A PROBLEMÁTICA DO INSUCESSO E ABANDONO ESCOLARES
2.5. Consequências do insucesso e abandono escolares
O insucesso repetido e/ou não cuidado pela Escola é nefasto para um aluno, baixa a auto-estima e a motivação, aumenta conflitos com a família e, também, com os pares pela diferença de idades. Leva à descrença do valor do investimento na educação e eleva o custo de oportunidade pelos estímulos exteriores à Escola, traduzindo-se num mal-estar e «conflito latente» com a Escola até chegar ao ponto de ruptura e, consequente, abandono escolar. O processo mais ou menos lento depende das interacções de cada aluno e da sua resiliência escolar, isto é, da “capacidade do indivíduo ficar na Escola, apesar dum conjunto de características dos subsistemas que motivariam para o abandono escolar” (ME/MSST, 2004, p. 28).
O insucesso induz o aluno a resignar-se à sua condição de falhado que se repercutirá no seu percurso pessoal académico e profissional. O optimismo e inteligência emocional não estarão, com certeza, ao seu serviço para a mudança e aproveitamento das oportunidades.
Só com elevação gradual da auto-estima e conquista da auto-confiança é possível reencontrar o orgulho e a alegria de um vencedor. É fundamental agir e, mais ainda, induzir o aluno à reflexão pelo confronto com as suas capacidades e interesses, para ele não desistir e encolher os ombros. É preciso que o aluno elimine as «mensagens negativas» que comunica a si próprio, quando encara a possibilidade de inverter o seu insucesso escolar, tais como: “De que serve tentar? Nunca serei capaz de fazer isso; Falho sempre; As pessoas como eu não triunfam; Tenho medo de fracassar; Já me aconteceu sair-me bem a princípio e, depois, voltar a cair no mesmo” (Colclough, 2004, p.118).
É possível reinverter o fenómeno do insucesso e torná-lo enriquecedor para o aluno, ajudando-o a gerir as suas emoções e proporcionando-lhe
72 momentos de reflexão, para que ele não desista. Uma cultura de pobreza endémica afecta, negativamente, as expectativas do aluno.
Após uma desistência motivada pelo insucesso, o retorno à escola e à aprendizagem qualificante afigura-se dificultado por uma «auto-sabotagem».
“Alguns têm tanto medo de falhar que nem sequer tentam, porque, assim, julgam eles, não têm de ser confrontados com o facto de as coisas terem corrido mal, ou seja, já decidiram que iam fracassar.”
Beechy e Josephine Colclough, tr. Cardoso, 2004, p. 9
Além disso, quando o adolescente abandona a escola inserindo-se numa configuração tradicional do emprego, geralmente precário, desenvolvendo uma actividade profissional do tipo “postos de trabalho/empregos bem definidos, com tarefas simples e fragmentadas; trabalho rotineiro e separação entre pensamento e acção; autonomia reduzida ou inexistente, ênfase no trabalho prescrito” (Rui Marques in Carneiro, 2000, p. 27), a tendência é que esse adolescente eleve a sua auto-estima e conquiste a auto-confiança, mesmo que efémera, mas dando- lhe a sensação que fez a opção certa. Se a sua ambição não se esbarrar logo com exigências académicas, o mais provável é que este adolescente não retorne à escola, pelo menos tão cedo quanto desejável, comprometendo o seu futuro e a coesão social. Geralmente, são os menos escolarizados e qualificados os que não conseguem competir, principalmente nesta era do chamado emprego precário, com exigências crescentes de modernização e empreendedorismo nas organizações.
O abandono escolar desqualificado está associado à empregabilidade precária, quer ao nível dos salários quer ao nível das condições e «estabilidade» no percurso profissional, pois para além do processo de selecção a educação escolar também tem efeitos que ultrapassam a aprendizagem cognitiva, influenciando as atitudes e o comportamento dos trabalhadores (Requejo, 2003, p. 40).
73 O desajuste entre a educação e o emprego é tanto maior quanto maior for a procura social da escolarização superior sem a alteração dos índices de abandono escolar, porque, se por um lado, “a existência de grandes caudais de elevadas qualificações conduz à expulsão progressiva dos activos menos qualificados” (Azevedo, 2002, p. 6), por outro lado, com tanta oferta de «mão-de- obra» desqualificada a «custo baixo» para os empregadores, também “crescem os conflitos entre as expectativas dos diplomados acerca do tipo de empregos e acerca dos rendimentos correspondentes ao seu nível de qualificações escolares e a situação real em que se encontram perante o emprego” (idem, p. 11). É fatal que surjam as seguintes consequências: - Desempregados com baixas qualificações, as dificuldades de reconversão profissional aumentam; - Desempregados que possuem qualificações superiores às exigências do mercado, as dificuldades de satisfação das suas expectativas aumentam.
“Apesar disso, a educação é vista como um investimento privado rentável tanto para o indivíduo como do ponto de vista empresarial. Não tanto porque garanta o emprego do mesmo nível, mas porque oferece pelo menos uma certa possibilidade de dispor de empregos «menos maus» que os que vão ocupar quem atingiu menores «níveis de educação».”
Agustín Requejo Osorio, 2003, p. 40
Em regra, numa situação de desemprego as pessoas mais escolarizadas tendem a permanecer menos tempo à procura de novo emprego do que as menos escolarizadas (Plano Nacional de Emprego 2005-2008, p. 12).
Num âmbito mais alargado, uma população activa com baixas qualificações repercute-se ao nível da igualdade de oportunidades e coesão social e ao nível da inovação e competitividade das empresas e da produtividade e crescimento económico do País (CE, 2004, p. 13).
A evolução da produtividade e da competitividade das empresas portuguesas depende cada vez menos dos factores materiais, pelo contrário, depende cada vez mais da qualificação dos trabalhadores de forma a introduzirem valor acrescentado nos processos de trabalho e com melhor organização do trabalho, pela inovação e empreendedorismo (Plano Nacional de
74 Emprego 2005-2008, p. 19), numa configuração dos empregos emergente (Rui Marques in Carneiro, 2000, p. 27): “empregos de geometria variável, com definições menos especificadas; trabalho mais abstracto e intelectual; no lugar de rotinas, necessidade de reacção, antecipação, criatividade, tomada de decisões e resolução de problemas; combinação entre pensamento e acção.”
“As nossas sociedades serão estruturadas cada vez mais pela relação cognitiva. A educação e formação serão os principais vectores de identificação, pertença e promoção social.”
Agustín Requejo Osorio, 2003, p. 29