Capítulo III A consolidação de uma elite estatal do planejamento: Espaços, experiências, e
4.1. Planejamento e o processo de centralização decisória no Estado Ditatorial: espaços e
4.1.2. Os conselhos técnicos no Estado pós-1964
4.1.2.3. O Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI)
O Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI) tem sua origem na reforma administrativa implantada pelo Decreto nº 53.898, de 29 de abril de 1964, tendo sido inicialmente criado como uma Comissão de Desenvolvimento Industrial. Órgão subordinado ao Ministério da Indústria e do Comércio foi concebido como instrumento de promoção e regulação das atividades industriais.
Segundo o Decreto nº 53.898, no seu artigo 1º incumbia-lhe: a) formular os critérios gerais que deverão presidir à concessão de estímulos governamentais, em matéria de investimentos industriais respeitadas as competências específicas atribuídas, por lei, aos demais órgãos da administração; b) promover a aplicação coordenada desses estímulos, objetivando acelerar o processo de integração do parque industrial do país; e c) incumbir-se, no âmbito de sua competência das demais tarefas que forem atribuídas pelo respectivo Presidente.
O conselho deveria atuar como colegiado interministerial buscando centralizar as principais decisões relativas ao desenvolvimento industrial do país e coordenar as ações dos grupos executivos criados em diferentes momentos desde o início do governo de Juscelino Kubitschek. Portanto, o CDI deveria constituir-se em uma instância hierárquica superior na cadeia burocrática de decisões sobre política industrial.
No que diz respeito à sua composição, de acordo com o Decreto nº 53.898, de 29 de Abril de 1964, o CDI era presidido pelo Ministro de Estado da Indústria e do Comércio e, nos seus impedimentos, pelo Ministro do Planejamento e Coordenação Econômica. Eram membros do CDI os presidentes do BNDE, do Banco Central, representantes do Banco do Brasil (diretor da Carteira de Comércio Exterior e o diretor da Carteira de Crédito Industrial). Em 1966, o governo
introduziu novas mudanças na composição do conselho (Decreto-Lei nº 46, de 18 de novembro de 1966), ampliando-o e introduzindo novos membros: três da burocracia estatal, inclusive o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), e um do setor privado. A introdução de um representante dos militares correspondeu ao período de rápida institucionalização da doutrina de segurança nacional como um dos eixos de orientação de toda a ação estatal. Em 1969, foram introduzidas novas mudanças: em primeiro lugar, a heterogeneidade hierárquica foi substancialmente reduzida, com a eliminação de representantes do segundo escalão da burocracia estatal. O conselho passou a ser composto exclusivamente por ministros, no total de cinco, pelo chefe do EMFA (que tem status de ministro) e pelos representantes dos bancos estatais. Os representantes do setor privado passaram a ser os presidentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC), como mostra a tabela a seguir.311
Tabela 30 – Composição do Conselho de Desenvolvimento Industrial312
Membros 1964 1966 1969 Ministros Planejamento SG SG Fazenda X X Indústria e Comércio P P P Interior X X Minas e Energia X X EMFA Presidentes de Bancos X X BB X X BC X X BNDE X X
311Decreto nº 53.898, de 29 de Abril de 1964, Decreto nº 65.016, de 18 de Agosto de 1969.
312Fontes: Decreto nº 53.898, de 29 de Abril de 1964, Decreto nº 65.016, de 18 de Agosto de 1969, e Codato (1995:
Repr. Privada
CNC
CNI X
X
Empresários X X
Tabela elaborada pelo autor
Legenda: P=Presidente; SG = Secretário Geral; X =Membro Efetivo; = 3 representantes.
Segundo Abranches (1978), as permanentes alterações na estrutura do conselho têm como tendência básica o aumento do número de representantes de agências governamentais, e o aumento da representação do setor privado, mas, ao longo do tempo, há a tendência de eliminação da representação privada. É importante ressaltar a heterogeneidade hierárquica, do conselho, o qual era composto por ministros (do Planejamento e da Indústria e Comércio), diretores de agências estratégicas de segundo escalão, e representantes do setor empresarial.
Segundo Abranches, entre 1964 e 1976, vários decretos e regulamentações internas determinaram inúmeras alterações na estrutura e nos procedimentos do CDI. Estas mudanças deram-se, principalmente, ao longo de três dimensões: alterações na estrutura formal de representação colegiada ou na própria composição do colegiado; mudanças na estrutura decisória (por exemplo, no número, posição hierárquica ou nível das instâncias decisórias); mudança na estrutura de recursos, (por exemplo, tipo, quantidade e abrangência dos incentivos à formação de capital).313
Nas modificações do Decreto nº 65.016, de 18 de Agosto de 1969, no seu artigo 2º, são objetivos e diretrizes da política de desenvolvimento industrial: I - Fortalecimento da empresa privada, notadamente a nacional, cujo poder de competição deve ser aumentada interna e externamente; II - Aceleração da taxa de crescimento de emprego da mão-de-obra; III - Defesa da tecnologia nacional e absorção de tecnologia do exterior de forma compatível com os fatores de produção do País; IV - Implantação de setores novos de produção e de tecnologia mais avançada, à medida que as dimensões do mercado interno permitam sua operação econômica; V - Desenvolvimento de setores novos voltados para o mercado externos; VI - Complementação e integração do parque industrial existente, tendo em vista: a)a adequada flexibilidade das linha de produção; e b) a substituirão de equipamentos obsoletos, ou incapazes de desempenhar nova e
eficiente função de produção; VII - Dimensionamento das unidades de produção em escalas compatíveis com a eficiência econômica e preservação do poder de competição; VIII - aprimoramento da produção através do estabelecimento de padrões e de normas técnicas nacionais.
Em 1975, o CDI entrou em profunda crise, suscitada tanto pela desaceleração da atividade econômica, que produziu nova e imediata centralização das decisões de política econômica, quanto pela ausência de uma estratégia mais clara e definida de investimento industrial.
Ao longo de todo o seu período de atuação, o desempenho do CDI seria marcado por contradições, tensões e contrações na política industrial e, sobretudo, na prática de seleção e aprovação de projetos. Parte dos objetivos explícitos da política industrial jamais foi implementada pelo CDI e, mais que isto, foi contrariada de forma recorrente. Nem todo o ônus por esta divergência entre plano e prática cabe, entretanto, à ação do CDI. Foi também responsável por estes resultados a própria concepção político-organizacional que lhe deu origem, reduzindo sua autonomia e prevendo incentivos cuja eficácia dependia, em larga medida, da decisão de outras agências governamentais, como o Ministério da Fazenda, CPA, a Cacex, o BNDE e assim por diante.
Com a crescente diminuição até a extinção, pelo ministro Mário Henrique Simonsen, do tipo de incentivos administrados pelo CDI, no final do governo Ernesto Geisel, assistiu-se ao quase completo esvaziamento do CDI e a transformação de suas funções, que se tornaram cada vez mais de natureza puramente acessória.
4.2. Planejadores do Desenvolvimento Econômico e Industrial (1964-1982): Perfil,