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4.2 OGs existenciais

4.2.3 Conseq¨uˆencias da an´alise

Tendo mostrado a derivac¸˜ao de uma OG existencial, podemos voltar nossa atenc¸˜ao para as conseq¨uˆencias que essa an´alise pode ter. Primeiro, vamos ver como a an´alise apresentada pode derivar os efeitos de definitude de uma OG existencial sem recorrer a marcac¸˜ao excepcional de Caso inerente. Depois, passamos para o comportamento de construc¸˜oes existenciais em relac¸ˆao `as propriedades em que a an´alise se baseia.

Uma caracter´ıstica intrigante de OGs existenciais ´e que o sujeito delas parece exibir efeitos de definitude, apesar desse sujeito n˜ao ser ele mesmo um argumento do verbo existencial. Na an´alise proposta, o sujeito da OG tem o seu trac¸o de Caso valorado como partitivo depois do morfema de ger´undio ter tido o seu pr´oprio trac¸o de Caso valorado pelo verbo existencial. Essa ´e a ordem em que derivac¸˜ao ocorre porque, quando operac¸˜oes sint´aticas s˜ao desencadeadas ao n´ıvel da fase (o CP-matriz), o trac¸o de Caso do morfema de ger´undio, valorado com Caso partitivo, ´e o alvo mais pr´oximo que o sujeito da OG pode c-comandar. Apesar de n˜ao rece- ber Caso partitivo do verbo existencial, o sujeito da OG acaba recendo essa especificac¸˜ao de Caso indiretamente, via o trac¸o correspondente no morfema de ger´undio. N˜ao ocorre marcac¸˜ao excepcional de Caso inerente, como desejado. Ainda assim, o sujeito da OG existencial ´e es- pecificado como partitivo e, como tal, tem que obedecer `as restric¸˜oes impostas por esse Caso.

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E assim que a an´alise captura os contrastes em(37)vs. (38): somente sujeitos indefinidos s˜ao compat´ıveis com o Caso partitivo que o sujeito da OG existencial recebe por tabela. O trac¸o de Caso que eu proponho que o morfema de ger´undio tem exerce um papel crucial nessa tentativa de capturar os efeitos de definitude em OGs existenciais.

Quanto `as propriedades dependentes de TP, como os demais membros da classe 3, OGs existenciais n˜ao podem licenciar negac¸˜ao sentencial –(46)– ou um adv´erbio sentencial –(47). (46) ???Tem v´arias crianc¸as n˜ao mexendo um dedo na sala 234.

(47) ???Tem crianc¸as provavelmente correndo no estacionamento.

Essas propriedades podem ser capturadas pela assunc¸˜ao de que negac¸˜ao sentencial e adv´erbios sentenciais s˜ao elementos que pressup˜oem TP, em conjunc¸˜ao com a proposta de que OGs de

classe 3como o subtipo existencial n˜ao cont´em essa projec¸˜ao.

No entanto, ao contr´ario dos demais membros da classe 3, OGs existenciais n˜ao permitem o alc¸amento do seu sujeito para dentro da orac¸˜ao-matriz. Esse ´e o comportamento esperado de

4.2. OGs existenciais

OGs de classe 1, as OGs que s˜ao auto-suficientes para Caso (ver cap´ıtulo3). (48) *Crianc¸as tem/tˆem t correndo no estacionamento.

Esse contraste n˜ao p˜oe a an´alise em risco porque pode ter um fator independente em jogo. Agora que n´os vimos a derivac¸˜ao de OGs existenciais, podemos identificar esse fator independente: ´e o Caso partitivo que eu assumo que o verbo existencial atribui para o seu complemento. Esse Caso tamb´em ´e respons´avel, indiretamente, por valorar o Caso do sujeito da OG e, como sub- produto, pelos seus efeitos de definitude. Outra consq¨uˆencia ´e que o sujeito fica congelado dentro da OG.

No sistema de valorac¸˜ao de trac¸os assumido, um objeto sint´atico se move ou para estender o seu dom´ınio de sondagem ou para escapar de Spell-out. Numa sentenc¸a contendo uma OG existencial, uma fase s´o ´e constru´ıda quando o CP-matriz ´e constru´ıdo. A essa altura, o Caso partitivo j´a foi atribu´ıdo para AspP pelo verbo existencial e [Spec, AspP] vai ser a posic¸˜ao mais pr´oxima para onde o sujeito da OG pode se mover para ter o seu trac¸o de Caso valorado. Essa posic¸˜ao est´a abaixo de [Spec, TP]-matriz e, portanto, o sujeito da OG existencial n˜ao precisa e, portanto, n˜ao pode, se mover para l´a. Dito alternativamente,(48)´e agramatical porque ela viola a condic¸˜ao de economia que pro´ıbe operac¸˜oes sint´aticas v´acuas.

Poder´ıamos dizer que OGs existenciais s˜ao indiretamente auto-suficientes para Caso, do que decorre a semelhanc¸a de alc¸amento com OGs de classe 1. Essa auto-suficiˆencia para Caso ´e de natureza diferente. Em OGs de classe 1, ela ´e uma conseq¨uˆencia da composic¸˜ao estrutural da OG: acima do AspP m´ınimo, TP e CP s˜ao constru´ıdos. Al´em do mais, um trac¸o de Caso ´e herdado por T a partir de C. Esse Caso congela o sujeito da OG de classe 1 dentro da OG. Em OGs existenciais, somente o AspP m´ınimo ´e projetado, mas o predicado existencial na orac¸˜ao- matriz ´e capaz de atribuir Caso inerente ao seu complemento, a OG. Mais tarde na derivac¸˜ao, esse Caso da OG ´e atribu´ıdo tamb´em ao sujeito dessa OG e, como resultado disso, esse sujeito vai ficar congelado dentro da OG.

Ainda outra caracteristica que OGs existenciais n˜ao compartilham com os demais membros da classe 3 ´e que o seu sujeito n˜ao pode ser uma an´afora e ela tamb´em n˜ao permite uma leitura de escopo invertido. A explicac¸˜ao ´e que n˜ao tem espac¸o numa sentenc¸a contendo uma OG existencial para um antecedente para a an´afora ou para um segundo quantificador. Logo, a agramaticalidade de(49)´e uma violac¸˜ao ao Princ´ıpio A.

(49) *Tem se correndo no estacionamento.

O dom´ınio de vinculac¸˜ao da an´afora tem que ser o CP-matriz porque essa ´e a menor fase que cont´em essa an´afora. N˜ao existe nenhum sintagma c-comandante apropriado para ser o antece- dente da an´afora. O ´unico sintagma c-comandante ´e pro, o qual, por ser um expletivo, n˜ao pode ser um antecedente. Assim, novamente, existe um fator independente que explica o compor- tamento divergente de uma OG em relac¸˜ao aos outros membros da mesma classe. Algo desse tipo tamb´em pode ser dito sobre a leitura de escopo invertido.