PORTUGUESA E HISTÓRIA
2 O FENÔMENO DA INTERTEXTUALIDADE: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
A ideia de que toda e qualquer forma de interação comunicativa ocorre essencialmente por meio de textos (falados e escritos) nos parece consensual entre grande parte dos estudiosos do fenômeno da linguagem verbal, atualmente. Dos pesquisadores que abraçam essa ideia, no cenário brasileiro, merecem destaque os trabalhos de Costa Val (1999), Travaglia (1999), Marcuschi (2008), Antunes (2009, 2010, 2017), Koch, Bentes e Cavalcante (2008), Koch e Travaglia (2013), Koch e Elias (2016, 2018), Koch (2015, 2016, 2017), Santos, Riche e Teixeira (2018), Azeredo (2018), dentre muitos outros.
Não à toa, o texto e os complexos mecanismos envolvidos em sua produção tornaram-se objeto de estudo da Linguística Textual – campo do conhecimento que começou a ganhar força em meados da década de 1960, mais especificamente no continente europeu (BENTES, 2012). Hoje, essa frutífera área do conhecimento – que se firmou no Brasil em meados da década de 1980 – abarca inúmeros e expressivos estudos acerca do texto.
É bem verdade que a ideia segundo a qual a Linguística Textual é um campo do conhecimento que tem como objeto de estudo os mais diferentes textos pode soar como uma espécie de truísmo (KOCH, 2016). De qualquer maneira, todo o desenvolvimento do referido campo do conhecimento gira em torno das mais diferentes concepções de texto que tem abrigado durante seu percurso, fato que acarretou diferenças bastante significativas entre uma e outra etapa do desenvolvimento da Linguística Textual (KOCH, 2016).
Evidentemente, não pretendemos discutir, no espaço deste capítulo, as diversas concepções de texto que têm norteado os estudos em Linguística Textual ao longo das décadas1. Importa, contudo, ressaltar que aqui, o texto é pensado enquanto uma forma de interação social. Nessa perspectiva:
O texto é uma realização que envolve sujeitos, seus objetivos e conhecimentos com propósito interacional. Considerando que esses sujeitos são situados sócio-histórica e culturalmente e que os conhecimentos que mobilizam são muito variados, é fácil supor que o texto “esconde” muito mais do que revela a sua materialidade linguística (KOCK; ELIAS, 2016, p. 32, grifo dos autores).
Nessa compreensão, o texto figura como uma entidade multifacetada para a qual o conhecimento linguístico é um elemento necessário, essencial até, mas nunca totalmente suficiente para sua construção e, evidentemente, para sua compreensão (KOCH; ELIAS, 2016). À essa perspectiva subjaz uma visão interacionista da língua. Nesse sentido, a língua é pensada não apenas como uma espécie de código compartilhado pelos membros de uma determinada sociedade,
1 A esse respeito, indicamos a leitura de Marcuschi (2003), Fávoro e Koch (1983) e Koch (2016).
isto é, enquanto unidade que pode ser analisada per si, mas como fonte para a interação social (MARCUSCHI, 2003).
Segundo essa visão de língua, ao elaborar um texto, por mais simples que possa parecer, os sujeitos envolvidos em sua construção mobilizam não apenas os conhecimentos que carregam acerca da língua enquanto código, mas também traçam objetivos; constroem pressuposições sobre aquilo que seus interlocutores esperam; situam suas produções textuais em um determinado tempo e espaço;
lançam mão de textos produzidos previamente, sejam eles de sua autoria ou elaborados por outros sujeitos que, por sua vez, também estão situados em tempos e espaços específicos.
É basicamente isso que fazemos, por exemplo, ao construir este texto. Ou seja, ao pensar a construção e trabalhar sobre a elaboração deste capítulo, mobilizamos os conhecimentos que possuímos acerca da norma culta da Língua Portuguesa; elegemos uma temática que julgamos ser de interesse dos nossos leitores e leitoras; supomos tratar de uma temática relevante para o ensino de Língua Portuguesa e História; dialogamos - valendo-nos de uma série de convenções e normas acadêmicas – com textos pertinentes para os campos do conhecimento em que inserimos este trabalho, dentre muitas outras coisas.
De igual maneira, é preciso destacar que compartilhamos a ideia segundo a qual:
Todo texto é um objeto heterogêneo, que revela uma relação radical de seu interior com seu exterior. Dele fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga, que ele retoma, a que alude ou aos quais se opõe (KOCH; BENTES; CAVALCANTE, 2008, p. 16, grifo nosso).
Nesse elaborado e complexo ‘jogo’ de produção textual, o fenômeno da intertextualidade surge não como um elemento resultante desse processo, mas sim como condição essencial para que a interação por meio da linguagem seja bem-sucedida. Sobre essa proposição são, também valiosas, as célebres palavras de Bakhtin (2009, p. 162, grifo nosso):
Todo texto só ganha vida em contato com outro texto (com contexto).
Somente neste ponto de contato entre textos é que uma luz brilha, iluminando tanto o posterior como o anterior, juntando dado texto a um diálogo. Enfatizamos que esse contato é um contato dialógico entre textos.
Por trás desse contato está um contato de personalidades e não de coisas.
Bebendo na fascinante, complexa e inesgotável fonte que são as ideias do pensador russo Bakhtin e o Círculo, a Linguística Textual compreende o fenômeno da intertextualidade a partir de duas perspectivas ou categorias:
intertextualidade em sentido amplo (latu sensu) e intertextualidade em sentido restrito (stricto sensu) (KOCH; BENTES; CAVALCANTE, 2008; ANTUNES, 2010;
KOCH, 2016).
Por intertextualidade em sentido amplo, Koch, Bentes e Cavalcante (2008) compreendem a necessária ligação que todo e qualquer texto estabelece com um ou outro texto, bem como com o momento histórico ou contextual no qual um determinado texto está inserido ou mesmo alude. Essa é, portanto, uma condição essencial para a existência de qualquer texto, conforme postulou Kristeva (1974), em meados da década de 1970.
No âmbito da intertextualidade em sentido amplo, os diálogos estabelecidos entre textos ou entre esses e seus contextos, como o histórico, por exemplo, não se materializam apenas por meio de marcas textuais, mas estão diluídos por todo texto, de tal modo que só é possível captá-los quando os(as) ouvintes ou leitores(as) possuem algum conhecimento acerca de questões contextuais com as quais o texto dialoga. Para Cavalcante e Brito (2011), a intertextualidade em sentido amplo engrandece tanto a compreensão de intertextualidade “que, sendo constitutiva, ela não precisa ser evidenciada”
(CAVALCANTE; BRITO, 2011, p.261).
Por sua vez, os estudiosos têm compreendido a intertextualidade em sentido restrito como “a relação de um texto com outros textos previamente existentes, isto é, efetivamente produzido” (KOCH, 2016, p.62). Logo, quando se trata de intertextualidade em sentido restrito, Koch (2016) considera a existência de diferentes tipos. E, embora não pretendamos discutir de modo mais aprofundado cada um desses tipos, cremos que, ao menos dois deles merece destaque, dada sua importância para este trabalho, isto é, a intertextualidade implícita vs. a intertextualidade explícita.
A intertextualidade explícita ocorre quando, em um determinado texto, há a explicitação da fonte do chamado intertexto2. Esse é o caso, por exemplo, das referências bibliográficas, das citações muito comuns em resumos, das traduções, das resenhas, dentre outros; manifestação do discurso relatado; quando há a retomada direta do texto alheio para questioná-lo, atar-se a ele, ou mesmo fazer-lhe questionamentos durante a interação pela linguagem.
Em sentido oposto, a intertextualidade é tida como implícita quando a fonte do intertexto não é apontada de maneira direta, clara. Com isso, cabe aos ouvintes ou leitores recuperarem a fonte do intertexto em sua memória ou no seu conhecimento de mundo, a fim de construir sentidos para o texto. Na compreensão de Koch (2016), a intertextualidade implícita é bastante comum em alusões, paródias, em determinadas paráfrases, ironias dentre muitos outros.
A partir de tudo o que dissemos, não nos parece difícil concluir que a intertextualidade é um fenômeno de suma importância para a construção dos sentidos ou efeitos de sentidos em um determinado texto, entendido esse último como uma forma de interação social garantida pela linguagem; um fenômeno heterogêneo para o qual concorrem uma série de elementos sejam eles internos ou externos a sua unidade formal. Nessa perspectiva, a produção de sentidos de um texto é entendida, portanto, como um processo extremamente complexo,
2 Maingueneau (2005) denomina de ‘intertexto’ os fragmentos de textos previamente construídos, em circulação ou não, e que podem ser identificados em determinados textos.
dinâmico e que reclama a interação entre autor-texto-leitor. Assim, Koch e Elias (2018) explicam que para a compreensão de um texto é necessário considerar as possíveis intenções do autor, bem como a unidade material do texto e, também os conhecimentos do leitor, visto aqui como um sujeito ativo e do qual os conhecimentos que mobiliza durante o contato com um texto figuram como fator essencial para a construção ou estabelecimento da interação:
[...] com maior ou menor intensidade, durabilidade e qualidade. É por isso que falamos de um sentido para o texto, não do sentido e justificamos essa posição, visto que na atividade de leitura, ativamos:
lugar social, vivências, relações com o outro, valores da comunidade, conhecimentos textuais (KOCH; ELIAS, 2018, p.19, grifo dos autores).
Uma vez assumida a ideia de que a intertextualidade é um componente indispensável de todo e qualquer texto, só podemos, de fato, concluir que a intertextualidade ou o diálogo com textos prévios é, sem dúvidas, um dos recursos3 de suma importância para a construção dos sentidos, da coerência de um texto. Tanto é que, no caso da intertextualidade implícita, por exemplo, é exigido do(s) interlocutor(s) que realizem uma pesquisa minuciosa em sua memória, em seu conhecimento de mundo acerca da identificação da fonte do intertexto, bem como dos possíveis objetivos do autor ao valer-se de tal intertexto para a construção do seu texto. Logo, quando o reconhecimento do intertexto não é possível, “grande parte ou mesmo toda a construção do sentido fica comprometida” (KOCH; ELIAS, 2018, p.92).
A interação entre autor-texto-leitor em uma perspectiva interacionista da língua é tamanha que – quando da intertextualidade implícita – uma das razões que justificam o fato de o(s) autor(es) do texto não explicitar(em) a fonte do intertexto é a sua pressuposição de que o intertexto presente na materialidade do texto já faz parte do conhecimento textual, de mundo ou enciclopédico do(s) interlocutor(es). Dessa maneira, para a produção de sentidos, o(s) interlocutor(es) precisam “estabelecer o “diálogo” proposto entre os textos e a razão da recorrência implícita a outro(s) texto(s)” (KOCH; ELIAS, 2018, p.93, grifo dos autores).
Com isso, não estamos querendo dizer que os interlocutores precisam ter certeza absoluta de quais são as intenções ou propósitos dos autores ao inserirem em seus textos um determinado intertexto, nem mesmo sabemos se isso é possível haja vista a complexidade que marca a subjetividade do falante ou escrevente ao produzir um texto (KOCH; ELIAS, 2016). Todavia, é fato conhecido
3 Além da intertextualidade, nos parece consensual a ideia de que outros fatores como situacionalidade, informatividade, intencionalidade e aceitabilidade também estão diretamente ligados ou são determinantes para a construção dos sentidos, da coerência de um texto. Juntos, esses fenômenos compõem o que os estudiosos chamam de ‘textualidade’, ou seja, o conjunto de propriedades – nem sempre inerentes ao texto – que conferem a todo texto a condição de ser reconhecido como tal por uma determinada comunidade linguística (ANTUNES, 2010; KOCH;
TRAVAGLIA, 2013; KOCH, 2016).
que, ao elaborar um texto, o autor é movido por uma série de intenções, de objetivos. Assim, nenhum texto é produzido de modo aleatório. Logo – conforme sinalizamos nos parágrafos anteriores – é preciso procurar captar os traços que indicam as intencionalidades dos produtores de um texto, sob pena de não conseguirmos construir algum sentido para o texto.
Ao longo desta seção, tratamos algumas questões teóricas que envolvem a compreensão do fenômeno da intertextualidade, da noção de língua, de texto e sobre a construção de sentidos. Para tanto, tomamos como amparo teórico, basicamente, estudos que estão mais fortemente ligados ao campo da Linguística Textual. Evidentemente que, dada a complexidade e abrangência das questões tratadas aqui, outros pontos ou fatores que permeiam o fenômeno da intertextualidade, da língua enquanto forma de interação, do texto enquanto fenômeno multifacetado e da construção como um fenômeno resultante da iteração entre autor-texto-leitor certamente mereciam destaque.
Porém, dada a necessidade de delimitar as questões abordadas – condição esta que é naturalmente imposta a todo e qualquer trabalho desta natureza – optamos por comentar algumas das questões que nos parecem mais elementares.
De todo modo, acreditamos que as discussões estabelecidas ao longo desta seção proporcionam ao leitor e/ou a leitora uma visão, ainda que panorâmica, da complexidade e riqueza que permeiam o fenômeno da intertextualidade e sua inegável relevância para a construção de um texto e seus sentidos.