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CAPÍTULO 2: ABORDAGEM PSICOLÓGICA DA CONCEPTUALIZAÇÃO

2.1. CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CONCEITO COMO CONSTRUTO

CONSTRUTO TEÓRICO EM PSICOLOGIA COGNITIVA

O desenvolvimento dos conceitos, ou dos significados das palavras, pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais: atenção deliberada, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar (VYGOTSKY, Pensamento e Linguagem)

Normalmente, quando se está investigando um objeto cognoscível, o que

31 classificação deste objeto seja ele concreto ou abstrato; universal ou individual;

próximo ou distante; que tenha significado geral; e que possa ser comunicado.

Nesse processo, o conceito é um instrumento fundamentalmente importante.

Sendo assim, ao se investigar acerca do conceito na construção do

conhecimento, torna-se necessário examinar os seguintes aspectos: (1). O princípio

da invariância que, do ponto de vista psicológico, constitui-se numa espécie de a

priori funcional do pensamento numa interação entre os fatores internos de

desenvolvimento e as condições externas da experiência, (PIAGET, 1975); (2). A

teria dos campos conceituais, que nos permite analisar a conexão dos conceitos a

invariantes operatórios e a relação entre estes invariantes implícitos e os conceitos

como conhecimentos explícitos nas condutas do sujeito em situações, (VERGNAUD,

1997); (3) A inferência mental cuja abrangência específica está localizada entre os

aspectos definidores da estrutura matemática de um modelo e as suas relações

sistêmicas (DA ROCHA FALCÃO, 1996).

O que é importante observar é que cada uma dessas alternativas

conceituais apontadas no parágrafo anterior remete à idéia da generalidade do

conceito. Tal generalidade pode ser referida a uma classe de abrangência

específica, onde podem ser reunidos objetos diversos, porém compartilhando

características que os unem sob uma tal classe, a qual por sua vez pode tornar-se

membro de outra classe mais abrangente, até alcançar uma classe que a tudo

abarca, conforme proposto inicialmente por Aristóteles, discutido em Cassirer

(1977). Tal perspectiva taxonômico-hierárquica da conceptualização baseia-se no

estabelecimento de uma grande divisão taxonômica, a qual, por sua vez, firma-se no

reconhecimento da existência de relações de parentesco entre os elementos

32 Essa classificação permiti reunir tais elementos em conjuntos, os quais

por sua vez se organizam em níveis hierárquicos, como se pode depreender do

exame do modelo de organização zoológica, por exemplo: Espécie/(SubEspécie)

Gênero/(SubGênero) Família/(SubFamília) Ordem/(SubOrdem)

Classe/(SubClasse) Divisão/(SubDivisão) Reino, que são as principais

categorias em sucessão ascendente quanto à abrangência.

Vejamos o que se quer dizer por generalidade, tomando-se, por exemplo,

as figuras geométricas planas, e em particular as figuras fechadas convexas,

destacando-se os polígonos e, mais especificamente os quadriláteros.

Observando-se a árvore conceptual apresentada no diagrama 1 abaixo,

pode-se ter uma idéia de complexidade conceptual; e de como a diversificação e a

ordenação têm relação com a identificação, a classificação e a nomenclatura dos

polígonos. A identificação consistindo em se fazer à indicação nominativa da figura

plana após ser verificada sua equivalência com outra figura conhecida ou

previamente denominada, sendo feita tal identificação ao nível de espécie ou mesmo

de variedade. Já a classificação trata de agrupá-las e ordená-las em categorias

segundo características afins e/ou propriedades. Finalmente a nomenclatura designa

os polígonos aos grupos ou às categorias em que estão organizados.

O princípio é o de facilitar a compreensão conceptual do objeto nas suas

características, devido às suas propriedades específicas, ganhando-se abrangência

(e, portanto perdendo-se especificidade do conceito) ao realizarem-se movimentos

33

Diagrama 1.: Modelo conceptual taxonômico das figuras planas, baseado em categorias

hierárquicas.

No modelo acima - no nível seis -, os quadriláteros são modelizados

segundo propriedades consideradas cruciais - os elementos constitutivos: lados

paralelos congruentes ou não; ângulos congruentes ou não; bases; diagonais e a

relação entre estes elementos, isto é, têm-se todas as propriedades descritoras do

quadrilátero. As relações entre as qualidades lados paralelos congruentes, por

exemplo -, dos objetos, de acordo com Piaget (1975, p.33), desembocarão num

sistema de classificação, e esta classificação por sua vez determinará sucessões de

inclusões hierárquicas que venham a implicar nas lógicas das classes e das

relações simétricas, por exemplo, a classe dos paralelogramos implica em

quadriláteros com lados paralelos congruentes e ângulos opostos aos lados

34 Ter os quatro lados congruentes implica uma outra classe, a dos

losangos, que contém a classe dos quadrados, que estarão hierarquicamente

incluídas na dos paralelogramos.

Tomemos por exemplo o trapézio. O que se pode afirmar acerca desse

quadrilátero quando nos referimos aos lados: que tem dois lados paralelos que

formam as bases - um lado denominado de base maior e outro de base menor e

dois lados não paralelos. Com relação aos lados não paralelos o trapézio pode ser:

isósceles - os lados, não paralelos, têm a mesma medida -; escaleno - os lados não

paralelos possuem medidas diferentes - e; retângulo - um dos lados não paralelo

forma ângulos retos com as bases -. Dadas às propriedades ressaltadas, do

quadrilátero em questão, pode-se falar então em trapézio isósceles, trapézio

escaleno e em trapézio retângulo, respectivamente. Portanto, tem-se a liberdade de

se referir ao quadrilátero em estudo pelas propriedades que lhes caracteriza, ou pela

denominação dada a este, sem correr o risco de hesitação na identificação deste,

quando falado. Isto por que, cada quadrilátero guarda uma relação direta com suas

propriedades e, estas são consideradas propriedades definidoras do quadrilátero.

Ascendendo na árvore conceitual, indo para uma posição imediatamente

superior, nível cinco, ainda encontramos alguns galhos interconectados. Esta é

uma categoria formada pela reunião de determinadas espécies de quadriláteros,

cujo relacionamento não se baseia somente nos caracteres relacionados à forma,

mas também em particularidades de outra natureza, como as ligadas, por exemplo,

à medida dos lados e/ou dos ângulos. Em geral o gênero, na árvore conceitual

zoológica, não se apresenta constituído por uma só espécie. Aqui, neste nível do

presente modelo, surgem os quadriláteros: eqüiângulos (ângulos congruentes);

35 características. Tem-se aí um grau de generalidade conceitual maior que o do nível

anterior (nível seis). Continuemos com o exemplo do trapézio, ele é um quadrilátero

não regular, o que assegura que ele não é eqüilátero e nem eqüiângulo. No entanto,

quando se fala de trapézio não se tem assegurado a qual tipo de trapézio está se

fazendo alusão, ou seja, perdemos as características específicas, por exemplo,

referentes aos lados não paralelos (isósceles ou escaleno).

Quando nos referimos a outros quadriláteros, que não o trapézio, teremos

propriedades que são comuns a mais de um quadrilátero e que não permitirá uma

identificação precisa desse, se nos referirmos à classe. Por exemplo, o quadrado é

um retângulo por que tem todas as propriedades do retângulo, ou seja, os quatro

ângulos retos e, portanto congruentes (eqüiângulo) e lados paralelos congruentes.

E, por possuir, os lados paralelos congruentes e necessariamente ângulos opostos

congruentes, é um paralelogramo. Portanto um quadrado é um retângulo e é um

paralelogramo.

Subindo mais ainda na árvore, alcançamos o nível quatro família. Esse

nível conceitual é mais geral, baseado em referência exclusiva aos lados, ângulos e

vértices.

Passando ao nível três a generalidade conceitual é ainda mais geral em

relação ao nível 4, já que polígono é qualquer figura plana convexa com número de

lados maior que ou igual a três, e, portanto, se enquadram nessa categoria também

os quadriláteros (regulares e não regulares), e dentre os não regulares os trapézios.

Finalmente ao se alcançar o topo da pirâmide (nível um) alcança-se o

último nível geral de abstração conceitual da presente categorização, chegando-se

ao que Cassirer denomina de super conceito (CASSIRER, 1977). De fato, figura

36 possibilidades descritas nos níveis anteriores.

No contexto de uma classificação conceitual taxonômica hierárquica,

pode-se, segundo Cassirer (1977), passar do nível mais baixo de especificação de

um objeto àquele próximo do mais alto nível e vice-versa. Esse movimento de

ascensão à generalidade e descida à especificidade permite a exploração de vários

níveis de formulação de um conceito, de acordo com o contexto de utilização do

mesmo.

Essa forma de distribuição abstrata em que se organizam os conceitos

num movimento ascendente da base ao topo, e no sentido inverso, Cassirer atribuiu

originariamente a Aristóteles, tendo denominado tal perspectiva aristotélica acerca

da conceptualização de pirâmide ou árvore conceitual .

Cassirer ressalta ser essencial compreender que, nesse movimento

ascendente e descendente ao longo da árvore conceitual, um conceito de nível

superior não acrescenta inteligibilidade a outro conceito de nível inferior. Isso marca

uma diferença fundamental em relação à perspectiva modelizadora da

conceptualização: quando um modelo A passa a ser considerado mais abrangente

que um modelo B, ele ressignifica B, que agora passa a ser um submodelo de A1.

Assim, enquanto a perspectiva taxionômica diz respeito à busca de índices

fenomênicos que descrevam níveis de classificação, a perspectiva relacional-

modelizadora propõe modelos explicativos, não necessariamente fundados em tais

índices, e sim em sistemas de explicação.

De acordo com a classificação hierárquica tradicional um objeto que

aparece posicionado em um ramo da árvore taxionômica não pode ser reencontrado

em um outro ramo distinto, da árvore. Já que a única possibilidade de encontro é

1

É este o caso, por exemplo, da mudança de status, enquanto sistema explicativo, do paradigma newtoniano em face do paradigma relativístico-einsteiniano, do qual o primeiro passou a ser um caso particular.

37 ascendendo no nível de classificação na árvore de forma que elementos distintos só

se reúnem num conceito maior de abrangência. Isto significa que, se tomarmos, por

exemplo, um quadrado e um paralelogramo, um quadrado que é um quadrilátero

regular por ser eqüilátero e eqüiângulo, isto é, possui respectivamente lados

congruentes e ângulos congruentes - somente poderia se encontrar com o

paralelogramo na família dos quadriláteros, já que eles pertencem a gêneros e a

subfamílias diferentes. Todavia, na prática, não é isso que acontece, visto que o

quadrado por ter lados paralelos congruentes e, conseqüentemente, ângulos

opostos congruentes é considerado também um paralelogramo. Enquanto

paralelogramo pode ser igualmente considerado como membro da subfamília dos

quadriláteros não regulares. Nestas condições um quadrado é um quadrilátero

regular e um paralelogramo simultaneamente, o que contradiz a classificação

taxionômica tradicional. Tal raciocínio mostra que a classificação conceitual

hierárquica, tal qual proposta inicialmente e por Aristóteles tem limitações quando se

trata de modelos complexos de interfiliação conceitual em matemática.

Podemos, portanto concluir que a maneira de representar um conceito

varia, dependendo das nossas experiências anteriores, interesses e competências

pré-conceituais, ou seja, o nosso conhecimento é personalizado; é posto em nossos

termos (DAVID CARRAHER, 1988, em CARRAHER, SCHLIEMANN, CARRAHER, 1988, p.20). Por isso mesmo tem-se consciência de que a finalidade da educação

não é o ensino de sistemas de classificação. Mas, qualquer que seja a orientação

escolhida, o importante é que o aluno, enquanto sujeito epistêmico, agente do

conhecimento, posicione-se na tentativa de apropriar-se das características de um

objeto, aproximando-se ao máximo da sua estrutura global, quando este objeto for

cognitiva que esse sujeito guarda em relação a esse objeto.

Quando formamos o conceito de um objeto, segundo a perspectiva

taxionômica aristotélica acima discutida, isolamos as propriedades comuns que são

encontradas em outros objetos da mesma classe.

Contudo, a construção de conceitos não consiste simplesmente em

selecionar, a partir de uma pluralidade de objetos postos diante de nós, as

propriedades comuns a uma classe de objetos, enquanto negligenciamos o resto.

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