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Capítulo II A Emergência de uma Elite Estatal do Planejamento: Os Espaços e seus

2.1. A Construção de Espaços de Planejamento: Os Conselhos Técnicos na Estrutura Estatal

2.1.2. Conselhos Técnicos na Assembleia Constituinte (1933-1934): uma proposta

A proposta de criação dos Conselhos Técnicos Nacionais se deu nos debates da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1933 e 1934, e foi apresentada por um grupo de deputados ligados ao Centro das Indústrias do Estado de São Paulo e à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP/FIESP)82 e que atuavam pela “Chapa Única por São Paulo Unido”.83 A proposta dos Conselhos Técnicos surgiu assim como uma contrapartida dos grupos industriais aos debates sobre a representação formal de associações profissionais no parlamento visando uma melhor articulação de interesses.84

Cabe salientar que, logo depois de 1930, mesmo antes da proposição dos Conselhos Técnicos na Assembleia Constituinte, os industriais já haviam pressionado pela instituição da dinâmica das Comissões Técnicas, no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, após o decreto de uma série de leis onde ficaram alheios aos debates. Assim, como salienta Costa (1999),

as comissões técnicas sempre foram vistas como mecanismos por excelência de solução de impasses e conflitos, tanto pelo governo como pelas elites empresariais paulistas. Serviam principalmente para

82 Havia cinco deputados ligados ao CIESP/FIESP na Constituinte de 1933/1934: Roberto Simonsen, Horácio

Lafer, Alexandre Siciliano Júnior, Pacheco e Silva, que haviam sido eleitos pela classe dos empregadores, e Ranulpho Pinheiro Lima, escolhido pela dos profissionais liberais. Os dois primeiros grifados, teriam posteriormente, participação direta nos debates sobre o planejamento do desenvolvimento econômico e industrial ocupando importantes posições seja dentro dos conselhos técnicos, ou através de comissões. Simonsen atuaria no CFCE, na CME, e no CNPIC; já Horácio Lafer atuou no CTEF, no CDI, na COMBEU, e como Ministro da Fazenda, no segundo governo Vargas.

83A “Chapa Única por São Paulo Unida” era um grupo político que reunia 17 das 22 cadeiras daquele estado e havia

sido formado pela união de duas agremiações que haviam se confrontado durante a década anterior (os Partidos Republicano Paulista/PRP e Democrático/PD). Posteriormente, também foram agregados a Associação Comercial, a Liga Eleitoral Católica (LEC) e a Federação dos Voluntários, entidade criada após o final do movimento de julho de 1932 e que cultuava o ideário da reação contra Governo Provisório de Getúlio Vargas. Para mais detalhes ver: Gomes, (1978 e 1980).

84Esse grupo compreendia que uma representação formal das associações no parlamento enfraqueceria sua atuação

dentro de um ambiente onde a participação seria diluída e minoritária, em relação às bancadas estaduais e partidárias. Além disso, seriam levados a se envolver em outros assuntos, que além de estarem fora da pauta de interesses, poderiam levar o grupo a se envolver com conteúdos estritamente “políticos”. Cabe ressaltar ainda, o repúdio e as restrições da “ideologia industrialista” sobre a atividade política calcada em interesses partidários, clientelísticos e pessoais da “política miúda”. Sobre a “ideologia industrialista” ver: Diniz (1978); Boschi (1979); Leopoldi (2000).

retirar da arena pública questões que envolviam interesses de atores relevantes, reduzindo o âmbito e o número de participantes no debate. Eram comprovadamente eficazes nos casos que exigiram negociação entre setores específicos e governo. (Costa, 1999: p.169).

A redução do número de participantes nos debates era uma estratégia de qualificação da representação, onde seus próceres “mais distintos, representativos, e relevantes” podiam negociar questões específicas com setores do governo. Para os industrialistas isso trazia ganhos concretos frente à diluição de uma representação de associações profissionais como a proposta que caminhava no parlamento.85

A proposta original dos Conselhos Técnicos objetivava a criação de quatro Conselhos Nacionais nas áreas de Economia, Educação e Saúde, Defesa e Trabalho, formados por ¾ de membros eleitos na forma indicada por lei ordinária, e ¼ nomeados pelo Governo. O Conselho de Economia teria representantes da indústria, do comércio, da agricultura, da pecuária, dos estabelecimentos bancários, de crédito e de finanças.86 A apresentação das propostas sobre os Conselhos Técnicos, e de suas emendas durante a Assembleia Constituinte, couberam aos deputados vinculados ao setor industrial paulista, mais precisamente, a Roberto Simonsen,

Horácio Lafer e Pinheiro Lima.

Nesse projeto, cabia aos Conselhos Técnicos auxiliar o parlamento propondo projetos de lei dando pareceres sobre assuntos de sua competência, e colaborando na regulamentação e na instrução para a execução das leis. Como consta na Emenda 779,

organizados esses conselhos pela representação de todos os grupos profissionais e de outras espécies, nenhum projeto de lei, atinente a interesses dos respectivos assuntos, poderá transitar e encontrar decisão final no parlamento político, sem o seu parecer que pode, conforme se manifeste, valer por uma colaboração de alta significação. Por outro lado, seguindo por inspiração

85 No mesmo período histórico, alguns teóricos como Oliveira Viana e Azevedo Amaral, também contrários à

representação parlamentar das associações profissionais, e defensores da incapacidade do modelo liberal clássico para atender à crescente complexidade da atividade pública, além de alicerçados pelas experiências recentes européias, defendiam a incorporação das associações profissionais como “conselheiras” do Estado, tanto no Executivo como no Legislativo. A esse respeito ver: Vieira (2010).

86O Conselho de Educação e Saúde, representantes dos institutos de ensino e educação, de saúde pública, bem como

de associações de finalidades congêneres. O Conselho de Defesa seria formado por indicados pelo Exército e pela Marinha. O Conselho do Trabalho, por representantes dos funcionários públicos, das associações de classe da produção e do trabalho. (Assembléia Nacional Constituinte, 1933-1934, Emenda 779).

própria e como órgãos também da criação da lei, esses conselhos podem e devem ter em regra, cumulativamente com as duas casas do Congresso, a iniciativa de propostas de todas as leis concernentes àqueles mesmos assuntos que estejam inscritos na área de sua competência especializada. (Assembleia Nacional Constituinte, 1933-1934. Emenda 779. v.4: p. 454-455). Assim, as lideranças industriais paulistas ligadas a CIESP/FIESP buscavam espaços privilegiados de participação e influência junto ao aparelho estatal. Nesse sentido, os Conselhos Técnicos passaram a ser uma alternativa viável e favorável não só ao projeto industrial, mas, segundo seus propositores, também com ganhos para a sociedade. Como afirmava Horácio

Lafer,

a organização que São Paulo propôs, traz inegáveis vantagens: sujeita todos os projetos atinentes aos aspectos substanciais da vida social e econômica, à opinião dos técnicos mais abalizados; desenvolve o espírito associativo, dando-lhe uma finalidade importante na vida do país; convida o legislador a um estudo mais atento dos assuntos de ordem pública, evitando aprovações perigosas de maiorias ocasionais; estabelece o controle constitucional da opinião pública sobre os atos dos governos; extingue o divórcio dos políticos e dos outros elementos de responsabilidade social; e não destrói a base jurídica da democracia. (Assembleia Nacional Constituinte. Op. Cit., v.12: 211). Desse modo, os industrialistas propuseram os Conselhos Técnicos para que as decisões passassem pelas representações de classe e gerassem um maior comprometimento entre as políticas públicas e os interesses sociais. Com esse argumento, visavam à legitimação constitucional para esses órgãos buscando garantir-lhes autoridade para participar da deliberação quanto a assuntos relativos à sua atividade. Assim, os Conselhos Técnicos foram pensados como fóruns de acesso direto dos interesses empresariais dentro da estrutura estatal.

A Constituição de 1934 acabou incorporando os Conselhos Técnicos, no seu artigo 103. Contudo, o alcance desses órgãos se distanciou daquele pretendido pelas lideranças industriais advindas do CIESP/FIESP na Assembleia Constituinte. Nesse sentido, apesar do formato aprovado pela Constituição de 1934 ser o sugerido pelos industriais – conselhos de caráter misto reunindo técnicos do Estado e representantes de associações profissionais – as funções aprovadas no texto constitucional foram fundamentalmente consultivas, visando qualificar a atividade

ministerial e parlamentar possuindo assim um caráter mais técnico consultivo do que deliberativo, como previsto originalmente na Emenda 779.87

De qualquer forma, por intermédio dos Conselhos Técnicos, a representação industrial participou de instâncias consultivas, fornecendo pareceres e propondo projetos sobre aspectos estratégicos das políticas e da legislação econômica e social. Se, num primeiro momento, não possuíam poder de deliberação, através da definição e/ou bloqueio da agenda de debates e de decisões, acabaram por assumir uma parcela das funções deliberativas, extrapolando a simples consulta ou a transmissão e troca de informações técnicas. Assim, para os industriais, os Conselhos Técnicos representariam a garantia de espaços para a representação de seus interesses, possibilitando intervir no processo decisório. Também lhes possibilitavam organizar seus interesses, trazendo-os definidos para as negociações e reformulá-los dentro de um processo interativo com os demais interesses.

2.1.3. Os Conselhos Técnicos como espaços de planejamento: Atribuições, Estrutura e