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2 CONSIDERAÇÕES ACERCA DA FALA E ORTOGRAFIA

No documento SUMÁRIO ISBN 978-85-463-0538-4 (páginas 51-54)

INFLUÊNCIAS DA FALA EM TEXTOS ESCRITOS POR ESTUDANTES NO ENSINO FUNDAMENTAL

2 CONSIDERAÇÕES ACERCA DA FALA E ORTOGRAFIA

De acordo com Morais (2010, p. 26), “a ortografia é uma convenção social cuja finalidade é ajudar a comunicação escrita”. Nessa perspectiva, a ortografia pode ser compreendida como um recurso por meio do qual procura-se

“condensar” as diferenças que compõem as inúmeras variedades2 de uma língua, em nosso caso específico, a Língua Portuguesa do Brasil. Assim, “escrevendo de forma unificada, podemos nos comunicar mais facilmente. E cada um continua tendo a liberdade de pronunciar o mesmo texto à sua maneira quando, por exemplo, o lê em voz alta” (MORAIS, 2010, p. 27).

Por se tratar de uma convenção social, a ortografia figura como um tipo de conhecimento que não pode ser descoberto ou apreendido sozinho. Logo, espera-se que a criança, ao iniciar seus contatos com a linguagem escrita, receba ajuda para que possa, gradativamente, apreender as muitas formas e regras que imperam no uso da ortografia, elemento chave para a produção de um texto escrito. Afinal, todo texto escrito passa, inevitavelmente, pelo uso da ortografia.

Na verdade, o uso de sinais convencionados (letras e/ou grafemas) é um dos principais elementos que diferencia a linguagem escrita da linguagem falada.

Em outros termos, ao nos comunicarmos por meio da fala, não precisamos fazer uso de sinais gráficos. Porém, quando passamos a elaborar textos escritos, é necessário fazer uso de letras que buscam, na medida do possível, simbolizar aquilo que, na fala, corresponde a sons ou fonemas.

Com isso, não é válido crer que a ortografia é uma mera representação, na escrita, daquilo que, na fala, corresponde a sons. Afinal, assim como a fala, a ortografia pressupõe uma série de regras próprias “que a norma ortográfica convencionou serem as únicas autorizadas” (MORAIS, 2010, p. 29).

Se por um lado, não podemos, em instância alguma, tomar a ortografia como um espelho da fala, por outro, é inegável a íntima relação que a ortografia mantém com a fala. A esse respeito, Morais (2010) entende que é compreensível o fato de o aprendiz, ao estabelecer seus primeiros contatos com a ortografia, partir justamente do princípio básico de que é por meio dela que procuramos representar a fala.

Nesse sentido, Morais (2010) atenta que, em alguns momentos quando tomamos como norte a fala, “é possível prever, com segurança, a grafia correta.

Em outros casos, é preciso memorizar” (MORAIS, 2010, p. 29). Assim, quando o discente desconhece a regra que impera na ortografia quanto ao uso de determinados sinais, é na fala que ele tende a buscar apoio. E, no caso de discordância entre som e letra, o resultado é um desvio ou mesmo “erro”

ortográfico3.

2 O termo “variedade linguística” é usado para referir o conjunto de traços linguísticos reais que tendem a ser mais frequentes na fala de determinados grupos sociais. Assim, por exemplo, no Português brasileiro, podemos falar, dentre outras, em variedades culta e popular. (cf. Calvet, 2002).

3 Embora tenhamos optado por fazer uso do termo desvio para referir os casos de discordância entre a ortografia usada nos textos analisados e a ortografia oficial, é muito comum os estudiosos

A esse respeito, Callou e Leite (2009, p. 46, grifo nosso) atentam que “um exame de erros de ortografia na escola deveria constituir um método valioso de investigação para o linguista, pois esses erros refletem geralmente uma falta de correspondência entre sistema de fonemas e sistema de grafemas”. Ainda sobre essa questão, as referidas estudiosas pontuam que:

Um sistema integrado grafema-fonema parece ser inviável. Num país como o Brasil [...] qualquer tentativa de aproximação seria precária e deixaria a desejar, já que teríamos de levar em conta todas as diferenças regionais, socioculturais e até mesmo – se chegarmos às últimas consequências – individuais. Que pronúncia, que variante tomar como modelo? A dos grandes centros urbanos (que não são tantos e são diferenciados), a da classe social mais privilegiada, que representa uma minoria, em nosso país? (CALLOU; LEITE, 2009, p. 45).

Está implícito nas palavras de Callou e Leite (2009) o reconhecimento da riqueza linguística que a Língua Portuguesa falada em nosso país comporta.

Além disso, é válido reconhecer que, embora diferentes, inúmeros são os traços da fala que se refletem, de um jeito ou de outro, na ortografia. Inúmeros são, também, os aspectos que diferenciam uma modalidade da outra. Isso é o que vemos quando consideramos as dificuldades, e talvez mesmo, até impossibilidade de elaborarmos um sistema ortográfico totalmente compatível com a língua falada. Esse feito poderia sanar desvios como os que veremos na próxima seção. De todo modo, são pertinentes as palavras Callou e Leite (2009, p. 46-47):

O problema da relação grafema-som coloca-se de imediato no momento da alfabetização (ler e escrever). A esta altura, não podemos esquecer que: a) quando falamos não realizamos fonemas (entidade abstrata), realizamos fones (elemento concreto) e b) quando escrevemos, devemos representar esses sons através de grafemas ou letras. Não nos parece impossível procurar mostrar àqueles que se alfabetizam que um determinado som de nossa língua pode ser representado por diferentes grafemas e, por outro lado, que um único grafema pode corresponder a diversas realizações fônicas. As razões para o alto índice de analfabetismo em nosso país são muito mais político-sociais que linguísticas.

Ao refletir sobre essas mesmas questões, Roberto (2016) e Gomes (2019) destacam que a escola sempre buscou enfatizar a elaboração de textos escritos no espaço da sala de aula. Todavia, mesmo diante de tal ênfase, os discentes continuam apresentando notórias dificuldades para elaborar textos – em especial, na modalidade escrita – que sejam coesos e coerentes e atendam as

fazerem uso do termo “erro” para referir o mesmo fenômeno. Afinal, por tratar-se de um elemento convencionado socialmente, o não atendimento às regras impostas pela norma ortográfica pode ser tida como “erro”.

convenções impostas pela norma padrão4 da língua. No que tange à questão da ortografia, Morais (2010, p. 30, aspas no original) afirma que:

Em algumas situações, as crianças cometem mais erros ao escrever.

Geralmente, observamos que, embora consigam vencer certas dificuldades ortográficas em um ditado ou em um exercício em que se focaliza determinada dificuldade, nossos alunos cometem muito mais erros quando estão escrevendo textos espontâneos. Isso é compreensível, pois, para a criança recém-alfabetizada, essas diferentes tarefas envolvem diferentes “cargas” de trabalho mental.

A questão que aqui se coloca está relacionada ao fato de que, ao executar um ditado, a única tarefa do estudante é grafar as palavras que escuta da(o) professora(o). Por outro lado, quando se trata de escrever uma história, por exemplo, o discente precisa lidar, ao mesmo tempo, com várias outras exigências, como: selecionar e ordenar as ideias que serão postas no papel; decidir a forma como vai expressar tais ideias; além disso, o discente se vê diante da tarefa de pensar e mesmo conhecer a forma “correta” de grafar seu texto.

Quando o discente não consegue ainda articular tarefas como essas, é bem provável que não consiga elaborar de forma coesa e coerente o seu texto. Nesse sentido, Morais (2010, p. 30) explica que, em uma fase inicial, “os muitos erros de ortografia que nossos alunos apresentam são, portanto, compreensíveis”. De igual modo, vale mencionar que os muitos desvios de ortografia que podem ser verificados na escrita de discentes na fase inicial de seus estudos mostram que a criança precisa de ajuda, pois ainda não apreenderam todas as normas impostas pela escrita convencional. Nesses casos, concordamos com Morais (2010) quando defende que os professores precisam ter cautela ao interpretar os desvios que verificam nos textos escritos de seus estudantes, pois aquilo que, para o docente, pode simplesmente figurar como “erro”, para o aluno, podem indicar muito mais que isso.

Ainda conforme Morais (2010), compreendemos que os desvios de ortografia, muitas vezes tidos como meros “erros” ortográficos podem indicar que: (i) o discente não tem ainda a consciência de que cometeu algum desvio; (ii) possui dúvidas acerca da grafia convencional e pode expressar tais dúvidas quando pergunta ao professor qual a forma tida como correta para a escrita de uma determinada palavra, ou mesmo quando escreve de maneira distinta e em diferentes momentos do texto uma mesma palavra; (iii) tenha progredido em seus conhecimentos e já é capaz de se autocorrigir, localizando os desvios que cometeu.

Aos fatores apontados por Morais (2010) e que podem ser sinalizados nos desvios ortográficos dos nossos estudantes, acrescentamos conforme Callou e Leite (2009), Roberto (2016) e Gomes (2019) que tais desvios ortográficos podem

4 Nesse contexto, o termo “norma padrão” compreende o modelo de língua imposto pela tradição normativa, preservado nas gramáticas tradicionais e perpetuado pelos grandes bancos escolares, bem como por diversas mídias.

refletir, também, a influência da fala sobre a ortografia de estudantes, no caso deste estudo, alunos do Ensino Fundamental II. Sobre esta última questão, nos debruçamos na próxima seção. Com isso, intentamos mostrar como alguns desvios de ortografia podem ser explicados segundo a influência da língua falada sobre os textos escritos selecionados.

No documento SUMÁRIO ISBN 978-85-463-0538-4 (páginas 51-54)