas.

Após obtidas as respostas dos próprios membros do CDCE, perguntamos aos gestores sobre a atuação do CDCE, pois este é um aspecto que afeta diretamente os CDCE, se eles têm conhecimento e quais as principais ações na escola, já que para que exista uma boa gestão

democrática, devemos ter CDCE’s atuantes. “Sua escola possui Conselho Escolar? Como ele atua e quais são suas principais ações?”

O entrevistado “A2”, confirma a existência do CDCE na escola, porém, descreve suas atividades burocráticas, sendo que, em nenhum momento, foi citada uma ação como a de reunir os membros para se buscar melhorias na escola. Ao contrário, eles são vistos como atuantes à serviço da burocracia institucional.

Possui sim. Ele atua na avaliação e aprovação dos planejamentos financeiros, pedagógicos e de conflitos graves na Unidade Escolar. Também na execução financeira e na prestação de contas dos recursos federais e estaduais que a escola é contemplada. A atuação do nosso Conselho acredito ser proficiente devido o contexto em que estão inseridos os membros do mesmo, uma é que seus membros são voluntários e que, muitas vezes, ocupam várias funções na sociedade do tipo, família, emprego, associações não tendo como dedicar exclusividade ao CDCE. Suas principais ações são planejar, acompanhar a execução e fiscalizar todas as ações da Comunidade Escolar.

O entrevistado “B2” também afirma que os membros são eleitos pelos segmentos da comunidade escolar, e que são atuantes, mas não descreve nenhuma ação, assim como o “A2” também cita.

Sim, atuante e participativo. Um grupo formado por eleições composto por representações de cada segmento escolar: professores, pais, alunos e funcionários. Enfim há participação de todos representantes da comunidade escolar para deliberarem, fiscalizarem e mobilizarem a comunidade escolar com finalidade de auxiliar na gestão da EESM democraticamente.

Por sua vez, o entrevistado “C1”, afirmou que sua escola possui o CDCE e descreveu a sua função, com ações deliberativas, consultivas e mobilizadoras, como forma de encaminhamentos que um CDCE deve executar e promover, mas não citou qual a atuação do conselho da escola São Miguel.

Possui. Deliberativas: quando decidem sobre o projeto político-pedagógico, o PDE e o próprio Regimento Escolar, dentre outros assuntos da escola, aprovam encaminhamentos de problemas, garantem a elaboração de normas internas e o cumprimento das normas dos sistemas de ensino e decidem sobre a organização e o funcionamento geral da escola, propondo junto à direção as ações a serem desenvolvidas. Consultivas: quando tem um caráter de assessoramento, analisando as questões encaminhadas pelos diversos segmentos da escola e apresentando sugestões ou soluções, que poderão ou não ser acatadas pela direção da unidade escolar. Mobilizadora: quando promovem a participação, de forma integrada, dos segmentos representativos da escola e da comunidade local em diversas atividades, contribuindo assim para a efetivação da democracia participativa e para a melhoria da qualidade social da educação.

Concordamos com Almeida (1999, p. 44), quando afirma que a necessidade de demonstrar a participação deve assegurar que “o compromisso se dá pela reflexão do conhecimento e das ações. A reflexão-ação, de forma coletiva, permite estimular lideranças e desenvolver possibilidades de cooperação”. Conforme as respostas obtidas, podemos considerar que esse processo de reflexão e ação, de forma coletiva, está fragilizado entre os membros que compõem o CDCE da EESM.

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