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Consequências e estratégias de tratamento

3.4 SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL

3.4.2 Consequências e estratégias de tratamento

O meio pelo qual os pais encaram o processo de divórcio ou de dissolução da união estável são fatores determinantes para mensurar como os filhos menores irão se comportar no futuro em relação às próprias relações pessoais.

Nesse sentido, Madaleno e Madaleno esclarecem que se os pais retornam à rotina, mais ou menos como antes, por terem aceitado e digerido melhor a ruptura da relação conjugal, a ansiedade e angústia dos filhos menores tendem a desaparecer com o tempo. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 54).

De outro modo, os pais que não superam seus conflitos conjugais, oriundos do término da relação, ou que iniciam o processo típico de síndrome de alienação parental inclinam-se a criar péssimas rotinas com seus filhos menores, por anos a fio. Assim, doutrinam Ana Carolina Carpes Madaleno e Rolf Madaleno:

[...] Seus filhos, que, ao vivenciarem experiências ruins, mudanças imprevisíveis, ambiente instável e interrupções no seu processo normal de desenvolvimento, passam a ter uma visão distorcida do mundo, sendo frequente o medo do abandono – emoção mais fundamental do ser humano – a ansiedade e, em especial, a angústia que podem gerar diversas fobias na fase adulta. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 54).

45 Por consequência da síndrome de alienação parental, portanto, as crianças ou adolescentes tornam-se manipuladoras, aprendem a falar parcialmente a verdade e a exprimir falsas emoções, assim como não possuem tempo para as preocupações próprias de sua idade. (PODEVYN, 2001).

Madaleno e Madaleno destacam, ainda, que “a consequência mais evidente é a quebra da relação com um dos genitores. As crianças crescem com o sentimento de ausência, vazio, e ainda perdem todas as interações de aprendizagem, de apoio e de modelo.” (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 54).

No que se refere à área psicológica, reforçam os doutrinadores Ana Carolina Madaleno e Rolf Madaleno que:

[...] Também são afetados o desenvolvimento e a noção do autoconceito e autoestima, carências que podem desencadear depressão crônica, desespero, transtorno de identidade, incapacidade de adaptação, consumo de alcool e drogas e, em casos extremos, podem levar até mesmo ao suicídio. A criança afetada aprende a manipular e utilizar a adesão a determinadas pessoas como forma de ser valorizada, tem também uma tendência muito forte a repetir a mesma estratégia com as pessoas de suas posteriores relações, além de ser propenso a desenvolver desvios de conduta, como a personalidade antissocial, fruto de um comportamento com base na baixa capacidade de suportar frustrações e de controlar seus impulsos, somado, ainda, à agressividade como único meio de resolver conflitos [...]. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 54).

Em igual sentido, Madaleno e Madaleno asseveram que as crianças e adolescentes submetidas a condutas de um agente alienador tornam-se ansiosos, dependentes e inseguros, e passam a ter alterações de sono, alimentação, falta de atenção e concentração, além de outras condutas revoltosas de interação social. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 55).

Verificadas as consequências da síndrome de alienação parental depreende-se que induzir a criança em tal fenômeno é uma forma de abuso. Por isto, em casos de abusos sexuais ou físicos, as crianças ou adolescentes tendem a superar os traumas sofridos com o tempo. Ao contrário, entretanto, daquelas que sofrem abuso emocional, pois tal modalidade repercute imediatamente em consequências psicológicas negativas, gerando problemas para o resto da vida. (PODEVYN, 2001).

Assim, Podevyn complementa que a longo prazo a síndrome de alienação parental gera um sentimento de culpa incontrolável na criança ou adolescente, pois estes quando adultos constatam que foram inconscientemente cúmplices desta campanha contra o agente alienado. (PODEVYN, 2001).

Não obstante os inúmeros problemas psicológicos e físicos causados às crianças e adolescentes, ao longo do tempo foram surgindo algumas estratégias de tratamento que

46 buscaram a imediata e pontual atuação do Poder Judiciário a fim de impedir a instalação da síndrome de alienação parental.

Desta forma, demonstra-se extremamente difícil enfrentar referido instituto, tanto pelo agente alienado, que frustrado e desgastado afasta-se do filho, quanto pelos próprios operadores de direito, que muitas vezes não sabem o que alegar no caso concreto ou pouco conhecem acerca da efetiva gravidade desta síndrome.

De fato, diante da extrema dificuldade em evitar a consolidação das condutas do agente alienante, “[...] de parte do genitor alienado, não pode haver esmorecimento, porquanto ele não deve ceder aos sentimentos conflitantes que experimenta em razão de seu próprio filho lhe desferir uma série de insultos.” (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 56).

Deste modo, o genitor alienado, que muitas vezes é o próprio pai da criança ou adolescente, deverá tentar reconstruir os vínculos afetivos, consoante bem destaca Ana Carolina Madaleno e Rolf Madaleno:

O pai alienado deve ter em mente que as palavras proferidas não correspondem realmente com o verdadeiro sentimento do menor e precisa mostrar com atitudes – e não respondendo aos insultos – que a criança está enganada ao odiá-lo, devendo buscar momentos bons com seu filho. [...] Ou seja, deve o pai alienado ter momento de qualidade com a criança, tentando reconstruir e estreitar os vínculos de filiação que intentam ser covardemente rompidos pelo genitor alienador. Mesmo porque passividade e tolerância são ineficazes quando se trata de alienação parental. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 56).

Dentre alguns tratamentos adequados contra os efeitos da alienação parental, tem- se em destaque o tratamento psicológico. Neste caso, as crianças e adolescentes devem ser guiadas com a finalidade de desarticular as percepções equivocadas causadas pela síndrome para que tenham opinião própria acerca dos seus genitores. (PODEVYN, 2001).

Perante o Poder Judiciário, em contrapartida, devem-se despender os mesmos cuidados, e verificados elementos e sintomas que identificam a síndrome pelo magistrado, ordenar a realização de perícia psicossocial ou submeter a lide à mediação – apesar de vetado tal instituto na Lei n. 12.318/2010 - a fim de proceder à investigação de fatos essenciais, bem como ajudar a estabelecer compromissos provisórios e permanentes. (TARTUCE, 2008, p. 31 apud MADALENO; MADALENO, 2014, p. 57).

Neste sentido, a síndrome de alienação parental demonstra-se evidente no relatório da assistente social transcrito no Agravo de Instrumento n. 70014814479, proferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

A menina brinca, corre, abraça e beija o pai, quando lembra pede que eu “não comente com a fada”, pois sua mãe diz que ela “só é amada pela mãe e só pode amar a mãe. A menina disse: “eu amo meu pai, mas digo para a minha mãe que não gosto, para ela não me bater” [...]. (BRASIL, 2006, grifo nosso).

47 Tais medidas, contudo, muitas vezes são eficazes somente nos estágios iniciais da síndrome, visto que uma vez instalada e quebrados os vínculos com o outro genitor, é quase impossível que a situação seja revertida sem a tomada de medidas mais gravosas, como aquelas previstas na própria lei de alienação parental.

Deste modo, de acordo com Madaleno e Madaleno, quando instalada a síndrome de alienação parental em seu nível mais gravoso, a manipulação do filho menor é diária, não bastando tão somente a realização de mediação. Nestes casos, portanto, o magistrado deverá aplicar medidas judiciais legais em conjunto com terapias e com os Conselhos Tutelares, os quais se encontram aptos a atuar nos abusos de poder parental. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 57).

Corroborando os elementos acima demonstrados, Podevyn esclarece que as providências legais e terapêuticas deverão ser adotadas a partir do nível intermediário de referida síndrome. Nos estágios de nível médio ao grave, portanto, o autor recomenda algumas medidas específicas, quais sejam:

Deixar a guarda principal com o genitor alienador; nomear um terapeuta para servir de intermediário nas visitas e para comunicar as falhas ao tribunal; estabelecer penalidades para a supressão de visitas; uma penalidade financeira; o pagamento de uma multa proporcional ao tempo das visitas suprimidas [...]. (PODEVYN, 2001). Em igual modo, nos casos em que a síndrome encontra-se em grau máximo, a fim de permitir que os filhos menores convivam de modo livre com os genitores, Trindade assegura que “[...] suspender o contato com o genitor alienador, por algum tempo, o menor possível, pode ser medida inevitável, para que se possa ir introduzindo gradualmente a figura do cônjuge alienado.” (TRINDADE, 2011, p. 207).

No que toca ao grande índice de acusações de abuso sexual, por derradeiro, o magistrado deve investigá-las profundamente, pois não raras vezes a imediata suspensão do direito de visitação do genitor alienado ocasiona instantaneamente o agravamento da síndrome instalada, uma vez que o agente alienante passa a ficar em tempo integral com a criança ou adolescente. (MADALENO; MADALENO, 2014, p. 57).

Nesse contexto, em havendo a suspensão do contato entre o agente alienador e o filho menor deve-se possuir extrema cautela, a fim de garantir que a síndrome seja superada, e não somente substituída por novos sujeitos e ataques. Surge, nesse caso, a figura da magistratura de amparo, prevista por Jorge Trindade:

A concepção de uma “magistratura de amparo”, instituída de uma forma ampla por juízes, promotores de justiça, defensores públicos e técnicos especializados em matéria de família e infância e juventude, e com treinamento para lidar com vítimas de abuso, poderia ser, à semelhança do Defensor do Povo, um instrumento judicial

48 com competência para acudir, com prontidão e eficácia, crianças submetidas à alienação parental. (TRINDADE, 2013, p. 29).

Assim, depreende-se que cabe ao magistrado, aos operadores de direito e ao próprio genitor a adoção de medidas adequadas ao afastamento da alienação parental e de sua síndrome, o que é facilitado com a verificação da análise comportamental do agente alienante, a ser demonstrada a seguir.