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SUMÁRIO 1 APRESENTAÇÃO

2) Isolamento e recusa de comunicação A vítima é interrompida constantemente.

3.1.2 Consequências do assédio moral no trabalho

O assédio moral traz graves consequências individuais, organizacionais e sociais. (Elgenenni, 2007; Freitas, 2007; Freitas, Heloani, & Barreto, 2008; Martiningo Filho, 2007; Yung, 2011). A dimensão subjetiva das consequências do assédio moral no trabalho vem sendo contemplada em diversos estudos nos últimos anos. Em nível psicológico, as consequências são variadas e com efeitos devastadores sobre a saúde e o bem-estar dos indivíduos (Einarsen et al., 2011). Um indivíduo que sofre assédio moral, passa a desenvolver tensão psicológica, sentimento de culpa e autovigilância. Não obstante, suas emoções ficam prejudicadas, provocando danos emocionais (Barreto, 2006).

Segundo Hirigoyen (2001), as pessoas lidarão de forma diferente com comentários hostis frequentes, podem ser mais ou menos afetadas de acordo com sua história familiar e experiências anteriores. É comum que se apresente desgastes emocionais (Sanches, Mota, & Costa, 2011), tristeza, ansiedade, cansaço, desequilíbrio do sono, frustração, baixa autoestima, transtornos paranóides e ideias de suicídio (Barreto, 2006). De acordo com Barreto (2000, p. 242) “quando o homem prefere a morte à perda da dignidade, se percebe muito bem como a saúde, trabalho e emoções, ética e significado social se configuram num mesmo ato, revelando a patogenicidade da humilhação”. O assédio atinge a identidade do indivíduo tão profundamente a ponto de ele sentir que é culpado pelo seu sofrimento (Hirigoyen, 2001).

Em estudo realizado por Garcia e Tolfo (2011) com nove trabalhadores que registraram denúncias na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Santa Catarina (SRTE/SC), observou-se a existência de culpa no discurso de seis participantes e a vergonha esteve presente no relato de todos, resultando no paradoxo do agredido que se

sente culpado. Doenças fisiológicas e problemas psicossomáticos estão presentes na maioria dos casos de assédio. Um estudo realizado por Halberg e Strandmark (2006) e mencionado por Einarsen et al. (2011) encontrou dados que apontam o desenvolvimento de sintomas crônicos, como hipertensão, problemas cardíacos e respiratórios e enxaquecas.

Os problemas relacionados à depressão também mostraram-se presentes nas pesquisas (Harasemiuc & Bernal, 2013), além de afastamentos no trabalho, perda do emprego e apatia (Hirigoyen, 2001). O levantamento realizado por Hirigoyen (2001) mostrou que 74% dos participantes passaram por um período de interrupção do trabalho por problemas de saúde. Dentre as 193 pessoas, 131 informaram o tempo de afastamento: 23% delas passaram por uma interrupção de menos de um mês; 23,5% de um a três meses; 36% de três meses a um ano; 10,5% de um a dois anos e 7% ficaram afastados do trabalho por dois anos ou mais. Os estudos evidenciam que o assédio moral no trabalho é um estressor social extremo com potencial efeito traumático (Lazarus, 1999 apud Hogh, Mikkelsen, & Hansen, 2011). Nesse sentido, considera-se que mesmo após a recuperação da crise emocional, alguns indivíduos podem permanecer em um estado de confusão e ansiedade constantes, como nos casos de estresse pós-traumático. Não se trata de um sofrimento decorrente de uma situação específica ocorrida no local de trabalho, nem de uma simples diferença de opinião e suas consequências podem até ser comparadas com traumas de guerra (Leymann & Gustaffson, 1996 apud Bradaschia, 2007). Freitas, Heloani e Barreto (2008) reforçam que o indivíduo que sofre assédio moral apresenta-se sem forças para seguir em frente e ir para o trabalho nos dias seguintes. Os efeitos psíquicos para o indivíduo, segundo Birman (2005), são profundos e proporcionam sensação de impossibilidade de agir:

Não existindo qualquer reconhecimento dos outros pelo que experimenta a personagem visada, essa não sabe mais qual é a fronteira entre o que imagina e o que é real. Em conseqüência disso, não é incomum que esta acredite que esteja enlouquecendo, já que não são evidentes as razões para a perseguição que vivencia. O colapso psíquico, enfim, é a resultante maior desta experiência inquietante (p. 33).

Ao considerar essas consequências, Soboll (2008) ressalta que o sujeito que não encontra mais espaço no mundo do trabalho passa de trabalhador para imprestável, inútil e fracassado. Com uma imagem ruim

de si mesmas, essas pessoas apresentam-se incapazes para buscar um novo trabalho (Hirigoyen, 2001). Leymann (1990, 1996) chama a atenção para o risco de o assediado receber um diagnóstico paranóico, maníaco- depressivo, de desordem de ajustamento ou desordem de caráter. Isso pode dificultar a forma como o indivíduo lidará com o sofrimento, o diagnóstico e como sua família reagirá a essa situação.

As consequências para o indivíduo afetam diretamente a organização como um todo. Neste âmbito, encontram-se os casos de suicídio no trabalho, que ganharam atenção na mídia a partir de 2008, com casos evidenciados em grandes corporações na França, como: France Telecom, EDF, Peugeot, Renault e Carrefour. No Brasil, embora se tenha conhecimento de alguns casos, tende-se a tratá-los como estatística e a maioria dos setores não apresenta dados sobre este fenômeno (Freitas, 2011). No setor bancário, foco de atenção de muitos estudos (Elgenenni, 2007; Maciel, Cavalcante, Matos, & Rodrigues, 2007; Soboll, 2008) consta o número de 253 casos de suicídio entre 1993 e 2005 (Freitas, 2011). Estudos realizados nos últimos anos ressaltam a relação existente entre o ambiente de trabalho e o suicídio (Barreto, Netto, & Pereira, 2011; Soares, 2011; Venco & Barreto, 2010). Nos estudos de Soares (2011), realizados no Quebec, foi possível identificar que os indivíduos que sofrem assédio moral no trabalho estão mais propensos à ideação suicida.

Algumas iniciativas vem sendo desenvolvidas para atuar com as vítimas e as consequências do assédio moral no trabalho. Martins, Caldas, Cugnier, Goulart e Tolfo (2012) relatam a experiência de um atendimento grupal para trabalhadores assediados moralmente. O objetivo da intervenção era restabelecer o poder de ação dos participantes. Durante os encontros, um participante buscou apoio e solicitou transferência de setor; outro diminuiu o uso de antidepressivo e medicamento para dormir, além de pensar sobre sua volta ao trabalho. A possibilidade de minimizar a repercussão negativa do assédio nas relações familiares foi apontada como um ponto positivo do trabalho em grupo.

Como consequências para a organização, pode-se mencionar o absenteísmo e desmotivação do assediado e dos outros empregados (Hirigoyen, 2001), rotatividade, custos de reposição de pessoal, produtividade e qualidade reduzidas, perda de equipamento, erros e acidentes de trabalho, aposentadorias prematuras, diminuição da adesão aos objetivos organizacionais (Hoel, Sparks, & Cooper, 2001). Também aparecem custos menos palpáveis, como desinteresse, percepção negativa da empresa que será repassada a conhecidos, entre outros (Harasemiuc & Bernal, 2013).

As consequências para a sociedade envolvem os custos com despesas médicas, hospitalizações, seguro-desemprego, aposentadorias antecipadas (Hirigoyen, 2001). Freitas (2007, p. 6) ressalta que “cada vez que um profissional capaz é tornado incapaz, todos os indivíduos dessa sociedade pagam a conta”, pois os custos de tratamento e licenças de afastamentos são pagos por órgãos públicos e com verba proveniente de impostos. Essas consequências salientam a necessidade de analisar o assédio como um problema, também econômico, que merece atenção.

A sociedade, as organizações, as relações profissionais, familiares e afetivas do indivíduo são afetadas pelas consequências do assédio moral no trabalho, proporcionando o desenvolvimento de conflitos e segredos diante de pessoas próximas. Neste contexto, estudar as repercussões do assédio moral no trabalho para a família, implica em conhecer os aspectos que compõem a esfera familiar. As consequências para a família serão melhor explicitadas no último capítulo da Introdução.